esquina

Maria Izabel no alambique

A cachaça mais famosa de Paraty

Marcella Ramos
Andrés Sandoval_2019

É sempre com os pés descalços e os cabelos longos e grisalhos presos numa trança que Maria Izabel Costa prepara, numa pequena fábrica em Paraty, a cachaça que leva o seu nome. Geralmente, ela inicia o expediente às cinco da manhã, juntando punhados de colmos (caules) de cana-de-açúcar e jogando na moenda. Depois, checa se o caldo está chegando direitinho ao reservatório, onde ele irá fermentar durante 48 horas. 

Maria Izabel repete o processo durante toda a manhã. De vez em quando, vai até o alambique para conferir se não tem álcool vazando das mangueiras e acrescenta mais lenha ao forno. No local, ela montou uma rede de descanso e tem sempre à mão uma cuia de chimarrão e um livro – em 31 de julho, quarta-feira, estava lendo Bandeiras Pálidas, do canadense Michael Ondaatje. “Quando dá para descansar, eu deito na rede e dou uma lidinha”, contou. 

Às nove da manhã, as solas de seus pés estão pretas e alguns fios se rebelam contra o penteado. Aos 69 anos, ela parece não se incomodar nem um pouco com todo o trabalho físico que a produção da bebida exige. “É coisa boa, pois eu não preciso de academia. Quero ver até quando aguento.” 

A cachaça Maria Izabel é a mais famosa de Paraty, cidade histórica conhecida pela qualidade de suas aguardentes, produzidas em vários alambiques. Nas lojas de bebidas, com dezenas de garrafas dispostas nas estantes, o turista que procura pela melhor cachaça da região costuma receber esta dica: Maria Izabel – a tipo ouro custa 140 reais; a tipo prata, 130. Nos bares, é um diferencial se a caipirinha é feita com Maria Izabel. A produtora se orgulha de produzir uma cachaça “forte, mas suave”, com um dos menores índices de acidez da região.

Para manter a acidez baixa, ela usa principalmente a cana-de-açúcar orgânica de seu sítio, a 5 km do Centro de Paraty, e também mói os colmos no mesmo dia em que foram colhidos, antes que comecem a degradar. A colheita deste ano iniciou-se em julho e duraria até meados de agosto – um tempo curto, se comparado às de outras épocas. “Já teve safra que durou três meses”, disse.

A produtora emprega quatro rapazes. No canavial, Josimar dos Santos e Sergio do Espírito Santo, protegidos por chapéus, cortam a cana, dispensam as folhas e jogam os colmos para Ramiro Felix de Oliveira e Vando Francisco dos Santos, que organizam tudo dentro de uma tratorzinho de porte médio. Quando o veículo está cheio, Oliveira faz o transporte até a área de processamento. As folhas ficam por ali mesmo, no solo, para servir de adubo. O bagaço também é deposto no local da plantação, depois de moído. Os rapazes trabalham das sete da manhã às quatro da tarde e costumam encher em média sete carretas por dia.

O Sítio Santo Antônio está localizado em um morro na Costa de Paraty. A plantação fica bem no alto, de onde se tem uma vista privilegiada do horizonte e das ilhas da Costa Verde. Logo abaixo do canavial, estão a “fabriqueta”, como define Maria Izabel, e a adega. Na parte baixa, de frente para o mar, ela construiu a casa de dois pavimentos e quatro suítes – duas delas são alugadas para turistas, assim como um chalé.

O alambique foi instalado no sítio rodeado pela abundante vegetação da Mata Atlântica em 1994, assim que nasceu a filha caçula. Dois anos depois, começou a produção de cachaça. Na região, o lugar é conhecido como “a casa das sete mulheres”, por causa das seis filhas da produtora: Izabel, de 51 anos, Maria, 49, Mabel, 47, Mariza, 42, Maíra, 38, e Maia, 25. Apenas a caçula mora com ela na casa principal. Mabel vive no sítio, mas em outra habitação.

 

Ao meio-dia, antes de mandar a primeira leva de cachaça recém-produzida para os tonéis, Maria Izabel precisa verificar se as mangueiras que transportam o líquido estão bem conectadas. Recentemente, um vazamento desperdiçou toda a produção de um dia. Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay, disse. Para garantir, colocou porções de sal grosso em várias partes do local – desde então, acabaram seus infortúnios.

A bebida só vai para a garrafa depois de repousar no tonel um ano, no mínimo. A cachaça ouro envelhece em barris de carvalho, madeira que influi no sabor da aguardente. A prata é armazenada nos barris de jequitibá, madeira mais neutra. As safras mais jovens descansam de um a dois anos. As extra premium, mais de três. As bebidas são engarrafadas conforme a demanda. A produção anual é de cerca de 7 mil litros, segundo Maria Izabel.

A cachaça mais envelhecida da adega tem seis anos. Guardada num barril de carvalho, será comercializada apenas nas comemorações dos 25 anos da marca, a partir de julho de 2021. O rótulo da edição especial será desenhado pelo mesmo ilustrador que criou o da Maria Izabel tradicional, o australiano Jeffrey Fisher. 

A produtora foi apresentada a Fisher pela editora inglesa Liz Calder, sua ex-vizinha e idealizadora da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. E foi ele quem fez também o rótulo de outro produto do sítio, a Laranjinha Celeste, uma “cachaça azul” – produto típico da região feito de uma mistura com folhas de tangerina, o que confere à bebida um tom azulado. O nome é idêntico ao da aguardente feita no século XIX por um trisavô de Maria Izabel, Francisco Pereira Madruga.

Pouco antes do almoço, depois de checar as mangueiras, ela voltou ao alambique. Francisco dos Santos – que é o único que a substitui – já estava pronto para assumir o lugar, pois a produtora precisava levar Maia até o trabalho, na biblioteca comunitária Casa Azul, no Centro de Paraty. As duas planejam ir à Europa em setembro, para visitar o pai da jovem, que é francês. Ao falar da viagem, Maria Izabel soltou um suspiro. “Não gosto de deixar o sítio”, afirmou.

Quando comprou o terreno de pouco menos de 19 hectares, ela ia com as duas filhas mais novas, quase todos os dias, até uma ilha próxima. Escalavam o alto de uma pedra e pulavam no mar. Depois que a produção de cachaça se intensificou, Maria Izabel passou a visitar a ilha apenas no dia de seu aniversário. “Ia para saber até com que idade eu conseguiria pular da pedra.” Ela já não lembra se foi no aniversário de 63 ou 64 anos que sentiu uma dor forte no peito ao chegar ao alto da pedra. Decidiu não pular nunca mais. “Agora só faço cachaça.”

Marcella Ramos

Repórter e coordenadora de checagem da piauí

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