esquina

Marianne é do Femen

A revolucionária que inspirou a nova alegoria da République

Mário Camera
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Apolo atravessou impassível um salão que ocupa o 1º andar de uma antiga lavanderia parisiense transformada em teatro. Não deu a mínima para os suspiros que arrancou das dezenove garotas ali reunidas. Nem a moça loira de ar determinado ajoelhada no meio do salão resistiu ao seu charme. O gato vira-lata e castrado era o único macho capaz de tirar a concentração das meninas.

Passada a distração felina, todas as atenções se voltaram para Inna Shevchenko. As jovens sentadas em volta dela tinham vindo de vários países europeus para aprender técnicas de “sextremismo”, o feminismo de guerrilha praticado pelo Femen, grupo criado em 2008, em Kiev. Ao se matricular naquela oficina de três dias, cada uma delas tinha o sonho de se tornar uma “nova amazona” e levar adiante a “vingança histórica contra a sociedade patriarcal”. Como arma, elas têm os seios nus, cartazes com frases de ordem subversivas e um gogó poderoso. O modelo no qual se espelham é Inna.

Não é a primeira vez que a ucraniana de 23 anos, cabelos compridos e olhos verdes serve de modelo para alguém. Inna é também a principal fonte em que os ilustradores franceses Olivier Ciappa e David Kawena se inspiraram para desenhar o selo de maior circulação na França. A peça mostra uma mulher de rosto inclinado, com a cabeça coberta pelo barrete vermelho usado pelos revolucionários. É Marianne, uma alegoria feminina criada na Revolução Francesa para simbolizar seus lemas – liberdade, igualdade, fraternidade –, e que passou a representar a République.

Há um busto de Marianne em cada prefeitura da França. Nas últimas décadas, as esculturas passaram a ser inspiradas em atrizes ou cantoras famosas, como Brigitte Bardot ou Catherine Deneuve. A última Marianne do século XX foi Laetitia Casta. A alegoria da República aparece também em moedas de euros fabricadas na França e, desde o fim da Segunda Guerra, ilustra o selo padrão dos correios – o modelo usado nas cartas comuns, com tiragem anual de 2,9 bilhões de unidades.

Por tradição, cada presidente eleito dá uma cara nova ao selo. François Hollande, eleito em 2012, só mostrou sua Marianne no feriado de 14 de julho deste ano. Hollande endossou o desenho escolhido pela maioria dos estudantes secundaristas, aos quais cabia apontar as três finalistas. A polêmica começou quando Olivier Ciappa tuitou que Inna Shevchenko era a principal das várias mulheres em que se tinha inspirado. A escolha de uma estrangeira destruidora de símbolos religiosos e defensora do casamento entre pessoas do mesmo sexo fez muita gente torcer o nariz.

Falando de Los Angeles a piauí, Ciappa alegou que, se vivesse hoje, Marianne seria uma Femen. Num artigo para a versão francesa do Huffington Post, ele lembrou que Inna havia acabado de receber asilo político na França e disse que o feminismo é parte integrante dos valores da República. “Marianne andava de seios descobertos nos tempos da revolução”, escreveu. “Por que não homenagear essa fabulosa Femen?”

Numa conversa ao final da oficina de sextremismo, a inspiradora de Marianne parecia não se importar com a polêmica nem com a homenagem. “Virar um selo não te torna uma revolucionária, não é?”, questionou, querendo mudar de assunto. Quando a polêmica surgiu, Inna não perdeu a chance de ironizar seus inimigos. “Agora, homofóbicos, extremistas e fascistas terão de lamber meu rabo quando quiserem enviar uma carta”, tuitou.

 

A Marianne ucraniana nasceu em Kherson, cidade portuária e antigo polo industrial soviético. Desde pequena, atazanava o pai com perguntas sobre desigualdade de gênero, mesmo sem nunca ter ouvido falar de feminismo. Não brincou de boneca – preferia subir em árvores. Suas pernas viviam cheias de hematomas. Tinha esperança de se machucar menos quando fosse adulta, mas não foi o caso. Hoje, as marcas em seu corpo são causadas pelos embates com policiais em manifestações do Femen.

Com o olhar cabisbaixo, Inna relatou a noite de torturas físicas e psicológicas que passou em Minsk, na Bielorrússia, após um protesto em dezembro de 2011 contra o presidente Alexander Lukashenko (há dezenove anos no poder). “Em certo momento concordei com a ideia de morrer.” Em 2012, ela pegou uma serra elétrica e botou abaixo uma cruz ortodoxa de 4 metros em pleno centro de Kiev. Com medo de ir presa e não poder continuar sua revolução do topless, decidiu fugir para a França, onde continua a difundir o feminismo “renovado, forte e militar” pregado pelo Femen.

“Quem aqui já foi presa?”, perguntou Inna às alunas, antes de propor uma “simulação de ação clássica”. Uma belga levantou o braço. Dias antes, ela tinha desmaiado após receber um “mata-leão” de um segurança do premiê tunisiano. Num canto da sala de treinamento, três garotas preparavam-se para colocar em prática o que aprenderam no dia anterior. Outras três faziam o papel de policiais.

“Vocês têm que gritar olhando direto para as câmeras”, explicou Inna. “Não podem rir nem parecer relaxadas.” As meninas ouviam com atenção. Em seguida, tiraram a camiseta e começaram a berrar frases como “Foda-se sua moral” e “Meu corpo, minhas regras”, olhando fixamente para os repórteres que assistiam à aula.

Uma semana após a provocação de Inna Shevchenko no Twitter, o 2º andar da sede parisiense do Femen, no 18º arrondissement, pegou fogo. As autoridades ainda não conhecem a causa do incêndio, que teria destruído documentos importantes do grupo. No 1º andar, poupado pelas chamas, não há mais sinal de Apolo. No salão vazio, Inna mirou uma ampliação do selo de Marianne pendurada na parede, arqueou uma sobrancelha e perguntou: “Você me acha parecida com ela?” Sem esperar resposta, emendou: “É que ela me parece tão doce…”

Mário Camera

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