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Maripá, sempre à frente

O que fazer numa cidade de crime-zero e quarenta orquídeas por morador? Fechar a única delegacia do lugar

Marcos Sá Corrêa
ILUSTRAÇÃO: KEVIN SUMMERS_GETTY IMAGES

Maripá não vai ver um centavo do Programa Nacional de Segurança com Cidadania. Pudera. Em agosto, quando o governo federal lançou em Brasília seus planos de socorro aos sem-polícia, os 5 500 habitantes da cidade, no oeste do Paraná, fecharam sua única delegacia e andavam ocupados com a Festa da Orquídea e do Peixe. A festa dura quase uma semana de rega-bofe colonial, com exposição de flores, bailes em galpão, escolha da Princesa das Orquídeas, rodízio de tortas e especialidades locais, como o rodeio do bagre ensaboado, o torneio culinário da carpa desossada e o Arrancadão de Tratores, uma invenção maripaense que vai abrindo alas no calendário regional de competições automobilísticas.

Com essas novidades, Maripá trombeteia. Mas segurança pública não é assunto na cidade. Sua única delegacia se extinguiu naturalmente, ao longo de três anos, devido à falta de presos para engaiolar e de crimes para lavrar nos boletins de ocorrência. Para o trivial variado das brigas domésticas ou de bar, dão de sobra os seis soldados e a única radiopatrulha da Polícia Militar. O comandante do destacamento, segundo-sargento Carlos da Silva, pode ser encontrado no YouTube, discorrendo em vídeo sobre a calmaria do posto.

Lá não se fala muito sobre o fim da delegacia, até para não atrair criminosos. “Ela era mesmo pequena, tinha o tamanho adequado às necessidades do município, mas elas foram diminuindo com o tempo”, diz o secretário de Governo e do Trabalho e Promoção Social, Euclides José Kreutz. Ele aproveita para avisar que os baixos índices de criminalidade são o sinal de que “bandido aqui não tem vez”.

Na cidade que se originou do vilarejo fundado em 1953 por colonos de origem alemã e italiana, vindos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, o secretariado municipal ainda é composto por sobrenomes como Kurtz, Schadech, Rohsig, Lazarin e Padini, além de Kreutz. O secretário tem que puxar pela memória para citar o último homicídio registrado em Maripá, que ocorreu no distrito de Vila Candeia, “uns dois anos atrás”. Um agricultor embriagado espancava a mulher, e o filho o matou. O júri popular absolveu o assassino por unanimidade, considerando que ele agira em defesa da mãe.
As notícias gravadas nos arquivos eletrônicos da prefeitura são de outra natureza. Por exemplo, a medalha de ouro que Ketlin Caroline Milani, de 12 anos, aluna da escola estadual Pio XII, ganhou, há alguns meses, na Olimpíada Brasileira de Matemática. “Para uma cidade do porte de Maripá, isso quer dizer que aqui se investe muito em ensino”, Kreutz explica. Há registros de fatos insólitos, como o cheque de 82 mil reais que a Câmara Municipal devolveu aos cofres públicos, via Banco do Brasil, como sobras do orçamento de 2006. As contas municipais, diga-se de passagem, são publicadas, mês a mês, na internet. O resto dos registros diz respeito ao recapeamento da via Corbélia, à arborização de ruas, à abertura da Associação de Orquidófilos e à automação das senhas de atendimento nos postos de saúde.

Sobre a falecida delegacia, nenhuma palavra. Ela hoje abriga o Conselho Tutelar, que fiscaliza a execução do Estatuto da Criança e do Adolescente. A índole pacífica de Maripá é atribuída pelo prefeito Henrique Lodowigo Deckmann às orquídeas, que cobrem os troncos de todas as árvores em ruas e praças da cidade. São cerca de 220 000 flores e 100 espécies devidamente recenseadas pela prefeitura, que gasta com a sua conservação 135 000 reais por ano. As escolas organizam mutirões para plantá-las. Cinqüenta estudantes são nomeados, todo ano, fiscais das orquídeas. Elas ficam penduradas em lugares públicos, têm cotação em florista e a população se encarrega de policiá-las. “Quem aprende a cuidar de orquídeas dá mais valor à vida”, afirma Deckmann. Mas ele sabe que essas coisas não caem do céu.

Gaúcho de Ijuí, formado em teologia e ex-missionário no Paraguai, ele conheceu a cidade há 23 anos, como coordenador de um programa de prevenção do consumo de drogas entre jovens. Mudou-se para lá em 2003, elegeu-se no ano seguinte e, como quarto prefeito do município, considera-se herdeiro da continuidade administrativa inaugurada com a emancipação de Maripá, em 1990. Cinco siglas partidárias já se alternaram na prefeitura, em várias coligações, sem trazer maiores mudanças no governo da cidade.

 

O primeiro roubo de orquídea vacinou Maripá contra atentados ao patrimônio público. Os moradores pegaram os ladrões, levaram o caso à delegacia e mostraram, na prática, que onde atua o longo braço da sociedade a polícia não tem muito que fazer. “Nunca mais tivemos problemas”, comenta Deckmann, recitando, sem saber, a fórmula que a urbanista americana Jane Jacobs registrou num ensaio sobre a vida e a morte das cidades americanas, quando Maripá ainda era o nome de guerra da Industrial Madeireira Colonizadora Rio Paraná.

Foi anunciando lotes agrícolas de 25 hectares nas “matas nativas de riquíssima fauna” da fazenda Britânia que a Maripá S.A. abriu aquele pedaço do sertão paranaense. Criou uma economia baseada em grandes plantações de soja, milho e trigo, além da engorda de frangos e porcos para frigoríficos. Com ela, o município tem o quinto lugar em qualidade de vida no Paraná. Modestamente, está entre as cinqüenta melhores cidades do Brasil para se viver. Tanto para bípedes como para orquídeas.
Num município de 17 anos, seu cultivo é o que se poderia chamar de velha tradição. Começou em 1994, informalmente, quando apareceram os primeiros cachos em árvores urbanas. Em seguida, vieram as gincanas escolares, organizando competições anuais para multiplicá-las. Hoje, Kreutz argumenta, “quem plantou flores aos 10, 12 anos é um adulto casado, pai de família, que cresceu aprendendo a tomar conta da rua”.

É Kreutz quem promove a festa de agosto, que leva, em caravanas de ônibus, 20 000 pessoas a Maripá, o que vem a ser quase o quádruplo de sua população total. Com destaque para o Arrancadão de Tratores, uma prova de velocidade que começou, como o cultivo de orquídeas, na avenida principal, em meados dos anos 90. Oficializou-se como o primeiro “tratoródomo” do Brasil – uma pista reta, de 400 metros, onde 200 são para acelerar e 200 para frear as máquinas desembestadas. Elas mal parecem tratores. Usam rodas artesanais de alumínio, carenagens aerodinâmicas em pinturas berrantes e motores turbinados, com mais de 350 cavalos. Projetados para passar a vida resfolegando na terra a 20 quilômetros por hora, os tratores de competição chegam a mais de 150 quilômetros por hora naqueles dez segundos de corrida. São mais uma evidência de que Maripá tem pressa. Ao contrário do programa de segurança do governo federal, que largou com medida provisória, emenda constitucional e discurso do ministro Tarso Genro, da Justiça, pedindo que ninguém espere do pacote resultados a curto prazo. Lá, o assunto está encerrado. Como avisa o hino municipal, “Maripá, Maripá, sempre à frente”.



Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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