esquina

Mas será o Benedito?

O cronista dos negros no Twitter

Yasmin Santos
ANDRÉS SANDOVAL_2018

“Vou te contar uma história legal sobre a Etiópia”, escreveu Ale Santos, pelo WhatsApp, a um amigo, antes de bombardeá-lo com uma sequência de áudios com a trama de um livro que tinha acabado de ler. Santos estava entusiasmado com Kebra Nagast (A Glória dos Reis), obra escrita no século XIV, na língua ge’ez, que narra o encontro da rainha de Sabá com Salomão e o nascimento do filho deles, Menelik, o lendário fundador da dinastia salomônica dos reis etíopes.

O amigo gostou da história, e Santos resolveu dar prosseguimento à ideia, contando diversas outras a amigos, também pelo WhatsApp. Um dia, decidiu ampliar o projeto e migrou para o Twitter. Apesar de limitar a 280 caracteres cada postagem, a rede social permite que os usuários criem uma sequência de textos, popularmente chamada de thread, para desenvolver raciocínios ou, como Santos, contar uma história.

A primeira sequência que ele postou não foi bem uma história, mas uma apresentação da teoria da “herança epigenética”, segundo a qual traumas intensos podem ser transmitidos geneticamente. Numa sequência de três tuítes, Santos relacionou a teoria à escravidão. “Algumas pessoas retuitaram, e eu pensei: ‘Vou continuar.’ Mas só mais tarde percebi que realmente havia um público ali”, contou. O seu quinto thread tratou do holocausto ocorrido entre 1865 e 1909 no território da atual República Democrática do Congo, por ordem de Leopoldo II, rei da Bélgica – estima-se que foram assassinados 8 milhões de congoleses. A sequência foi vista mais de 1 milhão de vezes.

“Para mim, a magia está na confabulação da história”, afirmou Santos. “Eu acredito no poder da narrativa. Tem que ser boa, tem que ser impactante, senão as pessoas não leem.” Santos usa sua conta, @Savagefiction, seguida por mais de 50 mil usuários, para refletir sobre o racismo e contar a história de personagens e populações negras no mundo. Só em novembro, suas postagens foram vistas mais de 12,3 milhões de vezes.

A linguagem abreviada da rede social não impediu – e até contribuiu para – que Santos se tornasse um personagem influente da militância antirracista no Brasil. Ele foi convidado para parcerias com os rappers Edi Rock, do grupo Racionais MC’s, e Emicida; tornou-se colunista do portal Vice Brasil, colaborador da revista Superinteressante e do portal The Intercept Brasil, e tem sido chamado para falar de seu trabalho e contar histórias de diferentes povos negros em cidades do país.

Se é grande o número de admiradores, o de haters também tende a crescer. Em 31 de outubro, ele postou que Hélio Negão, deputado federal eleito e apadrinhado por Jair Bolsonaro, é “uma caricatura tão bem desenhada que precisa ser ‘Negão’.” Também disse que o futuro parlamentar é a “humilhação do povo afro-brasileiro”. Alguém respondeu: “Esse talvez seja o tweet mais racista que eu já vi.”

 

“Eu tenho todos os sobrenomes associados a descendentes de escravizados”, disse Alexandre de Oliveira Silva dos Santos, de 32 anos, à piauí, num sábado de novembro, quando esteve pela primeira vez no Rio de Janeiro, para mediar o debate “Revoluções invisíveis”, na Festa Literária das Periferias, a Flup.

Santos nasceu em Taubaté, interior de São Paulo, filho de pai negro e mãe branca, descendente de indígenas. Vive em Guaratinguetá, com a mulher e um cachorro. Acorda sempre às seis da manhã e começa logo a trabalhar. Com o Kindle à mão, devora livros e vasculha bibliotecas digitais. À tarde, assiste a documentários e filmes. À noite, transforma suas ideias em textos para o Twitter.

Não se enxergava como negro quando criança, e seus pais nunca classificaram como racistas as ofensas de que o menino era vítima na escola. Quando precisou de acompanhamento psicológico, a questão do preconceito racial nem sequer foi citada pelos psicólogos. Pouco a pouco, contou, o racismo destruiu a sua autoestima.

Foi depois de assistir à comédia Jamaica Abaixo de Zero (1993), dirigida por Jon Turteltaub, que começou a recuperar um pouco do amor-próprio. “Com o filme percebi que ser negro, no esporte, era legal.” A história de quatro jamaicanos praticantes de bobsleigh (esporte em equipe, com um trenó) o estimulou a se tornar velocista. Correu dos 12 aos 18 anos, ganhou medalhas em campeonatos estaduais e só parou para se dedicar ao curso de publicidade numa faculdade pequena de Lorena, cidade no Vale do Paraíba.

Aos 12 anos, escreveu os primeiros contos de fantasia e ficção científica. Nos anos seguintes, chegou a participar de antologias de pequenas editoras, mas nunca teve um livro seu publicado. “Ser escritor não deu certo pra mim, pra maioria dos negros, nesse país. Eu tinha abandonado a ideia, mas vocês me salvaram aqui no Twitter”, escreveu em 13 de novembro. O rapper Marcelo D2, seu seguidor, respondeu: “Tá maluco?… precisamos de vc!” No ano que vem lançará um livro infantojuvenil adaptado de histórias já contadas no Twitter e inéditas. A escassez de referências sobre cultura negra no Brasil alimenta a sua curiosidade e estimula o seu trabalho.

Cada vez mais empenhado em afirmar o legado dos negros, Santos costuma se despedir nos tuítes usando o termo “Ubuntu” – princípio filosófico africano presente nas culturas zulu e xhosa, e cujo sentido aproximado é “Sou porque somos”. No braço direito, tatuou o provérbio “Aquele que quer ser rei, primeiro deve aprender a servir”, em símbolos adinkra, língua de ideogramas dos povos Acã, na região de Gana e Costa do Marfim.

Mas não são as lições de servidão que interessam a Santos. Um de seus personagens históricos favoritos é Benedito Caravelas, chamado Benedito Meia-Légua, que no século XIX reuniu negros insurgentes para invadir senzalas e libertar escravizados no Espírito Santo. Os fazendeiros, ao ouvirem notícias de negros se rebelando, perguntavam: “Mas será o Benedito?” Meia-Légua e seu quilombo resistiram por cerca de quarenta anos.

Yasmin Santos

Repórter da piauí

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