esquina

Masculynah

Em busca do corpo perfeito

Yasmin Santos
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

Com um roupão branco e uma taça de espumante na mão, Arthur Benozzati brinda a si mesmo diante do espelho. Sua aparência lembra a de Ken Carson, boneco criado em 1961 pela Mattel para ser o namorado da Barbie. Bíceps torneados, peitoral marcado, maxilar reto, dentes branquíssimos e a pele da face que parece não ter poros. A simetria milimetricamente calculada no rosto reafirma o seu apreço por uma estética perfeita. O médico dermatologista de 29 anos nem lembra mais por quantos procedimentos estéticos já passou para obter tudo isso: lipoaspiração, bichectomia, peeling, preenchimento de queixo e de olheiras.

“Eu estou sempre assim: plena e colagenada”, Benozzati brinca ao telefone, dando ênfase à última sílaba dos adjetivos terminados com a letra “a”. Grande entusiasta do colágeno, ele adotou como um de seus bordões essa substância conhecida por melhorar a firmeza da pele e prevenir o envelhecimento. Na sua lista de desejos: paz, amor e colágeno. “As pessoas gostam de mim porque sou carismático e autêntico. Não quero me ver acabado e tento sempre mostrar o meu melhor nas redes sociais”, proclama.

Apesar de atender pacientes em Natal, onde vive, e em mais três municípios do interior do Rio Grande do Norte, três da Paraíba e também no Recife, foram os bordões e os memes que fizeram de Benozzati um fenômeno na internet. “Masculynah” é o principal deles. Os mais de 200 mil seguidores no Instagram e 90 mil no Twitter lhe proporcionam uma vida de “blogueirinha”, com muitas viagens e estadias em spas e hotéis de luxo.

 

Arthur Benozzati nasceu em Sousa, no interior da Paraíba. É o segundo de três filhos de uma funcionária pública e de um pequeno comerciante de cocos. Seus dois irmãos também se formaram em medicina; ele foi o segundo a concluir o curso, em 2016, no Unifacisa Centro Universitário. Logo depois, emendou uma especialização em dermatologia clínica, cirúrgica e estética no Colégio Brasileiro de Medicina e Saúde, no Recife.

“Sempre fui muito ligado à estética, então já entrei no curso sabendo o que eu queria fazer”, contou. Seu apreço pela beleza (com uma pitada de narcisismo) começou bem antes da faculdade. Na época do Orkut – rede social criada em 2004 e desativada dez anos depois –, ele acumulou seguidores no país inteiro por causa das fotos que postava fazendo poses sexy.

Em abril de 2017, Benozzati saltou de patamar na internet. No intervalo de um plantão médico decidiu se distrair um pouco, tirando fotos no espelho da sala de descanso com a roupa que vestia na hora: um macacão azul-marinho com listras vermelhas, bordado com a logomarca do Samu, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência do SUS. Sentado numa cama com as pernas levemente abertas, ele encarou o próprio reflexo com um olhar tipo galã-de-novela-sedutor. A foto somou mais de 42 mil curtidas no Instagram.

A imagem foi replicada em várias páginas no Facebook. Uma delas, Gina Indelicada, que hoje tem mais de 7 milhões de seguidores, repostou o conteúdo com uma provocação: “É um absurdo essas pessoas que ficam tirando fotos durante o serviço, né?” A publicação teve mais de 89 mil reações, 14 mil comentários e 2,4 mil compartilhamentos na rede social.

Para muitas mulheres heterossexuais, a foto sexy do médico com uniforme no hospital emanava masculinidade. “Eu ficava pensando: mas, minha gente, eu nunca falei que era hétero”, disse o médico. “Como não correspondi às expectativas, começaram a me xingar e a debochar do meu jeito.” De “médico gato do Samu”, Benozzati passou a ser chamado pejorativamente de “a masculynah”.

“Eu me senti muito mal, mas soube dar a volta por cima”, contou. “Eu sou gay e masculynah mesmo. Decidi tomar isso para mim.” O dermatologista passou, então, a legendar suas fotos com um “ah” no final (que deve ser pronunciado de maneira enfática, abrindo bem a boca e fazendo pose glamourosa). E os fãs começaram a imitá-lo: “colagenadah”, “românticah”, “perigosah”, “ocupadah”, “agradecidah”, et ceterah.

O bordão que consagrou Benozzati, principalmente entre o público LGBT, foi criado por acaso. O dermatologista filmava a si mesmo no spa de um hotel de Natal e contava a seus seguidores sobre sua folga luxuosa, quando apareceu no fundo da imagem o seu namorado, o arquiteto Clayson Barbosa. Para integrá-lo ao vídeo, Benozzati fez esta pergunta à toa: “Não é, Clayson?” O namorado confirmou, balançando timidamente a cabeça. A frase, dita de forma melódica e com forte sotaque paraibano, conquistou o público. No dia em que o dermatologista reativou sua conta no Twitter, em abril deste ano, “Não é, Clayson?” foi um dos assuntos mais comentados na rede social.

A escalada de Benozzati não parou mais. Valendo-se do deboche, ele gravou um vídeo em Natal rindo dos homens que penavam durante uma sequência de abdominais. “Plenah, observando os pobres mortais nas abdominais, enquanto estou trincadah”, ele postou no Twitter. Por baixo da camisa, o médico vestia uma cinta modeladora, pois se recuperava de uma lipoaspiração HD (ou de alta definição) que havia definido sua cintura e abdômen.

Ser uma referência no mundo LGBT também resultou em cobranças do público. Durante as últimas eleições, em outubro do ano passado, ele postou no Instagram uma foto com a camisa da Seleção Brasileira e a seguinte legenda: “Meu partido é o BRASIL.” Tratava-se de um dos slogans da campanha de Jair Bolsonaro. O dermatologista foi prontamente questionado por seus seguidores. “O Bozo é homofóbico, garota”, comentou @gabypmotta, que acrescentou: “As pessoas amam fingir que não é com elas o problema.” Ele, que diz detestar política, desconversou, com uma gota de sexismo: “Uma louça para lavar cai bem, garota.”

Benozzati continua a se abster politicamente, enquanto tenta desassociar sua imagem da do presidente. Pouco depois que Bolsonaro foi filmado chamando governadores nordestinos de “paraíbas”, o dermatologista acrescentou a hashtag #OrgulhoDoNordeste num vídeo que postou: ele dá bom-dia aos seguidores com sotaque carregado e afirma ser “nordestinah com orgulho”. Algumas pessoas reagiram ao raro e tardio posicionamento político, como @mayaranadine, que anotou: “Masculynah é uma Nordestinah Arrependidah, não é Clayson?”

Yasmin Santos

Repórter da piauí

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