esquina

Mechas soltas

Salão para muçulmanas no Brooklyn

Joy Ernanny
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

Ventava forte na Quinta Avenida de Bay Ridge, bairro afastado do Brooklyn, quando Tazin Azad estacionou o seu carro e saiu à procura do salão de beleza onde tinha hora marcada. “Não é à toa que o apelido desta região é Beirute”, brincou, enquanto mirava os numerosos letreiros das lojas, escritos em árabe. Depois de passar por uma butique de moda islâmica e um mercadinho de comidas halal, avistou a fachada do salão, cujo nome está estampado em letras grandes cor-de-rosa: Le’Jemalik Salon & Boutique. Segurando firme seu hijab, para evitar que o vento o soltasse e revelasse seus cabelos, atravessou apressadamente a avenida.

Para muçulmanas, como Azad, ir ao cabeleireiro em Nova York é um transtorno. A tradição islâmica prescreve que mulheres só podem mostrar o cabelo para homens da sua própria família. E, como há sempre homens que frequentam cabeleireiros, fora os que neles trabalham, elas são atendidas em subsolos, a fim de poderem remover o hijab, o lenço ou véu islâmico. “Essa sempre foi a solução”, conta Azad. “Mas eu não aguento mais ficar tanto tempo num porão isolado!”

No Le’Jemalik (“Para a sua beleza”, em árabe), que ela descobriu quando passeava no Instagram, Azad poderá pela primeira vez remover seu hijab despreocupadamente. O salão de beleza é o primeiro em Nova York dedicado apenas às mulheres e no qual as muçulmanas podem circular tranquilas sem seus véus, pois não há ali nenhum empregado do sexo masculino.

Um imponente lustre domina a entrada envidraçada do Le’Jemalik. No balcão da recepção se veem os diferentes serviços prestados no local, desde os básicos – corte, coloração, maquiagem e depilação – até os que atendem especificamente à clientela muçulmana – como tatuagem de hena (temporária), pigmentação de sobrancelha e customização do hijab, a fim de usar o véu com mais estilo. A recepcionista cumprimenta Azad com o tradicional Salamaleico (Salaam Aleikum, “Que a paz de Deus esteja com você”). Uma delicada porta tipo saloon impede que se veja, da rua, o interior do estabelecimento e serve de verdadeira entrada nesse universo paralelo, 100% feminino.



Azad penetra no salão e se depara com meia dúzia de mulheres de origens, costumes e estilos bem diversos dos seus. Algumas usam jeans apertados; outras, vestidos de manga comprida – o que indica serem de diferentes vertentes religiosas. São todas elas, porém, muçulmanas e também têm em comum algumas outras coisas, como as sobrancelhas bem desenhadas, os volumosos cílios postiços e as unhas pintadas predominantemente em tons cintilantes.

Os olhos de Azad passeiam com atenção pela decoração do lugar, com suas paredes em tom de rosa bem claro, os espelhos enfeitados com strass, as poltronas também rosas, com laçarotes, e as caixinhas de lenços de papel com adornos de pérolas. “Até a iluminação é diferente, levemente cor-de-rosa”, ela admira e solta o hijab, deixando à mostra seus longos cabelos negros. Uma jovem cabeleireira de origem marroquina se aproxima para levar Azad até a bacia onde eles serão lavados.

 

Azad nasceu em Bangladesh e imigrou para o Brooklyn aos 8 anos com os seus pais e irmãos. Sempre estudou em colégios islâmicos porque a família não queria que ela ficasse alheia às suas origens sunitas. Hoje, aos 30 anos, mãe de dois filhos e dona de um sotaque tipicamente nova-iorquino, Azad se considera uma “camaleoa”, por estar sempre mudando de estilo. “Quando jovem, era muito mais conservadora. Eu me vestia com a tradicional abaya preta, cobrindo inteiramente corpo, cabeça e pescoço. Com o tempo fui me interessando por moda e resolvi experimentar looks mais coloridos”, conta, enquanto observa a cabeleireira mover a tesoura para lá e para cá.

“Decidi mudar a cor para testar um estilo mais jovial”, explica, e sussurra: “Troquei a abaya por um leve hijab e ainda deixo uma partezinha da franja à mostra.” A forma de seus cabelos ou de suas roupas parece assunto trivial, mas não é. Os Estados Unidos vivem uma crescente onda de islamofobia – a pior, inclusive, desde o ataque terrorista às torres gêmeas, em 2001. “Não gosto de destoar tanto das outras pessoas”, ela diz, “e nem que a primeira coisa que notem ao falar comigo seja minha roupa.”

 

O Le’Jemalik foi inaugurado em janeiro de 2017, um período turbulento para a comunidade muçulmana dos Estados Unidos. Naquele mês, o presidente Trump proibiu a entrada em território americano de viajantes de sete países de maioria muçulmana. Protestos começaram a ocorrer no país, e Nova York, com sua população de cerca de 1 milhão de muçulmanos, foi uma das cidades onde mais houve manifestações. Azad acredita que estabelecimentos como Le’Jemalik, que tem por trás uma forte empresária muçulmana americana, “são a chave da resiliência da comunidade”.

Com os cabelos um pouco mais curtos e já tingidos, Azad senta em uma confortável poltrona rosa para aguardar o efeito da tinta em suas mechas. A batida eletrizante de uma canção pop libanesa abafa o falatório das clientes, que se expressam em árabe e em inglês. “Aquela é a proprietária”, aponta Tazin, ao avistar no local Huda Quhshi, cabeleireira e maquiadora de origem iemenita que se tornou uma celebridade nas redes sociais, com quase 28 mil seguidores. Quhshi está ajustando cuidadosamente em uma noiva um hijab branco coberto de brilho. “Ela sabe arrumar noivas de todas as tradições islâmicas!”, diz Azad, sobre o serviço de arranjos com diferentes tipos de véus oferecido pelo salão.

Três horas depois, diante do espelho, Tazin olha com atenção os seus cabelos mais curtos, ruivos e leves. Ajusta o hijab e deixa escapar do véu um pedacinho da franja do cabelo, agora vermelho-rubi. Sua conta ficou em cerca de 180 dólares (aproximadamente 700 reais). “Foi uma experiência empoderadora”, diz, sorrindo, antes de se despedir da cabeleireira com dois beijinhos e da proprietária do Le’Jemalik com um discreto Shukran (Obrigada).

Joy Ernanny

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