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Memes no museu

Um fenômeno em exposição

Guilherme Pavarin

O professor Viktor Chagas chegou ao Museu da República, no Rio de Janeiro, cumprimentou os seguranças e apontou para a maior tela do salão térreo. “Esta é a famosa pintura da confecção da bandeira, de Pedro Bruno”, disse, apressado. O quadro A Pátria, de 1919, retrata uma criança agarrada a uma imensa bandeira do Brasil que está sendo confeccionada por um grupo de mulheres. É uma das imagens emblemáticas da virada republicana do país. O professor subiu as escadas, atravessou uma sala, depois outra, e por fim se postou diante de uma imagem menor que reproduzia a tela de Pedro Bruno, mas coberta de letras brancas que diziam: “Ordem e Progresso: é verdade esse bilete.”

Trata-se de uma das montagens que Chagas pinçou da internet para integrar a exposição “A política dos memes e os memes da política”, organizada por ele. “O meme, em essência, é tudo que é replicado. E sempre pressupõe muitas camadas de significados”, afirmou o professor, diante da imagem. “Este meme, por exemplo, só ganha sentido ao conhecermos o quadro original, o contexto político do momento e outro meme que mostrava o recado de um menino para a sua mãe” (“Senhores paes, amanhã não vai ter aula poorque pode ser feriado. Assinado: Tia Paulinha. É verdade esse bilete”). A frase final do recado virou mote para diversos memes. 

A exposição espalha-se por quatro salas que tratam da relação dos memes com os símbolos nacionais, a propaganda política, a persuasão e a desinformação, entre outros temas. Tudo é acompanhado de textos que mostram a complexidade das forças políticas e sociais em jogo nas imagens. “Ver um meme na parede de um museu: essa provocação sempre foi nossa intenção”, disse Chagas, do Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF). “Queremos que as pessoas encarem o objeto do meme como algo relevante, fugindo do oba-oba, do besteirol, da balbúrdia.”

 

Viktor Chagas tem 37 anos, estatura mediana e cabelos escuros bem aparados. Sua fala é clara e professoral; ouve com atenção ao ser questionado, intercalando, às vezes, um riso tímido antes de responder. Para muitos pesquisadores da área de mídia, ele é hoje o principal especialista brasileiro em memes – esses vídeos e imagens que se espalham pelos celulares e computadores difundindo, muitas vezes em tom de sátira, mensagens ideológicas ou meros comentários irônicos sobre figuras públicas. 



Formado em jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com mestrado e doutorado em história pela Fundação Getulio Vargas, Chagas sempre trabalhou com temas relacionados à mídia e ao poder. Quando foi contratado pela UFF, em 2011, começou a ser indagado pelos alunos sobre fenômenos da internet como Dilma Bolada, Sniper Serra e Mamilos Polêmicos. Leigo no assunto, ele passou a pesquisar sobre memes e percebeu que tinham muito a ver com seus temas de estudo. Organizou, então, um grupo de alunos para catalogar os memes e analisá-los. A ideia era colocar as pesquisas como verbetes na Wikipédia, mas seus colegas na universidade não endossaram a proposta. Disseram que uma enciclopédia deveria prezar pela relevância e, para a academia, memes não eram importantes. 

Chagas decidiu, então, montar uma “enciclopédia” por conta própria. Criou com sua equipe o #MUSEUdeMEMES, um site que reúne as intervenções mais difundidas e influentes – como #elenão, Raio Gourmetizador e Tapa na Pantera –, explica em que contexto surgiram e que impacto político e/ou social tiveram. Na última contagem feita, estavam catalogadas e analisadas no museu cerca de 200 famílias de memes, séries com o mesmo tema. 

O site também abriga cerca de 1 200 trabalhos escritos cadastrados (teses, artigos etc.) e tornou-se referência no assunto. Em quatro anos de existência, teve mais de 2 milhões de visitantes, marca considerável para um projeto acadêmico. Chagas, porém, sentia falta desta parte importante do trabalho: transformar o museu virtual numa exposição real. E assim ele chegou ao Museu da República, que hospeda a mostra até o dia 24 de agosto.

 

Ainda mais importante do que realizar a exposição foi, para o professor, constatar que seus pares acadêmicos finalmente começaram a reconhecer o interesse em mídias sociais e memes. Isso se deveu às eleições de 2018, quando mensagens virais via WhatsApp ajudaram a definir o voto de muita gente. 

Chagas pressentia que isso ia ocorrer e se infiltrou em 150 grupos de simpatizantes de Jair Bolsonaro. Chamou-lhe a atenção o volume de informações e montagens que esse grupo produzia – muito maior que o dos demais candidatos. “Notamos que havia uma quantidade enorme de memes diferentes, muito mais agressivos, que não eram difundidos via Twitter ou Facebook. Quando identificamos de onde vinham, entramos nos grupos e passamos a analisar como eram feitas as distribuições”, contou. Os resultados da pesquisa no WhatsApp estão expostos na última sala da exposição, que debate fake news. “A boataria existiu de todos os lados das eleições, mas vimos que os grupos mais à esquerda tinham pudores que a direita não tinha.” 

Chagas planeja agora organizar um livro sobre o tema. Ele quer ampliar o diálogo com pesquisadores internacionais e, claro, com a sociedade brasileira. “O principal desafio é mostrar como os memes são boas portas de entrada para a discussão política”, explicou. “Queremos entender o modus operandi deles. É o papel que nos compete como produtores de ciência.”

Apesar de a curadoria buscar um equilíbrio entre memes de vários espectros políticos, a exposição já provocou reações inflamadas em visitantes. Em uma das visitas guiadas feitas por Chagas, uma estudante cismou que a esquerda tinha espaço demais e resolveu manifestar sua impressão aos gritos. “Um dos alunos da graduação pegou uma câmera para filmá-la”, contou o professor. “Pedi na hora que ele a guardasse.” Para o professor, o que a moça pretendia era justamente ser filmada e viralizar o seu protesto na internet – um possível novo meme.

Guilherme Pavarin

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