esquina

Memorial de Ayres

Lições de neurociência e física quântica com o presidente do STF

Mariano Amaro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Nem as flores do cerimonial aguentavam mais. Após dois dias de congresso, com discussões intermináveis sobre a missão do Ministério Público no Brasil, os antúrios brancos do arranjo que adornava a mesa dos palestrantes começavam a murchar. E os botânicos bem sabem que essa flor fálica perde muito de sua dignidade quando murcha.

Foi essa recepção pouco excelsa que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto, encontrou ao chegar a um centro de convenções na Barra da Tijuca, numa tarde de sexta-feira em agosto. Em seu primeiro dia de recesso desde o início do julgamento do mensalão, o ministro tomou um avião para o Rio de Janeiro, onde se comprometera meses antes a fazer o discurso de encerramento do 1º Congresso Internacional do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União.

Quem conhece Ayres Britto sabe o gáudio que lhe desperta um microfone aberto. Foi muito oportuno, portanto, que o tema de sua conferência fosse livre, conforme ele próprio salientou quando chamado ao púlpito. Naquela tarde, o ministro aproveitou essa liberdade para dividir com os cerca de 200 procuradores da audiência reflexões sobre matérias de seu interesse: neurociência e física quântica.

Desencantado com o estudo técnico das leis, Ayres Britto decidiu iniciar-se nessas disciplinas “para formular uma teoria jurídica mais arejada e contemporânea”. No trajeto para o Rio, o ministro veio lendo O Cérebro de Buda, do californiano Rick Hanson, livro que promete condicionar o cérebro para a felicidade a partir do pleno conhecimento do órgão e de alguns exercícios de meditação.

“O cérebro humano tem 1 quilo e 400 gramas de um tecido semelhante a um tofu”, explicou o ministro, fazendo uma cuia com as mãos. “Ele contém 1 trilhão vírgula 1 bilhão de células, incluindo 100 bilhões de neurônios que se conectam entre si. Para a neurociência, eles se conectam também com neurônios alheios. Já a física quântica diz que os neurônios se comunicam com objetos. E espiritualistas dizem que eles se comunicam com espíritos de pessoas que já faleceram.”

Um procurador de sotaque português e jeito folgazão sentado na segunda fileira cutucou um compatriota: “Mas de que fumo este senhor fez uso?” Alheio ao pasmo do colega, o ministro passou a discorrer sobre a diferença entre os dois lados do cérebro. “O lado direito é o sentimento e o esquerdo, o pensamento”, sintetizou. “Quando acionamos o direito, ficamos em estado de contemplação. Passamos a olhar as coisas desinteressadamente, abrimos o espírito para o mundo circundante, cortamos o cordão umbilical com o passado e o futuro. Entramos em estado de empatia com a existência.”

O procurador português ainda estava atônito quando Ayres Britto engatou a segunda: “Quem toma a iniciativa desse diálogo não é o ser humano, mas os objetos circundantes. As coisas falam por si… lêncio. É o real que se dá a quem está em estado de presentificação. Já o lado esquerdo do cérebro é o lugar do focus, do locus, é o hábitat do pensamento”, falou, interrompendo a si mesmo com uma risada gostosa.

Quando sentiu que estava perdendo o interesse da audiência, Ayres Britto recorreu a uma conhecida arma de seu repertório para retomar as rédeas: as metáforas marítimas. O lado direito do cérebro, comparou o ministro, tem a liberdade do mar aberto, e o lado esquerdo, a segurança do cais. “O que os homens não sabem é que o pior modo de ficar à deriva é no cais do porto. As embarcações podem se sentir mais seguras ali, mas foram feitas para o mar aberto. É preciso coragem para soltar as amarras do coração”, arrematou. Ao lado do ministro, a ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, abriu um sorriso – ela foi a única integrante da mesa de encerramento a atravessar os sessenta minutos da fala de Ayres Britto sem se distrair com o celular.

Naquele ponto, o ministro-poeta achou oportuno virar o leme de sua exposição rumo à Grécia dos pré-socráticos. No filósofo Heráclito de Éfeso, encontrou um aliado de peso para discorrer sobre a dualidade dos aspectos da vida, que o cérebro só faz refletir. “Heráclito dizia que em toda contraposição visível há uma harmonia invisível”, prosseguiu. Para ilustrar seu raciocínio, citou as duas margens de um rio que abrigam a mesma corrente fluvial, o enlace do espermatozoide com o óvulo que gera um só zigoto e o encontro do céu e da terra na linha do horizonte. Até o fim da tarde, o ministro citaria ainda Aristóteles, Shakespeare, Nietzsche, Van Gogh, Fernando Pessoa, Kandinsky, Guimarães Rosa e Ortega y Gasset.

Houve quem sentisse alívio quando Ayres Britto ameaçou encerrar precocemente sua exposição, aos 42 minutos de palestra. Mas ele lembrou que ainda não havia contemplado seu outro tema de estudo: a física quântica. Prometendo ligeireza, tratou de enfronhar-se por prótons, nêutrons e elétrons. Quando o ministro fez uma provocação póstuma a Einstein, dizendo que Deus joga dados, o procurador português deu-se por vencido, saiu do salão e foi comer um brioche na mesa do coffee break.

Entre os ouvintes que resistiram, estava o desenhista Mauricio de Sousa, que foi ao congresso receber uma medalha de honra do Ministério Público por “serviços prestados ao país”. Pouco impressionado com a física do ministro, ele não desgrudou o olho do Twitter durante a palestra.

Só no final, Ayres Britto arriscou fazer a prometida ponte entre suas reflexões e a prática do direito. “Será que as normas jurídicas não são mutáveis, como tudo na vida?” Ele mesmo respondeu à pergunta retórica: “Quanticamente, a resposta é sim. Juiz não é ácaro de processo, não é traça de gabinete. O juiz é um ser da vida. Juiz tem que gostar de poesia, de física quântica, de teatro.” Estava aberta a jurisprudência para que o palestrante cantarolasse um trecho de Garota de Ipanema: “A beleza que não é só minha/ Que também passa sozinha.” A plateia, agora minguada, preferiu não acompanhar o ministro.

Mariano Amaro

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