esquina

Menino do Rio

Um urbanista praiano nas alterosas

Bianca Magela Melo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

A mesa principal estava pronta para mais uma reunião do Conselho Municipal de Política Urbana de Belo Horizonte. Entre os cerca de 150 ouvintes circulavam cochichos sobre a ausência do “secretário carioca”. Logo que o microfone foi aberto à participação popular, um dos presentes reclamou do comportamento dele na reunião anterior. Na ocasião, a sessão foi encerrada com presença da Polícia Militar, convocada depois que Marcello Faulhaber, o funcionário em questão, mostrou o dedo médio para uma das espectadoras.

Faulhaber, secretário adjunto de Planejamento Urbano da capital mineira, evocou o episódio numa entrevista na sala de reuniões de sua repartição, no Centro da cidade. Em tom sereno, alegou que não foi treinado para receber xingamento. “Me chamaram de carioca nojento e disseram para eu voltar para o Rio”, contou. No dia do tumulto, Faulhaber estava sentado de frente para o auditório, e podia ouvir as provocações do público. A coisa esquentou quando ele se levantou para ir ao banheiro. “Quando saí da mesa, uma manifestante me chamou de safado na minha cara.”

A destinatária do gesto de Faulhaber foi a arquiteta Fernanda Maia, de 32 anos. Ela confirmou que alguns espectadores estavam mesmo “gritando coisas para ele”, mas ressalvou que não os conhecia. “Ele começou a mandar beijos e foi irônico”, disse Fernanda. “Isso é estranho para um servidor público.” A arquiteta admitiu que o chamou de safado. “Ele passou do meu lado e olhou para mim de um jeito que me incomodou”, justificou-se. “Mas fiquei com muita vergonha quando ele reagiu.”

Por trás da polêmica está o projeto Nova BH, que pretende estabelecer uma parceria com a iniciativa privada para financiar a construção de praças, parques, passarelas, ciclovias, áreas de lazer e corredores verdes na cidade. Para atrair as empresas, a prefeitura acena com benefícios, como o direito de erguer e comercializar prédios em áreas próximas à oferta de transporte coletivo. O projeto deve levar à verticalização e modificar a paisagem de algumas áreas da capital mineira.

Para que o projeto siga adiante, um estudo de impacto sobre a vizinhança precisa ser aprovado pelo conselho de política urbana. Sob pressão de órgãos como o Ministério Público Estadual e o Instituto dos Arquitetos do Brasil, a votação foi suspensa três vezes. Na segunda tentativa de aprovação, uma conselheira disse que estava com muitas dúvidas e que não tinha tido tempo para ler as 1 500 páginas do projeto. Faulhaber calculou que, até a terceira reunião, os conselheiros desfrutaram de 68 dias na companhia do dossiê – tempo suficiente para sua leitura e digestão.

A pressão vem também de moradores que lotaram as últimas reuniões do conselho. Alguns são ligados a grupos defensores de áreas tradicionais de Belo Horizonte e movimentos pela democratização do espaço urbano. Em textos que circulam nas redes sociais, o secretário – às vezes chamado de “menino do Rio” – é apresentado como mentor de uma política de favorecimento ao mercado imobiliário e descaracterização da paisagem da capital.

 

Aos 42 anos, Marcello Faulhaber tem experiência com operações urbanas em parceria com a iniciativa privada. Antes de se mudar para Belo Horizonte, ajudou a tirar do papel uma iniciativa semelhante em sua cidade natal, o projeto Porto Maravilha. Foi coordenador do programa de governo do primeiro mandato de Eduardo Paes e depois subchefe da Casa Civil da prefeitura. Só não tinha experimentado tamanha impopularidade. No Rio, reconheceu, “a resistência era bem menor”.

O secretário disse que conduziu os estudos e planos necessários para montar o projeto Nova BH, mas negou sua paternidade. “Não sou dono nem criador dessa iniciativa. Quando cheguei, já havia a determinação de implantá-la.” Afirmou ainda que as críticas ao projeto partem de pessoas ligadas a partidos de oposição ao prefeito Marcio Lacerda, do PSB, aliado do senador e presidenciável tucano Aécio Neves. Sua percepção é que está havendo uma “fulanização” da discussão, com a criação de um personagem para derrubar a empreitada.

Faulhaber defende que o projeto vai ordenar o crescimento da cidade e gerar novos espaços públicos. Sobre o incentivo à construção de mais prédios, afirmou que “existe a verticalização do bem e a do mal”. O bairro de Copacabana, no Rio, apertado como ônibus na hora do rush, seria o exemplo a evitar. Os novos edifícios da capital mineira serão diferentes, disse, com faixas de terreno livres para lazer e convivência. (No Rio, o projeto do conjunto de edifícios na zona portuária que abrigará as vilas de árbitros e de mídia da Olimpíada – e cujos apartamentos depois serão vendidos – previa espaços comuns abertos ao público, mas foi modificado para criar um condomínio fechado.)

O secretário recorreu à imagem didática de um casal de namorados para explicar sua função no projeto. “Ela quer ir ao balé, e ele, ao futebol.” Faulhaber é aquele que sugere um cinema: “Meu papel é conciliar.” No caso da Nova BH, isso significaria encontrar um meio termo entre o interesse do mercado e uma proposta que não atrairia financiadores.

Numa apresentação pública do projeto em 2013, o prefeito Marcio Lacerda elogiou seu secretário. “Esse projeto teve o empenho importante dele. Escreveram na internet que ele é um carioca flamenguista querendo vender BH”, disse – Faulhaber foi vice-presidente de Planejamento e integra o Conselho Deliberativo do clube rubro-negro. “Ninguém é perfeito”, emendou Lacerda.

Na falta de praia, um dos programas prediletos de Faulhaber em Belo Horizonte é ir ao Mineirão e ao Independência para torcer ora a favor, ora contra os times locais, conforme contou, esboçando um sorriso rápido – o único durante mais de uma hora de conversa. Falou também que tinha bisavós de Minas e que, no Rio, havia encontrado muitos mineiros, inclusive na prefeitura. “Assim é em todos os lugares. As pessoas vão e vêm.” Não chegou a mencionar a carioquice honorária do senador Aécio Neves.

Bianca Magela Melo

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