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Mensalão on the road

As andanças do Land Rover que foi do petista Silvinho

Carol Pires
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Ao se ver divorciado, o médico oncologista Fernando Marin Torres anteviu uma oportunidade. “Qual carro minha ex-mulher nunca me deixaria ter?”, perguntou-se. Pagou cerca de 80 mil reais financiados por um jipe verde-musgo da Land Rover, modelo Defender, ano 2003. O carro, zero, foi emplacado como DKB8091 em São Paulo. Ao longo do ano seguinte, nada o fez mais feliz do que acordar cedo aos domingos, almoçar com os amigos, e sair para percorrer trilhas nos arredores de Ribeirão Preto, onde mora até hoje.

Passado o entusiasmo inicial, Torres começou a achar que o Land Rover não era conveniente para andar na cidade. Em novembro de 2004, vendeu-o à concessionária Eurobike, em Ribeirão Preto, e, por 11 mil reais a mais, levou para casa um Audi A4 de segunda mão.

Em julho de 2005, o médico tomava café em uma padaria em Bauru quando recebeu uma chamada de um repórter da Rede Globo. Queria saber se Torres estava acompanhando o caso do mensalão. Mais ou menos, respondeu. O jornalista preparava uma reportagem revelando que um empresário com contratos com a Petrobras tinha presenteado um dirigente do Partido dos Trabalhadores com um Defender. O registro no Departamento de Trânsito mostrava que Torres tinha sido o dono anterior do jipe. “Eu ainda tenho uma foto desse carro”, recorda Torres. “Ele está atolado em uma trilha e dava uma boa legenda: o Land Rover que nasceu para estar na lama.”

A concessionária para a qual o médico vendeu o Land Rover o repassou para uma loja de revenda, a Paíto Motors, em Araras, interior de São Paulo. Dali, o jipe foi vendido, à vista, por 73 500 reais, a César Roberto Santos Oliveira, então vice-presidente do Conselho de Administração da GDK, que acabara de firmar um contrato de 88 milhões de dólares para reformar a plataforma P-34 da Petrobras. O documento do carro foi expedido em nome de Silvio José Pereira, então secretário-geral do PT.

O sociólogo Silvio Pereira, conhecido como Silvinho, nunca teve cargo público. Fez carreira na burocracia do PT, partido que ajudou a fundar. Em 2002, quando Lula foi eleito presidente, Silvinho era o interventor nos diretórios estaduais que resistiam às alianças articuladas por José Dirceu, então presidente da legenda. Ao ser nomeado ministro da Casa Civil, Dirceu passou a presidência do PT a José Genoino, mas influiu para fazer de Silvinho o secretário-geral do partido na vaga deixada por Luiz Dulci, também nomeado ministro.

Silvinho era o dono dos cargos. Tinha a lista dos postos de confiança no governo federal e a dos interessados em ocupá-los. Quando Roberto Jefferson delatou o mensalão, acusou José Dirceu de ser o mentor do esquema e Silvinho, o gerente. Silvinho acabou abandonado pelo partido quando o Jornal Nacional mostrou que o Land Rover que ele usava tinha sido um mimo de um empresário.

Na tentativa de evitar o depoimento na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Bingos, Silvinho apresentou um atestado médico que o descrevia como “descompensado emocionalmente”, “com ideações de menos-valia bem como de autoextermínio”. Ele chegou a tentar vender o Land Rover. Uma concessionária paulistana anunciou o carro, na época com 45 mil quilômetros rodados, por 79 mil reais. A imprensa descobriu e Silvinho foi instado a devolver o presente ao executivo da GDK, que mora em Salvador. Silvinho entregou o automóvel, o cargo e se desfiliou do PT.

Depois da devolução, o Land Rover ficou em nome de César Roberto Santos Oliveira até 2007, quando o Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia contra quarenta acusados do mensalão. Seu quarto proprietário, também morador da capital baiana, é o único que não foi encontrado para esta retrospectiva automotiva. Três anos depois, Gilmar Menezes da Silva Lobo passeava com a namorada no Farol da Barra quando viu o Defender verde estacionado com a placa “Vende-se” no vidro. Ele acabara de voltar de uma temporada em Londres. “Lá todo mundo tem Land Rover. Tinha carro de 1945 andando na rua. Se você cuidar bem, dura a vida inteira.”

Lobo tinha uma camionete Ford Ranger de 49 mil reais. Por 13 mil a mais, levou o Land Rover para casa com quase 120 mil quilômetros rodados. “Um novo custava 123 mil reais e vi naquele usado uma oportunidade de realizar meu sonho. Mas, rapaz, tem alguma coisa com aquele carro. Eu fiquei ‘sequestrado’ pela loja da Land Rover em São Paulo, porque toda hora quebrava uma peça e eu tinha que mandar buscar lá. Em Salvador, um para-choque de 1 100 reais custava 2 mil, 3 mil reais.” No ano passado, pouco antes de 25 réus do mensalão serem condenados pelo STF, Lobo vendeu o jipe para uma concessionária.

Silvinho Pereira se livrou da acusação de corrupção porque não se encontrou registro de que ele tenha tocado em dinheiro do mensalão. Acreditou-se na tese de que o Land Rover tinha sido presente de um amigo. Sobrou a acusação de formação de quadrilha. Para evitar ser julgado, ele prestou 750 horas de serviços comunitários na Subprefeitura do Butantã, na Zona Oeste de São Paulo. “Já cumpri o que devia. Já paguei até demais. Foi difícil, mas eu consegui enterrar isso”, disse Silvinho, que desde então realizou o sonho de estudar gastronomia. “Mas eu sou mesmo é autodidata.”

Silvinho e um dos irmãos têm uma lanchonete em Osasco, na Grande São Paulo. Desde 1977, a Tia Lela funciona atrás da prefeitura. Lá dentro, um cartaz anuncia pastel frito, e uma banca de jogo do bicho funciona atrás do refrigerador de picolés. “Vamos reformar a lanchonete agora. Daqui a um mês começaremos a servir comida caseira, uns quatro ou cinco tipos de PF”, explicou Silvinho. Se as contas da lanchonete não melhorarem dentro de um ano, ele pretende abrir seu próprio restaurante. “Com comida de boteco, que é o que eu gosto.”

 

Em dez anos de estrada, o Land Rover Defender teve seis donos. Hoje está em Goiânia e é dirigido por Alberto Beluco, um funcionário público concursado que comprou o jipe em 2012. Ele gosta de viajar para pescar e acampar. Beluco só soube que o carro era o mesmo do mensalão neste ano, quando outro jornalista telefonou. “A gente já tem que atender telemarketing domingo de manhã, agora também jornalista depois das 18 horas”, queixa-se. Ao saber da vida pregressa do automóvel, ele voltou à concessionária para se certificar de que toda a documentação era legal.

Beluco ainda não achou um interessado, mas bem que queria vender o jipe – exemplares do modelo são anunciados por cerca de 60 mil reais. A documentação estava em ordem, mas o Land Rover revelou-se um peso. “Já andou de carroça? Pula igual. Desde que eu comprei esse carro, vivo com dor nas costas.”



Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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