esquina

Mercadores de ácaro

Predadores milimétricos são o ganha-pão de empresários paulistas

Luiz Henrique Ligabue
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

De calça jeans e camisa social listrada, barba feita e gumex no cabelo, Roberto Konno e Marcelo Poletti poderiam passar por corretores de seguro, vendedores de parafuso ou, quem sabe, mórmons. Nos pés de um deles, um par de botas de caminhada tratava de eliminar algumas possibilidades. Nos do outro, sapatos sociais pretos de fivela vistosa só faziam tornar a investigação mais difícil.

Entomologistas de formação, eles têm por ofício estudar predadores milimétricos. Como não quiseram seguir carreira acadêmica e nem sabiam fazer outra coisa, acabaram se tornando empresários de um ramo incomum no Brasil. Os dois ganham a vida criando e vendendo ácaros e insetos.

Marcelo Poletti, o dono do sapato de fivela vistosa, é falante, do tipo que encaixa uma palavra na outra em velocidade impressionante. Já Roberto Konno, o japonês de botas, é quietão, tem o ar estoico e fala apenas quando provocado. O interesse pelos artrópodes foi o que uniu a dupla. Conheceram-se estudando a resistência de alguns ácaros ao uso de pesticidas nos laboratórios da Esalq, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, unidade da USP em Piracicaba.

Poletti, filho de bancários nascido em Limeira, começou sua carreira estudando uma praga comum em lavouras de milho, feijão e batata: um besourinho conhecido pelos cientistas como Diabrotica speciosa e que os populares preferem chamar de vaquinha. Já Konno é natural de São Carlos, descendente de pequenos agricultores imigrantes. Em seu début científico, estudou o Brevipalpus phoenicis – um ácaro que, a despeito de medir cerca de um vigésimo de milímetro, é capaz de arrasar pomares de laranja, maracujá e café. O caminho dos dois se cruzou na Esalq, onde fizeram mestrado e doutorado com o mesmo orientador.



O que os une hoje são minúsculos ácaros predadores que os entomólogos chamam de Neoseiulus californicus. Medindo um mero décimo de milímetro, eles mais parecem pontinhos se movendo em zigue-zague. Vistos bem de perto, são feios e translúcidos, com tons entre o laranja e o vermelho. Vivem cerca de quarenta dias e adoram devorar primos distantes: os ácaros rajados, que atendem pelo nome científico Tetranychus urticae e atacam flores e lavouras de morango, tomate, pimentão e leguminosas.

Conhecedores das idiossincrasias do Neoseiulus californicus, Poletti e Konno enxergaram nele o potencial para tirá-los da vida de vacas magras a que estariam fadados se seguissem carreira na universidade. Decidiram criar uma empresa de controle biológico de pragas, a Promip, que teria esse ácaro como vedete.

Não foi fácil transformar seus filhotes em produtos comercialmente viáveis. Konno se mandou para Holambra, reduto das flores e suas pragas no interior paulista, para conseguir reproduzir seus Neoseiulus californicusem escala fordista. Depois, fez um puxadinho de dois cômodos no município vizinho de Engenheiro Coelho, só para criar os ácaros. Totalmente integrado à colônia, dormia ali mesmo.

Em seguida, foi preciso encontrar quem comprasse os ácaros. Levando os bichinhos a tiracolo, Konno rodou 300 mil quilômetros em três anos tentando convencer os produtores a comprar justamente o que eles queriam matar. Não foi uma tarefa trivial: na lógica do campo, ácaro bom é ácaro morto.

Os agricultores se mostraram uma espécie tão resistente quanto certas pragas. Aos seus olhos, os potes com cascas de arroz e ácaros que aquele japonês com título de doutor e lupa no pescoço queria salpicar nos canteiros mais pareciam macumba. Konno gastou muita saliva para explicar que a casca de arroz só servia para facilitar a dispersão e que os predadores cumpririam a missão de exterminar os ácaros rajados assim que libertados, morrendo pouco depois, privados de sua dieta. Só conseguia conquistar os produtores com uma demonstração prática. “Depois que o resultado aparecia, chegavam os primos, cunhados, compadres”, contou. “Assim passamos de 10 hectares em 2006 para 5 mil em 2012.”

No fim de 2011, a Promip se associou a outra empresa de controle biológico de pestes – a Bug. Seu carro-chefe são as vespinhas Trichogramma pretiosum, Trichogramma galloi e Cotesia flavipes, capazes de combater pragas que atacam a cana-de-açúcar, tomate, soja, algodão, milho e culturas cítricas. Elas são vendidas na forma de ovos acondicionados numa espécie de sanduíche de papelão destacável. De cada unidade, vendida a 20 reais, nascem até 120 mil vespinhas, o suficiente para cuidar de 1 hectare de plantação.

Hoje as vespinhas da Bug se tornaram o grande negócio da empresa e policiam 500 mil hectares de lavouras de cana, milho e soja em todo o Brasil, “com um custo 30% menor do que o controle feito com agrotóxicos”, segundo o bem penteado Poletti. O que não falta para a empresa é mercado para se expandir. “O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, movimentando cerca de 8 bilhões de dólares por ano”, estimou o entomólogo. De olho em quem busca uma alternativa mais barata e ecológica de combater pragas, a empresa espera faturar 6 milhões de reais este ano.

Se ainda não ficaram ricos, os entomólogos brasileiros ao menos já ganharam fama internacional. Num ranking mundial de empresas inovadoras promovido pela revista americana Fast Company, os micropredadores da Bug apareceram em nobre companhia. A lista é encabeçada pela Apple, seguida por Facebook e Google. A Bug aparece num honroso 33º lugar. Empresas como Embraer ou Petrobras nem entraram na lista mundial, figurando apenas no Top 10 de companhias brasileiras.

No que depender dos entomólogos brasileiros, vem mais inovação pela frente. Para dar conta dos vastos campos de soja e cana, os pesquisadores estão testando um esquadrão de aeromodelos para lançar suas vespinhas por via aérea. Te cuida, Eike Batista.

Luiz Henrique Ligabue

Luiz Henrique Ligabue é geógrafo e jornalista.

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