questões bíblicas

Meu homem

Comecei a sair com Jesus. Mas o fato de Ele estar desempregado me incomodava. “E aí, o que você pretende fazer da vida?”, perguntei

Paul Rudnick
ILUSTRAÇÃO: BILL MAYER_2012

Uma historiadora do cristianismo primitivo da Escola de Teologia de Harvard identificou um pedaço de papiro que, segundo ela, foi escrito em copta, no século IV, e contém uma frase jamais vista em qualquer parte das Escrituras: “E Jesus lhes disse: ‘Minha mulher…’”

 The New York Times

Ótimo, agora você já sabe: Jesus era casado e eu, por muitos anos, fui feliz em atender pelo nome de sra. Carla Cristo. Conheci Jesus quando nós éramos adolescentes, em um encontro de Jovens Hebreus em Belém. Fui para lá com minha melhor amiga, Ivete de Nazaré. Já estávamos quase indo embora, cansadas ​​daqueles gordinhos ortodoxos, de camisolão e cachinhos no cabelo, que chegavam até a gente dizendo coisas tipo “espero que você não esteja menstruada, porque estou muito a fim de te pegar”…

Foi então que eu vi, do outro lado da sala, aquele cara liiiiindo, com cabelão solto, uma túnica básica, de linho branco, balançando suavemente ao som da música, de olhos fechados, totalmente no ritmo, o que me impressionou ainda mais porque a banda era formada por dois velhinhos apertando uma cabra. Eu não conseguia tirar os olhos dele, mesmo depois que a Ivete disse: “Eu sei quem é esse cara. Ele se chama Jesus e não tem emprego.” Nesse momento Jesus abriu seus olhos azuis deslumbrantes e olhou para mim. Eu disse para a Ivete: “Acho que acabo de descobrir uma das tribos perdidas de Israel.” “Qual?”, ela perguntou. E eu: “Os louros.”

Jesus foi chegando, se apresentou e ficamos ali, batendo papo sobre uma porção de coisas, desde a maneira de guardar o sábado até a nossa compaixão pelos aleijados. Perguntei sobre a família dele, e Ele disse: “Meu pai é carpinteiro.” Senti meu rosto queimar, porque na mesma hora pensei: “Que bom, uma mesa de cozinha nova!”

 

Depois desse dia comecei a sair com Jesus. Mas o fato de Ele estar desempregado começou a me incomodar, e certa noite perguntei: “E aí, o que você pretende fazer da vida?” Ele respondeu: “Estou pensando em inventar os goim.” “Goim? O que é isso?” E Jesus disse: “Bem, sabe como é… Digamos que são judeus que saem para beber.”

Cada vez que Jesus começava a falar dessa história de inventar uma nova religião eu ficava nervosa: “Mas por quê? A Torá já não é suficiente?” Jesus olhava bem fundo nos meus olhos, sorria e então dizia baixinho: “Aquilo foi só um rascunho.” Isso me deixava mais nervosa. Até que certa tarde Jesus me obrigou a sentar em um banco de madeira bem rústica e disse: “Olha, o que eu estou falando é simples: as pessoas devem amar e respeitar umas às outras, compartilhar as bondades do Senhor e trazer paz ao mundo.” Fiquei muito atraída pela conversa, mas, ao mesmo tempo, tinha uma vozinha dentro da minha cabeça dizendo: “Não empreste dinheiro pra Ele!”

Com o passar dos meses, Jesus começou a levar mais a sério aquele negócio de divulgar sua mensagem de compaixão. Começou a atrair centenas de seguidores, e eu só ficava pensando: “Onde será que toda essa gente vai sentar? E se acabarem as amêndoas e os figos secos?” Foi aí que Jesus fez um gesto com a mão e… – não dava para acreditar, mas, eis que estava lá: um bufê completo, tipo boca-livre. Eu disse a Ele: “Incrível! Mas… eu continuo sendo uma moça judia” – e daí Ele fez outro gesto com as mãos e puf! Apareceram os guardanapos.

É claro que, como qualquer casal, eu e Jesus tínhamos nossos problemas. Eu não gostava dos amigos dele, principalmente de Judas. Ele vivia dizendo que era o manager de Jesus, e começou com umas ideias do tipo “que tal se todo mundo que vier para ouvir o Sermão da Montanha ganhar de graça um bonequinho de madeira de um dos apóstolos? – assim vão voltar sempre, para ganhar a série toda”. Ou então: “E se Jesus fizer um rabo de cavalo?”

 

Nessa altura eu já estava namorando Jesus havia sete anos. Minhas amigas só viviam perguntando: “E aí? Quando é que Ele vai te fazer o pedido?” Também diziam coisas do tipo: “Quem sabe Jesus ia gostar mais de você se você não pudesse andar.” Um dia tomei coragem e falei para Ele: “Gato, você pode se tornar um facho de luz divino para a humanidade ou pode se casar comigo e começar a pensar em cair fora da manjedoura dos seus pais.” Por um instante Jesus pareceu desanimado, mas de repente começou a reluzir cada vez mais intensamente. Pegou então a minha mão e disse, bem sério: “Nós podemos ter as duas coisas! Quero que você seja minha mulher!” A resposta me encheu ainda mais de coragem para perguntar: “Mas… e Maria Madalena… como fica?” E Jesus foi taxativo: “Isso é coisa do passado.”

Nós nos casamos em uma cerimônia simples no deserto, só para os íntimos, celebrada por um rabino e um outro que Jesus chamou de “ministro batista”. Logo antes dos votos de fidelidade, o rabino cochichou para mim: “Pense bem no que está fazendo! Seus filhos vão ser meio goim!”

Mas, na festa do casamento, em um oásis lindo, Jesus conquistou totalmente a minha família ao curar meu primo Zeca da Galileia, que teve furúnculos a vida inteira. É verdade que minha tia Ruth, ao ver o Zeca curado, não se conteve: “Bom, ele também tem piolhos…”

Durante os anos seguintes acompanhei Jesus em suas viagens de aldeia em aldeia, espalhando a palavra de Deus a todos que quisessem ouvir. Eu dizia a mim mesma: “Deixa ele desabafar, botar tudo para fora.” Até que chegou o dia fatídico. Foi durante um jantar, em uma pousada das redondezas, com todos os apóstolos reunidos. Eu testava uma nova receita de bolinhos sem fermento. “Estão uma delícia!”, disse Judas, o que me deixou desconfiada, porque, sinceramente, você já provou bolo sem fermento? Daí Jesus anunciou que alguém daquela mesa iria traí-lo – eu estava em pé, bem atrás de Judas, e fiquei apontando para ele, fazendo mímica para dizer: “É esse aqui! Acorda!” Jesus, no entanto, tinha me dito em particular que desconfiava de Lucas, e quando perguntei por que, Ele falou: “Porque quando eu contei para ele aquela minha ideia de dar a outra face, Lucas disse: ‘Mas não ficaria mais forte dizer logo: Vire a cara, sua vadia?’”

 

Bom, aconteceram coisas terríveis, e quando eu finalmente tive autorização para visitar Jesus na prisão, implorei para que Ele abandonasse essas crendices para escapar dali com vida. Mas ele não quis – isso simplesmente não fazia parte da personalidade dele. Então eu falei: “Eu te amo muito… mas você sempre tem que ter razão em tudo.”

Poucos dias depois, Jesus morreu. Eu estava sentada na nossa cabana, me acabando de tanto chorar, quando a porta se abriu e… bingo! Lá estava Ele. Claro, a primeira coisa que eu pensei foi: calma, quem sabe ele tinha um irmão gêmeo… Mas ele me beijou e disse: “Sou eu mesmo, eu morri e agora voltei, mas é só por hoje.” Eu fiquei tão zangada, magoada e confusa com tudo que tinha acontecido, que comecei a esmurrar o peito dele e a gritar: “JESUS CRISTO, VOCÊ ESTÁ PENSANDO O QUÊ?”

Depois que ele foi embora de vez, descobri que Marcos, Mateus e os outros tinham ciúmes do nosso casamento. Apagaram-me dos primeiros evangelhos, que foram chamados de Jesus Só, Messias Solteiro e Bando de Bravos. E aquele pedacinho de papiro era, na verdade, uma ficha de anotações de Jesus, dos seus tempos de iniciante, quando fazia comédia de rua. Era um texto de abertura para um daqueles esquetes, “Esterzinha e a Turma de Purim” e “Abraão e o Reizinho”. A frase “Jesus lhes disse: ‘Minha mulher…’” era só o começo de uma piada, que continuava na ficha seguinte: “… é tão gorda que…” Você pode imaginar o resto.

Paul Rudnick

Paul Rudnick é roteirista, jornalista e humorista americano.

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