chegada

Milicos e milícias

Notas sobre uma foto de 2018 e o Brasil atual

Fernando de Barros e Silva
Cena da intervenção militar no Rio: hoje, o interventor está no governo que protege Queiroz
Cena da intervenção militar no Rio: hoje, o interventor está no governo que protege Queiroz

Num texto escrito no final dos anos 1970 para o público norte-americano, em que fazia um balanço das tendências da ficção brasileira recente, Antonio Candido a certa altura se refere ao escritor José J. Veiga. Os contos de Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), livro de estreia do autor, são marcados “por uma espécie de tranquilidade catastrófica”, diz o crítico. O ensaio, intitulado A Nova Narrativa, foi reunido em A Educação pela Noite, volume que Candido lançou em 1986.

“Tranquilidade catastrófica” é daquelas expressões que nos agarram. Mais do que um achado, tem força de epifania. A síntese paradoxal encontrada por Candido para caracterizar o traço insólito na literatura de José J. Veiga parece iluminar ao mesmo tempo, de várias maneiras, o absurdo do país – ou a maneira brasileira de viver seus absurdos. Não me refiro especificamente aos dias que correm. Jair Bolsonaro injetou caos na catástrofe. Há mais redundância do que paradoxo na tragédia atual. Vivemos tempos de insanidade catastrófica.

Registrei a foto desta página com meu celular no dia 3 de abril de 2018, na orla de Ipanema. Cerca de um mês e meio antes, em 16 de fevereiro, o então presidente Michel Temer havia decretado intervenção federal no Rio de Janeiro; na noite de 14 de março, quase um mês depois, Marielle Franco foi assassinada. São fatos, até onde se sabe, sem conexão entre si, mas que exprimiam, conforme se dizia na época, o colapso da segurança pública na capital fluminense. Exprimiam, além disso, algo que meses depois ficaria escancarado: milicos e milícias se encontraram na pororoca do governo Bolsonaro, na qual o país hoje se debate enquanto morre afogado. Pororoca, a propósito, vem do tupi – significa “estrondo”.

Voltemos à mansidão do mar de Ipanema naquela tarde de abril. Era a primeira vez que eu via os militares desde o início da intervenção. Foi como se 1964 tivesse se materializado na minha frente. O Exército não podia estar ali, óbvio. Ao mesmo tempo, como as palmeiras e o mar, os militares pareciam fazer parte da paisagem. Não estavam propriamente em ação. Dentro dos jipes ou recostados nos carros, alguns permaneciam sob a sombra das árvores; mais adiante, outros três, de costas para a cidade e voltados para o mar, davam a impressão de jogar conversa fora, distraídos.



Há na imagem elementos que só processei depois. Um deles é a cabeça da estátua encoberta de Tom Jobim, com o violão sobre o ombro, atrás do caminhão. A escultura foi inspirada numa foto do compositor quando jovem, tirada durante a construção de Brasília, numa viagem que fez a convite de Juscelino Kubitschek. Ali, na figura em bronze de Jobim, é como se estivessem reunidas a promessa de felicidade da bossa nova e a utopia modernista de Brasília, ambas desfeitas pelo golpe militar, do qual aqueles jovens de verde-oliva, a poucos metros do maestro (que eles provavelmente desconheciam), eram os herdeiros remotos e involuntários.

 

Há ainda o caminhão em cima da calçada, com areia, pedras e ferramentas na carroceria, como a sinalizar que alguém ali está trabalhando, que algo está sendo construído ou reparado – só não sabemos o quê. Por ironia, na lateral do veículo está estampado o que parece ser um anúncio do Globo. Trata-se, na verdade, do logotipo da empresa Globo Construções e Terraplanagem. A mim, de qualquer forma, a semelhança remeteu imediatamente ao editorial que o jornal carioca havia publicado no dia seguinte ao anúncio da intervenção militar. “Decisão inevitável”, cravava o título. Na conclusão do texto, o ghost-writer da família Marinho não deixava dúvidas sobre o ânimo que o movia: “Serão necessárias ações efetivas na cidade, no estado e nas fronteiras, numa intensidade ainda não vista. A intervenção irá até 31 de dezembro. Talvez seja pouco.” Vale a pena ler de novo, em itálico: Talvez seja pouco. Não sei se dessa vez o Grupo Globo se arrependeu. Talvez seja cedo.

Na véspera, o Jornal Nacional havia dedicado 35 minutos de seu tempo ao assunto. A escalada (nome que se dá aos destaques do noticiário anunciados no começo da edição) dizia o seguinte: “O Rio de Janeiro está sob intervenção federal na área de segurança. Depois da guerra do tráfico, das balas perdidas, da falta de capacidade de reação das autoridades do Rio, e depois de mais violência no Carnaval, todas as forças policiais do estado do Rio passam a ser chefiadas pelo general Braga Netto, do Comando Militar do Leste.” Destacava-se ainda na abertura do telejornal que “a medida está prevista na Constituição para situações extremas” e que o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (general Sérgio Etchegoyen) “disse que a intervenção reforça a democracia”.

Não reforçava nada, como se sabe. Mais do que um passo em falso patrocinado pelas elites, a intervenção representa um capítulo do que já chamei de acumulação primitiva do bolsonarismo. Ao empurrar os militares para o tabuleiro da política, Temer agiu por oportunismo e pusilanimidade; Bolsonaro radicalizou na mesma direção, levando as Forças Armadas para o centro do poder por convicção e por conveniência. Essa foto de 2018 é uma espécie de cartão-postal da verdadeira “ponte para o futuro” que o ex-presidente foi capaz de construir. Ela remete ao passado autoritário. Braga Netto, o festejado interventor do Rio, é hoje ministro-chefe da Casa Civil.

O governo que protege Fabrício Queiroz para salvar a própria pele é o mesmo que tem um general improvisado à frente do Ministério da Saúde, representante oficial da gestão sádica que o bolsonarismo faz da pandemia. Frederick Wassef, essa figura equívoca do submundo da advocacia, até anteontem circulava livremente pelo Planalto e pelo Alvorada, o que certamente era do conhecimento dos generais palacianos. Bolsonaro aproximou de forma inédita milicos e milícias em torno de um governo de contornos mafiosos.

O quadro político vem se deteriorando de forma acelerada. A imagem dos militares associados ao poder não está imune ao processo de erosão. Mas, salvo engano, os generais a essa altura parecem ter mais fôlego para sobreviver do que o capitão reformado. Tudo pode acontecer. O general Hamilton Mourão, por exemplo, pode ser conduzido à condição de interventor militar do país. Por vias democráticas, claro. Teríamos de volta aquela sensação da tranquilidade catastrófica. É tudo que certa elite sempre desejou para o Brasil.

Fernando de Barros e Silva

Repórter da piauí e apresentador do Foro de Teresina. Foi diretor de redação da revista entre 2011 e 2020

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