esquina

Missão patriótica

A rádio Verde-Oliva quer ensinar o país a gostar de si

Bruno Moreschi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Pontualmente, às sete da manhã, o Hino Nacional vibra no ouvido dos escassos ouvintes da Verde-Oliva FM 98.7, a primeira e única rádio militar do Brasil, sediada em Brasília. Uma vez por semana, o microfone da emissora vai a uma escola pública e de lá transmite, ao vivo, a cantoria patriótica. Para decepção dos fãs de Joaquim Osório Duque Estrada, autor da letra do hino, naquela manhã de julho os meninos trocaram retumbante por redundante, diminuindo o teor épico do povo heróico a bradar. E voltaram à farra nem bem os últimos versos chegaram ao fim.

No estúdio, ainda ao som da alegria estudantil, um locutor encorpou sua voz de saldão de eletrodoméstico e fez uma admoestação, esta, sim, inequivocamente redundante, dado que ninguém mais o ouvia: “Meninos e meninas, a dica do dia: procurem conservar as instalações da escola. Se algum danadinho fugir da regra, aproxime-se dele e o repreenda, avisando que o prédio é a extensão da nossa casa. Exército Brasileiro, ontem, hoje e sempre!” Findo o conselho, entrou a voz de Fagner com Borbulhas de Amor.

O major Raul Santos, de 42 anos, diretor artístico da emissora, dá uma saidinha do estúdio e finca os pés no pátio do Quartel-General do Exército, projeto de Oscar Niemeyer. Seu olhar se volta para uma antena plantada no horizonte longínquo de Sobradinho, uma das cidades-satélite do Distrito Federal. De Sobradinho, as ondas eletromagnéticas recebidas do QG se espalham sobre a nação. Pelo menos, é esse o sentimento mais íntimo do major. Ou, no mínimo, o seu desejo mais recôndito. Santos é de fato um dramático: a emissora ainda é pequena e nem sequer atende Brasília inteira. Perto do aeroporto, por exemplo, a freqüência se mistura com uma rádio evangélica, e o ouvinte, confuso, se vê exposto a Jesus e Deodoro indiscriminadamente.

A Verde-Oliva ocupa três salas do Centro de Comunicação Social do Exército e completou seis anos em junho. O aniversário foi comemorado com brindes atraentes, de celulares a televisões. Nem por isso se diria que a nação já se habituou a uma rádio cuja missão consiste em disseminar o patriotismo. Por vezes, certo constrangimento é inevitável.



Na manhã de 8 de julho, a telefonista Rosângela de Assis foi confrontada com um desses descompassos. Ela recebeu uma ligação de Paula Santos, mas não por causa da promoção. A ouvinte queria era que o austero locutor enviasse um beijo para ela e o filho Augusto César, portador de necessidades especiais. O que seria a glória para uma rádio popularesca é pesadelo para a Verde-Oliva. Rosângela buscou com os olhos o major Santos, que não estava ao alcance, e então achou consolo na imagem colada à parede: Jesus Cristo valendo-se de um microfone de rádio para falar com seus doze discípulos. Confiante no perdão do Criador, Rosângela simulou uma pane na rede e desligou o telefone.

 

Desde que assumiu a Verde-Oliva, em 2006, o major Santos mudou significativamente a estratégia da emissora. Agora tudo “é uma questão de mercado”, como ele não se cansa de repetir. Longos discursos inflamados deram lugar a anunciantes cooperativos, como Casas Bahia, Caixa Econômica Federal, Petrobras e Governo de Brasília. Com a abertura para o mercado, o objetivo de Santos é cativar o público endinheirado, que chama de AAA, AA e A. “Se o pessoal do B, C e D quiser ouvir, sem problemas. Vivemos num país democrático”, concede o major.

O conteúdo propriamente militar se concentra em programas como Bandas & Fanfarras, Verde-Oliva Entrevista, Notícias do Exército e Conexão 987. Neste último, o teor cívico se traduz em provocações à curiosidade do ouvinte: “Você sabia que o Hino Nacional é uma verdadeira aula de história e declaração de amor ao Brasil? Quem explica isso é a professora Maria Patriota.” Temas mais espinhosos, como a atuação do Exército nas favelas do Rio ou o imbróglio da reserva Raposa Terra do Sol, raramente são abordados. O major quer uma emissora serena.

Santos tem pela rádio uma dedicação notável. Como mora fora da área de cobertura, quando está em casa ele a ouve pela internet. No final do ano passado, num domingo, a emissora estava vazia. Quem comandava as ações era um computador. Às tantas, deu piripaque no hardware e Djavan começou a gaguejar: “Amar é um deserto e seus temoresmoresmoresmores…” Em questão de minutos, Raul Santos vestiu a farda — por respeito ao trabalho e ao Exército —, rasgou as ruas largas da capital federal na carreira, invadiu os estúdios e pôs no ar a fita de emergência. Assaltou-o o sentimento de dever cumprido.

Afora os programas sobre e para o Exército, o major criou outros, quase sempre na hora do banho, quando se inspira cantarolando sucessos da música popular brasileira. A seu juízo, alguns títulos são de uma sonoridade ímpar: Sabor Brasileiro, de música na hora do almoço; Primeira Página, matutino em que o locutor lê manchetes de jornais e reproduz matérias da internet; Fim de Tarde, uma hora de música internacional; e Ritmos da Música, misto de canções românticas com dicas culturais garimpadas pelo melhor locutor da rádio, o paisano Paulo Caixeta.

Os programetes de cinco minutos também foram criação do major, que os define como “pequenas obras-primas para um público bem definido”. Uma Lição com Professor Marins serve aos que buscam mensagens motivacionais. O Painel Econômico, para investidores, transmite siglas e cotações do dia sem maiores complicações de contexto. Verde-Oliva Mulher é dirigido ao difícil público feminino, em geral avesso às questões militares. Já o público-alvo de Linha do Tempo é menos nítido. Seu locutor poderá dizer: “Há 909 anos, cristãos europeus chegavam a Jerusalém, na primeira das muitas cruzadas. Quando avistaram a cidade sagrada, deram de cara com muçulmanos maldosos rindo de suas caras.” Tendo passado tal informação, ele concluirá: “Hoje é o Dia do Padeiro e também da Bandeira do Rio de Janeiro.”

Quando criança, o major Raul Santos não brincava de mocinho e bandido, mas de locutor. Desde cedo sua ambição foi espalhar civilidade e patriotismo pelo país. Hoje, para isso, conta com uma equipe de seis civis e três militares e aguarda a ampliação da torre de Sobradinho. “No período em que o Exército esteve no poder”, analisa, “durante a ditadura, esquecemos de informar a população, e deu no que deu.” A frase soa ambígua, já que o Brasil acabou virando uma democracia. O major acredita que se na época a Verde-Oliva estivesse no ar, empenhada em explicar as razões militares ao povo, teríamos hoje mais apreço pela instituição e mais amor à pátria. No mínimo, a meninada não confundiria brados retumbantes com brados redundantes.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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