poesia

Morreremos sós

E o vento, lá fora, calou-se para sempre

Manuel de Freitas
ILUSTRAÇÃO: SILVIO PEQUENO

SALVE REGINA                                                                                                                                               para a Inês

“Isto já não tem melhoras” – acabou
por nos dizer Zulmira, referindo-se
à sua perna atropelada, à vida,
ao filho que há três anos lhe mataram,
embora se chamasse Epifânio.

E ficou assim, completamente sozinha,
deusa rude e resignada que veio
dos campos servir vinhos e cervejas
a uma “freguesia” que foi, em tempos,
tão imensa como é agora a sua solidão.

Uma quase mansa solidão, se virmos bem,
uma tristeza sem lágrimas, uma sabedoria
que se volta a confundir com o azul forte das paredes,
com o seu nome último e inquebrantável,
a “passar o tempo” entre os muros deste reino.



Tem agora a mesma idade que Maria,
abre só para ti uma garrafa de ginja
e assiste calmamente ao fim do mundo.

 

26 DE NOVEMBRO DE 2009
para a Adília Lopes

Com ou sem Deus,
com muitas, poucas ou nenhumas fodas,
em jejum retórico ou em pleno excesso,
com as mãos sujas ou lavadas
diante do rosto que não quisemos ter,

On mourra seul

e o vento, lá fora,
calou-se para sempre, Marianna.

 

RUA DA ATALAIA
para o Rui Pires Cabral

Trazemos no fundo do casaco
algumas canções usadas
– e achamos, por vezes, que
é para nós que as estrelas brilham,
entre prédios demolidos e amores também.

Acabamos, mais cedo ou mais tarde,
por acreditar no silêncio.
A felicidade, para outros, continua válida.
Mas disso, obviamente, nada podemos saber.

 

APENAS ISSO
para a Renata Correia Botelho

Uma folha rubra, como talvez só
possa haver em São Miguel,
marcava a página vinte e sete,
fazia menos escuros os meus versos.

E é sempre apenas isso: uma
maneira frágil de desobedecer à morte.

 

AVENIDA GUERRA JUNQUEIRO
para o Rui Miguel Ribeiro

Uma cerveja, uma esplanada, pombas
rondando os magros arbustos
– uma espécie de serenidade, intocável.
Penso como seria diferente este preciso momento
se me tivessem internado durante um mês,
à mercê de exames e de uma firme promessa
de morte.

Penso que nunca tive um melanoma, uma cirrose,
uma hérnia no estômago, essas coisas
por que passaram alguns amigos meus.
E lembro-me de uns versos de Emily Dickinson
muito parecidos com a luz forte de Lisboa.

Penso que tenho, afinal,
um inferno pequeno
mas verdadeiro
por ser, como o vosso, mortal.

 

SUB ROSA
para o Herberto Helder

Não somos os últimos, pois se
há coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.

Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.

As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixámos de escutar.

Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza.

 

GRÉMIO LISBONENSE
para o Vítor Nogueira

É quase Natal. Deram luz, graça
e esplendor às velhas paredes do Grémio,
como se ele ainda existisse e Lisboa, esta cidade,
não morresse quase tão depressa como nós.

 

SUPERMERCADO
para a Ana Paula Inácio

Tenho 38 anos e sei finalmente o que
quero. Basta olhar para o cesto
de compras: bolachas Leibniz, papel
higiénico Renova, leite com chocolate
Agros, uma garrafa de Famous Grouse
e pelo menos seis latas de Super Bock.
Discos já tenho que cheguem, por muito
que me desminta, e não viverei o suficiente
para ler todos os livros que me ocuparam a casa.

É um bocadinho banal, eu sei, mas é a minha
prestação diária enquanto consumidor, o meu fado
simples, enxuto, quase isento de lágrimas & remorsos.
Acordo para almoçar no Doce Lindo (ou Doce Belo,
ainda

não houve rotina que me fizesse decorar o nome),
passo pelo supermercado, onde desejo ou nem
por isso

todas as ternas e voláteis isildas deste mundo perfeito
– e volto a subir devagar as escadas de madeira rombas.

Só muitas horas depois, quando as luzes
me garantem que o bairro inteiro dorme,
escrevo poemas como este, versos em que
inutilmente vos digo que sou um homem feliz,
un roseau pensant, o mais belo cadáver de Lisboa.

 

TEMA SEM VARIAÇÕES
para o Manuel de Freitas, mon semblable

Sempre soubeste: a morte.
Sempre sentiste: a morte.
As tabernas, fechadas, eram
apenas uma espécie de refrão.

Mas isso, terás de convir,
não desculpa o facto
de andares há vinte anos
a escrever o mesmo.

Faz como as tabernas: cala-te.

Manuel de Freitas

Manuel de Freitas, poeta, crítico literário português e editor da revista Telhados de Vidro, é autor de A Nova Poesia Portuguesa e A Noite dos Espelhos.