despedida

Morte por encomenda

A eutanásia desnecessária em bichos de estimação

Mônica Manir
ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2019

“Tem a Jade, que ficou feia. A Chiquinha, que ficou velha. O Billy, que ficou diabético. E o Joca, que ficou sem olho.” Como num jogral, as amigas Thelma de Oliveira e Célia Gondim alternam histórias de bichos que salvaram da morte nos últimos cinco anos. Com a maltês Jade se deu assim: em virtude de uma infecção na boca, a cadela perdeu a mandíbula depois de uma cirurgia. Até engolia normalmente, mas seu perfil de Noel Rosa desagradou à dona (ou tutora, como preferem os defensores da causa animal). A pinscher Chiquinha envelheceu e se tornou ranzinza. O maltês Billy exigia doses diárias de insulina após a retirada do baço. Já o shih-tzu Joca sofreu uma infestação de larvas de mosca-varejeira no olho direito e o perdeu.

Nenhum tinha o bem-estar comprometido de maneira irreversível nem ameaçava a saúde pública ou a fauna nativa. Tampouco exigia tratamento incompatível com os recursos financeiros dos tutores. De acordo com as normativas éticas do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), nada justificava a injeção letal que os bichos estavam prestes a receber. Sob a ótica de seus tutores, porém, os quatro cães haviam se transformado num peso morto. Eram, assim, candidatos à eutanásia por conveniência, termo comum entre veterinários, ativistas e estudiosos do assunto. “A tutora do Billy mandou dar banho nele e tosá-lo antes de reivindicar a injeção. Achou que, desse modo, ia pesar menos na consciência?”, pergunta Gondim, rosnando de indignação.

Sexagenárias, as amigas moram no bairro da Aclimação, em São Paulo. Gondim vive num apartamento de 70 metros quadrados com sete cachorros de pequeno porte e quatro gatos. Já Oliveira reúne sua prole – oito cães médios e grandes, um felino e um papagaio – num sobrado seis vezes maior. É na cozinha dela que a dupla narra a série de resgates que protagonizou em clínicas, hospitais e canis. Quase sempre foram escaladas por veterinários que tentavam impedir a morte dos animais antes de aparecer um médico que aceitasse fazer o serviço.

No roteiro mais frequente, o tutor chega com o bicho à clínica e vai tateando. “Dizem que o cachorro ou gato se perde, cai, faz xixi fora do lugar, necessita de remédio todo dia, não está legal, parece sofrer. Então perguntam: será que a gente não podia deixar o pobrezinho descansar?”, conta Bruno Rigobello, veterinário do hospital paulistano VetMétodo e um dos responsáveis pela ONG Instituto Amor em Patas. “Descanso” é um eufemismo comum para a morte assistida.



Embora seja difícil precisar quantas eutanásias por conveniência ocorrem tanto no Brasil como no mundo ou encontrar profissionais que admitam praticá-las, o assunto vem provocando cada vez mais revolta. No ano passado, viralizou nas redes sociais a história de um homem em Indiana, nos Estados Unidos, que solicitou a um veterinário a morte do pointer Sam e do labrador Cosmo. A nova mulher do tutor tinha alergia aos cães que o marido herdara do casamento anterior. Saudáveis, os bichos acabaram salvos pelo próprio médico, que acionou a Begin Again Rescue Co. (Barc), instituição sem fins lucrativos que resgata cachorros abandonados ou em perigo. Mais recentemente, em maio, o apelo dos “vets” revelou-se em vão: também nos Estados Unidos, só que na Virgínia, uma shih-tzu chamada Emma sofreu eutanásia porque a tutora, que morrera dois meses antes, deixou explícito o desejo de ser enterrada com a cadela.

A experiência de Rigobello demonstra que os animais de raça se veem mais ameaçados que os vira-latas. “Certas raças têm predisposição a distúrbios cardíacos, outras enfrentam inflamações na pele. Se os pets desenvolvem algum problema no coração ou manifestam dermatite e começam a cheirar mal, há tutores que simplesmente os rejeitam.” O veterinário afirma que, quando alguém está decidido a fazer um animal “descansar”, é difícil demovê-lo da ideia. Até porque não é nada fácil doar bichos idosos ou doentes crônicos.

O médico que realiza eutanásia por conveniência está sujeito a punições. O CFMV pode impedi-lo de exercer a profissão durante noventa dias. Já a Justiça pode condená-lo por infringir a lei de crimes ambientais, que proíbe os maus-tratos a animais “silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”. Nesse caso, a pena oscila de 45 dias a 1 ano e 4 meses de reclusão – a mesma a que estaria sujeito o tutor do bicho, já que seria partícipe do crime.

 

Depois do resgate de Jade, Chiquinha e Billy, Célia Gondim os levou para casa e cuidou deles até que morressem “de morte morrida”. Para não virar “uma acumuladora de animais”, doou Joca à estudante de enfermagem Cristiani Rovigatti Barbosa, que mora numa casa térrea no bairro paulistano de Pirituba. A nova tutora o agregou à sua família de dois rottweilers, uma vira-lata e outra shih-tzu, recuperada de um canil clandestino.

Joca agora se chama Théo. Na casa de Pirituba, deitado sobre um tapete de crochê perto do fogão, implora por atenção com um brinquedo na boca. Às tantas, vai para o quintal. Na volta, não consegue subir os dois degraus que levam à cozinha porque está acima do peso. Tem de ser colocado numa rampa que a estudante construiu especialmente para o cachorro. “Assim o Théo se sente mais seguro.”

Ela conhece bem a gravidade de uma infestação como a que afligiu o bichinho. A sheepdog Priscila, de sua sogra, sofreu do mesmo problema. “Não consigo entender como o ex-tutor do Théo não percebeu a evolução do quadro, ainda mais no rosto.” Há um mês, Barbosa desabou quando uma vizinha pagou 180 reais pela morte assistida do próprio gato (o valor médio de uma “eutanásia por necessidade” é de 300 reais para um animal de até 15 quilos). “Ele havia perdido os movimentos das patas traseiras e ficado com incontinência urinária porque alguém o espancou. Era um gato especial, um ‘fraldinha’, como costumamos falar. Ia dar gasto? Ia, mas eu e outros ativistas tínhamos nos comprometido a ajudar nas despesas.” A estudante arruma o lenço que enfeita o pescoço de Théo e, imitando a voz de uma criança, diz: “Eu gostaria que meu ex-tutor soubesse que estou vivo, né, mamãe? Olha a eutanásia aqui.”

Mônica Manir

Jornalista com mestrado e doutorado em bioética

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