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Múmias da classe C

Peças adquiridas por imperadores para o Brasil são de emergentes egípcios

Rafael Cariello
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

No início de 1826, a nau de bandeira francesa Gustave Annce zarpou de Marselha, no Mediterrâneo, tendo como destino a cidade de Buenos Aires. Entre os passageiros da longa travessia oceânica constava um certo Nicolau Fiengo, comerciante de antiguidades italiano. Um documento da época o descreve como um homem barbado de estatura mediana, cabelos grisalhos e olhos azuis. Fiengo levava consigo cinco múmias e um generoso lote de artefatos egípcios recém-escavados às margens do Nilo. Pretendia vendê-los, com bom lucro, no Atlântico Sul.

Suas expectativas eram razoáveis. Tais objetos haviam se tornado símbolo de status para a nobreza e a nascente burguesia europeia desde a incursão militar de Napoleão Bonaparte no Egito, no final do século XVIII.

O momento escolhido pelo comerciante italiano para viajar à América do Sul, contudo, não era dos melhores. No ano anterior, as Províncias Unidas do Rio da Prata, atual Argentina, haviam iniciado uma guerra contra o Império brasileiro ao tentarem retomar a Província Cisplatina, incorporada em 1821 ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Desde abril de 1825, o imperador mandava reforços para a esquadra brasileira no rio da Prata, na tentativa de bloquear o acesso ao porto de Buenos Aires. Impedida de atracar ali, a nau francesa que transportava Nicolau Fiengo fez meia-volta e, no dia 14 de junho de 1826, veio dar na costa do Rio de Janeiro.

Dois anos depois o Brasil perderia o Uruguai. Mas ganharia as múmias. No Rio, a carga do Gustave Annce foi inspecionada por funcionários da alfândega. Após dois meses de trâmites burocráticos, as peças egípcias foram finalmente liberadas, e Fiengo as expôs no Museu Real. Instado, ao que tudo indica, por José Bonifácio, dom Pedro I adquiriu as múmias no início de 1827.

Segundo o arqueólogo Antonio Brancaglion Jr., as cortes europeias apreciavam múmias e sarcófagos como se estivessem se vendo em um espelho distorcido e envaidecedor. “Era como se dissessem: ‘Olha, somos nós, a realeza, mas no passado.’” É provável que essa tenha sido uma das motivações de dom Pedro I, ao comprá-las, e também tenha contribuído para o interesse de dom Pedro II em egiptologia.

Ocorre que as múmias hoje expostas no Museu Nacional, no Rio, não pertenciam à realeza ou à elite daquela civilização. Sob milenares faixas de linho jazem integrantes da “nova classe média” egípcia, surgida durante o segundo milênio antes de Cristo.

 

No início de agosto, teve lugar no Museu Nacional o 8o Congresso Mundial de Estudos em Múmias. Dezenas de pesquisadores apresentaram seus trabalhos em dois auditórios próximos à entrada da Quinta da Boa Vista, na Zona Norte do Rio.

No segundo dia do encontro, sentado num banco de cimento com vista para as árvores do parque, o paulistano Antonio Brancaglion Jr. falou de sua paixão de infância. Calvo, com cavanhaque grisalho e óculos sem aro, ele é hoje o principal egiptólogo brasileiro, além de coordenador da pós-graduação em arqueologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O processo de mumificação, disse Brancaglion Jr., representava uma garantia de vida após a morte. Os egípcios acreditavam que o indivíduo era composto por seis partes distintas. O corpo físico era a mais frágil delas. Se não fosse preservado, o morto não se recomporia na etapa além-túmulo e deixaria de ter acesso à existência no outro mundo.

Tal método, contudo, era restrito ao rei egípcio – o faraó – e à sua corte até pelo menos o início do segundo milênio antes de Cristo. Foi quando começou um lento processo de “democratização” das técnicas funerárias. “A partir de 1700 a.C., o Egito vive um período de prosperidade”, contou Brancaglion. “As pessoas têm acesso a um número maior de bens, inclusive material funerário. Além disso, depois do ano 1000 a.C., a mumificação fica bem mais barata.”

Na primeira metade do segundo milênio, a prática já se estendia a uma espécie de classe média alta, composta por funcionários do Estado. “Mas a popularização maior só aconteceu no primeiro milênio antes de Cristo”, explicou Liliane Cristina Coelho, doutoranda em história antiga pela Universidade Federal Fluminense. Foi quando a classe C egípcia chegou ao paraíso. “Há documentos que registram brigas entre os mumificadores, nessa época, para ver quem pegava o serviço”, disse ela.

Os próprios egiptólogos usam os termos “democratização” e “classe média” em seus textos, sempre entre aspas. De todo modo os camponeses, que na maior parte da história representavam cerca de 90% da população egípcia, nunca tiveram acesso à técnica que lhes permitiria ir desta para melhor.

O Museu Nacional dispõe hoje de quatro múmias adultas e duas crianças. “São dessa ‘classe média’”, disse Brancaglion Jr. Uma delas, uma cantora sacerdotisa, foi recebida como presente por dom Pedro II em viagem à terra dos faraós. Há outros dois prováveis sacerdotes, do lote comprado pelo primeiro imperador. No livro de divulgação Egito Antigo, o historiador Paul Johnson conta que mesmo o sacerdócio, com o tempo, se democratizou. “Durante o primeiro milênio, os sacerdotes andavam em volta dos templos aos magotes, oferecendo visitas guiadas, contando histórias, vendendo amuletos.”

Talvez os sacerdotes de classe média aprovassem o método de “carnê” usado para a sua compra. Segundo o arqueólogo Moacir Elias Santos, que pesquisou a viagem de Nicolau Fiengo, dom Pedro pagou pelo lote em três prestações, divididas em parcelas que venceram depois de seis, onze e dezoito meses da aquisição.

Santos lembrou que múmias de faraós, as legítimas, só são encontradas no Egito. Mas há peças de representantes de altos estratos sociais espalhadas pela Europa e nos Estados Unidos. As múmias latino-americanas – há exemplares no Uruguai e no Chile – são em geral de classe média. Até os argentinos acabaram tendo a sua pequena coleção de mortos egípcios. “Nem esse consolo temos, então, da Guerra Cisplatina?”, perguntei. Santos protestou. “Ah, não. As múmias da Argentina são mais pobres do que as nossas.”

Rafael Cariello

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

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