ficção

Murphy

Agora, escute: qualquer que seja a razão que o impede de amar à minha maneira e, acredite em mim, não há outra... pela mesma razão, seja ela qual for, o seu coração é como é. E mais uma vez pela mesma razão...

Samuel Beckett
ILUSTRAÇÃO: ANJO E BONECO 2 (GEPETO)_NUNO RAMOS_2013_GUACHE SOBRE PAPEL_FOTO DE EGBERTO NOGUEIRA

O sol brilhava, sem alternativa, sobre o nada de novo. Murphy, como se fosse livre, dele se escondia, sentado, num pombal de West Brompton. Aqui, por um tempo que já poderia ser uns seis meses, havia comido, bebido e dormido, se vestido e despido, numa cela de tamanho médio, face noroeste, descortinada para outras celas médias, face sudeste. Logo, teria de arrumar outro arranjo, pois o pombal acabava de ser condenado. Logo, teria que reaprender a comer, beber e dormir, a se vestir e despir, noutra vizinhança, completamente desconhecida.

Estava sentado, nu, em uma cadeira de balanço, feita de teca natural, garantida contra rachaduras, deformações, encolhimento, corrosão ou estalos noturnos. Era dele mesmo, a cadeira, não o abandonava jamais. O canto que escolhera estava ao abrigo do sol, o pobre velho sol, de novo na casa de Virgem, pela bilionésima vez. Sete echarpes garantiam sua posição. Duas amarravam as tíbias às basculantes da cadeira, uma suas coxas ao assento, duas o peito e a barriga ao encosto, outra seus pulsos às travas do encosto. Apenas movimentos muito localizados, mínimos, eram possíveis. O suor, brotando por todos os poros, apertava ainda mais os nós. A respiração, imperceptível. Seus olhos, frios e estáticos, como os de uma gaivota, fixavam-se num reflexo iridescente sobre a moldura de gesso do teto, cada vez menor e mais desbotado. De alguma parte, os badalos de um relógio cuco, entre vinte e trinta, misturavam-se ao eco de um pregão de rua, que agora entrava, distinto, pelo cubículo, repetindo quid pro quo! quid pro quo!

Havia visões e sons de que Murphy não gostava. Prendiam-no ao mundo do qual faziam parte, mas não ele, como gostava de sonhar. Muito de leve, imaginou o que estaria decompondo a luz do sol e quais mercadorias estariam sendo anunciadas. Vaga, muito vagamente.

Estava sentado em sua cadeira desta maneira porque era um prazer imenso! Primeiro, dava prazer ao corpo, apaziguava seu corpo. Depois, libertava-o em seu espírito. Pois, só quando o corpo estava apaziguado, ele podia começar a viver no espírito, tal como descrito na seção seis. E a vida que levava no espírito lhe dava prazer, um prazer tamanho que prazer não era mais a palavra certa.

 

Murphy tinha estudado recentemente com um sujeito de Cork, chamado Neary. O dito homem, naquele tempo, conseguia parar o coração, quase que a seu bel-prazer, e mantê-lo parado, dentro dos limites razoáveis, pelo tempo que quisesse. Essa faculdade rara, conquistada após anos de treinamento, num lugarejo ao norte do Narmada, ele a exercia com parcimônia, reservando-a para situações intoleráveis ao extremo, como quando queria uma bebida e não conseguia, ou se via apanhado num grupo de gaels, sem escapatória, ou quando sentia o agulhão de uma inclinação sexual sem remédio.

O que levou Murphy a se sentar aos pés de Neary não foi a ambição de desenvolver um coração nearyano, pois tinha a convicção de que este se provaria fatal para um homem de seu temperamento, mas o simples desejo de conquistar para si mesmo um pouco daquilo que Neary – um pitagórico, àquela altura – chamava de apmonia. Pois Murphy tinha um coração irracional, mas tão irracional que não havia doutor em medicina capaz de decifrar. Sob inspeção, palpação, auscultação, percussão, radiografias e cardiogramas, era tudo que um coração deveria ser. Tão logo abotoado e convocado a suas funções, contudo, lembrava um Petrouchka recolhido em sua caixa, ora batendo com tanto sacrifício que parecia estar prestes a parar, ora em tamanha ebulição, parecendo a ponto de explodir. Era o meio-termo entre estas duas extremidades o que Neary chamava de apmonia. Quando enjoava de chamá-lo de apmonia, chamava-o de isonomia. Quando não podia mais ouvir falar de isonomia, chamava-o acorde. Mas, desse-lhe o nome que quisesse, não havia meio de fazê-lo adentrar o coração de Murphy. Neary era incapaz de conciliar os contrários no coração de Murphy.

A despedida dos dois foi memorável. Neary saiu de um de seus sonos de morte e disse:

– Murphy, a vida não é mais que figura e fundo.

– Uma volta para casa às escuras – disse Murphy.

– O rosto – disse Neary – ou sistema de rostos, contra a imensa e ruidosa confusão em expansão. Penso na srta. Dwyer.

Murphy teria pensado na srta. Counihan. Neary cerrou os punhos, erguendo-os à altura da face.

– Ganhar a afeição da srta. Dwyer – disse –, nem que por apenas uma mísera hora, me faria um bem infinito.

As juntas saltavam sob a pele pálida e estendida como de costume – eis a posição. Em seguida, as mãos se abriam, muito conforme o esperado, na extensão máxima de sua possibilidade – eis a negação. Parecia então a Murphy que havia dois modos igualmente legítimos de dar o gesto por concluído, efetivando a superação. As mãos poderiam ser levadas à cabeça, num gesto vivo de desespero, ou abandonadas ao longo do corpo, pensas, junto ao cós da calça, supondo ter sido esse o ponto de partida delas. Avaliem então seu desapontamento quando Neary voltou a crispá-las, com maior violência ainda, esmurrando brutalmente o próprio peito.

– Meia hora – disse –, quinze minutos.

– E depois? – perguntou Murphy. – De volta a Tenerife, e os macacos?

– Você pode rir – disse Neary –, pode até escarnecer, mas a verdade é que, pelo menos por ora, tudo que não seja srta. Dwyer é escuma. A única figura fechada na vastidão vazia e sem forma! Meu tetraktys [1]!

Dessa ordem era o amor de Neary pela srta. Dwyer, que amava um certo tenente-aviador Elliman, que por sua vez amava uma srta. Farren de Ringsakiddy, que amava um certo reverendo Fitt de Ballinclashet, que no fundo de sua sinceridade era forçado a admitir certa inclinação por uma sra. West de Passage, que amava Neary.

– O amor correspondido – disse Neary – é um curto-circuito – deixa que disparou um corisco de centelhas.

– O amor que levanta os olhos – disse Neary – em meio aos maiores tormentos; que implora pela ponta do dedo mínimo dela, mergulhado em laca, para aplacar a secura de sua língua, esse amor você não conhece, Murphy, acho eu.

– Grego – disse Murphy.

– Ou, dito de outra forma – disse Neary –, a mancha única, brilhante, organizada e compacta em meio ao tumulto da estimulação heterogênea.

– Mancha é a palavra certa – disse Murphy.

– Exato – disse Neary. – Agora, preste atenção ao seguinte: qualquer que seja a razão que o impede de amar… mas existe uma certa senhorita Counihan, não é, Murphy?

De fato havia uma senhorita Counihan.

– Agora, suponhamos que pedissem que você definisse a sua, digamos, relação com esta senhorita Counihan, Murphy – disse Neary. – Que me diz, Murphy?

– Precordial – respondeu Murphy –, mais que cordial. Exausta. Condado de Cork. Depravada.

– É isso – disse Neary. – Agora, escute: qualquer que seja a razão que o impede de amar à minha maneira e, acredite em mim, não há outra… pela mesma razão, seja ela qual for, o seu coração é como é. E mais uma vez pela mesma razão…

– Seja ela qual for – disse Murphy.

– Não posso fazer nada por você – disse Neary.

– Deus tenha piedade de mim – disse Murphy.

– Exato – disse Neary. – Diria que seu conarium [2] encolheu até virar pó.

 

Impulsionou a cadeira ao máximo, depois se deixou balançar. Lentamente o mundo se apagou, o grande mundo onde quid pro quo era apregoado como mercadoria e a luz nunca se apagava duas vezes, nunca da mesma forma, em favor do pequeno (tal qual descrito na seção seis), onde podia amar a si mesmo.

Bruscamente, a um palmo de sua orelha, o telefone irrompeu num grito estridente. Tinha se esquecido de tirar do gancho. Se não atendesse de uma vez, sua senhoria viria correndo para fazê-lo, ou algum outro locatário. E então seria descoberto, porque a porta não estava trancada. Não havia como trancar a porta. Era um quarto estranho, a porta caindo dos batentes e, ainda assim, um telefone. Parece que a última ocupante tinha sido uma prostituta, já longe de seus melhores dias, dias escarlates. Se ela achara o telefone útil no seu apogeu, na decadência, passou a tê-lo como indispensável. Porque os únicos trocados que fazia era quando um cliente dos velhos tempos telefonava. E assim sentia-se indenizada por aquela inconveniência dispensável.

Murphy não conseguia soltar a mão. Esperava ouvir, a qualquer momento, os passos apressados da senhoria na escada, ou de algum outro locatário. A campainha estridente e alta do telefone fazia pouco dele. Por fim, liberou a mão e apanhou o receptor, que, na agitação, levou à altura do ouvido em vez de atirá-lo ao chão.

– Ao diabo que te carregue – disse.

– Ele já está cuidando disso – ela respondeu. Celia.

Estabanado, apoiou o receptor sobre o ventre. A parte de si que odiava ansiava por Celia, a parte que amava se arrepiava toda só de lembrar dela. A voz soprava um lamento distante contra a sua carne. Resistiu um pouco, depois pegou o receptor e disse:

– Você não vai voltar nunca?

– Está comigo.

– E eu não sei? – disse Murphy.

– Não é isso – ela disse –, estou falando do que você disse que…

– Sei do que você está falando – disse Murphy.

– Me encontre no lugar e na hora de sempre – ela disse. – Estará comigo.

– Não será possível – disse Murphy. – Estou esperando um amigo.

– Você não tem amigos – disse Celia.

– Na verdade – disse Murphy –, amigo, amigo, não é; é um velho divertido que conheci outro dia.

– Até lá, você se livra dele – disse Celia.

– Não será possível – disse Murphy.

– Então, levo à sua casa – disse Celia.

– Não faça isso – disse Murphy.

– Por que você não quer me ver? – perguntou Celia.

– Quantas vezes tenho que repetir… eu…

– Escute aqui – disse Celia –, não caio nessa de velho divertido. Não existe um animal desta espécie.

Murphy não disse nada. A parte de si que ele tentava amar estava cansada.

– Vou ao seu encontro às nove – disse Celia –, e vou levar comigo. Se você não estiver aí…

– Certo – disse Murphy. – E se eu precisar sair?

– Adeus.

Ficou ouvindo por um instante a linha morta, deixou o receptor cair no chão, voltou a amarrar a mão à trava do encosto, impulsionou a cadeira. Pouco a pouco, sentiu-se melhor, movendo-se em seu espírito, na liberdade de uma luz e de uma escuridão que não colidem, nem se alternam, que não esmaecem, nem revivem, exceto para sua comunhão, tal como descrito na seção seis. A cadeira ia e vinha, cada vez mais rápido, o reflexo iridescente se fora, o pregão também, logo seu corpo estaria tranquilo. A maior parte das coisas sob a lua ralentava, mais e mais, até a imobilidade, o vaivém ficava cada vez mais rápido, cada vez mais curto. Logo seu corpo estaria quieto, logo ele estaria livre.

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NO MUNDO DE MURPHY
FÁBIO DE SOUZA ANDRADE

Murphy, o “solipsista exausto”, “nascido aposentado”, surgiu em meio às tardes londrinas peripatéticas do dublinense Samuel Beckett, que, de 1934 a 1936, dividiu-se entre as sessões de análise com um jovem membro da clínica Tavistock, Wilfred Bion, e uma enxurrada de leituras, muita filosofia – pré-socráticos, Kant, Geulincx, Schopenhauer, sempre – e muita literatura inglesa, já que no Trinity College sua formação tivera por eixo principal os franceses e os italianos.

Sem emprego, sem glória e, principalmente, sem salário, Beckett lidava então com uma série de aflições psicossomáticas, como taquicardia, crises de pânico, cistos recorrentes, e procurava administrar – longe da Irlanda natal e do brouhaha parisiense amigo da École Normal e do círculo joyciano – tanto a turbulência interior quanto os conflitos com a mãe que cobrava como nunca estabilidade do escritor de talento, mas ainda não estabelecido e já quase na casa dos 30.

O livro, cujas provas Beckett reviu apenas em janeiro de 1938, quando, de volta a Paris, agora em definitivo, recuperava-se no Hôpital Broussais da facada que levou de um morador de rua, é um tributo paródico, incrivelmente engraçado e erudito, à tradição da prosa satírica que, remontando ao antigo menipeu, costura Rabelais, Lawrence Sterne, Henry Fielding, Flaubert e o incontornável Joyce, às obsessões beckettianas; a solidão, a incomunicabilidade, a falha, a linguagem. Um Beckett surpreendentemente prolixo, quase barroco para os seus futuros padrões, mas já cético e ironista incansável deste movimento expansivo, imperialista, da literatura, da razão, dos sistemas.

Antecipando uma longa cadeia de desencontros – entre o corpo e o espírito, entre os afetos e as palavras, entre o aparato erudito mobilizado e seu efeito cômico, dos personagens entre si –, somos apresentados de chofre ao personagem-título, Murphy, por uma abertura memorável. Num quarto de pensão fuleiro, situado no subúrbio de Londres, nu e amarrado por vontade própria a uma cadeira de balanço, o anti-herói se esforça por fugir aos encantos do mundo exterior, aos apetites do corpo, e se refugiar nas profundezas da (in)consciência, desejado paraíso particular. E a mesma cadeira de balanço será o destino final do protagonista, ainda preso ao seu dilema dualista, cuja resolução forçada nada terá de tranquilizadora.

Neary, seu antigo professor, um hegeliano que conjuga elementos da psicologia cognitiva em voga na época (a da gestalt, por exemplo) à dialética e procura enquadrá-lo numa norma aceitável, e Celia, sua namorada, uma prostituta que insiste para que, em nome do amor, Murphy pague seu tributo ao trabalho e, empregado, a tire das ruas, antecipam a movimentada perseguição coletiva que o romance acompanha.

De fato, a estrutura narrativa alude, de longe e parodicamente, tanto às peripécias da picaresca clássica quanto ao realismo detalhista que alimentou o romance no século XIX. A “proliferação de minúcias”, um narrador intrometido, tirano e sarcástico, as batalhas de engenhosidade verbal, na melhor tradição do humor irlandês, dão ao texto seu quê de rebeldia do alto modernismo, não fosse Beckett um experimentador nato. É ler para crer (ou não).


[1] A representação pitagórica do triângulo perfeito.

[2] (Grego) A glândula pineal por onde Descartes acreditava que corria a essência da vida e conectava a mente ao corpo.

Samuel Beckett

Samuel Beckett (1906–89), dramaturgo e escritor irlandês, é autor da peça Esperando Godot. 

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