diário

Na Coreia do Norte tudo começa em pizza

A odisseia do italiano que foi convidado a ensinar a fazer pizzas no país mais xenófobo do mundo

Ermanno Furlanis
“Já tínhamos tomado gosto pela vida de turistas quando um telefonema nos tirou da cama: ‘Café da manhã daqui a uma hora, preparem suas malas, estaremos fora por uns dias, numa localidade de praia.'” Furlanis está de joelhos, abraçado à mulher
“Já tínhamos tomado gosto pela vida de turistas quando um telefonema nos tirou da cama: ‘Café da manhã daqui a uma hora, preparem suas malas, estaremos fora por uns dias, numa localidade de praia.'” Furlanis está de joelhos, abraçado à mulher FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Nem os testes nucleares na Coréia do Norte e o encontro do ex-presidente Bill Clinton com Kim Jong Il abafaram a notícia da inauguração da primeira tratoria estatal em Pyongyang, a “Terra da Calma Matinal”, sede do regime mais xenófobo do mundo. Quando Kim Sang Soon, o gerente do restaurante, confirmou a inauguração a jornais asiáticos, saiu das cinzas do forno a história de EERMANNO FURLANIS, o pizzaiolo italiano que, em julho de 1997, saiu de Codroipo, perto de Veneza, com a missão oficial de ensinar aos cozinheiros norte-coreanos, todos eles militares, o segredo da massa italiana. Formado em economia, mas diretor em Udine de uma escola de pizza, Furlanis tirou da gaveta os originais de suas memórias, em que descreve a “quixotesca viagem culinária” de 22 dias “ao estômago da treva”

CONVITE – Recebi de surpresa uma chamada quase grosseira no celular. Era uma proposta sem muitos rodeios para ministrar um curso de formação sobre pizza em “um país distante”. O encontro seria no dia seguinte. Quem fazia o convite era um cozinheiro de alto nível, um Chef com “C” maiúsculo, a serviço em um hotel de primeira categoria numa cidade do norte da Itália. Disse-me que fora convocado por uma delegação estrangeira para uma série de demonstrações culinárias sobre a cozinha regional italiana. A tal delegação também estava interessada em pizzas. As pessoas de lá precisavam aprender a culinária italiana para enfrentar a carestia e, além disso, era preciso lidar com a abertura iminente à economia de mercado. Por fim, encerrando o suspense, me disse: país comunista, Extremo Oriente… “Vietnã?”, perguntei surpreso. “Coréia do Norte”, foi o golpe final.

Cheguei à entrevista meio ansioso, mas achando muita graça. No fundo eu não tinha nada a perder – no pior dos casos, uma viagem a menos. Entrei no salão do encontro, que era a sede de uma casa de exportações, no 4º andar de um antigo edifício do centro histórico, e tudo começou a velar-se de uma pátina surreal. Primeiro o Chef me apresentou ao “Jovem”, um coreano que falava razoavelmente nossa língua e sorria com esforço o tempo todo. O “Velho”, ao contrário, não falava nossa língua supérflua nem se entrincheirava atrás de sorrisos inúteis; com as “lâminas” que tinha em lugar dos olhos, me fez uma rápida radiografia de ponta a ponta e depois se sentou na cabeceira de uma clássica mesona de conselho administrativo. O interrogatório foi sistemático e insistente. Em seguida, uma rachadura no “baixo-relevo” do Velho: uma espécie de careta que podia ser entendida como um sorriso. Tom de voz pacato. Disse algumas palavras ao Jovem… “Acho que poderemos chegar a um acordo”, repetiu, dirigindo-se a mim num tom por fim amigável, confidente, inesperadamente quase íntimo.

Como previsto, poucos dias depois me ligaram para a confirmação. Disseram que em breve partiríamos por quinze dias. Perguntei como deveria proceder quanto aos ingredientes e aos utensílios indispensáveis ao preparo dos nossos pratos, que não podiam ser substituídos por ingredientes e aparelhos coreanos. Responderam que fizesse simplesmente uma encomenda num atacadista e enviasse para eles tanto a mercadoria quanto a fatura, recomendando que não se preocupasse com a despesa. Ao final, sem a mais mínima pressão, entregaram envelopes com o pagamento, antecipado e em espécie. Por aquele detalhe entendi logo que era coisa ligada ao governo, embora eles agissem e falassem sempre em nome de uma fantasmática “Company”.

 

RUMO A PYONGYANG – Quinze dias depois, eu, minha mulher, o Cozinheiro e a respectiva consorte estávamos girando por Berlim, numa transferência de aeroporto, vindos de Malpensa e de partida para Pyongyang. Pouco antes do horário do vôo, um funcionário da Air Koryo finalmente apareceu, depois de horas de preocupante espera, para abrir o escritório, entregar os cartões de embarque e, sobretudo, os vistos de entrada, em formulários avulsos, não afixados nos passaportes, “para nos tutelar em relação ao Ocidente e seus órgãos de controle”, como nos explicaram mais tarde. Embora faltassem apenas poucos minutos, não havia sinal do nosso vôo nos telões. O funcionário, apesar de eu falar alemão, não explicou nada, informando apenas o número do portão. Ao fundo, surgia a cauda intrigante e inquietante de um Ilyushin, com inscrições belas e incompreensíveis, mas tradução em inglês: “Air Koryo”. De qualquer modo, agora já estava feito, a porta se fechara e a aventura, querendo ou não, começava.

Uma hora depois, passamos às refeições. O programa era corrido, e esse era um prenúncio do que seria o ritmo de nossas “férias”. A comida se mostrava abordável e insolitamente abundante para uma refeição de bordo, mas de insuportável frequência: o ritual se repetia regularmente a cada duas ou três horas, no máximo – sinistra antecipação das futuras e impensáveis comilanças que nos aguardavam no país da carestia. No trecho Moscou-Pyongyang, então, a coisa parecia não ter fim: a situação estava cada vez mais sombria, o cheiro, cada vez mais desagradável, minha confiança no Ilyushin, cada vez mais escassa e, além disso, meu frágil sono era constantemente interrompido por bandejas de comida que devíamos aceitar, já que éramos convidados a isso com insistência, após nos acordarem bruscamente.

Já visível durante a fase de aterrissagem sobressaía a foto gigantesca do ex-presidente soberano da Coréia do Norte, Kim Il Sung, dando as boas-vindas do lado interno do aeroporto. Quando o portão se abriu, fomos literalmente circundados pelo calor e a umidade. O aeroporto internacional de Pyongyang, o principal da Coréia do Norte, parece a estação ferroviária de uma cidadezinha italiana secundária: poucos saguões, apenas duas linhas – Moscou e Pequim –, dois vôos por linha. A passagem pelo controle não foi fácil diante daquele homenzinho de uniforme branco e impecável, com um chapéu de policial mais alto do que ele. Virava e revirava nossos vistos, uma mala estava perdida, o cansaço era total e a confusão reinava quando, finalmente, o véu de tensão se rompeu: surgiu “o homem providencial”, nosso “anjo da guarda vigilante”, que nunca nos perderia de vista durante toda nossa permanência, ou quase, a dor e a delícia de nossa estada – o inefável Mr. Om.

Era um oriental típico, miúdo mas sólido, cerca de 40 anos, aspecto falsamente indefeso, com o característico sorrisinho de praxe. Na verdade, esperávamos um certo Mr. Pah, mas este evidentemente era de nível superior. Mr. Om cumprimentou-nos com cordialidade e logo nos deixou à vontade. Enquanto isso, porém, tomou nossos vistos e passaportes e sumiu com eles. Não os veríamos mais durante toda a permanência ali.

Via-se que Mr. Om era uma pessoa de grande experiência e cultura. Sabia perfeitamente o inglês e usava formas muito sofisticadas, que eu mal compreendia, além de conhecer bem o mundo ocidental, dando provas disso sem parar. Exaustas e extremamente confusas, as mulheres davam os típicos sinais de que já estavam no limite. Marilu começou a esbravejar durante a longa espera pelo carro e mal deixou escapar um “Vamos ver com que calhambeque virão nos buscar, quero voltar para casa”, quando, num piscar de olhos, o vimos se materializar. Um Mercedes preto com vidros escuros e as típicas seis portas chegava para nos levar. Ajeitadas as bagagens, o frescor do ar-condicionado nos deixou finalmente aliviados. Os entendimentos com nosso anfitrião deslancharam logo, e eu me sentia como se já o conhecesse há séculos. Começamos a bombardeá-lo de questões, e logo lhe perguntei se tinha um dicionário inglês-coreano. Por essa pergunta deve ter me classificado como o chato da turma, porque me respondeu com um risinho sem graça e me batizou logo em seguida: “Ermanno, eh, eh, my best friend.”

 

HÓSPEDES OFICIAIS – Percorrendo o anel viário para Pyongyang, me concentrei no panorama inexpressivo. Um campo de vegetação rala e desolada, semelhante à nossa, com acácias e latifólios que o tornavam bem familiar, apesar da distância de onde viemos. Em compensação, as filas de pedestres à beira da estrada, com rostos e cores tão diferentes do habitual, deslocando-se ou esperando não se sabe o quê, e os ciclistas com os típicos capacetes triangulares me fizeram sentir como se estivesse dentro de uma página do meu velho livro escolar. A metrópole surgiu diante de nós depois de uma meia hora, peremptória, mastodôntica, monumental em cada ângulo e, no entanto, tinha algo de improvável. Não via a hora de chegar ao hotel Koryo, onde tínhamos reserva, e tomar uma boa ducha, ligar para casa e depois sair explorando aquela selva de cimento monocromática, cheia de imensas inscrições vermelhas, lindas, e tentar decifrá-las com o prometido dicionário. Mas o hotel Koryo não nos receberia, pois não nos registrara entre seus hóspedes. As surpresas estavam apenas começando.

Em vez disso, chegamos a uma alameda barrada ao final por um enorme portão com um “porteiro” dentro de uma cabina que, ao ver uma luzinha verde vinda do carro, fez o portão se abrir. Um parque magnífico nos acolheu, árvores, flores, chafarizes e canteiros podados até o último fio de folha emolduravam um estranho edifício, estruturado em duas alas mais ou menos quadradas, com uns 150 metros de largura, sendo uma de quatro andares, a outra mais baixa, completamente desprovida de janelas e unidas por um corpo central mais estreito. Fora do carro, além do calor, fomos inundados por um penetrante chiado de cigarras, umas dez vezes mais intenso do que o do nosso país. Era um som estranhíssimo: primeiro começava uma, depois o rumor aumentava lentamente em ondas regulares e finalmente atingia um máximo quase ensurdecedor, para em seguida aplacar-se repentinamente. Essa trilha sonora, unida ao perfeito deserto do parque, criava uma atmosfera cada vez mais irreal.

Um jovenzinho vestido de branco veio buscar nossas bagagens. Nenhuma recepção, nenhuma chave de quarto. Agora estava claro, aquilo não era o hotel Koryo. Ao meu pedido de explicações, Mr. Om respondeu afável, com um sorriso cúmplice: “Ermanno, my friend, don’t worry, we have time.

O palácio que nos acolhia era esplêndido, todo revestido de mármore branco, e com poucas e belas plantas ornamentais. Nada de quadros, poucos móveis e objetos, mas acima de tudo um silêncio tumular – e nenhuma alma viva. À direita havia uma espécie de grande sala, muito bem cuidada, com teto rebaixado, lambris de madeira e várias poltronas e mesas. Mr. Om nos acomodou ali e desapareceu. Depois uma senhora idosa nos trouxe bebidas, em rigoroso silêncio. Sorriu-nos muito e saiu da sala andando para trás e curvando-se, para não nos dar as costas. Em outra ocasião, na mesma sala, a velhinha nos trouxe uma fruta congelada, da qual ela também se serviu, como um sorvete. Tinha uma bela cor amarela, era pastosa e de sabor delicado. Ela disse que era “sapote”, como estava escrito na etiqueta, com a indicação de origem, Califórnia.

Os quartos eram magníficos, autênticos apartamentos, com uma sala ampla, um imenso quarto de dormir, banheiro e vários vestíbulos. A cama era um exagero: larguíssima, com soberbos cobertores de seda vermelha, finamente decorados à oriental. A sala tinha uma escrivaninha e uma estante repleta. Os muitos livros eram impressos em várias línguas: inglês, espanhol, francês, japonês. Na maior parte, tratados tediosíssimos do presidente-soberano-deus Kim Il Sung ou de seu filho, o herdeiro sucessor Kim Jong Il.

O Cozinheiro me telefonou do outro apartamento, todo excitado, e me disse que ligasse a tevê. Foi o que fiz, enquanto me servia de uma das bebidas da geladeira: a televisão transmitia imagens de guerra com cantos épicos ao fundo, legendas do tipo karaokê, e paradas militares com comentários ameaçadores e retumbantes. No outro canal, um espetáculo de teatro que pretendia ser cômico, com atores todos fardados. Durante todos os dias de permanência na capital, o tom dos programas não mudaria, exceto por um breve noticiário-relâmpago, rigorosamente centrado em notícias internas.

O telefone tocou mais uma vez. Era Mr. Om, que nos esperava para o almoço. Respondi que não precisava, que eu tinha comido demais no avião. Ele nos fez entender com elegância, mas decidido, que a recusa era impossível, porque “o programa” era sagrado e não podia ser discutido. Mais tarde entendemos que o programa era feito por outros, e cabia a ele zelar pelo seu cumprimento. Como bom ex-oficial, deduzi que se tratava de um procedimento militar. O almoço seria o primeiro de uma longa e interminável série. Três vezes ao dia, durante toda nossa estada, nos seriam servidas iguarias e especialidades não só coreanas, mas de todo o mundo, em quantidades industriais. De qualquer modo, o momento das refeições era sempre agradável, e Mr. Om dava o melhor de si, exibindo toda sua arte diplomática e contando historietas, “funny stories“, muito divertidas, das quais se orgulhava bastante.

O programa da tarde previa as mulheres no quarto e nós com Mr. Om. O destino, outra surpresa. Fomos para o outro lado da cidade, onde visitamos uma grande clínica de salas amplas e espaçosas, completamente deserta a não ser pela equipe médica, com aparelhos de todo tipo, moderníssimos. Mr. Om nos explicou que devíamos nos submeter a alguns exames médicos, “para evitar que pudéssemos ter problemas”. Passamos por um check-up completo: radiografias, eletrocardiograma, encefalograma, ultrassonografias, exames de urina e, depois de alguns rodeios, com muito tato, mas irremovíveis, nos tiraram uma boa amostra de sangue.

 

PRIMEIRO, O TURISMO – No dia seguinte fizemos uma visita pela cidade. Foi apaixonante, apesar de institucional. Confirmando as primeiras impressões, tratava-se de uma verdadeira megalópole: imensos edifícios e monumentos de dimensões impensáveis, com toda a pompa oriental. Mr. Om nos explicou que a cidade foi completamente destruída durante a guerra. Somente algumas dezenas de construções resistiram à catástrofe: duas lindas portas antigas com o típico telhado em forma de pagode, alguns palácios e uma esplanada às margens do rio. Disse-nos que em Pyongyang caíram sete bombas por metro quadrado, um recorde absoluto, até hoje não superado. Depois houve um esforço imenso de reconstrução, com evidentes propósitos de propaganda. Imaginem a visão de imensas estradas projetadas para um tráfego futuro, ainda distante no tempo, margeadas por arranha-céus futurísticos como os de São Paulo, no Brasil, e tudo pontuado por monumentos de três, quatro ou até dez vezes o tamanho do nosso Altar da Pátria, e com o mesmo nível de gosto estético.

O verde não falta, concentrado especialmente à beira dos cursos d’água que correm pela cidade, lentos e muito largos, mas também nos parques de diversão colossais e decrépitos, demonstração sei lá de quê. O estádio, uma jóia da engenharia esportiva, tem as dimensões do Camp Nou de Barcelona, com 40 mil lugares ou pouco mais. Uma enorme cúpula prateada que domina a cidade. As grandes inscrições vermelhas são o arremate que torna homogênea essa mistura de estilos ao mesmo tempo imperial e capitalista. A mais frequente era “Kim Il Sung Tonjgi Manse”, que equivaleria mais ou menos a “Vivas – ou vida longa e glória – ao camarada Kim Il Sung”.

Percebemos melhor a grandiosidade da cidade do alto da Torre Idea Juche, 80 metros de concreto armado com um elevador veloz, sobre uma leve elevação. A torre é amplamente circundada de jardins e jatos d’água paralelos ao curso do rio, e um colossal monumento em bronze reluzente com o emblema do comunismo coreano, foice, martelo e pincel – que no Oriente se usa para escrever e é símbolo dos intelectuais. Um lugar esplêndido.

Raramente vi reunidos de modo tão harmônico e cenográfico monumentos de gosto tão duvidoso. Longe, na outra margem do rio, a outra parte da cidade, com a grande biblioteca em primeiro plano: quatro andares com cerca de mil metros quadrados de salas de leitura e bancos individuais, além de volumes e discos do mundo inteiro. Tinha até Oh! Sole mio, que gentilmente desencavaram para nós. Mas o abafamento naquele dia era total e uma capa cinzenta oprimia essa imensa demonstração de potência. A única nota de fato colorida eram as crianças, perfeitamente enquadradas nos uniformes – camisa branca, saia ou calça azul e lenço vermelho. Centenas de pelotões em fila, visíveis sobretudo quando atravessavam as pontes: uma interminável faixa branca. Outra nota agradável era a frota de barquinhos com casais e amigos nos rios, e os muitos jogadores de xadrez chinês nos parques. Debaixo dos prédios futurísticos se entreviam aqui e ali, amarradas a uma árvore, cabras para o leite, umas galinhas e muitas patas, para os ovos. Apesar das aparências, mesmo dentro da cidade permanecia uma economia de subsistência.

A um exame mais atento, muitos muros e recintos das estruturas civis – não os monumentos, sempre impecáveis – estavam num estado periclitante, para dizer pouco. Frequentemente faltavam vidros, e a iluminação ao entardecer era tão fraca nos apartamentos que mais parecia vela de morto, e não lâmpada. Tudo isso, unido a um tráfego rarefeito, com poucos Trabant e moderníssimos carros de alta cilindrada, todos de vidros escuros, conferiam à metrópole um ar bem lúgubre, especialmente à noite. A visita ao metrô confirmou essa atmosfera tétrica. Ele se aprofundava por quase 100 metros abaixo da terra, e a escada rolante mais parecia uma descida ao Hades, escandida por estranhos lamentos provenientes de estrídulos alto-falantes que, pelo tom, executavam hinos à glória e à magnificência d’Ele. Ao final da descida eram bem visíveis, através de fendas nos muros laterais, espessas portas de aço antirradiação, que, se necessário, poderiam transformar os túneis em refúgios antinucleares. Estava explicada a excessiva profundidade: o uso de guerra era o mais importante. Trata-se de um povo que vive assediado pela contínua espera de um ataque, nos confirmou Mr. Om.

Todos indistintamente – bonitos, feios, velhos e jovens, homens e mulheres, no trabalho ou no lazer –, todos os habitantes da Coréia do Norte, em qualquer circunstância, levavam rigorosamente à esquerda, sobre o coração, um broche com o rosto do “Grande Líder”. Numa manhã nos levaram em visita à chamada “Exposição”, cerca de dez pavilhões imensos, guarnecidos de toda demonstração possível da suposta potência industrial norte-coreana. Uma espécie de feira permanente. O mais divertido eram as várias estrelinhas que indicavam o ponto exato em que o Grande Líder parara no dia tal para dizer tal frase aos operários.

No centro urbano, perto dos hotéis e dos grandes magazines, sempre presentes e razoavelmente fornidos, se encontravam pessoas muito bem-vestidas, provavelmente militares, diplomatas e familiares, ou estrangeiros – muitos chineses, menos russos. Basta sair do centro e da cidade para topar, em qualquer canto, com pessoas paradas e sentadas “no ar”, na posição típica, os joelhos dobrados, como quando se flexionam as pernas, na fase inclinada. Esperavam não sei o quê, desde não sei quando, e não se sabe por mais quanto tempo. Uns esperavam que suas roupas secassem, outros, diante de velhos caminhões suspensos por colunas de pedra, talvez esperassem que os companheiros, saídos horas antes, voltassem com o pneu recauchutado.

Outros ainda, como descobri depois, estavam empenhados no corte da grama. Eu tinha notado o aspecto descuidado dos prados para além do nosso reino da fantasia, onde ao contrário eram perfeitos, e não conseguia achar uma razão para isso. Mas logo ficou claro: o corte da grama empregava centenas de operários. Eles a recolhiam folha por folha em sacos específicos. Como se sabe, o “pleno emprego” se obtém com uma certa dose de imaginação. Para outras pessoas, encontradas nos dias seguintes em pleno campo, à noite, dormindo estendidas nas estradas, muitas vezes obrigando o carro a perigosas manobras, ou em meio à densidade dos bosques, imóveis, ou dentro de um túnel viário friíssimo, velhos com netos em meio a campinas desertas, abraçados, distantes de tudo, assim como para outras dezenas de imagens inesquecíveis e indeléveis na memória, ainda não tenho uma resposta.

Depois da habitual comilança, só para recitar meu papel, disse a Mr. Om que estava cansado de ficar na gaiola e que queria ver locais públicos, ir dançar. Tinha intuído a ausência desses estabelecimentos no país, mas queria ouvir isso dele. No entanto, ele me pegou no contrapé, e o constrangimento foi meu. Depois de um instante de hesitação, admitiu a inexistência de locais como os nossos, mas disse que mesmo assim nos preparássemos para a dança. Por volta das oito da noite, todos produzidos, ele nos levou ao centro da metrópole. Depois de superarmos uns dois postos de controle, nos fez subir, pelos fundos, uma escadaria. Além do corredor uma visão direta sobre a história se escancarou na minha frente: era a grande praça das manifestações e dos desfiles militares. Um espetáculo de tirar o fôlego. A praça era interminável, quadrada, em frente ao rio. Na outra margem, ao longe, a Torre Idea Juche com o “fogo do conhecimento”, um grande lampião vermelho em forma de chama, que tremulava no alto. Nas laterais da praça, austeros edifícios estilo império, os imensos rostos de praxe sobre os edifícios à esquerda. À direita, Marx e Lênin, e uma gigantesca avenida cortava a praça ao meio, permitindo quando necessário as paradas militares. Obra-prima de arte patriótica em perfeito funcionamento, seu efeito sobre nós foi hipnótico. No centro haviam instalado um grande palco com uma placa indicando os “hosanas” da ocasião, a banda e o coro. Era o aniversário de alguma vitória. Ao redor, em blocos perfeitamente quadrados, cada qual constituído de umas 300 ou 400 pessoas, a população de Pyongyang convocada oficialmente para o baile. Mr. Om calculou cerca de 30 mil pessoas. A um sinal do mestre de cerimônias pelo alto-falante, o burburinho cessou de imediato, e um religioso silêncio seguiu a comemoração da festa. Depois começou a dança.

A princípio os blocos formaram círculos e em seguida se abriram em estrela. Então Mr. Om nos convidou a nos misturarmos à multidão. Agradavelmente surpresos pela permissão, aceitamos entusiasmados. Fomos acolhidos com naturalidade. Fizemos círculos de mãos dadas com o povo em festa e nos divertimos muito, se bem que eles, brincando, nos reprovassem porque errávamos todos os passos. Uma noite inesquecível e única, histórica em todos os sentidos. Enquanto isso Mr. Om filmava tudo do alto com a câmera do Cozinheiro. A ordem era “dê diversão a eles” e, como bom soldado, Om se saiu perfeitamente. Ao voltar para a “cela”, estávamos eufóricos. Marilu repetia sem parar: “Crazy for Corea, Crazy for Corea.” Tinham nos conquistado.

 

AO TRABALHO – Já tínhamos tomado gosto pela vida de turistas quando numa manhã, de repente, às seis, um telefonema nos tirou da cama. Era Mr. Om: “Café da manhã daqui a uma hora, preparem logo suas malas, mas com poucas roupas, estaremos fora só por uns dias, numa localidade de praia.”

As imagens que vimos durante o longo trecho de mais de 200 quilômetros, sem parada, deviam comprometer seriamente o blefe. O campo vive num estado de atraso que chega a ser fascinante para meu gosto histórico. Das máquinas que estavam na Exposição, elas mesmas já bastante datadas, nem sinal. Carros puxados por bois ou cavalos, todos rigorosamente de madeira, inclusive as rodas do período “neolítico”, bamboleantes. Plantações extensivas, construções muito pobres e rústicas ao lado de novas casinhas, um pouco mais dignas. Mas o mais incrível era a grande massa de gente ao relento, espalhada por todo lado.

Um outro carrão da Company, de vidros escuros, nos esperava. “Mr. Pah?”, perguntamos excitados ao novo interlocutor. Tratava-se de um certo Chan. Quanto mais o tempo passava, mais Mr. Pah se tornava um mito. Chan nos guiou pela cidade até nossa base, praticamente inacessível. Tudo em volta era um imenso parque, com laguinhos e plantas exuberantes, depois uma ponte com uma primeira barreira e sentinelas. Ao fundo da alameda, uma segunda cancela com homens armados. Logo depois, um terceiro portão muito mais protegido, com armas mais pesadas. Entramos então no condomínio encantado. Lembrava os balneários turísticos do Adriático: belas casas para duas famílias num ameno bosque de pinheiros. Antes da praia, outra cancela, com um altíssimo paredão e guaritas. Finalmente, após a última cancela, mais leve, de rede metálica e um só homem armado, o lugar que nos esperava.

À direita o mar, uma linda praia branco-cinza, tão bem alisada que parecia cimento; à esquerda, ao pé de uma colina, um parque com lago repleto de lótus; ao fundo, como um anfiteatro sobre as encostas, edifícios postos em semicírculo. Primeiro, o centro com as cozinhas no térreo e, em cima, um pavilhão muito comprido de dois andares interditados, para nós evidentemente proibidos, e mais à esquerda três casas. As cozinhas, equipadíssimas, estavam em cada uma das construções: uma verdadeira obsessão pela comida. Mais adiante, outro muro altíssimo e um portão que nunca atravessaríamos. Mais à esquerda ainda, perto da entrada e à beira-mar, dentro de um enésimo recinto murado, a guarnição dos militares.

O primeiro contato com os rapazes da cozinha foi amistoso e natural. É incrível o entendimento imediato que se estabelece entre pessoas do mesmo ramo, em qualquer parte do mundo: o trabalho não tem fronteiras. Meus três alunos eram: Mr. Li, especialista em confeitaria e panificação internacional, gordo, meio taciturno, mas muito simpático. Inglês, zero. Mr. Chang, mais velho, mas com modos e tons cândidos de adolescente, falava um inglês adorável, em rompantes, com uma pronúncia que de início era quase indecifrável. De fato, os orientais pronunciam o “v” como “b” e o “f” como “p”: portanto, “muito bela esposa” era, por exemplo, “beri biutipul uaipe”. Depois chegou Mr. Kim, um rapaz jovem, mas de olhar mais esperto. As cozinhas tinham tudo e eram amplas, muito limpas e bem mantidas, azulejos até o teto. Minha pizzaria ficava num setor à parte: toda equipada e já funcionando, com materiais recém-chegados da Itália. Pediram-me gentilmente que preparasse logo uma pizza. Expliquei que não era possível, porque minha massa requer 24 horas de fermentação. Disseram-me que, de um profissional da minha fama, eles esperavam outra coisa. Concederam-me quatro horas.

Por sorte, eu tinha trazido fermento natural, pensado especialmente para um imprevisto desse tipo, e consegui panificar. A massa estava perfeita, mas não sei se foi uma sorte. Enquanto a preparava, meus alunos, caneta e bloco nas mãos, anotaram cada mínimo detalhe; os outros, uma dezena, os da cozinha, todos ao redor, concentrados. Pediram-me até que contasse as azeitonas e a distância entre elas, não sei se por brincadeira, mas parecia sério. Uma das pizzas, cuidadosamente escolhida por Mr. Om, de salaminho, foi levada para fora da cozinha. Poucos minutos depois, fui convocado a uma espécie de tribunal. O mais velho dos três, carregado de ouro, Rolex, charuto entre os dedos e olhar desencantado, muito semelhante a um Humphrey Bogart oriental, após alguns minutos tensos me sorriu benévolo e me fez o maior elogio de minha carreira: “Para fazer uma massa como esta é preciso ser uma pessoa muito sofisticada.” Estendeu a mão e se apresentou: Mr. Pah! Sim, finalmente era ele!

 

DO BOM E DO MELHOR – Os dias seguintes foram tranquilos, de uma consoladora rotina. Durante o dia, eu não devia preparar mais que dez ou vinte pizzas, o que me ocupava por cerca de duas horas, enquanto meus alunos anotavam tudo obsessivamente, até os detalhes mais ridículos, como a distância entre as azeitonas, e aos poucos se incumbiam cada vez mais do meu trabalho, ruminando minhas técnicas numa velocidade impressionante. Na capacidade de aprendizado daqueles rapazes se lia o segredo do milagre econômico do Extremo Oriente, dos tigres orientais. Disseram-me que eram todos militares. O menor era tenente. Confirmei também a absoluta adesão ao projeto comunista: me explicaram que, para eles, o dinheiro, mais parecido com cédulas de Banco Imobiliário do que dinheiro de verdade, é absolutamente supérfluo. O Estado dá tudo por lei: casa, roupas, alimentos, automóvel e até cigarros. O pouco dinheiro, em média uns 200 euros ao mês, segundo eles – mas o câmbio é fictício –, serve para os caprichos. O conceito é bom, pena que não se consiga aplicá-lo a todos. No entanto, durante minha permanência ali, absolutamente ninguém deixou escapar, nem de passagem, escondido, uma nesga que fosse, o mínimo sinal de descontentamento, e não só entre o pessoal da base que, bem remediado, obviamente não tem motivo de queixa, mas menos ainda entre as pessoas que eu encontraria em seguida nas poucas escapadas com Mr. Om, e com as quais pude conversar.

O Cozinheiro estava exaltado diante de tanta opulência de meios. Pediu-me que completasse uma lista de ingredientes e coisas a serem importadas da Itália, uma encomenda de vários milhões, que chegaram pontualmente em poucos dias. Mr. Pah inclusive teve a idéia, vendo um dia um folder entre meu material, de comprar um forno a lenha pré-fabricado. Dentre os modelos disponíveis, escolheu o mais caro, me fez telefonar e encomendá-lo imediatamente, depois de ter-me pedido que construísse um. Só o fechamento da empresa por férias coletivas evitou aquele enésimo desperdício. Além disso, de vez em quando surgia uma espécie de entregador vindo de todos os cantos do mundo. Topei com ele em duas ocasiões, enquanto desencaixotava dois volumes enormes: um com os melhores queijos franceses, de vinte tipos diversos, e um com vinhos, sempre franceses. Fui me queixar e, três dias depois, fresco da Itália, chegou o Barolo.

 

ELE, EM PESSOA – Mr. Om me disse que nos preparássemos, porque no dia seguinte cozinharíamos no mar, em um barco. Manifestei-lhe minha perplexidade, que ele atalhou imediatamente com o sorriso habitual e um lapidar “Don’t worry, Ermanno”. No dia seguinte um iate com ampla cabine e a indefectível cozinha estava à nossa disposição, minha e do Cozinheiro, exclusivamente como táxi. Li a marca: “Capri, Miami-Florida”, mistérios da política internacional. Por uma meia hora voamos feito uma flecha, sempre ao som das dolorosas músicas coreanas, em meio a centenas de ilhas e ilhotas que formam o arquipélago em frente à base. Finalmente surgiu diante de nós uma espécie de parque de diversões móvel e flutuante, ancorado a cada dia em pontos diferentes. Era formado por dois toboáguas, que terminavam numa piscina. Nem Fellini teria imaginado tanto. A cerca de 900 metros estava ancorado um ferryboat de serviços cujo coração, nem é preciso dizer, era uma cozinha perfeitamente equipada, com enormes vidraças sobre o mar, onde trabalhar era um prazer. Sobre uma grande ponte flutuante e articulada à embarcação – nem pude crer em meus olhos – tinham transferido a pizzaria inteira, com todo o necessário.  Bastava pôr mãos à obra.

A certa altura, depois de ter feito as pizzas e antes do grande banquete, houve muita agitação e me arrastaram à força para beber uma cerveja num confortável salão. Eu não entendia. Meu colega, menos flexível que eu, não quis saber disso, até porque estava concentrado numa complicada preparação. Ficou furioso com seus alunos, que o empurravam para fora, desconfiou de algo e quis ficar ali de qualquer jeito. Suas suspeitas se confirmaram: levantou os olhos e, para além do vidro escuro, enquanto desembarcava do iate e da ponte ia pela passarela que levava diretamente à luxuosa suíte de cima, O viu: era Ele, o homem dos murais, o sucessor do criador da Juche Idea, o Grande Líder, com o habitual cortejo, a corte. Pôde reconhecê-lo pela cabeleira única, não só famosa na Coréia, mas em todo o mundo. Confessou-me que se sentiu como se tivesse visto Deus. Até hoje o invejo por isso.

Nossos dias na base transcorreram de modo cada vez menos tenso. Depois de um tempo nos habituamos às várias armas e até as sentinelas nos respondiam, com grandes sorrisos escondidos, às nossas joviais saudações. Eu continuava cuidando de minha pizzaria: de manhã, na sede, e à tarde, se o tempo permitisse, no iate, aonde chegava sempre a bordo do “meu” táxi particular. Já o Cozinheiro na maioria das vezes se transferia, com armas e bagagens, para preparar o jantar em uma das trinta casas do condomínio. As mulheres gozavam de um balneário só para elas, onde encontraram duas garotas só uma vez; mas, por outro lado, o local era vigiado por numerosos serventes que deixavam a areia “brilhando” e impediam com gritos muito explícitos que elas se aventurassem em águas proibidas ou em áreas reservadas.

 

A VOLTA – Certa manhã, Mr. Li não parava de repetir estranhas frases. Kun-gan-san, ahhh! E se jogava de costas e ria. No almoço entendi por quê. Tinham decidido que faríamos um passeio de dois dias no mágico monte de Kungansan, como me confirmou Mr. Om. O habitual piquenique, e depois a caminhada. O monte era lindo, mas muito semelhante aos nossos. Interessantes eram as inscrições nas paredes rochosas, algumas de caracteres enormes, visíveis a longa distância. A grafia pitoresca dos coreanos dava um toque artístico ao conjunto. Aqui e ali se viam turistas chineses e algumas bancas de suvenires, embriões de uma economia de mercado. Com 5 dólares por casal foi até possível dar uma volta de barco num lago verde-esmeralda, lá no cume, onde por incrível que pareça havia dois barqueiros autônomos.

O jantar foi outro fato interessante. Levamos nossas próprias provisões a uma espécie de restaurante onde justamente colocavam a estrutura à disposição do freguês e era possível consumir as próprias coisas. O serviço, alguns talheres, pratos e copos ficavam por conta deles. Era um belo local à beira de um lago; pena que a certa altura tenha havido um apagão total e não se viu mais nada. Quando fomos para o hotel, Mr. Om, encorajado pelo Rémy Martin, se esqueceu da mulher distante em Pyongyang e acompanhou até a casa a simpática guia alpina, uma jovem muito afável.

Após mais de vinte dias naquele ritmo de “trabalho duro”, as duas semanas combinadas tinham obviamente vencido, mas ninguém falava em voltar. Evidentemente nossa obra era apreciada. Confirmei a impressão pelas polpudas gorjetas, certa vez 1 mil ienes numa única cédula, e cerca de 120 dólares numa outra ocasião patética. Uma noite, por volta da uma da manhã, bateram à porta. Embaixo me esperava Mr. Pah, sério como nunca o tinha visto, e ele me disse que sabia que para mim talvez fosse uma afronta, mas que eu não me ofendesse: seus hóspedes, entusiastas da pizza, pediam-me que aceitasse uma pequena colaboração coletiva. Deu-me então um rolo de notas americanas. Tinha sido o dia da pizza de salaminho.

Finalmente, durante um almoço, conhecemos um novo amigo, um cozinheiro recém-chegado de Karachi, Paquistão. Agora é a vez dele, pensamos, mas não nos disseram explicitamente nada sobre nossa partida. Entendi que a temporada tinha acabado quando um dos rapazes, já meu chapa, me pediu uma camisa de manhã e fez gravar nela meu nome, Pyongyang e a data, em belos caracteres vermelhos, finamente bordados com fios de seda. Entregou-me a malha apertando minha mão com força, mas não disse nada. A confirmação chegou de repente no fim da tarde: partiríamos naquela noite. Era o último golpe de Mr. Pah, sua assinatura inconfundível, genial, que assim se despediria de nós, sem o fazer pessoalmente.

Como se não bastasse nos terem impressionado tanto, a última noite em Pyongyang não podia deixar de ser clamorosa. Várias vezes tínhamos entrevisto uma grande construção com uma placa em inglês: Bowling. Imaginávamos que fosse um dos tantos locais decrépitos da Coréia e desafiamos Mr. Om a nos levar ali. Depois de longa insistência, ele concordou com o habitual sorrisinho matreiro. Mais uma vez o constrangimento seria nosso. Entramos na mais grandiosa e moderna sala de boliche jamais vista, com vinte pistas, espelhos e luzes por todo lado, novinha em folha, em perfeito estado. A princípio pensamos que se tratasse de uma exibição para turistas, mas fomos desmentidos. Era frequentada por coreanos que jogavam, aliás, melhor do que a gente.

Quase por magia, na manhã seguinte nossos passaportes reapareceram na limusine de onde haviam sumido. Esnobamos a alfândega e, sem check-in, esperamos no salão de honra nossa vez de embarcar, ao lado de generalões carregados de medalhas. Om estava taciturno e insolitamente frio; agora a missão estava cumprida, e ele já se transportara de corpo e alma para outras paragens. Nem nosso coro de estádio, que improvisamos da janela do ônibus, conseguiu abalá-lo.

Ermanno Furlanis

Ermanno Furlanis é pizzaiolo e instrutor de culinária italiano

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