chegada

Na hora certa

A primeira peça da monumental obra de engenharia humana começa a tomar corpo num ateliê da Califórnia

Dorrit Harazim
Protótipo do relógio de 60,2 metros
Protótipo do relógio de 60,2 metros

Uma colossal obra humana começa a adquirir forma no interior de uma montanha de calcário do Texas. Ela vem atender a uma demanda que por ora inexiste e é incerto que venha a existir. Mas, se porventura algum bípede estiver de passagem pelo ano 12012 e quiser saber a data e as horas, terá onde se informar. Basta que se desloque até uma localidade desértica na fronteira com o México e descubra como dar corda num gigantesco relógio mecânico que encontrará à sua espera.

Três meses atrás foi montada a primeira peça da engrenagem: um conjunto de vinte rolamentos de 2,4 metros de diâmetro, de aço inoxidável, que acionará dez sinos. Estes, por sua vez, foram programados pelo músico Brian Eno para jamais produzirem a mesma melodia ao longo de 10 mil anos. Serão perto de 3,5 milhões de sequências únicas do carrilhão.

A empreitada toda é uma espécie de volta ao futuro. Numa época em que nossa civilização, ansiosa e apressada, vive obcecada por velocidade – hoje, tudo tem de funcionar em nanossegundos, como se qualquer pausa ou respiro fosse pecado mortal –, a equipe do arrojado projeto de engenharia humana optou pelo caminho oposto. “A civilização precisa pensar a longo prazo para poder entender problemas que se estendem através de séculos”, acredita o chefe do projeto Alexander Rose.

Existem outras obras recentes da engenharia humana construídas para durar milhares de anos. O imponente Banco Mundial de Sementes, enterrado desde 2008 na ilha norueguesa de Spitsbergen, a 150 metros de profundidade, é uma delas. Os depósitos de lixo atômico nas minas de sal de Gorleben, na região da Baixa Saxônia, Alemanha, também foram criados para ter durabilidade milenar. Mas nenhuma dessas estruturas é máquina programada para funcionar ininterruptamente.



O Relógio, patenteado com letra maiúscula, nasceu da mente inquieta de Danny Hillis, um engenheiro elétrico com três pós-graduações pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma passagem pela Walt Disney Imagineering e cofundador da empresa Applied Minds [Mentes Aplicadas]. Inicialmente, ainda nos idos de 1989, ele imaginou construir um relógio que tiquetaqueasse apenas uma vez por ano, cujo ponteiro de horas avançasse somente uma vez por século e cujo carrilhão desandasse a tocar uma vez a cada milênio. Stewart Brand, o presidente da Fundação criada para abrigar a obra, escreveu um livro detalhando os primórdios da empreitada – O Relógio do Longo Agora, editora Rocco, 2000.  Desde então o projeto foi sendo alterado e um protótipo da versão final já pode ser visto no Museu da Ciência de Londres.

Pela visão de Hillis, seu relógio-monumento voltado para um futuro além do imaginável seria erguido em contraposição à cultura acelerada que, a seu ver, corrói nossa habilidade de pensar concretamente o futuro. Enviou o esboço do marcador de tempo atemporal para um grupo de mentes afins e obteve a adesão imediata de Alexander Rose, um designer industrial que deixara sua marca como criador de robôs de combate e artista da Silicon Graphics. Enquanto amigos engenheiros debatiam qual a geração de energia capaz de suportar o projeto, amigos empresários coçavam a cabeça tentando vislumbrar uma fonte de financiamento para empreitada tão insólita.

O dinheiro acabou se revelando a parte menos complexa da obra. Antes de fundar a livraria eletrônica Amazon.com e se tornar bilionário, o empreendedor Jeff Bezos cursou engenharia elétrica e se formou em ciência da computação por Princeton. Ao saber do projeto de Hillis, entrou com 42 milhões de dólares e cedeu um naco de montanha de sua propriedade no Texas para servir de abrigo a uma estrutura que pretende rivalizar com a Torre de Jericó e as pirâmides do Egito como marco civilizatório. Nada, jamais, foi construído pelo homem para funcionar por tempo tão longo. E por que 10 mil anos? Porque essa é a idade aproximada da tecnologia humana até agora, e o relógio marcaria, assim, o segundo tempo da civilização, explica Hillis.

Seria uma obra para constar de um quadro maior, embutido na pergunta formulada pelo virologista Jonas Salk vinte anos atrás: “Estamos sendo bons ancestrais?”

Sob alguns aspectos, a engrenagem da peça que terá 60,2 metros de altura se assemelha à de um relógio de pêndulo mecânico do passado. Mas, em vez de o pêndulo do futuro, que pesará  136 quilos,  marcar o tempo a cada segundo, o fará apenas a cada dez segundos, aumentando a durabilidade dos componentes. E no lugar dos doze pontos que indicam o dia de 24 horas, o mostruário de 2,5 metros de diâmetro marcará a posição de astros e planetas, com ponteiros indicando a data e a hora em curso. Embora o relógio vá computar o tempo ininterruptamente, o terráqueo que chegar até ele terá de dar corda manual à engrenagem para que as horas apareçam no mostrador. Dependendo do tempo decorrido desde a passagem do visitante anterior – meses? anos? séculos? –, o trabalho pode ser insano.

Os materiais usados na sua construção incluem aço inoxidável do tipo 316, o mais resistente à corrosão, titânio e uma cerâmica composta de nitreto de silicone. Sílica também está sendo extraída de uma mina de mármore do Texas. Isso porque na argamassa da Torre de Jericó, de 11 mil anos de idade, foram encontrados altos teores de sílica, o que explicaria a durabilidade da construção humana tida como a mais antiga do planeta.

Enquanto a equipe de visionários trabalha na engenharia das engrenagens, rolamentos, pistões e pêndulo do Relógio, uma cratera está sendo preparada para receber o artefato. A descrição do acesso ao local mais parece um roteiro para Indiana Jones. Aconselha-se ao turista acidental dos próximos milênios trazer uma fonte de luz própria.

Primeiro será preciso escalar 457 metros da montanha desértica onde só vingam espinhos. Chegará então a um portal duplo de aço incrustado na rocha e deverá avançar  na escuridão total por um túnel de 150 metros. Só então encontrará um esquálido ponto de luz no chão. Dali, se olhar para cima, verá um segundo ponto de luz no alto. Uma escada em espiral de outros 150 metros, esculpida por um robô na própria rocha, permitirá ao peregrino chegar à base do Relógio – e lhe dar corda se quiser saber a data e as horas.

A engenhoca toda será alimentada por energia termal produzida pela mudança de temperatura noturna e diurna no topo da montanha. Ela será captada por uma cúpula de safira sintética instalada no topo da montanha e regulada por um sincronizador solar. O peregrino com fôlego para prosseguir pela escadaria interna até essa cúpula terá, então, um reencontro com a luz natural da Terra. E dali, se tiver sorte, poderá ouvir o tique-taque que marcará cada nova década e século.

Quem quiser se inscrever para visitas ao futuro pode fazê-lo através da página da Long Now Foundation (longnow.org). Talvez seja prudente inscrever também heptanetos e dodecanetos para a eventualidade de a obra se estender além do seu tempo de vida.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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