esquina

Na praça, com Marx

Filosofia política na Vila Palitolândia

Samária Andrade
Andrés Sandoval_2019

Francisco Antônio da Silva Filho tinha 7 anos quando o presidente da República recém-empossado, Luiz Inácio Lula da Silva, chegou com trinta ministros e assessores em Teresina para visitar a Vila Irmã Dulce – uma das maiores favelas da América Latina –, na primeira parada da Caravana da Fome. “Eu tinha um compromisso que assumi durante a campanha eleitoral: que eu gostaria de, ganhando as eleições, levar todo o ministério para conhecer um outro lado do Brasil, para conhecer uma parte da pobreza do Brasil”, disse Lula no palanque, em 10 de janeiro de 2003. 

Silva Filho lembra-se dos foguetes e dos vizinhos que acorriam à comitiva para entregar cartas com pedidos de ajuda. Ele morava numa ocupação mais recente, encostada na Vila Irmã Dulce: a Vila Palitolândia, que pouco evoluiu desde a aparição de Lula. Com cerca de setecentos habitantes, tem apenas uma rua asfaltada e quase não dispõe de infraestrutura. O nome do lugar homenageia Palito, um dos líderes comunitários que encabeçaram a ocupação em 1998. 

Num domingo quente do final de julho último, Silva Filho, de 23 anos, coordenava às quatro da tarde o debate de um grupo de sete pessoas na praça do Conjunto Habitacional Esplanada, uma pequena arena com bancos de concreto no bairro Esplanada, local de fácil acesso para os jovens da região. 

Primeiro, os participantes da conversa leram nos celulares um texto que tratava do esgarçamento da força de trabalho, da criminalização da pobreza e do aumento do subemprego. Depois, entabularam uma intensa discussão sobre esses temas, na qual não faltaram citações de Hegel, Marx e do filósofo marxista italiano Domenico Losurdo. A conversa durou duas horas.

“Eu queria formar um grupo para discutir filosofia social com pessoas da periferia, mas não sabia bem como começar”, contou Silva Filho sobre o projeto Perifala, iniciado há um ano e meio. O estudante de filosofia teve então a ideia de postar um convite para sua iniciativa no Facebook, acompanhado da foto de uma rua da Vila Palitolândia e de uma frase de A Ideologia Alemã, de Marx e Engels: “A consciência não pode ser coisa diversa do ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real.” 

Engana-se quem achou o convite hermético e pouco atrativo. Chico, como é conhecido, obteve várias respostas e, no domingo seguinte, aconteceu a primeira reunião do Perifala. “A ideia não é abandonar a teoria produzida na universidade, mas tirar a discussão do abstrato e fazer relações com os sujeitos que são objetos das pesquisas sobre violência, pobreza, racismo”, explicou. 

O Perifala reúne quinzenalmente entre dez e vinte estudantes de 16 a 25 anos. Os encontros são combinados via WhatsApp e, a cada vez, alguém sugere um texto a ser lido e discutido. A maioria dos participantes é negra, pobre, jovem e universitária – muitos são os primeiros de suas famílias a fazer um curso superior. O “processo de vida real” aparece nos exemplos tirados das próprias experiências deles.

Naquele domingo de julho, os jovens também discutiram sobre o consumo descontrolado, a crise do trabalho e o esvaziamento político da esquerda. Citando a historiadora Virgínia Fontes, Silva Filho falou da “pobretologia”, que tende a esconder a luta de classes ao estudar a pobreza. “Somos vistos como pessoas que merecem receber algo, mas não como sujeitos políticos.” 

A estudante de jornalismo Mariana Costa, 20 anos, comentou sobre os programas de tevê que estimulam a ter o próprio negócio. “Dizem: seja seu patrão com apenas 5 mil reais”, ela ironizou. “Às vezes temos que decidir se vamos xerocar um texto ou se vamos comer”, afirmou Wanderson Dantas, 23 anos, mestrando em história. Diego Santos, 25 anos, estudante de ciências sociais, completou, brincalhão: “Quando é o caso de comer, adeus Kant.” Natanael Silva, 21 anos, estudante de história, vindo da mais distante Vila da Paz, deu como exemplo de precarização do trabalho a sua própria família: ele precisava voltar para casa a tempo de devolver a bicicleta do irmão, que é entregador do Uber Eats. 

Todos os dias, Silva Filho encara seis ônibus e cinco horas de viagem, da Vila Palitolândia até a Universidade Federal do Piauí (UFPI), em Teresina, e vice-versa. Desde o ano passado, ele está ligado à União da Juventude Comunista (UJC), uma organização do Partido Comunista Brasileiro. Extinto em 1992, quando se transformou no PPS (Partido Popular Socialista), o PCB ressurgiu em 1996, ano em que obteve novo registro no Tribunal Superior Eleitoral. “O PCB é um partido revolucionário, não um partido eleitoral. Não temos a eleição a cargos públicos como objetivo. Queremos construir o poder popular nos sindicatos, nas entidades de base e no movimento estudantil”, defendeu Silva Filho. Em seu perfil no Instagram, ele aparece com livros de Dostoiévski e dos filósofos Herbert Marcuse e István Mészáros, ambos marxistas. Ele mora com a mãe e recebe uma bolsa de 400 reais da UFPI.

Recentemente, seu nome chamou a atenção nas redes sociais, depois que se envolveu numa polêmica com a escritora e ativista Djamila Ribeiro. No Instagram, ela reclamou que era incoerente da parte do músico Roger Waters pedir a Milton Nascimento que não se apresentasse em Israel, uma vez que o próprio Waters fizera um show no Rio, que “está em guerra faz tempo”. Silva Filho comentou: “Parabéns! A análise ficou péssima.” Ribeiro respondeu: “Assinado, o homem branco.” 

O morador da Palitolândia replicou, expondo sua condição. E desafiou a escritora para um debate na periferia, dizendo que isso seria mais útil do que publicar “stories em Paris ou de palestra em universidade federal”. Ribeiro ironizou: “Ops, é que você fala como um [homem branco].” E concluiu: “Tenha dignidade, homem.” 

A discussão viralizou e dividiu opiniões. Foram mais de 2 mil comentários na rede, a favor de um ou de outro. Mas Silva Filho prefere não se estender mais sobre o caso. Argumenta que o movimento negro tem suas contradições e que Djamila Ribeiro está há tempos afastada da periferia e, portanto, impossibilitada de compreendê-la. 

Em seu trabalho de conclusão do curso de filosofia, a ser apresentado no final deste ano, Silva Filho tentará responder “como a tecnologia se tornou instrumento de dominação e objeto de consumismo na sociedade industrial avançada”, nas palavras dele. “Pesquiso uma resposta à ideia iluminista de que a racionalidade traria, por si só, a emancipação humana, como se a tecnologia fosse neutra.” Quando lhe perguntei se os meios tecnológicos, apesar de tudo, não estariam sendo úteis ao grupo Perifala, ele respondeu: “A tecnologia é dotada de ideologia, é instrumento de dominação, mas pode ser também de resistência.”

 Enquanto resiste, Silva Filho compartilha – o wi-fi, por exemplo, que é quase um luxo na Vila Palitolândia, mas ele tem em casa. “Divido a rede com a vizinhança quase toda”, contou. E, sorrindo, definiu: “É um wi-fi comunista.”

Samária Andrade

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