esquina

Na Praça Dignidade

Uma família protesta no Chile

Monica Yanakiew
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

A viagem de San Bernardo, cidade na periferia de Santiago, até o Centro da capital chilena dura uma hora e meia. No metrô, Carolina Gomes, de 43 anos, abre a mochila para conferir se está levando tudo que precisa. O lenço, para cobrir o nariz e a boca. Os óculos de mergulhador. A garrafa de água misturada com uma boa pitada de bicarbonato de sódio, para combater os efeitos de bombas de gás lacrimogênio. A colher de pau para bater na panela, que ela mesma pintou à mão com a frase: “Pelos meus filhos e os teus.”

Sua filha de 18 anos, Valeria, comenta, sorrindo: “Como você pode ver, minha mãe fez um curso intensivo para enfrentar os policiais.” Desde outubro do ano passado, participar de manifestações virou programa de família para os Gomes. Dessa vez, porém, o pai, Moisés Gomes, ficou em casa para cuidar do filho Ignacio, de 11 anos, que está com a pele e os olhos irritados desde o último protesto.

Na semana anterior, os quatro tentaram chegar à Praça Itália – epicentro dos protestos em Santiago e rebatizada pelos manifestantes de Praça Dignidade –, mas foram atingidos em cheio pelos guanacos. Assim são chamados os tanques que, para dispersar as multidões, lançam fortes jatos de água (o nome designa também certa espécie de lhama que reage à aproximação das pessoas cuspindo nelas). O Colégio de Químicos Farmacêuticos e Bioquímicos do Chile apontou que a água usada pelos policiais contém elementos de gás de pimenta e soda cáustica, que podem provocar reações alérgicas e queimaduras.

A família acabou sendo resgatada por uma brigada de estudantes de medicina e enfermagem da Universidade de Santiago do Chile (Usach), que atua todos os dias, até oito da noite, num posto de saúde improvisado na praça. Os socorristas se movem em bloco em busca de feridos e protegem-se com capacetes e escudos de lata, decorados com a cruz vermelha. “Nos protestos estudantis de 2011, bastava sair de casa com um lenço e chupar limão para se proteger do gás lacrimogênio”, afirma o socorrista Pablo Benavides. “Agora a repressão é bem maior. Estão misturando produtos químicos na água dos guanacos.”

 

A explosão social no Chile começou em 18 de outubro por causa do aumento de 30 pesos na tarifa do metrô. Mas isso foi só o estopim, como expressa o slogan principal da revolta: “Não é pelos 30 pesos, é pelos 30 anos.”

A primeira reação do presidente Sebastián Piñera foi revogar o aumento, decretar estado de emergência e toque de recolher em várias partes do país. Depois, propôs um plebiscito para reformar a Constituição e, em dezembro, anunciou aumento das aposentadorias mais baixas e do salário mínimo. Apesar das medidas, os protestos continuaram. Em dois meses, várias estações de metrô e agências bancárias foram destruídas, supermercados foram saqueados e mais de 4 mil pessoas ficaram feridas. Até a segunda semana de dezembro, 26 pessoas haviam morrido.

Carolina Gomes nunca tinha participado de protestos. Ela cresceu no período da ditadura de Augusto Pinochet e era ainda adolescente quando os chilenos restauraram a democracia, em 1990. “Meus pais me ensinaram a calar e a temer as autoridades”, disse. “Mas agora saio às ruas por causa da minha filha. Devo isso a ela, já que passei quatro anos enganando-a, mandando que estudasse e tirasse boas notas para entrar numa universidade. E descobri que o sistema no qual eu acreditava não funciona.”

A sua grande decepção foi ver a filha reprovada no vestibular da faculdade pública de odontologia – superada nas notas, segundo Gomes, por quem estudou em colégios particulares. Valeria terá que se conformar com os estudos numa escola técnica.

A indignação da família é parecida com a de milhares de chilenos que também pedem o fim das dívidas estudantis, do sistema de previdência privada e do modelo econômico que privatizou até a água no Chile.

 

Lendo as paredes em um mês aprendi mais do que em anos de escola”, exagerou Valeria Gomes, sobre os numerosos cartazes afixados pelos manifestantes nas ruas, com frases como: “Salário mínimo digno”, “Igualdade na saúde e na educação”, “Viver no Chile custa o olho da cara”.

Não apenas as paredes, mas também as estátuas foram alvo de protestos: os olhos destas foram vendados ou pintados com tinta vermelha, como se estivessem sangrando. Em alguns pedestais foi escrito: “Quando acordamos, nos cegaram.” Mais de duzentas pessoas sofreram lesões oculares durante as manifestações e pelo menos dezesseis delas perderam a visão total de um olho – entre eles, Vicente Muñoz, de 18 anos, que foi atingido na vista esquerda por uma bala da borracha.

Ele cursa teatro na Universidade do Chile, beneficiado pela decisão da presidente Michelle Bachelet de aumentar o número de bolsas de estudo no ensino superior, depois de uma série de protestos estudantis em 2011. A sua irmã, Paula Muñoz, de 23 anos, entretanto, acumula uma dívida de 15 milhões de pesos (cerca de 80 mil reais) na Pontifícia Universidade Católica do Chile, onde estuda letras. “Estávamos acostumados a fazer dívidas no cartão. Mas o certo seria ganhar um salário digno”, ela diz.

Por causa do ataque sofrido por seu irmão, Paula Muñoz só voltou às ruas no dia 4 de dezembro. Foi com três amigas ao Estádio Nacional de Chile, o infame local usado como centro de prisão e tortura pela ditadura militar, logo depois do golpe de 1973. Naquele dia a manifestação fora convocada por mulheres de mais de 40 anos, que iriam repetir a performance Um Estuprador no Seu Caminho – criada pelo Las Tesis, um coletivo feminista de Valparaíso que se inspira nas ideias das ensaístas Silvia Federici e Rita Segato.

“Viemos para aumentar o quórum, porque achamos que haveria poucas mulheres e elas precisariam de ajuda”, contou Paula Muñoz, ao lado das amigas. Entretanto, centenas de mulheres jovens e mais velhas, algumas com mais de 80 anos, começaram a se aglomerar na frente do estádio. Estavam quase todas vestidas de preto, muitas com lenços vermelhos no pescoço. Ao som de um tambor que ribombava em ritmo guerreiro, elas coreografaram a performance com os olhos vendados e bradaram os versos: “O patriarcado é um juiz/Que nos julga por nascermos/E nosso castigo/É a violência que não vês.”

A performance do coletivo Las Tesis, criada para denunciar a violência contra a mulher, virou símbolo da rebelião chilena. Viralizou e vem sendo repetida por grupos de mulheres em várias cidades do mundo. “Com a dança denunciamos o tratamento dado às mulheres e também aos homens que são detidos e forçados a tirar a roupa e fazer agachamentos nos postos policiais”, disse Paula Muñoz. “Já os olhos vendados representam os políticos que não quiseram ver a insatisfação da sociedade chilena e também as pessoas que perderam o olho lutando por um país mais justo, como foi o caso do meu irmão.”

Carolina e Valeria Gomes não esperaram o fim da manifestação para deixar a praça. “Quando anoitece, começa a repressão”, disse a mãe, a caminho do metrô. Cada passagem custa 750 pesos (cerca de 4 reais) e pesa no bolso da família, ela conta. Os Gomes vivem com 700 mil pesos mensais (cerca de 3 700 reais). “Mas vamos voltar sempre que necessário”, diz.

Em abril, os chilenos votarão em plebiscito se querem ou não mudar a Constituição. Enquanto não chega o dia da votação, os protestos continuam – sempre criativos. Na Praça Dignidade, uma manifestante carregava uma árvore de Natal decorada com tiras de papel com pedidos de reforma social. No topo da árvore, no lugar da velha estrela, um aviso: “Não estamos em guerra.”

Monica Yanakiew

Baseada em Buenos Aires, cobre a América Latina há quase vinte anos. É coautora do livro "Argentinos: Mitos, Manias e Milongas" (Editora Planeta).

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