despedida

Não chore ainda não

A morte e a ressurreição do bar que homenageia Chico Buarque

Mônica Manir
No sábado em que o Roda Viva iria fechar, 323 pessoas apareceram para se despedir. Mas antes que a noite acabasse, tiveram uma surpresa
No sábado em que o Roda Viva iria fechar, 323 pessoas apareceram para se despedir. Mas antes que a noite acabasse, tiveram uma surpresa EGBERTO NOGUEIRA_2018

Cantou daquela vez como se fosse a última. No dia 25 de agosto, pandeiro na mão, Roberto Biela se aproximou do microfone e, com a voz embargada, lamentou: “A gente tentou… É um encerramento digno da nossa história.” Depois de quinze anos, o Roda Viva – bar paulistano da Vila Madalena, famoso por reverenciar Chico Buarque – iria fechar de vez a porta rústica. O adeus decorria principalmente de três fatores: aluguel atrasado, dívidas bancárias e pendências fiscais. Biela, porém, suspeitava de um quarto motivo para o término do estabelecimento: o desagrado de parte do público em relação às posições ideológicas de Chico e às manifestações pró-PT que brotaram dentro do bar na época do impeachment de Dilma Rousseff. “Teve quem falou: ‘Poxa, cara, deixei de vir porque fiquei chateado. Vocês começaram a misturar cultura com política’”, contou Biela. “Respondi: ‘Querido, cultura é política, política é cultura, todo artista é um contestador.’”

O cantor e percussionista de 57 anos, corpo magro e sorriso esparramado, vinha se apresentando no Roda Viva desde a inauguração, quando o bar ocupava um sobradinho a 300 metros do endereço atual. Ali, um punhado de universitários, muitos ainda carecas do trote, afinava pensamentos de esquerda ouvindo Apesar de Você. “O pessoal da USP e da PUC ia em massa ao Roda, especialmente a moçada do direito e da filosofia”, relembrou a proprietária, Tatyana Margarido. Acostumada a escutar Chico desde criança (“Meus pais eram fãs”), ela se ressentia de não encontrar botecos na cidade que servissem os hits do cantor. Resolveu, então, alugar o tal sobrado e saiu à cata de músicos que soubessem interpretar o Carioca, apelido do compositor durante a adolescência vivida em São Paulo. Biela apareceu primeiro. O violonista Rogério Silva veio logo em seguida. Margarido precisava da dupla no mesmo palco, mas a agenda dos dois casava apenas na quinta-feira. Resultado: a quinta se tornou o dia em que só se executariam clássicos do Chico na casa. Às sextas-feiras, outros músicos tocariam ao vivo grandes nomes da MPB e muito Chico. No sábado, mais MPB, um pouco de samba e um bocado de Chico. No domingo, também rolariam uns fóruns de discussão, para tratar de temas como o feminino na música brasileira e… na obra do Chico.

 

A professora Julia de Crudis Rodrigues tinha 17 anos quando pisou no sobrado pela primeira vez. Fazia letras na USP e passou a ser assídua. Não arredava pé da sala onde ficavam os instrumentos, gingando na frente dos músicos, mesmo sob a densa névoa dos cigarros, só abolidos de recintos fechados em 2009.

A “chicólatra” travou o primeiro contato em carne e osso com seu deus há mais de uma década. Ao vasculhar a comunidade do cantor no Orkut, descobriu os dias em que ele treinava no Politheama, time de futebol do qual é fundador. Viajou para o Rio de Janeiro com uma amiga e, pouco antes da visita ao campo, viu Chico passeando em Ipanema. Pediu um abraço, ele deu. Perguntou onde ficava Copacabana, ele indicou. Sugeriu uma foto juntos, ele topou. No dia da pelada, no Centro Recreativo Vinicius de Moraes, o meio-campista reconheceu a moça após o jogo e lhe ofereceu uma garrafa d’água. “Tenho a garrafinha até hoje”, vangloriou-se Rodrigues. Ela ainda conseguiria um autógrafo do compositor na capa de um disco quando o show Carioca passou pela capital paulista. No mais recente espetáculo do artista, Caravanas, a tiete arriscou um bilhetinho e o deixou na mão de um assessor do ídolo. “Chico, por favor, faça uma turnê no Sesc. E visite o Roda Viva. Obrigada. Um beijo, Julia. P.S. – Eu te amo.”

Por mais sinceros os pedidos – e teriam sido muitos, segundo Rogério Silva –, Chico nunca conheceu o bar. Dos Hollanda, apenas Sergio, um sobrinho do cantor, pintou no sobrado e, depois, na casa térrea da rua Inácio Pereira da Rocha, para onde o estabelecimento se transferiu em 2014. No novo endereço, as capas dos LPs de Chico colecionados pelos pais de Tatyana Margarido ganharam moldura e passaram a salpicar as paredes, entre fotos célebres e triviais do compositor. Ora ele frita ovo de avental ou traja somente uma cueca listrada, ora joga bola, lê, toca, ri ou mantém o semblante sério num protesto contra a repressão. Dependendo da luz, às vezes exibe olhos azuis; às vezes, olhos verdes.

Um pôster gigante recebe os clientes logo na entrada. Retrata Chico e o cineasta Ruy Guerra, ambos à frente de um cartaz de Calabar, a peça que fizeram juntos e que foi censurada em 1973. Margarido ganhou o pôster do próprio Guerra e o expôs na sala de sua casa. “Resolvi trazê-lo para o Roda na esperança de dar uma energizada, uma melhorada, a cartada final”, explicou. É que, a partir de 2015, o movimento do bar diminuiu. “A maldita crise econômica nos pegou de jeito.” As cerca de oitenta pessoas que costumavam dar as caras toda noite se transformaram em 40, 30, 20, 10… Há quem julgue que a mudança de endereço contribuiu para afugentar os frequentadores. “O antigo sobrado tinha uma graça especial”, disse a advogada Vivian Peres da Silva enquanto bebericava no boteco. Ela trazia um “buarque-se” tatuado no antebraço esquerdo. Outros acreditam que o público não se renovou. “Quem tinha 18 anos no início do Roda hoje tem 33, está investindo na carreira, morando fora ou casado, talvez com filho pequeno”, conjecturou o também advogado Felippe Monteiro, o Pepê.

 

Quanto à questão ideológica, alguns ponderam que o fato de Chico e outros esquerdistas afirmarem e reafirmarem que o impeachment de Dilma significou um golpe não fez tanta diferença para os habitués do lugar. Tatyana Margarido discorda. De acordo com ela, nem todo cliente do Roda era petista, e chegou um momento em que uma parcela da freguesia se incomodou com as conversas sobre política que incendiavam as mesas ou mesmo com uma ursa de pelúcia gigante, que virou mascote do bar. O engajadíssimo mamífero vestia uma camiseta com a inscrição “Fora Temer”. “Os coxinhas se mandaram, e os coxinhas gastavam muito bem”, resumiu Margarido.

No início de agosto, correu a notícia de que o Roda Viva iria fechar em breve. Ao longo das semanas seguintes, mortadelas, croquetes, bolinhos de mandioca, empadas, rissoles e até coxinhas foram em peso se despedir. “É, seus filhos da puta, quando o bar estava doente, eu pedia para vocês visitarem e vocês não vinham. Agora vieram para o velório?”, zombava Roberto Biela, desafiando a plateia com o fiel cigarro entre os dedos. No dia 25, o sábado derradeiro, 323 pessoas pegaram comanda para degustar João e Maria, Tanto Mar e A Rita. Por volta da meia-noite, Pepê caminhou até o palco e se apossou do microfone. Queria anunciar que, com o intuito de fazer o boteco reagir, ele e três amigos haviam decidido custeá-lo por alguns meses, além de dar um tapa na fachada, no cardápio e nos banheiros. “Hoje não será a lamentação do sim, será a celebração do recomeço do Roda Viva”, proclamou. Eufórico, Biela dançou e gargalhou como se ouvisse música.

Mônica Manir

Jornalista com mestrado e doutorado em bioética

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