esquina

Não precisa ser gordo

Feitos do técnico brasileiro de sumô

Daniel Lisboa
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

“Vamos parar para comprar anti-inflamatório assim que a gente sair”, comenta o pai do garoto que acaba de entrar pela primeira vez na vida em um dojô. O quadrado feito de terra batida funciona como ringue para a prática do sumô. O novato, muito magro, mostra sinais de exaustão logo no aquecimento e parece sambar dentro do mawashi, aquela cinta protetora que lembra uma fralda grande. “Comentei que ele queria fazer algum esporte e o Juba disse para eu trazer ele aqui”, contou o pai.

Juba é o apelido de Giuliano Tussato, professor de sumô no Centro Esportivo e Cultural Brasil–Japão, em São Paulo. Ele é também, desde dezembro do ano passado, o responsável por treinar os lutadores que representam o Brasil na modalidade. Em agosto tem campeonato mundial em Taiwan, e Juba tentará levar os dezesseis brasileiros classificados a uma posição digna. Foi sob seu comando que o até então desacreditado time da Venezuela ficou em sexto lugar no último mundial. O Brasil sequer apareceu na classificação final.

O mau desempenho, entretanto, não vem da falta de tradição no esporte. A milenar luta nipônica é praticada aqui desde que os imigrantes japoneses começaram a chegar, em 1908. O país já conquistou o mundial de sumô em duas categorias e, até os anos 90, contava com muito mais praticantes. “Hoje a gente deve ter uns 700”, calcula Juba. “A popularidade diminuiu porque, além de os jovens descendentes de japoneses não darem mais muita atenção à cultura tradicional, muitos lutadores foram embora do Brasil.”

Os feitos de Juba como professor e treinador, porém, são recentes. Antes, o mestiço de brasileiro, japonês e italiano fez de tudo um pouco: lutou profissionalmente no Japão durante quase nove anos; foi dono de uma movimentada casa noturna, o Bar Mania, em Roppongi, bairro boêmio de Tóquio; trabalhou como “babá” de marines americanos metidos em brigas e bebedeiras na noite japonesa; virou ele mesmo um marine, combateu no Iraque. E são apenas 40 anos de idade.

 

O sumô tem um objetivo simples: empurrar o adversário para fora do círculo demarcado no dojô ou fazer com que encoste no chão qualquer parte do corpo que não seja a sola dos pés.

“É o que eu falo: tenho 40 anos, estou aleijado e mesmo assim os caras não conseguem me tirar do lugar”, brinca Juba ao exemplificar a diferença entre alguém que já foi profissional de sumô e um amador. Hoje com 180 quilos, ele chegou a pesar mais de 200 depois de várias lesões no joelho e de um acidente de carro que destroçou sua perna direita. Seus alunos, porém, divergem do estereótipo do “gordão de fralda”.

Exceção feita a um menino um pouco acima do peso, os demais presentes a uma aula no início de maio eram dois garotos magros e três mulheres em ótima forma. “Claro que, quanto mais pesado você for, mais difícil será te tirar do lugar. Mas ser gordo não é regra”, esclarece o treinador. Para provar seu ponto de vista, ele mostra vídeos do YouTube que revelam uma luta muito técnica. E violenta. Além da agarração para derrubar o adversário, o sumô profissional admite golpes poderosos dados com os punhos. Em uma das lutas, um magro de 1,70 metro vence seu monstruoso oponente de mais de 2 metros com ginga e sangue-frio.

Os praticantes de sumô no Brasil estão concentrados em cinco estados – São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Pará e Rio Grande do Sul. Juba calcula que metade deles não tenha ascendência japonesa. A falta de dinheiro impede que muitos evoluam no esporte. “Teríamos um participante do Rio Grande do Sul no mundial, mas ele não teve grana para ir.”

Decacampeão brasileiro e campeão sul-americano, o paulistano Willian Takahiro, proprietário de um bar no reduto japonês da Liberdade, precisou organizar uma rifa para viajar ao último campeonato mundial. “Até arranjar uniforme é complicado. Eu uso o mesmo há uns dez anos. Quando consegui falar com a fornecedora de material esportivo dos atletas olímpicos do Brasil, não só me trataram mal como perguntaram se íamos levar assessoria de imprensa para o mundial. Pô, se nem uniforme a gente tinha!”, contou Takahiro.

Para Juba, a modalidade no país precisa de um banho de marketing. A Confederação Brasileira de Sumô e suas afiliadas vivem basicamente da contribuição de alguns integrantes. “Temos que mostrar que o sumô é bacana”, disse o treinador. Ele pretende criar uma Oscip, ou Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – na qual empresas podem investir e obter isenções fiscais –, para promover as lutas no Brasil.

 

Se depender da obstinação de Juba, o sucesso da iniciativa é plausível. Ele se tornou profissional no Japão quando tinha 16 anos. Longe da família e sem falar japonês, acordava às quatro e meia da manhã para começar um treino que incluía até cinquenta lutas diárias. Na academia onde viveu na época, dividia espaço com mais de quarenta adeptos do sumô. Entre provocações e punições que incluíam surras com pedaços de pau, não escapou do bullying dispensado aos iniciantes. “Cheguei no inverno e nos primeiros dias fiquei com a cueca dura de tanto barro do dojô. O chuveiro era frio e eu não conseguia me limpar com aquela água gelada. Isso até descobrir que desligavam o aquecimento para me sacanear”, recorda o treinador.

Juba chegou à terceira categoria de lutadores profissionais do Japão (a elite está na quinta). Hoje, além de atuar como treinador, trabalho pelo qual diz não receber nada, Juba voltou ao entretenimento noturno. Ele acaba de abrir um bar, o Pé na Jaca, na Vila Madalena.

A intimidade com a noite pode parecer estranha para um aficionado do nobre esporte japonês, mas os registros do período em que Juba foi dono de boate em Tóquio evidenciam que lhe falta vocação para renunciar aos prazeres mundanos. As fotos mostram japonesinhas com roupas minúsculas, machos alcoolizados caídos no banheiro, e Juba interagindo entusiasticamente com clientes e funcionários. “Tinha de tudo lá. Prostituta, marine, turista, mafioso. E celebridades que fizeram coisas que eu nem posso contar. A Courtney Love, por exemplo, vomitou no meu banheiro todo.”

Daniel Lisboa

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