questões lúdico-esportivas

Nas asas do skate

A transformadora aventura de deslizar sobre quatro rodinhas

Damian Platt
O autor, em 1987, em Oxfordshire: as crianças da Maré tiveram a chance de conhecer Sky Brown, já então um fenômeno mundial do skate, e Rayssa Leal, a Fadinha, que levaria prata em Tóquio
O autor, em 1987, em Oxfordshire: as crianças da Maré tiveram a chance de conhecer Sky Brown, já então um fenômeno mundial do skate, e Rayssa Leal, a Fadinha, que levaria prata em Tóquio CREDITO: JULIAN PLATT_1987

Tradução de Sergio Tellaroli

Nairóbi, 2021. Manhã de sábado. Disparo alegremente pela pista multicolorida de skate. Sob meus pés, a prancha responde com seus giros e curvas. Eu a pressiono com os dedos dos pés e os calcanhares. Ergo o tail – a extremidade traseira do skate – e salto. O skate levanta voo e me leva com ele. Minha confiança cresce. Depois, decido mergulhar do alto da borda da pista, que é uma espécie de concha em formato de feijão. Meu coração dispara. Voo até o ponto mais fundo, contorno as rampas íngremes das bordas e estou quase de volta ao topo quando, abrupta e inesperadamente, a prancha escorrega para longe dos pés. Meu corpo, em rápido movimento, obedece a sua trajetória natural. Voo para cima e para baixo antes de me espatifar no chão de concreto duro – braços abertos, peito à frente. O impacto me faz perder a respiração. Rolo até me ver deitado de costas, resfolegante. Rostos aparecem sobre mim, silhuetas tendo ao fundo o Sol ofuscante do Equador. As pessoas desculpam-se sem parar. Por que razão, eu me pergunto. A culpa não é delas.

Pode parecer estranho, considerando-se que estou numa pista de skate e longe da palavra escrita, mas, enquanto recupero o fôlego, me pego pensando em Antoine de Saint-Exupéry e em seu Terra dos Homens, obra que descobri recentemente e por acaso. Eu me lembro de que, na introdução do livro, ao falar de sua vida como piloto comercial a abrir rotas de correio pelo mundo todo, ele descreve a autodescoberta da seguinte maneira: “Ao se medir com um obstáculo, o homem aprende a se conhecer; para superá-lo, entretanto, ele precisa de ferramenta.” As palavras “obstáculo” e “ferramenta” começam a quicar dolorosamente em minha cabeça. Publicado pouco antes da Segunda Guerra Mundial, Terra dos Homens é mais do que uma mera reflexão sobre os desafios e o romantismo dos primórdios da aviação: é um tratado existencial sobre a identidade na sociedade pós-industrial – uma sociedade que, na opinião de Saint-Exupéry, reduz a maioria dos seres humanos a exauridos e dormentes “montes de barro”, roubando-lhes a vida emocional e a energia criativa.

Saint-Ex, como os amigos o chamavam, descobriu que sua ferramenta era o avião. Voar sobre o Deserto do Saara ou os Andes, muitas vezes à noite, conectou-o ao universo e a suas questões mais profundas. Como escrevesse, porém, numa época de mudanças e crises imensas, ele também tinha consciência de que a aviação comercial e os avanços tecnológicos estavam acontecendo tão rápido que a humanidade teria dificuldade para acompanhá-los: “Tudo mudou tão depressa em volta de nós: relações humanas, condições de trabalho, costumes… Até mesmo a nossa psicologia foi subvertida em suas bases mais íntimas. […] Somos todos bárbaros novos que ainda se maravilham com seus novos brinquedos.”

Fico imaginando como Saint-Ex descreveria o momento atual, um século depois de ele ter aprendido a voar. O que pensaria da hiperconectividade, da realidade do ciberespaço nessa aldeia global cada vez mais mal-humorada e superlotada que ele ajudou a criar? Nossa psicologia segue sendo subvertida em suas bases mais íntimas e, mais do que nunca, somos escravos de brinquedos novos.

Mas, lendo Terra dos Homens, encontro imenso consolo na percepção de que também eu descobri uma ferramenta de inesperada autodescoberta. Ela me ajuda a encontrar energia criativa e a me medir com obstáculos. Essa ferramenta me leva a lugares aos quais nunca planejei ir e me proporciona encontros humanos que jamais pensei que teria. Às vezes, ela me permite voar (só um pouquinho). Mas não tem motor. Nem consome recursos preciosos. Mantém meus pés bem mais próximos do chão – ainda que nem sempre com firmeza. O skate é só uma prancha com rodas, fisicamente mais alinhada às sarjetas do que às estrelas. Acredito, no entanto, que Saint-Ex o aprovaria, porque, ainda que minhas aventuras sejam terrestres e rotineiras comparadas a suas buscas épicas e celestiais, a viagem do coração é a mesma.

 

Eu aprendi a andar de skate 37 anos atrás num pequeno pedaço de calçada em Londres. Depois do pico de popularidade nos anos 1970, quando virou verdadeira mania, o skate tinha refluído para seu ponto mais baixo no começo dos anos 1980. Já não era cool. De cada dois itens oferecidos para troca num popular programa infantil de tevê da BBC aos sábados – Multi-Coloured Swap Shop, com Noel Edmonds –, um era um skate usado e indesejado. A maior parte das pistas comerciais tinha sido fechada. Mas eu, que me equilibrava então nos limites precários entre infância e puberdade, tampouco era cool. Depois de tomar emprestado de um amigo um skate fino, de plástico, fui aprendendo a me manter em cima dele dentro da minha casa. Dali, segui para a esquina mais próxima, uma longa curva inclinada de 180 graus para a direita. O skate laranja, espalhafatoso, tinha rodas de plástico bem duras que travavam facilmente em minúsculos pedaços de pedra e me jogavam no chão. Foi somente depois de várias quedas doloridas que aprendi a dobrar os joelhos e a abrir bem os braços. Valeu a pena. O domínio daquela curva garantiu-me o progresso ininterrupto até chegar ao meu portão, as rodas matraqueando, o vento na cara e um gostoso sentimento de realização dentro de mim.

Quando um vizinho mais velho me deu seu skate de madeira com rodas macias, pude então ir mais longe e mais rápido. E com mais segurança, agora sem o risco das rodas duras derrapando até parar subitamente. Depois da esquina, graduei-me numa colina próxima e segui adiante. Comecei a mapear Notting Hill, o bairro de Londres onde eu morava. Conheci outros skatistas, fiquei amigo deles. Toda vez que saía, aprendia uma manobra nova, descobria outro lugar ou encontrava alguém diferente.

Comecei a frequentar Meanwhile 2, um local construído especificamente para andar de skate próximo da estação Royal Oak do metrô e escondido sob o viaduto da Westway – protegido, portanto, das intempéries. “Meanwhile”, como costumávamos chamá-lo, compunha-se de dois fossos suaves de concreto. Tinha ganhado esse apelido porque era como o irmão mais novo da vizinha pista de skate construída na década de 1970 em Mean-while Gardens – nome grandioso (“jardins”) para um gramado junto ao Canal Grand Union no Parque Westbourne. Meanwhile 2 atraía um público bastante eclético. Londrinos do Oeste da cidade, rueiros e espertos, dividiam espaço com surfistas sem ondas. Skatistas punk de Ipswich e Bristol fraternizavam com a molecada mal-educada de Bromley. Tinha de tudo, todos os tipos, mas nenhum em particular. Um americano que morava no bairro de Deptford e se chamava Steve promovia competições ocasionais e anárquicas que, por algum motivo que só ele conhecia, batizara de O Cheiro da Morte. As pessoas dali eram sempre simpáticas. Na companhia delas, fui melhorando depressa, aprendendo a expandir meus limites como skatista. Seu incentivo – muitas vezes eu era o mais jovem do grupo – me ajudou a ganhar confiança.

Embora em geral receptivo, Meanwhile podia ser também um lugar imprevisível e perigoso. Camisinhas usadas entulhavam os meios-fios dos fossos para a prática do skate, prova do uso noturno suspeito de nosso espaço. Rançosas poças de urina empestavam as esquinas. Garotos valentões muitas vezes aguardavam nas sombras, à espreita dos mais bobos. Queriam dinheiro, mas queriam o skate também; um bom skate era fácil de revender. Nos fins de semana, quando skatistas locais e mais velhos estavam por ali, os ladrões mantinham distância. Mas, numa tarde tranquila, quando o local estava vazio, podia haver problemas. Agressores armados de faca às vezes escondiam-se atrás dos pilares gigantescos da Westway. Jogaram amoníaco no rosto de um amigo meu.

Apesar dos riscos, continuei indo lá. E os mais velhos das redondezas continuaram me tratando bem e me fornecendo equipamento para a prática do skate. Eu, de minha parte, passava meu material usado para outros. Remendei e colei meu tênis até ele se desmanchar no pé. Mantive a forma, tive muitas aventuras, explorei a cidade e fiz amigos. Aprendi valores como a generosidade e a simplicidade. Encontrei alegria em atos aleatórios e lugares improváveis. Era uma das mais raras criaturas urbanas: um adolescente feliz e saudável.

Mas pouco a pouco cansei de me atirar contra calçadas. Mais próximo da idade adulta, fui ficando mais constrangido, sobretudo quando matraqueava ruidosamente pelas ruas com meu skate. Em busca da invisibilidade, praticamente desisti dele. Mas sempre senti sua falta.

A intervalos regulares, tentava ainda reavivar meu entusiasmo ao longo dos 20 e dos 30 anos. Mas sempre aparecia algum empecilho – o trabalho, um tombo desagradável, o tempo ruim –, e eu tornava a desistir. Refletindo sobre essas tentativas de retomada, percebo hoje o que me faltava: é que eu estava sempre sozinho.

Então, em 2014, perambulando por uma área de manguezais aterrados esquecida por Deus, enfiada debaixo de um pedaço imundo de via expressa e localizada na borda de uma das muitas favelas do Rio de Janeiro, topei com rampas para skate encostadas num pilar. Eu vinha trabalhando com jovens nas favelas da cidade fazia uma década e me intrigou descobrir que havia skatistas no Complexo da Maré, um populoso caldeirão urbano de cerca de 150 mil habitantes. A Maré começou como um conjunto de barracos de madeira apoiados em palafitas e construídos sobre os mangues à beira da Baía de Guanabara. Seus primeiros habitantes foram os pescadores e os trabalhadores da construção civil vindos de comunidades rurais empobrecidas do Nordeste. Hoje, seus descendentes vivem numa das áreas mais densamente povoadas da América do Sul, em comunidades urbanas tragicamente fragmentadas e hostis entre si. Por toda a Maré, grupos fortemente armados de criminosos disputam território entre si e com a polícia, que, em resposta, realiza voos rasantes em helicópteros de combate sobre áreas residenciais e abre fogo contra as ruas. Mortes decorrentes de balas perdidas não são incomuns. O que é uma das razões pelas quais os netos dos primeiros habitantes da região, alguns dos quais hoje praticam o skate, escolheram fazê-lo debaixo de uma via expressa.

Amigos me contaram que as rampas pertenciam a um grupo que se encontrava todo fim de semana. Curioso para saber como eram os skatistas da favela, deixei minha casa confortável na Zona Sul e peguei um ônibus para a Maré. Agora, crianças e adolescentes saltavam das rampas que eu vira encostadas no pilar da via expressa. Descobri até mesmo uma loja de skate na própria comunidade, a Maré Skate Shop. No final daquela manhã, eu já me equilibrava num skate novo na companhia de novos amigos. Voltei no sábado seguinte e no outro também. Com a ajuda do pessoal dali, reaprendi velhas manobras e aprendi uma ou duas novas. Protegido do Sol inclemente pelo viaduto mais acima e me afogando no barulho do tráfego sobre a minha cabeça, eu tinha desencavado um canto do Rio coberto de pichações que logo se tornou meu Meanwhile 2 tropical.

O Rio de Janeiro é uma das cidades mais violentas do planeta. O medo é o estado predominante de muitos adolescentes na favela. Além do terror da polícia, dos integrantes insanos dos grupos armados e das balas perdidas, é comum também o horror arraigado ao mundo além dos limites da favela. O Rio é para eles uma ameaça que, a qualquer momento, pode engoli-los sem deixar vestígio. Ao sair da comunidade, muitos jovens favelados se tornam um estrangeiro ilegal em sua própria cidade. Assim, fiquei feliz e espantado ao descobrir que esse horror lá de fora não afligia os skatistas da Maré. Eles iam a diferentes bairros para andar de skate e faziam amigos entre pessoas de diferentes procedências sociais. Estavam entre os jovens mais confiantes e sofisticados que eu encontrara no Rio. Aquela sua ferramenta simples de madeira os ajudava a se fortalecer, a ampliar suas amizades e, enquanto isso, a se livrar das algemas invisíveis da mentalidade de gueto.

A ameaça de se machucar é constante no skate. Por isso, para fazer algum progresso, é necessário balancear cuidadosamente risco e habilidade. É preciso também aprender a cair, se levantar e tentar de novo. Bons skatistas dominam esses processos. Ocorreu-me que isso poderia ajudar a explicar por que os skatistas da Maré pareciam bem equipados para administrar o contato com o mundo exterior.

 

Dois anos depois de reacender no Brasil minha paixão pelo skate, voltei ao Reino Unido para um estágio preparatório ao magistério. Trabalhava numa grande escola de ensino fundamental em Bradford, uma cidade pós-industrial no Norte da Inglaterra, onde batalhava como iniciante nessa profissão tão árdua. Tendo farejado a inexperiência do estagiário, as crianças, para começar, me faziam de gato e sapato. Jujubas provenientes de dedos invisíveis volta e meia voavam pela classe e ricocheteavam na minha mesa. Com um riso sarcástico, um garoto, me olhando nos olhos, certa vez atirou para o ar um avião de papel que acabou na minha testa. O magistério não estava fácil e era uma mudança radical no estilo de vida descontraído que eu levara no Rio.

Estudei então a obra de um psicólogo chamado Mihaly Csikszentmihalyi, que insiste em que os melhores momentos de nossas vidas não são os passivos, receptivos e tranquilos. Fazendo eco às ideias de Saint-Ex, ele argumenta que nossos melhores momentos acontecem quando nos vemos imersos num desafio. Segundo Csikszentmihalyi, nesses momentos, “o ego sai de cena. O tempo voa. Toda ação, todo movimento e todo pensamento decorrem inevitavelmente dos anteriores, é como quando se toca jazz. Todo o seu ser está envolvido, e você está empregando ao máximo suas habilidades”. Csikszentmihalyi chama de flow (fluxo) esse estado otimizado da experiência. Mas, ainda que eu tentasse criar esse flow em minhas aulas – certeza de sucesso, de acordo com meus instrutores –, raras vezes consegui, se é que alguma vez cheguei lá.

Atulhado de trabalho e dispondo de poucos amigos, eu sentia saudade do Brasil. Mas tinha meu skate. E encontrei uma saída numa pista nas proximidades, construída por skatistas e enfiada entre um canal e uma linha férrea num pedaço abandonado de concreto em Yorkshire, a região em que fica Bradford. A cultura do faça você mesmo (DIY, na sigla em inglês) tornou-se componente central do skate em anos recentes. As pistas hoje construídas especificamente para a prática do skate ficam muitas vezes superlotadas e são monitoradas muito de perto. Por isso, skatistas de espírito mais independente optam por financiar e construir eles próprios suas instalações, localizando-as em espaços esquecidos e levando vida nova a nichos urbanos não muito apreciados. Ali, eu deixava o professor inexperiente no carro. O tempo raras vezes colaborava, era um eco muito distante do Rio. Mas no DIY Shipley, como se chamava o lugar, eu conseguia ter breves e revigorantes momentos de diversão e alegria.

Numa sexta-feira à tarde, depois da escola, enquanto eu tentava repetidas vezes (falhando em todas elas) aprender uma manobra nova, caí e me machuquei. Um companheiro skatista me lembrou de que, para aprender novos movimentos, empolgação ajuda – estar stoked foi a expressão que ele usou, antiga gíria de skatistas e surfistas para descrever aquele estado em que sentimos o sangue pulsar de tanto entusiasmo. De acordo com o Urban Dictionary, estar stoked “é a síntese do ser. Quando se está stoked, não há limites para o que se é capaz de fazer”. Em outras palavras, atingir esse estado é atingir o flow. E sinto que Csikszentmihalyi (que afirmou ter experimentado essa fluidez ao “praticar escalada, cozinhar, pintar e jogar xadrez”) concordaria com isso.

Às vezes, nos fins de semana, eu visitava também uma pista de skate municipal no Hyde Park na cidade de Leeds, onde fiz mais amigos, incluindo-se aí o generoso proprietário de uma loja, a Welcome Skate Store. Quando chegavam as férias da escola e eu viajava para o Brasil, ele me fornecia equipamento usado para doar para os skatistas da Maré. Depois, pouco antes da minha qualificação como professor, descobri a existência da Make Life Skate Life, uma organização sediada na Bélgica que mobiliza voluntários para a construção de pistas de skate mundo afora – versões maiores e mais bonitas do DIY de Yorkshire. Entrei em contato com o fundador do grupo e, depois de me qualificar como professor (no segundo ano, o número de jujubas voadoras caiu), voltei ao Rio com um novo plano: construir uma pista de skate na favela.

Mas não podíamos simplesmente ocupar o espaço. Para poder construir uma pista de skate na Maré, precisávamos de múltiplas autorizações – não apenas do governo municipal e da empresa responsável pela via expressa que passava em cima do local, mas sobretudo do grupo armado que mandava naquela área. A empresa viária disse que não se importava, desde que o governo consentisse. A prefeitura mandou um arquiteto para visitar o local proposto e viu com bons olhos nossos planos, ao mesmo tempo em que perguntou se tínhamos conseguido a permissão do poder local não oficial.

Para complicar as coisas, um criminoso de porte médio, que administrava um serviço de transporte informal na comunidade, usava o local como estacionamento para suas vans. Um grande contêiner de metal, ocupado por seus motoristas, ficava bem no meio de nossa futura pista de skate. Só conseguiríamos construí-la se ele concordasse em tirar o contêiner dali, o que demandaria um guindaste. Mas ele disse que só retiraria o contêiner se seu próprio patrão lhe pedisse para fazê-lo – em outras palavras, precisávamos de autorização “de cima”, como se diz no Rio, do “dono” da comunidade. Encontrá-lo, porém, revelou-se difícil. Disseram-nos que ele não dormia duas noites seguidas no mesmo lugar e que não usava celular.

Enquanto isso, uma equipe internacional de construtores voluntários, proveniente da Colômbia, Estados Unidos, França, Alemanha, Dinamarca e Reino Unido – gente que havia pagado a própria viagem para o Rio –, estava a caminho para nos ajudar. Cabia a nós providenciar refeições e acomodação na favela para aquelas pessoas. Apoiadores da cidade do Rio de Janeiro, gente da Maré e de fora, foram mobilizados. As aulas de skate dos sábados estavam com todas as vagas preenchidas. Estava tudo pronto, mas ainda não tínhamos falado com o “dono”. Aparentemente, o problema era uma equipe de tevê que estivera filmando na Maré, razão pela qual ele tinha de tomar cuidado para não aparecer nas ruas. E, sem o seu consentimento, não podíamos começar a obra.

A aprovação veio no último minuto, quando eu já estava no aeroporto, esperando para apanhar o primeiro voluntário, um francês chamado Camille. “Ele [o dono] só quer ver a contabilidade quando terminarmos, para ter certeza de que não estamos roubando nada”, disseram-me ao telefone. Que ironia.

No dia seguinte, o bandido de porte médio arranjou um guindaste e mudou o contêiner de lugar. A construção foi adiante num mutirão feliz e caótico de barro, tijolo, entulho, areia, metal e cimento. Fiquei admirado com a capacidade, a dedicação e a camaradagem entre os voluntários, que, ao longo do mês que tinham para terminar o trabalho, só tiraram dois dias de folga. Quando terminamos, enquanto os construtores experimentavam em seus skates as curvas e inclinações macias esculpidas debaixo da via expressa, fiquei deliciado ao ouvir descreverem a obra como uma “pista fluida”.

Poucos meses mais tarde, no final de 2019, Sky Brown, então uma menina de 11 anos e já um fenômeno mundial, visitou a favela com seu irmão mais novo, Ocean. A presença dos dois propiciou uma experiência inesquecível à nova geração de meninas e meninos skatistas da Maré. Logo depois, a convite de Sky, as crianças da Maré conheceram os bastidores de uma competição na Barra. Ali, estiveram com outro fenômeno do skate e futura medalhista olímpica, Rayssa Leal, a Fadinha, maranhense de 13 anos que conquistou corações brasileiros ao ganhar a medalha de prata na categoria street. Para essas crianças, Fadinha e Sky – que levou bronze em Tóquio na categoria park feminina – são provas vivas de que o céu é o limite.

Eu já não estava ali para dividir esse momento. Tinha deixado o Rio para dar início à minha nova vida em Nairóbi. Com algum tempo de sobra para chegar à África Oriental, viajei para a Palestina como voluntário da SkatePal, uma pequena organização sem fins lucrativos dedicada à promoção do skate na Cisjordânia. Juntamente com a Make Life Skate Life, a SkatePal é uma das cada vez mais numerosas organizações de base que hoje pululam pelo mundo promovendo o desenvolvimento do skate. Os problemas enfrentados pelos palestinos e pelos moradores das favelas no Rio são parecidos, mas diferentes: as favelas não estão cercadas; os muros que apartam a Cisjordânia de Israel são altos e reais.

Voluntários acorreram do Canadá, dos Estados Unidos e do Reino Unido. De novo, vi-me ao lado de pessoas criativas e altruístas trabalhando para levar algum alívio e esperança a um recanto do mundo atormentado pelo preconceito e pela violência. Em Asira, a cidadezinha próxima de Nablus que nos servia de base, a comunidade local nos abraçou, convidando-nos para caminhadas conjuntas, refeições em família e expedições para colher azeitonas. Duas das voluntárias, filhas jovens de pais no exílio, estavam visitando a Palestina pela primeira vez. Fluentes em árabe, forjaram estreitos vínculos com as skatistas locais. A presença cada vez maior de meninas e mulheres nas pistas de skate pelo mundo todo trouxe vida nova ao skate do século XXI, deixando as pistas menos carregadas de testosterona e transformando-as em arenas mais descontraídas e inclusivas.

Infelizmente, embora possa levar oxigênio a comunidades sufocadas pela violência e pelo isolamento, o skate não é uma panaceia. E tampouco se revela sempre capaz de aproximar as pessoas. Fiquei triste, mas não surpreso, ao saber que hoje o contato entre skatistas palestinos e israelenses é pequeno ou quase inexistente.

 

Saint-Ex, que acreditava tanto no poder da amizade quanto no valor das ferramentas, escreveu também que “só há um luxo verdadeiro, o das relações humanas”. Graças à minha modesta prancha com rodas, faço amigos aonde quer que vá. Hoje, quando visito minha família na Inglaterra, ando de skate no Meanwhile 2 aos domingos de manhã, sempre na companhia de pais norte-americanos expatriados beirando a meia-idade. Se no passado eu era o mais novo na pista, agora sou o mais velho do grupo.

A primeira vez que fui andar de skate no Quênia – numa pista construída por uma organização alemã chamada Skate-Aid –, conheci Balo e Mwangi, dois ex-meninos de rua que antes moravam numa fossa perto de um local onde se praticava skate no Centro de Nairóbi. Os dois meninos pobres, que ficavam vigiando as posses dos skatistas em troca de moedinhas e uma volta de skate, logo aprenderam a andar de skate de verdade. Em pouco tempo, ficaram melhores que os frequentadores habituais do local, que se organizaram, tiraram os dois da rua e lhes arranjaram casa, tutela e escola. Hoje, no meio da adolescência, são dois dos melhores skatistas do Quênia.

Quando penso em Balo e Mwangi, lembro-me de que, no final de Terra dos Homens, Saint-Ex, observando uma criança num trem cheio de operários poloneses adormecidos, descreve a sensação agridoce de identificar um “Mozart” num rosto que é “uma promessa de vida”. Tragicamente, porém, ele reflete, a pobreza jamais permitirá que aquela criança realize seu potencial. E, olhando em torno no vagão lotado de operários roncando, ele fica atormentado com o “Mozart assassinado” em cada um deles.

Na verdade, um skate é só um brinquedo. Mas, como ferramenta, ele pode mudar vidas para melhor e ajudar a atiçar as brasas adormecidas da criatividade que todos os seres humanos carregam dentro de si. Eu tive o privilégio de poder observar essa mágica em ação entre os primeiros adolescentes com os quais andei de skate na Maré, sete anos atrás. Pude vê-los, em circunstâncias difíceis, pouco a pouco virando jovens adultos. São pessoas dotadas de engenho e inventividade, muitas delas envolvidas com a música e as artes visuais. O empreendedor do grupo, que abriu seu próprio salão de cabeleireiro, tem grande talento. Ele e seus amigos agora ensinam as novas gerações aos sábados de manhã.

Andar de skate é uma coisa simples e complexa, inútil e transformadora. Ensinou-me que fazendo algo tão somente por gosto, sem qualquer expectativa de compensação, posso colher recompensas que não têm preço: autoestima, felicidade, saúde e amigos. E isso é um grande consolo, sobretudo quando me vejo deitado de costas depois de um tombo num sábado de manhã, em dolorida contemplação do céu africano.

Damian Platt

É escritor, investigador cultural e skatista. Acaba de publicar Nothing by Accident: Brazil on the Edge (Independent Publishing Network)

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