anais da vida selvagem

Natureza fabricada

A tentativa de reproduzir o mundo anterior aos seres humanos

Elizabeth Kolbert
Bois da raça Heck pastam na reserva holandesa em que animais se reproduzem e morrem sem nenhuma intervenção do homem, como em épocas pré-históricas. Os Heck são frutos de uma tentativa fracassada, na Alemanha dos anos 20, de reconstituir o auroque, antecessor extinto de todos os atuais bovinos
Bois da raça Heck pastam na reserva holandesa em que animais se reproduzem e morrem sem nenhuma intervenção do homem, como em épocas pré-históricas. Os Heck são frutos de uma tentativa fracassada, na Alemanha dos anos 20, de reconstituir o auroque, antecessor extinto de todos os atuais bovinos FOTO: JASPER DOEST_WWW.JASPERDOEST.COM

Flevoland, situada mais ou menos no centro dos Países Baixos, a meia hora de Amsterdã, é a mais nova província do país, do ponto de vista tanto administrativo quanto geográfico. Na maior parte dos últimos milênios, as terras de Flevoland se encontravam no fundo de uma baía do mar do Norte. Na década de 30, uma gigantesca rede de diques transformou a enseada em um lago de água doce, e na década de 50 um projeto de drenagem quase igualmente gigantesco permitiu que as terras de Flevoland emergissem do lodo do antigo leito do oceano. O brasão das armas da província, criado quando esta foi incorporada ao país, na década de 80, ostenta uma criatura com cabeça de leão e cauda de sereia.

Algumas das terras mais férteis da Europa estão em Flevoland; seus campos compridos e estreitos foram semeados de batata, beterraba e cevada. De cada lado da província fica uma cidade construída a partir do zero: Almere a oeste e Lelystad a leste. Entre as duas, encontra-se uma extensão de terras selvagens que também foi construída, como num Gênesis, a partir do barro.

Conhecida como Oostvaardersplassen, um nome quase impronunciável para os não holandeses, essa reserva ocupa cerca de 6 mil hectares [o equivalente a duas Florianópolis] quase perfeitamente planos à beira da parte da enseada transformada em lago. A área se destinava originalmente à indústria; todavia, enquanto ainda não estava totalmente convertida em terras secas, um grupo de biólogos convenceu o governo holandês de que tinha uma ideia melhor. As terras mais novas da Europa podiam ser usadas para recriar uma paisagem paleolítica. E os biólogos se dedicaram a povoar a reserva de Oostvaardersplassen com os tipos de animais que teriam habitado a área na época pré-histórica – se àquela altura ela não se encontrasse debaixo d’água.

Em muitos casos esses animais estão extintos, de maneira que foi necessário recorrer à melhor opção disponível. Por exemplo, em vez do auroque, grande bovino hoje desaparecido, foram trazidos bois da raça Heck, variedade de gado desenvolvida no período nazista. (Mais adiante voltaremos aos nazistas.) O gado pastou e multiplicou-se. Assim como o cervo-vermelho, trazido da Escócia, e os cavalos, importados da Polônia, além das raposas, dos gansos e das garças. Na verdade, os mamíferos proliferaram a ponto de constituir rebanhos que poderiam ser comparados, com alguma boa vontade, às imensas manadas migratórias da África; a revista alemã Der Spiegel apelidou Oostvaardersplassen de “Serengeti protegido por diques”, referindo-se à reserva entre a Tanzânia e o Quênia que abriga grandes mamíferos selvagens. Os visitantes de hoje pagam até 30 euros por cabeça para participar de tours pelo parque que em tudo lembram safáris, especialmente populares durante o outono, a época da reprodução.



Tamanho é o sucesso da experiência holandesa – seja ela o que for – que um novo movimento surgiu inspirado por ela. Batizado de Rewilding Europe (algo como “renaturalizando” a Europa), o movimento vira do avesso as noções anteriores de ambiente natural. Talvez seja verdade que a única coisa que se pode realmente fazer com os ambientes autenticamente naturais seja destruí-los, mas um novo “ambiente selvagem”, que os holandeses chamam de “nova natureza”, também pode ser criado. A cada ano, dezenas de milhares de hectares de terras cultiváveis da Europa são retiradas da produção. Por que não usar essas terras para criar uma “nova natureza” que substitua a que foi perdida? A mesma ideia básica, é claro, poderia ser aplicada fora da Europa – já foi proposto, por exemplo, que certas extensões despovoadas do Meio-Oeste norte-americano também fossem usadas em projetos de renaturalização.

 

Visitei a reserva de Oostvaardersplassen durante um período de dias muito azuis no início do outono. Na ocasião, duas equipes de cinema, uma holandesa e outra francesa, também se encontravam lá. A equipe francesa, entre cujos créditos figura o sucesso internacional Migração Alada, percorria a reserva cogitando de seu uso futuro num filme sobre a história da Europa vista pelos olhos de outras espécies. A equipe holandesa estava terminando um documentário de longa-metragem. Numa tarde, todos entramos em nossas camionetes e fomos até o centro do parque.

Um vento forte soprava, como quase sempre ocorre nas proximidades do mar do Norte. Passamos por uma área pantanosa coberta de juncos, que balançavam ao vento. Patos nadavam num laguinho. Mais adiante, onde a terra era mais seca, os juncos davam lugar à pastagem. Passamos por um rebanho de cervos-vermelhos e alguns candidatos a auroques, além da carcaça de um cervo que fora quase totalmente reduzida a ossos por raposas e corvos. (A equipe holandesa tinha filmado a ação dos carniceiros em time-lapse, técnica cinematográfica de capturar uma imagem em intervalos longos e depois exibi-la como se fosse em velocidade acelerada).

Finalmente, chegamos a um rebanho de cerca de mil cavalos selvagens – ou, pelo menos, não domesticados. Eles relinchavam e sacudiam as cabeças. Tinham uma pelagem quase uniforme, cor de camurça, e o vento agitava suas crinas, de um castanho-escuro. Todos descemos das camionetes. Os cavalos não nos deram importância, embora tenhamos chegado a poucos metros de distância.

Ah, c’est joli, ça!”, exclamavam os franceses. Um bando de gansos-de-cara-branca ou bernacas, com sua plumagem preta e branca, ergueu-se no ar e então, no momento seguinte, um trem amarelo passou com estrépito pela área, transportando passageiros de Almere para Lelystad ou, talvez, vice-versa. Alguns membros da equipe de filmagem francesa tinham trazido câmeras de vídeo. Enquanto filmavam uma panorâmica dos cavalos – na beira do rebanho, uma égua acariciava com o focinho um potro que não podia ter mais de dois ou três dias de vida –, eu me perguntei o que iriam fazer com as linhas de transmissão de alta voltagem que se viam ao fundo. E me ocorreu que, como tantos outros projetos pós-modernos, a reserva de Oostvaardersplassen era ligeiramente ridícula. Embora também seja, devo admitir, uma inspiração.

 

Se é possível apontar um responsável pela existência de Oostvaardersplassen, essa pessoa é o ecologista Frans Vera. Aos 63 anos, ostenta cabelos grisalhos, barba branca e uma disposição alegre e combativa. Passou a maior parte de sua vida adulta trabalhando para vários órgãos do governo holandês, e hoje trabalha para uma fundação particular, da qual, que eu saiba, é o único funcionário. Frans Vera pegou-me um dia no meu hotel em Lelystad e me levou de carro até a sede administrativa da reserva, onde tomamos café numa sala em cuja decoração se destaca a cabeça empalhada de um imenso touro preto da raça Heck.

Frans Vera explicou-me que seu interesse por Oostvaardersplassen começou no final da década de 70. Àquela altura, tinha acabado de se formar, em Amsterdã, e estava desempregado. Leu um artigo sobre alguns gansos-bravos que tinham aparecido na área conquistada ao mar, na época uma terra de ninguém ainda alagada. Esses gansos mantinham a vegetação baixa devorando suas pontas, preservando desse modo o hábitat pantanoso. Frans Vera era um entusiasta da observação de aves, e essa história o estimulou. Logo em seguida, escreveu um artigo, afirmando também que aquela área deveria ser transformada numa reserva natural. Pouco depois, foi contratado pelo órgão de controle florestal do governo holandês.

Nos últimos anos da década de 70, a concepção predominante nos Países Baixos era – e, até certo ponto, ainda é – de que a natureza é uma coisa que se administra, como uma propriedade rural. De acordo com essa ideia, uma reserva precisa ser plantada, podada e ceifada, e, quanto maior a reserva, maior será a intervenção necessária. Frans Vera se irritava com essa visão. O problema, concluiu, era que os maiores herbívoros da Europa tinham sido caçados até a extinção. Caso pudessem ser reintroduzidos no ambiente, a natureza cuidaria de si mesma. A teoria, vinda de um funcionário público subalterno, não fez muito sucesso.

“Quando você se limita a um paradigma já aceito, não enfrenta resistência alguma”, disse-me ele. “Mas cuidado quando você começa a questionar o paradigma. Aí começa uma discussão que é 25% sobre os fatos e 75% psicológica. A resposta que eu mais ouvia era: ‘Quem você acha que é?’” Sem se deixar abalar, Frans Vera continuou a insistir. Tinha aliados em vários ministérios, e um deles conseguiu-lhe o dinheiro para a compra de algumas cabeças de gado da raça Heck. Em 1983, enquanto o futuro de Oostvaardersplassen ainda era discutido, Frans Vera comprou os animais na Alemanha, embora ainda não tivesse permissão das autoridades para soltá-los.

“Comprei o gado e vim para cá com os caminhões”, lembra ele, risonho. “E eles ficaram furiosos!” A primeira remessa de bois não pôde ser desembarcada na área, mas uma segunda, adquirida poucos meses depois, acabou sendo admitida. No ano seguinte, Frans Vera comprou quarenta cavalos Konik na Polônia. Acredita-se que os cavalos da raça Konik são descendentes dos tarpans, uma das últimas subespécies de cavalos realmente selvagens do mundo, que sobreviveu na Europa Oriental até o século XIX. (Praticamente todos os cavalos hoje chamados de “selvagens” são, na verdade, descendentes de cavalos domesticados que, em algum momento, soltaram-se ou foram soltos.) Os cervos-vermelhos, parentes próximos dos alces norte-americanos, foram introduzidos na área durante a década de 90.

Enquanto isso, outros animais se estabeleciam em Oostvaardersplassen por conta própria. Chegaram raposas, assim como os ratos-almiscarados, que na Europa são vistos como uma espécie invasora. Surgiram abutres e açores (um tipo de falcão), garças-cinzentas, martins-pescadores e francelhos (outro tipo de falcão, de pequeno porte). Um casal de imensas águias-rabalvas se instalou na área e construiu seu ninho numa árvore de porte incrivelmente pequeno. Em 2005, um raro abutre-negro foi visto na reserva, mas ao cabo de alguns meses de residência acabou um dia pousando nos trilhos e foi atropelado por um trem. (A linha férrea atravessa a reserva bordejando seu limite sul.)

O sonho de Frans Vera é que um dia a reserva de Oostvaardersplassen vá estar ligada a outras reservas naturais nos Países Baixos – um plano que já obteve fundos parciais, mas nunca todo ofinanciamento necessário – e que isso, por sua vez, venha a permitir que atraia lobos. Faz mais de um século que os lobos foram extirpados da maior parte da Europa Ocidental, mas, devido a medidas rigorosas de proteção adotadas nas décadas mais recentes, esses animais vêm ressurgindo em países como a Alemanha e a França. (Duas alcateias, com cerca de dez lobos cada, vivem hoje num raio de 60 quilômetros em torno de Berlim.) No ano passado, um lobo que se acredita ter sido o primeiro avistado na Holanda desde a década de 1860 foi localizado cerca de 100 quilômetros a sudeste de Oostvaardersplassen, na cidade de Duiven.

“Isto deve ser inimaginável para os americanos – lobos na Holanda”, declarou Frans Vera. “Mas é o futuro.”

 

Depois que terminamos nosso café, entramos numa camionete e atravessamos os portões da reserva. O gado, os cavalos e os cervos consumiram o alimento disponível em toda a área com tamanha eficiência que mal se via nela um arbusto sequer – só uma extensão muito plana de relva tosada bem rente. Passamos por alguns bandos de cervos e por uma raposa que nos fitou de volta com olhos claros e reluzentes. Frans Vera parou a camionete junto a um mirante sobre estacas. Subimos por uma escada estreita. “Isto aqui é uma janela que se abre para os Países Baixos, tal como eram milhares de anos atrás”, disse ele, indicando com um gesto a pradaria abaixo de nós.

Um corolário da teoria de Frans Vera sobre os grandes herbívoros é uma segunda hipótese, que ele defende com vigor ainda maior que a primeira, se é que isso é possível. Entre os ecologistas, a visão dominante da Europa em seu estado natural, ou seja, pré-agrário, é de que era coberta por densas florestas. (Os últimos trechos de floresta antiga do continente podem ser encontrados na fronteira entre a Polônia e Belarus, na floresta de Białowieża, que o escritor Alan Weisman descreve como uma “relíquia do que outrora se estendia a leste até a Sibéria, e a oeste até a Irlanda”.) Frans Vera afirma que, mesmo antes que os europeus descobrissem a agricultura, o continente tinha uma paisagem mais parecida com a de um parque, com grandes extensões de pradarias. E era mantido assim, insiste ele, por imensas manadas de herbívoros – auroques, cervos-vermelhos, tarpans e bisões-europeus. (Esse bisão foi caçado até a extinção quase total ao fim do século XIX.)

Frans Vera defende seus argumentos num tratado denso, de 500 páginas, que atraiu a atenção, nem sempre favorável, dos naturalistas europeus. Um professor de botânica do Trinity College de Dublin, Fraser Mitchell, escreveu que a análise de amostras antigas de pólen “nos obriga a rejeitar a hipótese de Vera”. Este, por sua vez, refuta a rejeição, afirmando que, precisamente por comerem tanta relva, os auroques e bisões, animais que vivem em movimento, distorceram os depósitos de pólen. “Este é um debate científico em andamento”, declarou ele.

Como o resto de Flevoland, Oostvaardersplassen encontra-se a 4 metros e meio abaixo do nível do mar, e só não sofre a invasão das águas graças a uma série de grossas barragens de terra. Em consequência disso, quando você anda no parque, o lago, conhecido como Markermeer, fica num nível mais alto, o que produz a desconcertante sensação de um mundo de cabeça para baixo. Com tempo bom, o Markermeer se enche de barcos a vela, e estes parecem pairar acima do horizonte, como zepelins.

“O que vemos aqui é que, ao contrário do que pensam muitos conservacionistas – para os quais o que se perdeu está perdido para sempre –, é possível reunir as condições para tornar a desenvolver o que existia”, disse Frans Vera. “E esta é a prova definitiva. Nenhuma ave deixa de fazer seu ninho na área por pensar que ela não é natural – ‘afinal, estamos a 4 metros e meio abaixo do nível do mar, e nunca fizemos nada parecido’.”

Continuamos o passeio e paramos para contemplar o ninho construído pelas águias-rabalvas, outro animal que escapou por pouco da extinção. Essas águias apareceram em Oostvaardersplassen em 2006, e foi o primeiro casal a se reproduzir nos Países Baixos desde a Idade Média. Seu ninho – vazio por ocasião da minha visita – era uma estrutura extraordinária, construída com gravetos e quase do tamanho de uma poltrona. Parecia ameaçar de desabamento a árvore mirrada em que se empoleirava. Frans Vera ficou especialmente feliz com a presença das águias, pois vários ornitólogos lhe disseram que essas aves só faziam ninhos em árvores muito altas e maduras, o que não existe na reserva de Oostvaardersplassen.

“Muitos supostos especialistas afirmaram que isso seria impossível”, disse ele. “Mas as águias foram de outra opinião.”

 

O acesso de seres humanos a Oostvaardersplassen é estritamente controlado, e naquela manhã não havia equipes de filmagem nem excursões de turistas, de maneira que Frans Vera, eu e os animais éramos praticamente os únicos ocupantes de toda a área. O silêncio só era interrompido pelo grasnar dos gansos e o barulho de algum trem ocasional. Seguimos para oeste, contornando um bando de cervos-vermelhos. Um cavalo morto estava estendido no meio da manada. Seu peito estava inchado, e havia um grande buraco negro no lugar onde antes ficava seu ânus. Frans Vera especulou que teria sido aberto pelas raposas, tentando acesso às entranhas do cavalo.

Espera-se que os animais de Oostvaardersplassen, a exemplo dos animais genuinamente silvestres, sejam capazes de se sustentar por conta própria. Não são alimentados ou vacinados, nem sua reprodução sofre qualquer interferência. Também como os animais silvestres, muitas vezes morrem por escassez de recursos; para os grandes herbívoros da reserva, a taxa de mortalidade pode se aproximar de 40% ao ano. Do ponto de vista das relações públicas, este é de longe o aspecto mais polêmico do plano de Frans Vera. Quando o clima não ajuda, a fome se espalha pela reserva, o que proporciona imagens terríveis para a tevê holandesa. Muitas vezes, animais agonizantes são mostrados aglomerando-se junto às cercas da reserva de Oostvaardersplassen, cena que invariavelmente leva a comparações com o Holocausto.

“Não se pode falar de nada sem que a questão da Segunda Guerra Mundial venha à tona”, disse-me Frans Vera. “É uma coisa revoltante.” No outono de 2005, a controvérsia chegou a tal ponto que o governo holandês criou uma comissão – a Comissão Internacional para o Manejo de Grandes Herbívoros em Oostvaardersplassen, ou ICMO – para examinar a questão. A ICMO recomendou uma política de “seleção reativa”, segundo a qual os animais seriam monitorados ao longo do inverno, sacrificando-se a tiros os que parecessem fracos demais para sobreviver até a primavera.

Michael Coughenour, pesquisador no Laboratório de Ecologia de Recursos Naturais da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, foi membro da ICMO. Contou-me que, embora fosse difícil comparar as taxas de mortalidade de Oostvaardersplassen com as de um lugar como Serengeti, “as mortandades em invernos rigorosos são uma coisa natural”.

“Não vi nada que me parecesse muito errado”, prosseguiu ele, referindo-se a uma visita que os membros da comissão fizeram a Oostvaardersplassen. “Acho que é uma ótima experiência, deixar a coisa correr e ver no que dá.”

Muito embora as recomendações da ICMO tenham sido adotadas, muitos críticos não ficaram satisfeitos e, em 2006, uma associação holandesa de defesa dos animais processou a administração da reserva pelo que definiu como “maus-tratos contínuos”. O grupo perdeu a causa, apelou e tornou a perder. Em seguida, no inverno de 2010, especialmente frio no norte da Europa, um programa noticioso holandês exibiu um segmento sobre a reserva de Oost-vaardersplassen em que um cervo magro e extenuado aparecia caindo num laguinho meio congelado e morrendo afogado. A resposta do público foi indignada, precipitando um debate “emergencial” no Parlamento.

“É uma ilusão acharmos que podemos voltar aos tempos primordiais, vestindo peles de urso e navegando em troncos escavados”, disse o deputado que conduziu o debate, Henk Jan Ormel. “O mundo de hoje é muito diferente, e não devíamos deixar os animais da reserva de Oostvaardersplassen pagarem o preço dessa diferença.”

“Tornou-se uma questão política”, disse-me Sip van Wieren, professor de ecologia na Universidade de Wageningen. “E muito política.” Uma segunda ICMO foi formada, e recomendou uma política de “seleção reativa precoce”, segundo a qual os animais cuja sobrevivência ao inverno é considerada improvável devem ser sacrificados a tiros ainda no outono. Os critérios usados pelos guardas de Oostvaardersplassen para calcular em novembro quais animais estarão morrendo de fome em fevereiro permanecem um tanto vagos.

Quando visitei a reserva, em setembro, o número de herbívoros do parque encontrava-se no pico anual, com mais de 3 mil cervos, mil cavalos e 300 cabeças de gado da raça Heck. Com o passar do tempo, espera-se, as taxas de nascimento em Oostvaardersplassen irão declinar, e a população atingirá algum tipo de equilíbrio; enquanto isso, os abates continuam. Frans Vera e eu nos aproximamos de um bando de bois que tomavam sol perto de uma árvore morta. Os animais nos encararam com alguma hostilidade em seus olhos muito negros. Os adultos tinham uma aparência assustadoramente robusta, mas alguns dos bezerros pareciam um tanto trêmulos; dali a poucos meses, calculei, estariam provavelmente reduzidos a carcaças. Frans Vera me disse que ele considerava a “seleção reativa precoce” um arranjo cujos únicos beneficiários de verdade eram os seres humanos; do ponto de vista dos ungulados, acha ele, morrer de fome é um fim muito tranquilo.

“A polêmica só diz respeito à aceitação das pessoas”, disse ele, “e para mim não tem nada a ver com o sofrimento dos animais.”

 

Existe hoje mais de 1,5 bilhão de cabeças de gado no mundo, e acredita-se que todos esses animais sejam descendentes do auroque – o Bos primigenius –, que no passado se espalhava por toda a Europa, boa parte da Ásia e partes do Oriente Médio. Os auroques eram criaturas consideravelmente mais impressionantes que o gado domesticado. Júlio César os descreveu como “um pouco menores que o elefante no tamanho”, com uma força e uma velocidade “descomunais”. (É improvável que algum dia tenha de fato visto um desses animais.) Estimativas mais recentes sugerem que os machos mediriam em torno de 1,80 metro na altura do pescoço; as fêmeas, cerca de 1,50 metro. Na época romana, os seres humanos tinham reduzido a tal ponto o número existente de auroques que os animais já estavam ausentes da maior parte de seu hábitat anterior.

No início do século XVI, o único lugar onde ainda podiam ser encontrados na natureza era nas florestas reais polonesas, a oeste de Varsóvia. Os animais dali eram considerados extremamente raros, e guarda-caças especiais foram contratados para protegê-los. Mas seu número continuava a minguar. Em 1557, foram contados cerca de cinquenta auroques. Quarenta anos depois só restava a metade, e em 1620 um único auroque – uma fêmea – continuava vivo. Ela morreu em 1627. E os auroques conquistaram assim, como diz o escritor holandês Cis van Vuure, “a honra duvidosa de terem sido o primeiro caso documentado de extinção de uma espécie”. (O caso seguinte foi o do dodô, quatro décadas mais tarde.)

O auroque ficou essencialmente esquecido até o começo do século XX, quando surgiu uma verdadeira enxurrada de estudos sobre o animal. Na década de 20, dois irmãos alemães, Heinz e Lutz Heck, ambos diretores de jardins zoológicos, decidiram tentar reconstituir o auroque por seleção retroativa, com base no material genético preservado em bois domesticados. Isso ocorreu, claro, muito antes dos exames de DNA – antes mesmo da própria descoberta do DNA. Para guiar seus esforços, os dois irmãos contavam principalmente com antigas representações de auroques, muitas delas produzidas por pessoas sem contato direto com o animal. Escolheram vários tipos de bois para seus esforços de seleção: Heinz, que dirigia o zoológico de Munique, cruzou, entre outras raças, o boi escocês das Highlands e o Angler vermelho alemão, enquanto Lutz, diretor do zoológico de Berlim, combinou Miúras espanhóis com bois da Córsega e da região francesa de Camarga. Ainda assim, ambos afirmam que seus esforços produziram resultados similares, os quais, segundo eles, provavam que “o princípio fundamental da seleção retroativa (também chamada de dedomesticação) estava correto”. Muito embora tenha continuado a cruzar seus meios-sangues, Heinz decidiu que o projeto tinha sido concluído com sucesso. “O boi selvagem, o auroque, voltou a existir”, escreveu ele.

Pouco tempo depois, o projeto se viu emaranhado na política alemã da época. Em 1938, Lutz, nazista ferrenho, foi nomeado para a chefia do Departamento de Florestas do Terceiro Reich. Sua ideia de tornar a produzir o auroque se adequava perfeitamente ao projeto nazista de restaurar, através da reprodução seletiva de seres humanos, o mítico passado ariano da Europa. Lutz enviou alguns de seus “auroques” para a floresta de Rominten, na Prússia Oriental – hoje Polônia –, onde ficava o terreno de caça favorito de Hermann Göring. Outros animais da raça Heck foram transportados para terras de propriedade de Göring, ao norte de Berlim. A maioria – e talvez a totalidade – desses animais foi morta perto do final da Segunda Guerra. (Segundo Clemens Driessen, um acadêmico holandês que estudou os irmãos Heck, Göring em pessoa teria abatido a tiros parte do gado de sua propriedade quando os soviéticos se aproximaram de Berlim.) Mas alguns dos bois da raça, no zoológico de Munique e em parques de Augsburgo, Münster e Duisburgo, acabaram sobrevivendo.

Ao longo dos anos, enquanto a raça Heck era criada tranquilamente em nações antes ocupadas pelos nazistas, como os Países Baixos – são descendentes dos animais criados em Munique os bois que hoje pastam na reserva de Oostvaardersplassen –, esses animais nunca se livraram de sua associação ao fascismo. Muitos os consideram uma versão veterinária dos Diários de Hitler – em parte horror, em parte piada. Pouco tempo atrás, quando um criador inglês importou algumas cabeças da raça Heck da Bélgica, o caso chegou aos jornais do país.

“‘SUPERVACAS’ NAZISTAS EMBARCADAS PARA FAZENDA DE DEVON”, publicou o Guardian.

“O REICH DOS MIL BANDIDOS”, disse uma das manchetes do Sun.

À medida que novos achados de restos de auroques foram feitos, e que pesquisas mais sofisticadas foram desenvolvidas a partir desses vestígios, ficou claro que a criação dos irmãos Heck estava muito distante do original: os animais da raça Heck são pequenos demais, seus chifres têm a forma errada e suas proporções físicas são outras. E tudo isso levou a um novo esforço, dessa vez desnazificado, para a produção retroativa de auroques. A base desse projeto fica na cidade holandesa de Nijmegen, cerca de 100 quilômetros a sudeste de Amsterdã, e é totalmente independente de Oostvaardersplassen. Ainda assim, reflete boa parte da filosofia da reserva, segundo a qual “nada do que se perdeu está perdido para sempre”. Assim, como eu já me encontrava mesmo nos Países Baixos, decidi fazer uma visita ao local.

 

“Cuidado”, advertiu-me Henri Kerkdijk. O dia estava de novo inesperadamente azul e caminhávamos por um pasto malcuidado na direção de uma linha de árvores. Em reação olhei para trás, o que foi um erro, pois na mesma hora pisei num belo monte de bosta de vaca. Enquanto raspava a bosta dos meus sapatos, tentei calcular o quanto o monte seria maior caso tivesse sido produzido por um auroque de verdade.

À sombra das árvores, havia mais ou menos uma dúzia de animais de cores e tamanhos variados. Kerkdijk apontou para dois touros pretos num trecho do pasto. O primeiro se chama Manolo Uno. Tem 2 anos de idade e ainda não chegou a seu tamanho de adulto, mas já mede mais de um 1,5 metro na cernelha. Tem o focinho acinzentado, uma faixa clara no dorso e chifres torcidos para a frente que lembram o touro Ferdinando, do desenho da Disney. Não tenho ideia do grau de semelhança com um auroque autêntico que o novilho apresenta; de todo modo, pareceu-me um animal muito imponente, maior e de aparência mais ameaçadora que os bois da raça Heck da reserva de Oostvaardersplassen. O segundo touro, Rocky, é um ano mais novo que Manolo, mas quase do mesmo tamanho, o que Kerkdijk considera um sinal especialmente promissor. “Aquele ali vai ser realmente muito alto”, diz ele.

Quatro anos atrás, Kerkdijk se associou a um consultor ambiental chamado Ronald Goderie para dar início ao projeto TaurOs, cuja finalidade declarada é “uma tentativa séria de reconstruir o auroque”. (Num texto recente sobre o projeto, os dois fazem pouco do gado da raça Heck, “considerado um fracasso por especialistas”.) Quando estive com eles, o projeto já tinha gerado quase 100 bezerros, dos quais Manolo Uno e Rocky foram pronunciados os mais semelhantes aos antigos auroques.

Para criar seus bezerros, Kerkdijk e Goderie cruzaram várias raças ditas primitivas de gado – variedades desenvolvidas há centenas ou até milhares de anos, e portanto com uma probabilidade maior de terem conservado traços próprios da espécie anterior. Manolo, por exemplo, resultou do cruzamento entre uma linhagem italiana chamada Maremmana primitiva e uma raça espanhola conhecida como Pajuna. Aos 2 anos, o boi já tinha idade para participar de um novo cruzamento, mas se recusou a ceder qualquer fração do seu sêmen para finalidades de inseminação artificial – obstinação que Kerkdijk considera um indício de sua virilidade, e mais um sinal positivo.

Noventa anos depois do trabalho dos irmãos Heck, a ideia por trás da seleção retroativa permanece basicamente a mesma. Se diferentes raças de gado primitivo preservam diferentes porções do material genético do auroque, a recombinação dessas porções deverá produzir algo próximo – embora não exatamente idêntico – ao original. (Kerkdijk e Goderie decidiram que seu novo animal não deve ser chamado de auroque, mas de “tauros”.) Cientistas da Inglaterra e da Irlanda conseguiram sequenciar um pequeno trecho do DNA do auroque – o DNA mitocondrial –, usando um osso datado de 7 mil anos atrás, encontrado numa caverna em Derbyshire. Foi proposto a outros cientistas que tentassem sequenciar o genoma completo. Quando – ou, na verdade, se – esse trabalho for concluído, deverá ser possível avaliar o quanto cada um dos animais produzidos dessa maneira se aproxima de um auroque genuíno, analisando uma amostra de seu sangue ou um pouco de sua saliva.

De acordo com o cronograma traçado por Kerkdijk e Goderie, já deverão existir rebanhos de “tauros” em torno de 2025. A essa altura, os dois esperam que vastas extensões da Europa tenham sido devolvidas ao estado natural, e que seja permitido aos animais perambular por elas. De que modo, ao longo dos anos que ainda faltam, serão bancados os custos dos cruzamentos e da criação, além das avaliações genéticas, permanece uma questão pouco clara. No momento, o projeto é sustentado, em parte, pelo aluguel de animais a parques naturais e, em parte, pelo abate de parte do rebanho. Sua carne é comercializada como “carne bovina silvestre”, e atinge bons preços em Amsterdã, onde só se encontra disponível para fregueses que se inscrevam antecipadamente numa lista. Kerkdijk diz que as vendas de “carne silvestre” aumentaram dramaticamente no último ano, devido ao interesse pelo tauros. Perguntei-lhe se poderia experimentar.

“Você trouxe seu arco e flecha?”, perguntou-me Goderie.

 

Como muito do que se encontra na Europa nos dias de hoje, o termo rewilding, “renaturalização” ou “retorno ao natural”, é uma invenção americana. Foi cunhado na década de 90 e proposto pela primeira vez como estratégia conservacionista por dois biólogos, Michael Soulé, hoje professor emérito da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, e Reed Noss, professor e pesquisador da Universidade Central da Flórida. Segundo Soulé e Noss, o problema da maior parte dos projetos de conservação é que se limitam a propor a proteção do que já existe. No entanto, o ambiente atual não passa de uma sombra do que foi. Na maior parte dos Estados Unidos, por exemplo, grandes predadores como lobos e pumas foram exterminados. Sem os predadores do topo da cadeia, afirmam os dois, os ecossistemas não têm mais como funcionar como sistemas.

“Um cínico poderia descrever a renaturalização como uma obsessão atávica”, escrevem eles. “Um crítico que a encare com mais simpatia poderia rotulá-la de romântica. Afirmamos, porém, que a renaturalização não passa de realismo científico.” Segundo Soulé e Noss, a renaturalização exigiria, além dos predadores, a criação de vastos “centros”, reservas rigorosamente protegidas e corredores migratórios ligando umas às outras. E resumem sua fórmula como “os três C’s: centros, corredores e carnívoros”. Essas ideias se encontram hoje consagradas entre os biólogos conservacionistas, mesmo os que não se descreveriam necessariamente como partidários da renaturalização.

Em 2005, uma dúzia de biólogos levou o conceito de renaturalização ainda mais longe. Num artigo publicado na revista Nature, o grupo apresentava um plano para o que chamava de “renaturalização do Pleistoceno”.

 

Quando os seres humanos chegaram à América do Norte, por volta de 13 mil anos atrás, em torno do final da última era glacial, exterminaram a maior parte dos grandes mamíferos do continente, produzindo lacunas em algumas funções ecológicas fundamentais, e os renaturalizadores do Pleistoceno propõem a introdução de animais que possam substituí-los. Por exemplo, elefantes africanos ou asiáticos poderiam ser soltos para ocupar o nicho do desaparecido mamute de pelagem longa. Da mesma forma, camelos-bactrianos, nativos das estepes da Ásia Central, poderiam preencher o nicho vago deixado pelo Camelops desaparecido na América do Norte. Os autores – quase todos acadêmicos – imaginam uma série de experiências em pequena escala, culminando na criação de “um ou mais ‘parques da história ecológica’”, que cobririam “vastas extensões de trechos economicamente deprimidos das Grandes Planícies”. Nesses imensos “parques históricos”, elefantes, camelos e leopardos africanos – introduzidos em substituição ao extinto leopardo americano – viveriam em liberdade. Os ecologistas classificam seu plano como “uma alternativa otimista” ao que, de outro modo, tende a ser um futuro tomado por “paisagens cada vez mais dominadas por ervas daninhas” e pela “extinção da maioria dos grandes vertebrados, se não de todos”.

O principal autor do artigo da Nature, Josh Donlan, hoje dirige um grupo sem fins lucrativos chamado Advanced Conservation Strategies [Estratégias Avançadas de Conservação] e é professor visitante na Universidade Cornell. Ele descreve as reações à renaturalização do Pleistoceno como “bimodais”.

“As pessoas adoraram ou detestaram a ideia, tanto na comunidade científica como entre o público em geral”, conta-me ele. Nos Estados Unidos, a renaturalização do Pleistoceno nunca chegou a avançar muito; a única medida prática adotada foi a reintrodução, numa propriedade particular do Novo México, de um jabuti gigante conhecido como jabuti-de-bolson (o Gopherus flavomarginatus desapareceu dos Estados Unidos há cerca de 8 mil anos, mas sobreviveu no México em pequeno número).

Por acaso, porém, um cientista russo chamado Sergey Zimov teve uma ideia semelhante. Também em 2005, publicou um artigo na revista Science descrevendo uma reserva experimental que tinha criado na Sibéria, batizada de Parque do Pleistoceno. A finalidade de Zimov era mostrar que essa área ainda era capaz de sustentar numerosos rebanhos de grandes mamíferos, como ocorria há 10 mil anos.

“Não estamos tentando exatamente reconstruir o ecossistema da estepe dos mamutes, já que não temos mais mamutes”, declarou-me Zimov recentemente pelo telefone, de São Petersburgo. “Mas estamos tentando reconstituir o ecossistema altamente produtivo das estepes.” Zimov introduziu renas e uma variedade de cavalos de grande resistência ao frio conhecidos como Yakuti. Poucos anos atrás, importou cinco bisões-europeus para o parque, mas apenas um deles – um macho – sobreviveu ao segundo inverno. “Agora estamos procurando companheiras para ele”, disse Zimov. Vários bois-almiscarados também foram introduzidos, mas eram todos machos. “Estamos à procura de fêmeas para eles também”, contou-me Zimov. O Parque do Pleistoceno, que fica no nordeste da Sibéria, é tão remoto que quase nunca foi visitado por alguém que não esteja conduzindo uma pesquisa.

Depois que os europeus adotaram o termo, a renaturalização tornou a mudar de sentido. O conceito tornou-se ao mesmo tempo menos ameaçador e gastronomicamente mais atraente: espera-se que os visitantes das áreas renaturalizadas do continente possam não só participar de tours à moda de safáris, mas também usufruir da cozinha local. (Um parque em Portugal, em pleno processo de renaturalização, tem à venda uma marca própria de azeite de oliva.)

 

Rewilding Europe, a organização que vem defendendo esse tipo de iniciativa com mais vigor em todo o mundo, foi fundada três anos atrás por dois holandeses, um sueco e um escocês. Um dos holandeses, Wouter Helmer, mora não muito longe do local onde pastam Manolo e Rocky, e um dia depois de visitar os touros fui encontrá-lo em sua casa, que fica à beira de um parque, numa pequena clareira que me trouxe à mente a história de Cachinhos Dourados e os Três Ursos.

Helmer explicou que a finalidade da Rewilding Europe é, na verdade, criar versões gigantescas da reserva de Oostvaardersplassen, cada uma delas com uma área pelos menos quinze vezes maior. “Frans Vera sempre fala que, se os holandeses podem, todo mundo pode”, disse-me ele. Para dar início ao projeto, o grupo levantou mais de 6 milhões de euros, boa parte vinda da loteria holandesa de códigos postais, que pode ser comparada a uma loteria do Estado, salvo pelo fato de o valor arrecadado destinar-se todo à caridade. No ano passado, depois de receber vinte propostas de organizações de todo o continente, o grupo escolheu cinco regiões para servir como o que chama de “áreas-modelo de renaturalização” – parte do delta do Danúbio, na fronteira entre a Romênia e a Ucrânia; uma área ao sul dos Cárpatos, também conhecidos como Alpes transilvanos; e áreas do leste dos Cárpatos, das montanhas da Croácia e do oeste da Península Ibérica. A qualidade que essas áreas têm em comum é que cada vez menos pessoas desejam viver nelas.

“A economia inexiste em vastas áreas da Europa”, disse-me Helmer. “E acho que não devemos perder a oportunidade que isso representa.” A ideia é promover a renaturalização dessas áreas unindo reservas existentes a extensões de terra abandonada e a propriedades agrícolas cujos donos possam ser convencidos a permitir que um rebanho de auroques (ou tauros) tenha livre trânsito através da sua propriedade. (A compensação para os agricultores seria o influxo de turistas com as carteiras bem abertas que se imagina que venha a ocorrer.)

Helmer sublinhou que a Rewilding Europe não está particularmente preocupada em saber se a nova paisagem a ser criada será parecida com a antiga, que foi alterada ou destruída. “Não olhamos para trás, mas sim para a frente”, disse ele a certa altura.

“Tentamos evitar discutir demais o ambiente natural”, observou ele mais adiante. “Para nós, não é isso o mais importante – saber se, no fim das contas, chegaremos ou não a um ambiente autêntico. Vai ser mais natural do que era, e é isso que conta.”

 

Uma bela manhã, não muito tempo depois dessa conversa, eu estava sentada numa pequena choupana, contemplando uma pilha de frangos mortos. Todos tinham as penas muito brancas salpicadas de sangue, e jaziam com as cabeças semidecepadas e as pernas destroncadas em ângulos grotescos. Depois de algum tempo, meia dúzia de abutres-fouveiros pousaram numa árvore próxima. São imensas aves com a cabeça clara e o corpo escuro, e o grupo da árvore parecia uma reunião de harpias. Pouco depois, um par de abutres-negros apareceu e começou a descrever círculos no céu acima de nós. Os abutres-negros se mostram ainda maiores que os fouveiros, com envergaduras que podem chegar a 3 metros. São aves majestosas, de ar funéreo, e contemplá-las transmite uma certa premonição da nossa própria morte. Os frangos foram jogados ali como parte de um programa de alimentação suplementar para as aves carniceiras, que, aparentemente, não estavam com fome. Os abutres-negros continuavam a descrever círculos, os fouveiros mantinham-se empoleirados na árvore, e a choupana foi ficando sufocante. Ao cabo de algumas horas, meu companheiro de observação, Diego Benito, concluiu que o espetáculo que tínhamos vindo assistir não iria ocorrer, e então, decepcionados, fomos embora.

Benito cuida de uma reserva natural de pouco mais de 5 mil hectares na extremidade ocidental da Espanha, chamada Campanarios de Azába. A reserva faz parte da “área-modelo” no oeste da Península Ibérica da organização Rewilding Europe, e das cinco áreas é a de mais fácil acesso. Ainda assim, a viagem dura quatro horas de carro a partir de Madri, atravessando as províncias de Ávila e Salamanca.

Como os abutres não estavam cooperando, Benito sugeriu que percorrêssemos o resto da reserva. Até pouco tempo atrás, a área era uma propriedade rural, salpicada de carvalhos cujas nozes se destinavam à engorda dos porcos. Fazia um calor seco e avançávamos a custo, em meio à vegetação mais baixa. Muito embora eu soubesse que a cidade mais próxima se encontrava a poucos quilômetros de distância, o terreno parecia desolado a ponto de permitir que uma pessoa se perdesse, e me lembrei de uma ocasião no deserto do Novo México em que interpretei erradamente um mapa das trilhas e acabei caminhando em círculos por muito tempo.

Encontramos alguns belos cavalos que, contou-me Benito, pertenciam a uma rara e antiga linhagem espanhola conhecida como Retuertas. Mais adiante, chegamos a uma área cercada tomada por uma rede de pequenos túneis claramente produzidos por mãos humanas. Tinham sido cavados, explicou-me Benito, para facilitar a vida dos coelhos, que na Espanha – e na verdade em toda a Europa – foram dizimados por uma doença conhecida como mixomatose. O vírus que a provoca foi intencionalmente introduzido numa propriedade particular da França como medida de controle da população de coelhos na década de 50, e a partir dali espalhou-se por todo o continente. (A perda dos coelhos levou a um declínio na população dos predadores de coelhos, como o lince-ibérico, hoje considerado em risco crítico de extinção.) As cercas teriam o papel de proteger das raposas alguns coelhos reintroduzidos, mas os coelhos se recusaram a permanecer na área, de maneira que os túneis cercados agora estavam vazios. E o mesmo ocorreu com uma série de plataformas circulares construídas em alguns carvalhos como bases para ninhos de cegonhas-negras. As cegonhas simplesmente não se interessaram.

“Nunca se pode ter certeza integral do sucesso, porque animais silvestres são animais silvestres”, disse-me Benito. Estávamos à procura de algumas cabeças de gado Sayaguesa recém-compradas com dinheiro da Rewilding Europe, mas os animais pareciam preferir manter-se à distância. O gado Sayaguesa constitui outra linhagem de interesse para o projeto TaurOs, iniciativa em que Benito me disse estar ansioso por se envolver. “Se você quer vender um produto, precisa de uma boa história”, disse ele.

Naquela tarde, depois de um almoço de costeletas de porco locais (e muito saborosas), saímos da reserva de carro e fomos até o alto de um morro próximo. Pelo caminho, passamos por alguns povoados que, explicou Benito, estavam em processo de desaparecimento; as escolas tinham fechado por falta de crianças e só os velhos continuavam por lá. Numa dessas cidadezinhas, La Encina, paramos para conversar com o prefeito, um homem idoso e miúdo chamado José Maria. Segundo ele, o número de residentes em La Encina tinha caído mais de 50% apenas nos últimos quinze anos. E via com entusiasmo a ideia da renaturalização, porque tinha “muito potencial para atrair turistas”.

Do alto do morro, podíamos avistar Portugal, a uns 25 quilômetros de distância. O vale aparecia como um quadriculado de campos castanhos, florestas de pinheiros plantadas durante a era franquista e carvalhos distribuídos a espaços regulares, como os que eu tinha visto na reserva. Segundo um folheto que Wouter Helmer me deu, toda essa região estaria pronta para a renaturalização, devido ao “despovoamento rural”; a ideia seria converter de imediato pelo menos mil quilômetros quadrados, ou 100 mil hectares.

Tentei imaginar todo aquele vale transformado numa versão ibérica da reserva de Oostvaardersplassen. Sem dúvida era uma área bem menos povoada que os arredores de Amsterdã. Ainda assim, percebi, eu não sabia ao certo o que devia visualizar. As plantações de pinheiros não podiam ser consideradas naturais: seriam derrubadas? E os carvalhos podados, e os porcos que ainda fuçavam em volta deles à procura de nozes, e os campos castanhos, e todas as cidadezinhas agonizantes à espera do influxo de turistas?

 

Um dos apelos da renaturalização é que ela representa uma agenda proativa – como dizem Josh Donlan e seus colegas do retorno ao Pleistoceno, uma alternativa produtiva a simplesmente ficar sentado, chorando o que se perdeu. Num mundo renaturalizado, nem mesmo a extinção precisa ser vista como irrevogável; o auroque se deitará ao lado do lince, e elefantes percorrerão as pradarias ao lado de cervos. Num planeta cada vez mais dominado pelos seres humanos – hoje, até os oceanos mais profundos estão sendo alterados pela ação das pessoas –, deve fazer sentido imaginar a natureza também como uma criação humana. Quanto mais eu via, mais entendia por que os europeus, em particular, sentem-se atraídos pela ideia, e mais queria ser convencida de que pode dar certo. No entanto, quando me lembro dos Campanarios de Azába, quando penso nos túneis vazios construídos para os coelhos e nas plataformas desocupadas destinadas às cegonhas, eu fico em dúvida.

Anoitecia quando descemos o morro. Em seu celular, Benito recebeu uma ligação de um agricultor local que tinha um porco morto e achava que os abutres poderiam se interessar. No caminho de volta, paramos para ver o que havia acontecido aos frangos. Todos tinham sido consumidos até os ossos.

Elizabeth Kolbert

Elizabeth Kolbert, jornalista e escritora, é colaboradora da revista The New Yorker

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