Mu’ath Abu Rukbeh: ultimamente, trabalhava no único abrigo para bichos da Faixa de Gaza CRÉDITO: SULALA ANIMAL RESCUE
Nem os bichos, nem as árvores, nem as pedras
Um veterinário morto na Faixa de Gaza
Roberto Kaz | Edição 232, Janeiro 2026
Sob a ótica da barbárie, o assassinato de Mu’ath Abu Rukbeh foi apenas mais um entre os cerca de 68 mil cometidos pelo Estado de Israel na Faixa de Gaza. Em 10 de outubro passado, uma sexta-feira, o rapaz de 30 anos decidiu voltar ao que restara de sua casa em Jabalia, cidade de onde havia partido às pressas, dois meses antes, por causa de um bombardeio. Com a assinatura de mais um acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas – agora sob a bênção do presidente americano Donald Trump –, Rukbeh acreditava ter um mínimo de segurança para resgatar alguns itens pessoais.
Ele deixou a cidade de Deir al-Balah, em que estava morando, e pedalou por 20 km até se aproximar de sua casa. Foi, então, alvejado durante um ataque aéreo. Seu paradeiro ficou desconhecido por nove dias, devido à impossibilidade de civis alcançarem o local, que continuava ocupado por tanques de guerra. Parentes e amigos começaram a publicar fotos de Rukbeh nas redes sociais, na esperança de receber alguma notícia, que acabou chegando sob a forma de uma ligação para seu irmão, Abdelrahman Abo. Na chamada, um homem dizia ter coberto Rukbeh com um pedaço de papelão, depois de vê-lo ser atingido. Abo se dirigiu ao ponto indicado pelo informante, onde encontrou apenas a mochila e o boné do irmão, ambos com estilhaços. O corpo já não estava lá nem foi localizado depois. Rukbeh era casado e pai de dois filhos pequenos, de 2 e 3 anos.
Reportagens apuradas com tempo largo e escritas com zelo para quem gosta de ler: piauí, dona do próprio nariz
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