esquina

No ateliê de Elenir

Uma aluna de Palocci e Flexor

Guilherme Henrique
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

O corredor branco que leva ao ateliê da casa de repouso Ondina Lobo, em São Paulo, está coberto de quadros, como naturezas-mortas e casebres à beira de riachos. “É só quadrinho mixuruca”, diz Elenir Teixeira. A pintora de 82 anos caminha apoiada na bengala prateada e na irmã Eunice, que passou para uma visita. Quando chega à porta do ateliê, suspira fundo e retira a chave da bolsa. Parece a ponto de acessar uma realidade paralela. “Esses dias eu estava com dor nas costas. Vim para cá, comecei a pintar e o incômodo passou, acredita?”

A sala de cerca de 4 por 5 metros tem duas janelas, de onde se avista um gramado. Pincéis e tintas abarrotam as prateleiras, que alcançam o teto. “É um bom local, mas pequeno. Se eu quiser uma tela maior, não cabe”, ela reclama.

Elenir – o nome com o qual assina os quadros – senta-se diante do cavalete. A tela branca recebe os primeiros traços, feitos a lápis: o caule cortado de uma árvore com duas folhas caídas no chão. “Disseram que eu era a cópia da Tarsila do Amaral, mas eu pinto do mesmo jeito desde os 11, 12 anos”, comenta. Tempos depois, a própria Tarsila elogiaria seus quadros, ela conta. “Tarsila falava baixo, já estava um pouco idosa, mas continuava elegante. Tinha um lenço na cabeça.”

Embora tenha se mudado para a casa de repouso em setembro do ano passado, Elenir só começou a usar o ateliê em maio último, quando pôde trazer seu material de trabalho. Ela pinta todos os dias, menos às segundas-feiras, quando o espaço está reservado às aulas de artesanato. “Aprendi crochê, mas acho muito chato”, diz.



 

Elenir Teixeira nasceu em Mococa, interior de São Paulo, e passou parte da infância e adolescência em Ribeirão Preto, onde teve aulas com os pintores Antonio Palocci, pai do ex-ministro da Fazenda, e o ítalo-brasileiro Domenico Lazzarini, na escola de belas-artes da cidade. “Palocci era exigente, aprendi muito com ele”, lembra a pintora. “Diferente do filho”, emenda a irmã Eunice. As duas riem.

Ao mesmo tempo que seguia os passos do modernismo, Elenir dedicou-se ao desenho científico. Antes dos 18 anos, foi trabalhar com o então diretor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o médico Zeferino Vaz, que mais tarde seria um dos fundadores e o primeiro reitor da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas. “A primeira vez que vi um microscópio foi para desenhar o cérebro de um rato. Fiquei tão assustada que só usei preto e branco.”

Ela ganhou uma bolsa de estudos na Faculdade de Belas Artes, em São Paulo, e mudou-se em 1960 para a capital, onde teve aulas particulares com os artistas Samson Flexor e Antônio Paim Vieira. Para garantir a sobrevivência, continuou a fazer seus apurados desenhos científicos, trabalho ao qual dedicou dezoito anos, como funcionária pública do Hospital das Clínicas e das faculdades de Medicina e Veterinária da Universidade de São Paulo. “Acompanhava as cirurgias ao lado do médico. Fiz coração, estômago, o que precisassem. Tudo no bico de pena.” Também fez desenhos da anatomia de animais e ilustrou teses e livros.

Em 1967, ela foi chamada à sala de seu chefe no Hospital das Clínicas, o médico Edmundo Vasconcelos. “Di Cavalcanti estava lá, terminando um retrato de Nossa Senhora Aparecida. O professor Vasconcelos tinha contado para ele sobre meu desejo de ser pintora.” Elenir ganhou o desenho assinado, e Di Cavalcanti a convidou para visitar o apartamento em que vivia com a mulher, a também pintora Noêmia Mourão. “Ele trabalhava no Rio, mas vinha nos fins de semana a São Paulo, onde tinha um apartamento pequeno e organizado, no Copan. Mesmo não gostando muito de Picasso, fiquei abismada ao ver um quadro dele na parede.”

Foi na residência do casal que Elenir ouviu, segundo ela, a definição mais enigmática de seu trabalho. “Di Cavalcanti falou que minha arte é primitiva, com tendência ao surrealismo fantástico, seja lá o que isso signifique.” A partir de então, passou a levar suas telas para serem criticadas pelos dois artistas. “Di Cavalcanti pediu que eu mantivesse as cores quentes e confiasse na minha intuição. Ele e Nonê de Andrade foram meu esteio.”

“E a santa que ele fez para você, Leninha?”, perguntou a irmã. “Vendi para uma galeria faz tempo, estava precisando do dinheiro. Me arrependo até hoje.”

 

Entre 1970 e 1990, Elenir fez exposições individuais e participou de coletivas no Rio de Janeiro, em Santiago, Nova York, Washington, Barcelona, Lyon e Mônaco. Ganhou mais de trinta prêmios. O amigo e também artista plástico Nonê de Andrade, filho de Oswald de Andrade, descreveu assim os quadros da pintora: “Elenir é pura e sua pintura bem o mostra. Ela sabe que, antes de chegar às belezas gélidas da tecnologia, ainda existe muito a dizer sobre o Brasil.” Para o crítico e professor de história da arte Jorge Coli, “Elenir cria formas amplas, bojudas, ricas de seiva, num universo forte e onírico”.

A pintora nunca conseguiu viver de sua arte. “Sempre houve dificuldade financeira”, ressalta a irmã. “O professor Oswald de Andrade dizia que eu não sabia negociar o valor das minhas obras”, conta Elenir. “Os marchands pagavam apenas aquilo que eu gastava com material. Depois, eu via os quadros sendo vendidos por uma fortuna. Artista, se não for esperto, sofre.”

Elenir chegou à casa de repouso dois anos após a morte do marido, o ex-bancário Alcides Teixeira. O casamento durou 55 anos. As telas que não vendeu – cerca de quatrocentas – estão guardadas em um contêiner climatizado.

“Eu e a Ruth, minha amiga aqui dentro, conversamos sobre arte, pintura, a vida que nos resta. A maioria dos velhinhos espera para morrer. Não quero isso para mim”, diz. “Quem sabe eu não faço uma exposição aqui dentro?”

O esboço a lápis na tela está pronto. O caule e as duas folhas recebem a companhia de uma rosa fechada que desponta ao lado esquerdo do quadro. Elenir suspende a mão direita no ar, dando por encerrada a primeira etapa do trabalho. Na caixa de tintas, seleciona as cores que vai usar: vermelho, amarelo e uma pitada de verde. Os cabelos da pintora reluzem de tão brancos.

Guilherme Henrique

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