poesia

No dito o mudo restará

Ferreira Gullar
FOTO: JONATHON ROSEN

DESORDEM

meu assunto por enquanto é a desordem
o que se nega
à fala

o que escapa
ao acurado apuro
do dizer
a borra
a sobra
a escória
a incúria
o não-caber

ou talvez
pior dizendo
o que a linguagem
não disse
por não dizer
porque
por mais que diga
e porque disse
sempre restará
no dito o mudo
o por dizer
já que não é da linguagem
dizer tudo

ou é
se se
entender
que
o que foi dito
é o que é
e por isso
nada há mais por dizer

portanto
o meu assunto
é o não-dito não
o sublime indizível
mas o fortuito
e possível
de ser dito
e não o é
por descuido
ou por intuito
já que
somente a própria coisa
se diz toda
(por ser muda)

é próprio da palavra
não dizer
ou
melhor dizendo
só dizer

a palavra
é o não ser
isto porque
a coisa
(o ser)
repousa
fora de toda
fala
ou ordem sintática

e o dito (a
não-coisa) é só
gramática
o jasmim, por exemplo,
é um sistema
como a aranha
(diferente do poema)
o perfume
é um tipo de desordem
a que o olfato
põe ordem
e sorve
mas o que ele diz
excede à ordem
do falar
por isso
que

desordenando
a escrita
talvez se diga
aquela perfunctória
ordem
inaudita

uma pêra
também
funciona
como máquina
viva
enquanto quando
podre
entra ela (o sistema)
em desordem:
instala-se a anarquia
dos ácidos
e a polpa se desfaz
em tumulto
e diz
assim
bem mais do que dizia
ao extravasar
o dizer

dir-se-ia
então
que
para dizer
a desordem
da fruta
teria a fala
– como a pêra –
que se desfazer?
que de certo
modo
apodrecer?

mas a fala
é só rumor
e idéia
não exala
odor
(como a pêra)
pela casa inteira

a fala, meu amor,
não fede
nem cheira

 

DENTRO

“O um é um e não é dois”
       Parmênides, de Platão

estamos dentro de um dentro
que não tem fora

e não tem fora porque
o dentro é tudo o que há

e por ser tudo
é o todo:
tem tudo dentro de si

até mesmo o fora se,
por hipótese,
se admitisse existir

 

INSÔNIA

É alta madrugada. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo o seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?

 

UMA COROLA

Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho-queimado
metálica

Não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
da sala
ou na janela

Não cheira
não atrai abelhas
não murchará

apenas fulge
em alguma parte alguma
da vida

Ferreira Gullar

Ferreira Gullar é poeta e crítico de artes plásticas.

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