questões da ultradireita

No forrobodó do balacobaco

As muitas vidas de Sara Winter, a extremista de ideias zigodátilas

Renato Alves
Sara Winter, em seu apartamento, em Brasília: no acampamento dos 300, ela sempre chegava sentada no banco de trás de um Mitsubishi Lancer 2.0 e esperava que lhe abrissem a porta
Sara Winter, em seu apartamento, em Brasília: no acampamento dos 300, ela sempre chegava sentada no banco de trás de um Mitsubishi Lancer 2.0 e esperava que lhe abrissem a porta CREDITO: DIEGO BRESANI_2020

A terrível história da menina de 10 anos grávida do próprio tio ficou ainda pior com a intervenção da militante bolsonarista Sara Winter. A menina, que vinha sendo estuprada pelo parente desde os 6 anos, recebeu autorização da Justiça para interromper a gravidez. O Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes, em Vitória, no Espírito Santo, se recusou a fazer o procedimento, alegando que a gestação já passava de 22 semanas, e a menina então foi encaminhada para outro hospital em Recife, em Pernambuco. Sara Winter, que se tornou militante antiaborto, revelou publicamente a identidade da garota – que vinha sendo protegida, como manda o Estatuto da Criança e do Adolescente – e o endereço do hospital em Recife. Com isso, transformou a vida da menina e de sua família num tormento ainda maior: militantes contra o aborto assediaram a criança e a família para convencê-las a manter a gravidez. Cada vez que ouvia falar nisso, a garotinha teve crises de choro. Ela não queria levar a gravidez adiante.

A piauí_167 reconstituiu a trajetória e as muitas vidas de Sara Winter, uma ex-feminista que abraçou a extrema direita e confessou já ter feito um aborto. Seu irmão, no entanto, diz que ela já praticou vários abortos, e não apenas um, e todos foram ilegais.

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Dezenove dias antes de ser presa pela Polícia Federal, Sara Giromini dormia nua quando acordou com o interfone tocando às seis da manhã. Levantou-se às pressas, enrolou-se numa toalha de banho e atendeu ao chamado. Era a polícia. Seu filho, de 4 anos, continuou dormindo. Ela autorizou que os policiais subissem, vestiu uma roupa qualquer e, ao abrir a porta, deparou com sete agentes federais, que apresentaram um mandado de busca e apreensão, assinado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Sara permitiu que entrassem sem protestar. Pediu emprestado o celular de um policial e ligou para seu advogado. Dentro do pequeno apartamento, de 50 m2, ficou o tempo todo sob a vigilância de uma policial, inclusive quando foi ao banheiro. Depois de duas horas vasculhando gavetas e armários em busca de provas sobre a disseminação de fake news, os policiais saíram carregando um celular, um notebook, cartões de crédito, notas de dólar, cartões de gabinete de deputados, cartuchos de munição vazios e um projétil de festim. Sara, então, caiu no choro.

Meia hora depois, já recomposta, apareceu no Twitter usando o tablet que um vizinho lhe emprestou. Disse que estava “praticamente incomunicável” e atacou o ministro: “Moraes, seu covarde, você não vai me calar.” Começou, também, uma live nas redes sociais, na qual voltou a insultar o ministro. Chamou-o de “filho da puta arrombado”, disse que queria “trocar socos” com ele e prometeu persegui-lo “até pedir para sair”. Antes de encerrar a live, pediu dinheiro aos seguidores para comprar um celular e notebook novos. Explicou que as doações financeiras tinham que ser feitas por meio de depósito bancário porque a Vakinha, plataforma de arrecadação online, a tirara do ar por recomendação jurídica. Em seguida, enquanto se dirigia à sede do STF no carro do advogado, voltou a xingar o ministro. Na frente do tribunal, nova live, novos insultos.

Quinze dias antes de ser presa, Sara liderou, na madrugada do domingo 31 de maio, um protesto na frente do STF. Era uma manifestação de um grupo que se denomina 300 do Brasil, uma organização de extrema direita que apoia o presidente Jair Bolsonaro e cujos integrantes, em alguns casos, andam armados. O ato não reuniu mais do que trinta pessoas, mas chamou a atenção pela estética. Reunidos à noite em frente ao tribunal, os manifestantes trajavam roupas pretas e máscaras brancas, e carregavam tochas, lembrando a Ku Klux Klan (KKK), grupo terrorista da ultradireita norte-americana que prega a supremacia branca. Enquanto caminhavam, em passos marcados como se marchassem, gritavam: “Viemos cobrar, o STF não vai nos calar.” Criadora do grupo, Sara estava de cara limpa, à frente dos manifestantes.

Dois dias antes de ser presa, em 13 de junho, depois que o acampamento dos 300 do Brasil na Esplanada dos Ministérios fora desmontado pela polícia, cerca de trinta militantes fizeram uma manifestação no Congresso Nacional. Aos gritos de “Acabou, porra”, em homenagem ao presidente Bolsonaro, subiram a rampa que leva à cúpula do Senado, cujo acesso é proibido. Carregavam cartazes dizendo “essa casa é nossa” e defendendo “intervenção militar com Bolsonaro no poder”. Antes, no Twitter, Sara protestara contra a operação policial que desfez o acampamento e concluiu seu tuíte clamando pela proteção de Bolsonaro. Berrando por escrito, escreveu: “PRESIDENTE, REAJA!!!”

No dia em que foi presa, 15 de junho, Sara dormia em seu apartamento na Vila Planalto, um enclave histórico de Brasília, situado entre os palácios do Planalto e da Alvorada. Dessa vez, estava acompanhada do namorado, o gaúcho Geovani Furtado Rodrigues, seu companheiro de militância política, e da amiga Desire Queiroz, também integrante dos 300 do Brasil. Seu filho viajara para a casa dos avós, no interior de São Paulo. Numa operação rápida, que não durou mais de vinte minutos, os policiais cumpriam a ordem de prisão preventiva, também assinada por Alexandre de Moraes, só que no âmbito de outro inquérito, o que investiga as manifestações pró-ditadura. De novo, Sara não reagiu. Já esperava ser presa e estava preparada. Trocou-se, separou umas peças de roupa e partiu com os policiais. Uma militante fora previamente escalada para operar suas redes sociais, de modo que a prisão pôde ser anunciada quase em tempo real. Começava, ali, a campanha “Sara Livre”.

Levada para uma sala da superintendência da Polícia Federal em Brasília, Sara ficou ali dois dias, antes de ser transferida para uma cela na Colmeia, o presídio feminino de Brasília. “Quando me falaram que eu iria para a Colmeia, pensei que fosse uma piada de mau gosto”, relembra. No total, ficou dez dias na prisão, onde passou seu 28º aniversário. Não recebeu visitas porque, com a pandemia do coronavírus, os presos recém-chegados ficam catorze dias em isolamento. Ao ser libertada, pesando 63 kg depois de perder 4 kg na prisão, disse que estivera num “lugar precário, cheio de mofo, sujeira e urina”, e não voltou a ofender o ministro do STF, por recomendação dos advogados. Usa uma tornozeleira eletrônica, está proibida de sair de casa e de ter contato com integrantes do 300 do Brasil ou outros investigados. “Mas continuarei sendo uma ativista, militante. Só vou mudar de estratégia”, disse, dois dias depois de deixar a prisão. Uma estratégia já está definida: “Eu pretendo ganhar dinheiro com o que sei fazer de melhor. Eu sou uma analista política.”

 

Caçula de três irmãos, Sara Fernanda Giromini nasceu em São Carlos, no interior paulista, numa família modesta. Seu pai, Luiz Carlos Giromini, 68 anos, é pintor de paredes. Sua mãe, Regina Fátima, oito anos mais nova que o marido, tem um pequeno brechó no Centro da cidade. Quando Sara nasceu, o casal já tinha dois filhos: Thiago, com 12 anos, e Diego, 10. Como primeira menina, ganhou o privilégio de ter seu próprio quarto. Apesar da baixa renda dos pais, colecionava bonecas, vestia roupas de qualidade e ganhava sapatos comprados nas boas lojas locais. Como os irmãos, cursou o ensino fundamental em escola pública. Era boa aluna, tirava ótimas notas e era disciplinada, mas, por ser baixa e gordinha, era alvo constante de bullying dos colegas. As coisas começaram a tomar outro rumo quando completou 12 anos.

Entrando numa fase de rebeldia adolescente, mudou de comportamento e de visual. Distanciou-se dos colegas de escola e começou a ter problemas de disciplina, embora mantivesse as boas notas. Vestia roupas pretas, com correntes nas calças rasgadas, pintava o cabelo com cores chamativas e chegou a ter oito brincos em cada orelha. Aos 14 anos, já frequentava bares alternativos em São Carlos. Gostava de ouvir música alta com um copo de cerveja à mão, sem se preocupar com o horário do término da diversão, que varava as madrugadas. Ouvia Iron Maiden, Metallica, Evanescence, sua banda favorita. “Evanescence era meu lado gótico, sempre gostei desse ar sombrio”, diz ela. Não era de namorar nem de usar drogas.

Nessa época, resolveu adotar o pseudônimo pelo qual ficaria mais conhecida: Sara Winter. Ela conta que trocou de nome porque os pais não a deixavam usar o nome verdadeiro no Orkut, a pré-histórica rede social que deixou de existir em 2014. Garante que a escolha não tem relação com Sarah Winter, a nazista da alta sociedade inglesa que foi frequentemente acusada de espionar para a Alemanha. Diz que se inspirou na artista norte-americana Emilie Autumn, mas não queria ser Sara Autumn (outono, em inglês), nem Sara Summer (verão) porque “parece nome de atriz pornô”. (Nas redes sociais, o site do movimento que Sara fundou, os 300 do Brasil, deu outra explicação enquanto ela estava presa: “O nome Winter é inspirado no documentário Winter on Fire, que retrata a luta da Ucrânia diante do governo ditador e não a nenhuma nazista.”)

Entre os colegas, Sara não deixou boas lembranças. A piauí localizou duas alunas que estudaram com ela durante três anos. Uma, hoje com 27 anos, casada e mãe de um filho, aceitou dar entrevista com a condição de não ser identificada. “Se eu aparecer, ela vai me expor nas redes sociais com mentiras e ainda vai vir aqui [em São Carlos] me ameaçar.” Ela conta que Sara “sempre criou confusão com todo mundo, principalmente quando era contrariada por alguém. Não aceitava opinião diferente. E continua assim”. A outra colega é dona de casa, tem dois filhos e também pediu anonimato. “A Sara era muito individualista e doida. Da noite para o dia começou a usar só preto. Dizia que era punk. Nem sei se ela sabia o que era aquilo. Também não sei se ela acredita nas coisas que diz hoje.”

Aos 16 anos, Sara resolveu ir embora de São Carlos. A família, já cansada de suas confusões, não se opôs à decisão. Achando que a mudança poderia ser benéfica para a filha, a mãe lhe deu dinheiro. Sara mudou-se para Patos, no sertão da Paraíba, a 300 km de João Pessoa, para viver com um comerciário de 23 anos que conhecera pela internet. A relação durou três meses. “Eu decidi largá-lo porque me sentia, não diria estuprada, mas me sentia obrigada a fazer sexo com ele. Fiquei deprimida e pedi aos meus pais para me buscarem.” Voltou para São Carlos, mas já estava cansada da vida interiorana.

Já formada no ensino médio, mudou-se para São Paulo, onde passou a conjugar duas vidas – a de universitária e a de prostituta. Não se prostituía na rua. Oferecia seus serviços na internet. “Eu cobrava de 200 a 250 reais por hora e meia. Era metade do salário mínimo, se não me engano. Não era prostituição de luxo. Prostituta de luxo cobra uns 10 mil reais por programa”, diz. O dinheiro que ganhava dava para pagar a faculdade e seu novo estilo de vida, que incluía roupas da moda e baladas caras. “Fiquei viciada em dinheiro porque nunca tive.” A venda de sexo acabou uns dez meses depois, quando foi estuprada por um cliente e conheceu o filho de um empresário, com quem começou a namorar. Foi morar num apartamento do pai do namorado, próximo à Avenida Paulista. “Ele era muito rico, muito rico. Me dava tudo o que eu precisava, mas era muito conservador. Vivia dizendo que unhas vermelhas eram coisa de puta. Casou com uma puta, mas não admitia isso. Ele me transformou em dona de casa. Eu não queria isso.” A relação acabou um ano e meio depois, quando, segundo ela, uma briga de casal evoluiu para a agressão física, com socos e chutes.

De novo, Sara voltou para São Carlos. Nesse período na cidade natal, morou em um pequeno apartamento alugado pela família, mas não demorou a voltar para a capital paulista, para continuar a faculdade de relações internacionais. Um ano depois, trancou a matrícula. Num dia de outubro de 2011, enquanto navegava casualmente pela internet, viu uma notícia qualquer sobre o Femen, o mais radical grupo feminista da época, cujas integrantes costumavam ser detidas ao exibirem os seios nus em locais públicos. Interessou-se e aderiu ao grupo, que tentava se expandir para o Brasil para aproveitar a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Logo, Sara foi convidada a ir para a Ucrânia, onde o Femen nasceu, para aprender mais sobre as táticas usadas nas manifestações performáticas do grupo.

Por meio do Vakinha, fez uma campanha para arrecadar dinheiro para a viagem. À época, deu entrevistas à imprensa como uma jovem liderança feminista. A revista Marie Claire, dirigida ao público feminino, chegou a informar suas leitoras sobre como poderiam ajudar Sara financeiramente. Com as doações, ela conseguiu comprar uma passagem para a Europa. Fez escala em Amsterdã, desembarcou em Varsóvia e, de carona, seguiu até Kiev, capital da Ucrânia. Sara nega que tenha tido treinamento militar no Femen, com o uso de armas ou explosivos. “Aprendi o ativismo midiático, teatro, baseado na não violência”, conta. Tinha orientações sobre como compor um grito de guerra, proferir palavras de ordem e inventar slogans “que fossem pegajosos”, para não sair da cabeça das pessoas. “A gente usava muito o ‘sextremismo’, o corpo, para chocar e passar a nossa mensagem.” Ficou duas semanas em Kiev.

De volta ao Brasil, participava de protestos do Femen, mas, menos de um ano depois, foi expulsa da organização. As líderes do Femen acusaram Sara de deturpar as orientações do grupo, nutrir simpatia pela extrema direita e desviar 79 mil reais. Ela nega e diz que o Femen não passava de uma ação de marketing. Expulsa, Sara resolveu fundar seu próprio movimento de esquerda: o BastardXs, que aceitava a adesão de homens e chegou a protestar contra  o então deputado federal Jair Bolsonaro, a quem Sara acusava de machista e de flertar com o fascismo. Em um protesto realizado em Copacabana, no Rio de Janeiro, Sara simulou a castração de um boneco que representava Bolsonaro. Com os seios à mostra, escreveu em seu peito, com letras pretas: “Fora Bolsonaro.” Com sua veia midiática, criou uma estética própria. Os membros usavam um chapeuzinho de papel, para dar a ideia de “soldados urbanos”, e todos, homens e mulheres, vestiam short ou calças jeans para mostrar que eram iguais. O BastardXs nunca teve mais que uma dúzia de membros.

Sem muito sucesso nessa empreitada, Sara voltou a mudar de vida. Aos 21 anos, fez um contrato de união estável com o então namorado de 23 anos, Ítallo Marcel Bengaly Fernandes, que acabara de conhecer. O casal se mudou para o Recife, onde Fernandes começou os estudos para seguir carreira nas Forças Armadas. Como dona de casa, Sara logo usou seus dotes culinários para ajudar na renda vendendo bolo no Centro da capital pernambucana. Durante uma operação para remoção dos ambulantes, ela almoçava nas imediações e resolveu juntar-se aos manifestantes. Entrou em confronto com o Batalhão de Choque da Polícia Militar e acabou detida junto com outros três manifestantes. Liberada no mesmo dia, saiu do prédio da polícia e encontrou uma pequena multidão à porta, que a recebeu com gritos e aplausos. Sara adorou.

Ganhou certa projeção em nichos da esquerda recifense. Continuou sua militância feminista e chegou a participar de reuniões em sindicatos, onde deu palestras sobre o feminismo e elogiou Lula e o PT. Em dezembro de 2013, ainda morando no Recife, inscreveu-se para participar da edição do Big Brother Brasil do ano seguinte. Como já tinha protestado publicamente contra “a alienação social do programa”, explicou que não mudara de ideia. Disse ter aprendido com um amigo que, quem não pode “mudar a estrutura de fora”, deve tentar “fazer algo de dentro”. Não foi selecionada. Apesar da militância feminista, decidira que queria casar na igreja, de véu e grinalda, mas Ítallo Fernandes, o sargento do Exército, rompeu a relação. Procurado pela piauí, ele pediu para ser “esquecido”.

Com o fim do relacionamento, Sara, mais uma vez, voltou para São Carlos. Quando contou à mãe, devota do kardecismo, que fizera um aborto, levou a única surra da vida. (Seu irmão Diego diz que, na verdade, ela fez uma série de abortos, e não apenas um.) Neste retorno à cidade natal, Sara morou novamente num imóvel alugado pela mãe quando engravidou. Reaproximou-se do irmão Diego, que a levava de carro para os exames de pré-natal. “A Sara se abria comigo, me contava tudo o que de ruim havia passado, como no período da prostituição. Só que ela contava como se estivesse falando para um amigo, e aquilo era horrível. Afinal, era minha irmã”, diz ele. Sara fez sete testes de paternidade para descobrir a identidade do pai do bebê. Era um pequeno empresário de São Carlos, casado na época. (Ele assumiu legalmente o filho, paga pensão alimentícia, mas tem receio de aparecer e prejudicar seus negócios.)

Com a maternidade, Sara começou nova fase e abandonou definitivamente a militância feminista. Em dezembro de 2015, postou vídeos no YouTube pedindo perdão aos cristãos. Aos poucos, passou a adotar um visual conservador, com vestidos longos, colar de pérolas, cabelo escovado e batom vermelho. Quando o filho tinha três meses, revoltada com sua experiência feminista, Sara lançou um livreto de denúncia sob o título Vadia, não! Sete Vezes que Fui Traída pelo Feminismo. Passou a frequentar missas em latim da Igreja Católica e entrou para o grupo conservador Pró-Mulher de São Carlos. Da punk feminista rebelde, não sobrara nada.

 

A vida de Sara Winter encaminhou-se para o rumo do bolsonarismo no início de 2016, quando conheceu Damares Alves, hoje ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. As duas se encontraram em Brasília, durante um evento do programa Brasil sem Aborto, uma ideia da bancada evangélica do Congresso, da qual Damares era assessora. “Nos tornamos muito próximas”, diz Sara. “A Damares é como uma mãe para mim, ela foi determinante na minha vida espiritual.” (A recíproca não é verdadeira: Damares não quis dar entrevista, e seus assessores não escondem que a ministra hoje prefere distância de Sara.)

Na mesma época, já morando no Rio de Janeiro, começou a viajar pela América Latina para dar palestras. Cobrava cachê em dólar, exigia pagamento em espécie e contava sua história com três passagens inexoráveis: o “sofrimento”, o “reencontro com Jesus” e o “nascimento do filho abençoado”. Diz ela que fez apresentações em igrejas e escolas, católicas e evangélicas, no estado do Rio, assim como no México, Equador e Paraguai. Nunca declarou à Receita Federal quanto faturou nesse ofício. Depois de dar algumas entrevistas condenando o aborto, Sara teve então seu primeiro contato com Bolsonaro. “Eu estava em casa, em São Carlos, quando o telefone fixo da casa da minha mãe tocou. Era ele [Bolsonaro], com aquele sotaque. Achei que ia me dar um esporro, mas foi o contrário. Ele disse: ‘Tô te ligando para parabenizar. Eu te perdoo por aqueles protestos.’”

Inspirada pelos contatos com Damares e Bolsonaro, Sara teve a ideia de mudar de vida, mais uma vez: decidiu entrar para a política partidária e filiou-se ao PSC, então partido de Bolsonaro. Por meio de sua página no Facebook, anunciou que fizera uma “parceria política” com os Bolsonaro e definiu seu objetivo: “É uma luta contra a inversão de valores na sociedade provocada por movimentos sociais de esquerda tais como: feminismo, movimento negro, movimento LGBT, e [serei] combatente ferrenha da ideologia de gênero.” Depois de trocar para o Democratas (DEM) em abril de 2018, começou a surfar no bolsonarismo e candidatou-se a deputada federal pelo Rio de Janeiro. Conta que voltou a ter contato com Bolsonaro durante a campanha.

A essa altura, Sara já era seguidora de Olavo de Carvalho, o ex-astrólogo que a família Bolsonaro trata como guia ideológico. Em plena campanha, Sara organizou o 1º Congresso Antifeminista, realizado em uma igreja católica no Rio. O tema central foi o aborto, com direito a bonequinhos de fetos sobre a mesa do coffee break. Ao pedir votos, defendia acesso facilitado de mulheres a armas de fogo, pois dizia que a Lei Maria da Penha, que trata de violência doméstica, não prestava para nada. Apesar da onda bolsonarista que tomou conta do país naquela eleição, Sara teve apenas 17 246 votos, mas espetou um calote na Justiça Eleitoral. Em agosto do ano passado, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio mandou que devolvesse os 25 mil reais que recebeu do fundo eleitoral porque nunca conseguiu apresentar comprovantes dos gastos. Além disso, o Ministério Público Eleitoral abriu uma investigação contra ela pelo crime de apropriação indébita eleitoral.

Sem sucesso na política, mas com Bolsonaro no Palácio do Planalto, Sara descolou um emprego público. Em junho de 2019, assumiu uma função cujo nome é uma daquelas preciosidades da burocracia federal: coordenadora-geral de Atenção Integral à Gestante e à Maternidade do Departamento de Promoção da Dignidade da Mulher da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Na prática, ganhava 6 mil reais por mês para promover sua luta antifeminista. Para assumir o cargo, apresentou um currículo falso, no qual se dizia graduada em relações internacionais pelo Centro Universitário Internacional (Uninter). Só em junho passado, a instituição admitiu publicamente que Sara não concluíra a faculdade.

Para engordar a renda, Sara também oferecia em seu site palestras em português e espanhol, por 5 mil reais, e fazia uma vaquinha virtual para recolher mais 5 mil por mês. O mote era “salve bebês do aborto”. Na prática, era para salvar Sara. “Parece muito, mas eu conseguiria pagar todas as minhas contas mensais e, aos pouquinhos, quitar minhas dívidas do cartão de crédito. Além do mais, um dos meus sonhos é poder tirar carteira de motorista, assim eu poderia atender muito melhor as gestantes, poderia levá-las para fazer exames na maternidade, entre outras coisas que necessitamos.” No exercício do cargo público, rodou pelo Brasil e por alguns países vizinhos. Para vestir-se como uma militante antiaborto, usava modelos da “moda cristã”, fabricados pela estilista Priscilla Neiva de Maria, de Aparecida de Goiânia, no interior de Goiás. Sara virou a garota-propaganda da marca, que lhe cedeu mais de trinta vestidos.

Nesse tempo no governo, Sara voltou a se aproximar de Bolsonaro, com quem fez inúmeras fotos em eventos públicos e privados. Certa vez, ganhou uma garrafa de cachaça do presidente, que ainda hoje enfeita sua sala. Sara conta que, depois daquele primeiro telefonema que recebeu em São Carlos em 2016, ela manteve por um bom tempo os números dos celulares de Bolsonaro e dos filhos, mas diz que hoje não tem mais os contatos diretos. A última vez que esteve com o presidente, segundo ela, foi no cercadinho do Palácio da Alvorada, quando um grupo de integrantes dos 300 do Brasil se reuniu para demonstrar apoio ao governo.

 

O período de cargo público deu a Sara uma estabilidade financeira que antes não tinha, mas durou apenas cinco meses. Ela diz que não conseguiu se adaptar à burocracia estatal, mas assessores da ministra Damares contam que Sara foi demitida porque se desentendeu com a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), a mascote da ala mais buliçosa do bolsonarismo. (As duas, depois de acusações sobre quem fez aborto e quem mostrou os seios na rua, reataram.) Desempregada, Sara teve outra ideia. Em suas páginas no Twitter e no Facebook, e em seu canal no YouTube, onde exibe entrevistas com líderes da ultradireita incluindo Bolsonaro, Sara decidiu convocar os “patriotas” para uma nova ação midiática: os “300 do Brasil”, número que faz referência ao filme 300, uma releitura fictícia de uma batalha ocorrida cinco séculos antes da era cristã.

Para a criação dos 300 do Brasil, Sara inspirou-se no temido Batalhão de Azov, organização neonazista fundada por um grupo paramilitar, ligada ao governo da Ucrânia. Sara dizia que a única saída era “ucranizar” o Brasil, o que sugeria a deflagração de uma guerra civil, como a que afeta a Ucrânia desde 2014. Dizia seguir orientações do jornalista Oswaldo Eustáquio, amigo e mentor. Os candidatos a integrar os 300 de Sara tinham que ser brasileiros “dispostos a dar a vida pela nação” e eram obrigados a fazer os cursos online de Olavo de Carvalho. Abriu uma campanha de doações pelo Vakinha e conseguiu arrecadar 80 mil reais. Em uma semana, teve a adesão de trinta “patriotas”, com idades entre 20 e 50 anos. Eles desembarcaram em Brasília, onde foram recebidos em uma tenda montada no estacionamento do Estádio Nacional Mané Garrincha. Todos tiveram que entregar seus celulares, para que Sara e dois “assessores” verificassem a rede de contatos de cada um.

Até ser removido pela polícia, o grupo montou acampamento ao lado do Ministério da Justiça, na Esplanada dos Ministérios. Armaram suas barracas padronizadas e, no estacionamento público ali ao lado, ergueram uma grande tenda, ocupando três vagas, para ser um local de reuniões reservadas e armazém de mantimentos e utensílios. Com uma tevê, cadeiras de plástico e um banheiro químico sobre a calçada, estabeleceram rotinas, funções e regras. Era obrigatório que estivessem vestidos para uma batalha, com botas pretas, calças compridas e camisetas, muitas das quais com estampa de camuflagem. O dia começava com o hasteamento da bandeira nacional em um pedaço de madeira transformado em mastro. Entoavam os hinos do Brasil e da Bandeira. Faziam a vigilância das calçadas públicas. Pediam documentos aos transeuntes, além de filmá-los e fotografá-los. Pareciam soldadinhos brincando de Forte Apache. De vez em quando, recebiam visitas de congressistas, blogueiros e eleitores de Bolsonaro, que agradeciam aos acampados pelo trabalho excepcional que vinham fazendo pelo país. Assistiam e debatiam vídeos dos cursos de Olavo de Carvalho. Um grupo sempre se deslocava de carro até o Palácio da Alvorada, a 4 km, para tentar falar com o presidente.

A líder dos 300 tinha uma rotina diferente. Só aparecia no local à tarde. Chegava a bordo de um Mitsubishi Lancer 2.0 alugado, sempre sentada no banco de trás, e esperava que lhe abrissem a porta. Junto com os companheiros, assistia aos vídeos de Carvalho e, uma vez por semana, dava palestras aos militantes, que tinham de pagar para ouvi-las. Falava de forma exaltada, agressiva, não economizava nos palavrões, mas mudava de comportamento na presença de jornalistas. Era educada e atenciosa. Para fotos, passava batom, penteava o cabelo e fechava a cara, sempre. Dizia que estava à disposição para fazer documentários, mas exigia cachê definido em contrato, como ocorreu no caso de A Vida de Sara, realizado pela Lumine, que oferece documentários de conteúdo religioso. Em diversos trechos do filme, a imagem de Sara está atrelada a marcas comerciais. Numa sequência, ela e seu filho aparecem fazendo compras numa loja da Havan, de Luciano Hang, o empresário que se parece com um periquito falante.

Na sua encarnação como líder dos 300, Sara contava com uma rede de parceiros. As camisetas – contra o PT, a favor de Bolsonaro, das armas ou da monarquia – são fornecidas pelas empresas Liber Shop e O Monarquista. Na Loja do Pescador e Militar, localizada em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, Sara dá tiros de graça em um espaço dedicado à prática esportiva. Em troca de postar vídeos de propaganda nas suas redes sociais, ela não paga pelo tatuador nem pelo salão de beleza, instalado no Guará, outra cidade-satélite da capital. “É longe, mas não vou a outro lugar”, disse ela, num dos vídeos em que aparece ao lado da hair colorist e dona da loja. Na ocasião, Sara ganhou kits de crescimento e fortalecimento capilar, xampu e máscara. (A microempresária, o tatuador e o dono da Loja do Pescador e Militar não quiseram dar entrevista. A dona do salão explicou: “Gosto muito da Sara, mas esse negócio aí dela tá muito complicado.” Isso foi antes da prisão.)

 

A relação de Sara com a família é tumultuada, e algumas passagens de sua biografia são controvertidas – sobretudo seu passado neonazista. Por volta dos 16 anos, já bastante afastada do pai e dos irmãos, ela começou a andar na companhia de jovens neonazistas de São Carlos. Ela admite que conviveu com eles, reconhece que tinha “ideias parecidas”, mas garante que se afastou em menos de um ano. “É mais uma das mentiras dela”, contrapõe Diego, o irmão do meio. “Ela andou com os neonazistas daqui dos 16 aos 20 anos. Conheço os caras. Eles estão na ativa até hoje.” Admiradora de Plínio Salgado, líder do fascismo brasileiro nos anos 1930, Sara tatuou acima do seio esquerdo a Cruz de Ferro, uma antiga honraria militar ressuscitada pelo Terceiro Reich. Ela nega qualquer simbologia nazista e diz que a Cruz de Ferro remete aos Templários, ordem medieval criada para proteger os cristãos. “Sempre gostei muito dos cavaleiros templários, como também gosto de sociedades secretas, teorias da conspiração etc.” (Sara acabou escondendo a Cruz de Ferro com a tatuagem de uma flor.)

Especialista em etnografia na internet, a antropóloga social Adriana Dias interessou-se pelo passado político de Sara e descobriu profundos vínculos neonazistas. Em sua pesquisa, consolidada num arquivo digital de 54 páginas recheado de fotos, publicações e mensagens postadas por Sara em redes sociais, Dias conclui: “Não tenho dúvida nenhuma que Sara Winter é uma hitlerista. Ela estudou, leu muito sobre o nazismo.” A pesquisadora recuperou a página de Sara no Orkut e descobriu que ela participava de várias comunidades nazistas. “Foi lá que ela conheceu a obra de David Lane e passou a se interessar pelos neonazistas ucranianos”, diz ela, referindo-se ao líder nazista norte-americano, que morreu na prisão, em 2007, onde cumpria pena por cumplicidade no assassinato de um radialista judeu.

A antropóloga social também descobriu que Sara era ativa no VK, uma rede social russa baseada em São Petersburgo, na qual deixou múltiplos “registros e rastros” de envolvimento com neonazistas. Entre seus amigos no VK, diz a pesquisadora, estão membros do Batalhão Azov, aquele que serviu de inspiração para a criação dos 300. “Ela aprendeu muito sobre o movimento supremacista branco e passou a se relacionar com pessoas do movimento no mundo inteiro por ter habilidade em línguas estrangeiras.” Só no ano passado é que Sara parou de acessar seu perfil no VK, onde, apesar de ter 1,61 metro de altura, se apresentava como modelo.

De acordo com a pesquisa, Sara manteve uma militância feminista, ao mesmo tempo em que ocultava sua militância neonazista. “Algumas de suas amigas neo-nazistas também estiveram no Femen”, diz Dias. Durante sua atuação neonazista, Sara fazia fotos, vídeos e entrevistas para as suas páginas no Orkut e, depois, no Facebook, onde se apresentava ora como Rata Maria Antonieta, ora como Rata Carlota Joaquina, nomes de suas ratinhas de estimação. Também divulgava o material pelo YouTube, onde colocou, por exemplo, uma entrevista com a banda Stuka, formada por skinheads. No mesmo vídeo, que ela depois retirou do ar, mas a pesquisadora conseguiu capturar antes, a própria Sara anuncia que era autora da letra de uma música que denuncia a dominação judaica.

Dias escreve que Sara tentou até trazer parte das cinzas do neonazista David Lane para o Brasil, onde pretendia formar o braço local do grupo Mulheres pela Unidade Ariana (WAU, na sigla em inglês), organização canadense de supremacistas brancas. A neonazista April Gaede contou à pesquisadora que Sara tentou se aproximar da viúva de Lane, Katja Maddox, porque achava que ela guardava as cinzas do marido. Na verdade, Gaede organizou o velório e a cremação de Lane e está de posse de parte das cinzas, mas ela diz que, como não conhecia Sara, ficou desconfiada de suas intenções e resolveu encerrar a conversa. Sara nega tudo, inclusive ter feito contatos com April Gaede sobre as cinzas de Lane. “Se eu tive contato com um neonazista nas minhas redes sociais, não sabia quem ele era.”

Na relação com a família, seus vínculos neonazistas não são a única divergência. Ela já disse que foi vítima frequente de violência física e psicológica dentro de casa, e que cresceu com um pai agressivo e um irmão “violento e drogado”. A piauí ouviu a família – o pai não quis falar – e os vizinhos. Todos dizem que acontecia o contrário: os pais de Sara, na verdade, sempre foram tolerantes demais com o comportamento da filha. Diego conta que, quando foi acusado de “violento e drogado”, pensou em processar a irmã. “Não fui adiante porque a minha mãe pediu”, diz Diego. Ele também afirmou que Sara não cria o filho. “A Sara nunca foi mãe. Quem cria meu sobrinho é a minha mãe. Ela só lembra que o filho existe quando os seguidores cobram e ela sente necessidade de fazer um vídeo no Instagram para passar de mãezona”, dispara. Ele conta que sua mãe tem sido obrigada a levar o garoto a Brasília a cada quinze dias. Viaja de ônibus de carreira, durante doze horas, “só para a Sara exibir o filho nas redes sociais”. Diego diz, inclusive, que Sara é kardecista, como ele próprio e a mãe, mas que se apresenta como católica por conveniência. (O pai e o irmão mais velho, Thiago, são evangélicos.)

 

Depois dos dez dias na prisão, Sara Winter recebeu a imprensa em seu apartamento, na Vila Planalto, rodeada por cinco advogados que vigiavam suas respostas. Sua aparência era outra. Vestia uma blusa verde, um blazer amarelo e calça jeans. Com unhas feitas e pintadas de rosa-claro, usava batom vermelho, brincos e um anel de prata em cada mão, além de um colar de ouro com um pingente de Nossa Senhora Aparecida. Calçava sapatilhas douradas, com um laço grande. “Pessoal”, dizia aos fotógrafos, “se estiver aparecendo dobra da barriga vocês me avisem.” Fez poses mostrando a tornozeleira eletrônica, junto à qual colocou um bilhetinho onde se liam duas palavras manuscritas: “presa política.” Respondeu todas as perguntas de forma pausada, escolhendo bem as palavras, e lamentou a “linguagem ofensiva” que usou contra o ministro Alexandre de Moraes, mas reafirmou que o país vive sob “uma ditadura do Judiciário”.

Sara está planejando sua nova vida. De início, pretende escrever um livro, com a supervisão de Olavo de Carvalho. “Tive a ideia na prisão. Tenho até um nome provisório: Como Derrubar um Ditador. Será um passo a passo, com dicas de militância. O livro e um curso sobre o assunto serão vendidos online.” Diz que vai retomar o trabalho de “conferencista internacional” que exerceu durante três anos. “Ensino políticos a serem políticos, a serem bons políticos. E ganho bem por isso.” Ela informa que cobrava, e voltará a cobrar, 600 dólares por oito horas de trabalho. “Era comum eu passar trinta dias seguidos trabalhando para um político. Faz as contas. Ganhei muito dinheiro.” Alegando que seus contratos são confidenciais, ela não dá o nome de nenhum político, partido ou organização que tenha remunerado seus conselhos, mas garante que trabalha com nomes do Paraguai, Argentina, Uruguai, Colômbia, Equador, Peru, El Salvador, Guatemala, México e, remotamente, Bolívia e Estados Unidos. “Sou muito conhecida na América Latina. Meu nome é muito famoso, e sou muito respeitada fora”, diz.

Apesar dessa fartura de clientes, Sara informa que só trocou o mercado da análise política pela militância por razões divinas. “Acho que é isso o que Deus quer para mim. Tenho uma missão que é mudar o Brasil para melhor.” Depois que teve a vaquinha virtual tirada do ar, pouco antes de ser presa, Sara criou um canal no YouTube, por meio do qual pretendia ganhar dinheiro. Mas, denunciado por promover o ódio, o canal também foi tirado do ar. “Eu já tinha levantado uns 1,8 mil dólares, mas aí o pessoal da esquerda veio e derrubou o meu canal”, disse. No dia 2 de julho, Sara publicou em suas redes sociais um apelo para que seus seguidores doassem dinheiro por meio de uma conta bancária. Ela deixou lá os dados da conta.

No seu terceiro dia em liberdade, Sara teve uma boa surpresa logo de manhã. Em sua casa, recebeu a amiga Desire Queiroz, que testemunhara sua prisão e acabava de voltar de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Abraçaram-se, emocionadas. “Ai, amiga, que alívio!”, disse Sara. Desire Queiroz também presenciara a prisão do blogueiro Oswaldo Eustáquio, o mentor dos 300 do Brasil, que fora detido em um hotel em Campo Grande dois dias antes. “Ele estava hospedado num hotel no mesmo quarteirão onde eu moro”, contou Queiroz. “Sei que ainda vão me prender.” Sara lhe contou que tivera uma conversa com Olavo de Carvalho. “Fiquei mais de uma hora com ele no telefone hoje. Recebi muitas dicas, não dicas políticas, mas orientações para a minha vida. Bons conselhos”, disse. De repente, Queiroz se empolgou. “Amiga, suas redes sociais estão bombando! Você ganhou 100 mil seguidores. Amiga! Se te prenderem de novo você chega aos 300 mil seguidores!” Sara sorriu.



Renato Alves

Jornalista e escritor, publicou O Reino Eremita (Quixote)

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