anais da diplomacia

No parquinho das potências

Os bastidores inéditos da ação externa mais arrojada do Brasil em décadas – e os efeitos do seu fracasso

Malu Gaspar
Lula, Ahmadinejad e Erdoğan, celebrando o acordo de desnuclearização do Irã, em 2010: no governo Bolsonaro, que trocou a ambição de altivez pela vassalagem ao governo norte-americano, a posição internacional do Brasil só piorou
Lula, Ahmadinejad e Erdoğan, celebrando o acordo de desnuclearização do Irã, em 2010: no governo Bolsonaro, que trocou a ambição de altivez pela vassalagem ao governo norte-americano, a posição internacional do Brasil só piorou FOTO: WILSON PEDROSA_ESTADÃO CONTEÚDO

“Companheiro, vou embora amanhã, acho que dez ou onze da manhã. Queria que você entendesse o seguinte. Meus amigos acham que você é mentiroso”, disparou Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Os dois saíam de um elevador, rumo ao jantar que encerraria a visita oficial do brasileiro ao país. Aquele domingo de maio de 2010 fora um dia de glória para Lula em Teerã. Além de todos os salamaleques da política, ele recebera a deferência rara de almoçar com o aiatolá Ali Khamenei. Ainda assim, corria o risco de voltar ao Brasil sem o que fora buscar: um compromisso dos iranianos com a desnuclearização do país. Com as mãos no ombro de Ahmadinejad, Lula continuou, enquanto o intérprete oficial traduzia: “Eles dizem que o iraniano não tem palavra. A imprensa brasileira está me esculhambando todo dia. A Hillary Clinton está me chamando de ingênuo e o Barack Obama está todo zangado. Eu queria te dizer que estou dando as minhas costas para tomar chicotada junto com você. Então você vai ter que provar para mim que eles não estão dizendo a verdade. Eu não saio daqui sem o acordo, companheiro.”

Horas depois, Ahmadinejad aceitou o tal acordo, que ganhou o nome de Declaração de Teerã. No documento, o líder iraniano concordava em enviar 1,2 mil kg de urânio pouco enriquecido para um depósito na Turquia, recebendo em troca 120 kg de combustível nuclear para fins pacíficos, que seriam enviados pelas maiores potências nucleares do planeta e pela Agência Internacional de Energia Atômica. Ao desistir de estocar grandes quantidades de material radioativo em seu território, o Irã estava implicitamente abrindo mão de produzir a bomba. Os termos do acordo eram iguais aos que tinham sido negociados ao longo de 2009 com as cinco potências nucleares, mais a Alemanha. Em outubro daquele ano, porém, o Irã travou as negociações sem explicar claramente o motivo, deixando o Ocidente perplexo.

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Malu Gaspar

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da editora Record

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