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No princípio era um chuchu

Bancário pressiona o governo para obter segredos dos OVNIs

João Paulo Charleaux
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Embora ainda não exista um censo intergaláctico, acredita-se que, nos dias de hoje, os alienígenas estejam divididos em três grupos – 80% deles são baixinhos e invocados, cabeçudos, de grandes olhos negros e pele viscosa acinzentada. Verdadeiros trolls do espaço, pregam peças e abduzem matutos incautos. Outros 15% são formados por uma classe de ETs bonitos, de conformação nórdica. Só o restante, 5%, é considerado bizarro de fato – seres amorfos ou energia pura. Os percentuais são apresentados pelo ufólogo Edison Boaventura Júnior, gerente do Banco do Brasil no horário comercial.

Boaventura foi responsável, sozinho, por 24 dos 81 recursos acolhidos pela Comissão Mista no primeiro ano de funcionamento da Lei de Acesso à Informação, que permite aos brasileiros requerer dados do poder público sem ter que justificar o pedido. Formada por representantes de oito ministérios, além da Advocacia e da Controladoria-Geral da União, a Comissão dá o veredicto final sobre as solicitações que tenham sido negadas por qualquer órgão federal e, em segunda instância, pela Controladoria.

“Testo-os há muito tempo”, contou o ufólogo de 46 anos, nascido no Guarujá, numa entrevista em sua casa na Vila Regente Feijó, em São Paulo. “Tenho mais de 8 mil documentos confidenciais vazados por militares ao longo de mais de 32 anos de pesquisas. Mas, quando peço esses mesmos documentos usando a Lei de Acesso, recebo respostas evasivas, de que os papéis nunca existiram, foram seguidamente reclassificados como secretos ou destruídos. Estou farto disso!”, desabafou.

Mais de uma centena de perguntas sobre OVNIs foram dirigidas ao Ministério da Defesa desde a entrada em vigor da lei, em maio de 2012. Sessenta e cinco delas foram enviadas por Boaventura. Ele está interessado, por exemplo, em obter detalhes do chamado Caso Laguna. Em julho de 1969, uma Kombi com quatro pessoas parou de funcionar numa estrada que cruza a cidade catarinense de Palhoça. Os passageiros ouviram o “zumbido de uma enceradeira ou liquidificador”. A pane elétrica começou a ficar esquisita quando um facho de luz tirou a Kombi do chão, fazendo-a aterrissar 500 metros adiante.

Boaventura procurou os protagonistas do episódio vinte anos depois – os terráqueos, pelo menos. Em 1997, conheceu o major Gilberto Zani de Mello, que havia sido chefe operacional do extinto Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados da Força Aérea Brasileira. Por meio de Zani, obteve documentos oficiais sobre o caso. Mas considerou as informações insuficientes. “Pedi novos documentos e não recebi nada!”, escreveu ele em um e-mail.

Em outro incidente, os próprios militares foram vítimas dos truques dos ETs. Em 1967, a tripulação de um DC-47 da FAB viu uma “bola luminosa” acompanhando a aeronave que sobrevoava a cidade de Torres, no Rio Grande do Sul. A perseguição durou quinze minutos. Testemunhas em terra afirmam ter visto o objeto, que também teria aparecido nos radares do aeroporto de Carrasco, em Montevidéu. Boaventura solicitou detalhes sobre o episódio pelo portal da Lei de Acesso, mas segue sem resposta.

Graças principalmente ao bancário paulista, a sede de desvendar os mistérios extragalácticos se transformou num teste da real disposição de transparência do governo federal. Até então, o foco do debate sobre a nova legislação estava dirigido a fenômenos que até poderiam parecer de outro mundo, mas abundam na terrinha, como servidores com salários polpudos e obras-fantasma superfaturadas.

 

Edison Boaventura recebeu a reportagem usando gravata, camisa com vinco, colete de lã e o cabelo impecavelmente penteado para trás. A figura fez jus à sua fama no meio ufológico, no qual é conhecido pelo rigor científico. “Eu desmascaro as montagens. Sou apegado estritamente à verdade”, esclareceu poucos dias antes de embarcar para a cidade de Iporanga, no interior paulista, onde disse já ter trocado sinais de lanterna com alienígenas.

Boaventura guarda debaixo da cama um pedaço de barro trazido de São Vicente, no litoral paulista, com a marca inequívoca do trem de pouso de uma nave espacial. Mas, desde que começou a usar a Lei de Acesso, não tem conseguido bom descanso. “Dá muito trabalho e o resultado é nulo. São todos vendidos. Eles estão mancomunados!”, exaltou-se, alternando a sobrancelha que arqueia, como quem analisa fotos de discos voadores com a mesma obstinação devotada a extratos bancários. Perfeccionista e excessivamente crítico, ele talvez não esteja valorizando o pouco avanço obtido até aqui.

O governo, afinal, acusou os danos provocados pelo bombardeio de pedidos sobre OVNIs. Em abril, uma comissão de ufólogos foi recebida no Ministério da Defesa por assessores civis e militares de alta patente. Da reunião, saiu a promessa de divulgação dos últimos documentos secretos da Operação Prato, que investigou os casos de terráqueos sugados por criaturas de alhures na cidade paraense de Colares no fim dos anos 70. Fotos em poder de Boaventura provam que os chupa-chupas só deixavam o bagaço das vítimas. Coisa feia.

O assunto não se presta a risadinhas. O ouvidor-geral da União, advogado José Eduardo Elias Romão, teve de dizer isso ao governo. Ao ver a Controladoria inundada pelos recursos de Boaventura, ele saiu em defesa do peticionário. “A seriedade e a competência com que trataríamos isso dariam a medida exata de nossa competência para lidar com todas as outras demandas da cidadania”, afirmou. “Nunca tomamos isso como uma brincadeira.”

Para Boaventura, não foi mesmo engraçado ver um “chuchu azul” flutuando pouco acima da linha do varal de casa quando ele tinha apenas 14 anos. A mãe deu um grito. “Eu e meu irmão corremos para fora, pensando que era um bicho”, relembrou. “Foi meu primeiro avistamento. Meu irmão menor não parava de chorar. De lá para cá, não parei mais de pesquisar.”

João Paulo Charleaux

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