poesia

No projetor da memória

Uma cena triste mancha a paisagem de Ipanema

Charles Peixoto
FOTO: WDSTOCK_GETTY IMAGES

Veja a triste cena que mancha o set de Ipanema
Engolida pela boca do metrô
Parte em lento mergulho a romântica Filomena
Lá se vai meu amor pelos trilhos subterrâneos
Aos saltos do seu coração
e guinchos solidários do vagão
A passageira pensativa tenta se concentrar no livro
Mas lembranças turvam o entendimento
A janela distrai seu pensamento
Enquanto uma lágrima surpreende no rosto refletido

***

Tarde cinzenta e tempestuosa
Uma cantoria de criança invisível traz fluidos de imagens aterrorizantes
Sabor salitroso a salinizar a saliva
Ressaca de destemperos não vividos e romances inacabados
Não há nenhum pássaro nas redondezas
Presságio sinistro e ameaçador
O vento rege sua sinfonia de assovios sussurrados
Enquanto virgens vesgas e anoréxicas
Passeiam suas vestes de primeira comunhão entre tulipas assombrosas

***



Quando amanhece parece tão distante o pesadelo que há pouco era tão premente
Tão opressivo
Tão angustiante.
O que fazia você naquela casa totalmente branca
A negociar gargalhadas com aquele homem medíocre de sorriso cínico e ameaçador?
Quem era o demônio que se debatia naquelas camas brancas num gesto constante
Com olhos vidrados de inveja a dardejar nosso desejo latente?
Enquanto a manhã avança abafada, lufadas de vento espalham o terror
As respostas, como sempre, ficam guardadas.

***

O acaso investe com sua ironia cósmica
Há quantos anos não ouvia essa música
Não existe catapulta mental mais eficiente
Que uma melodia marcante
E lá está de novo seu rosto de boneca
Seus olhos vívidos como bolas de gude
O perfume doce dos anos sessenta
Camisas de ban-lon e ternos de naftalina

De repente, assim como começou
A melodia desaparece engolida pelos ruídos da cidade
Vão-se as lembranças
Fica o registro
Como um filmezinho caseiro no projetor da memória

***

Não se trata de ninguém em especial
Nem o clima
Nem o local
É como se caísse uma fase do sistema
Um blecaute parcial
Desbotando a imagem como uma velha foto em Kodachrome

É quando entram os acordes dessa triste sinfonia
O nome é simples
Melancolia
Essa palavra sublime
Esse mal secular
Com que os corvos agourentos se deleitam a gargalhar

***

Fotos
Fragmentos coloridos
Sorrisos e olhares anônimos jogados na sarjeta
Em busca dum olhar amigo que os reconheça
Enquanto carros passam indiferentes
Espalhando e pisoteando um tapete de lembranças

Charles Peixoto

Charles Peixoto é poeta e roteirista carioca. Fundador do grupo Nuvem Cigana, é editor do Almanaque Biotônico da Vitalidade.

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