questões literárias

Nós e eles

Em dois novos romances, a vulgaridade sombria do Brasil sob o governo Bolsonaro

Alejandro Chacoff
<i>Longo Crash</i>, de Carlos Almaraz: <i>A Tensão Superficial do Tempo</i>, de Cristovão Tezza, compõe uma atmosfera de ansiedade; <i>Solução de Dois Estados</i>, de Michel Laub, encontra no jeito sarcástico de suas vozes o tom exato do <i>Zeitgeist</i>. Não há redenção nesses dois livros sobre o desastre brasileiro
Longo Crash, de Carlos Almaraz: A Tensão Superficial do Tempo, de Cristovão Tezza, compõe uma atmosfera de ansiedade; Solução de Dois Estados, de Michel Laub, encontra no jeito sarcástico de suas vozes o tom exato do Zeitgeist. Não há redenção nesses dois livros sobre o desastre brasileiro CREDITO: LONGO CRASH_1982_CARLOS ALMARAZ (1941-89)_ACERVO DE PATTY E MICHAEL GOLD_FOTO ROBERT WEDEMEYER_© MUSEUM ASSOCIATES_LACMA

Viver o momento bolsonarista e tentar simultaneamente retratá-lo é um pouco como passar ao lado de um acidente fatal na estrada. A vontade de deter o olhar é forte, mas a sensação de obscenidade, igualmente inescapável. Do emaranhado confuso de corpos e ferragens, tenta-se extrair alguma lógica retrospectiva – o passo a passo que levou ao desastre –, geralmente sem muito sucesso. O resultado é uma espécie de resignação agitada, quase sempre traduzida em algum comentário geral sobre as falhas estruturais da estrada onde o choque ocorreu. “A civilização brasileira é uma complexa implosão psicanalítica, banhada em tanatofilia, fixação anal, histeria, ressentimento, má-fé compulsiva e voluntarista e tuítes elétricos psicóticos, sob uma nuvem difusa e disfuncional de desejos erráticos de poder, que estão completamente à solta, como nunca estiveram – pelo menos não deste modo, sob tamanha incultura.”

A frase é de Mattos, um historiador e professor de cursinho pré-vestibular, personagem de A Tensão Superficial do Tempo (Todavia), o romance mais recente de Cristovão Tezza. Termos psicanalíticos como os usados por Mattos têm sido recorrentes em tentativas de decifrar o estado da nação. É um fenômeno compreensível. Falar do governo Bolsonaro é sentir-se constantemente à mercê de eufemismos, já que as expressões usuais da ciência política, do jornalismo e até do coloquialismo cotidiano parecem inadequadas para encapsular tamanho ímpeto destrutivo. “Alguém até mesmo já sugeriu que a linguagem brasileira ainda não dispõe de um vocábulo simples e único capaz de definir com precisão a monstruosidade que nos preside, será preciso inventá-lo”, diz Hildo, outro personagem do livro. Na maior parte das vezes, o vocábulo escolhido é clínico.

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Alejandro Chacoff

É escritor, ensaísta e crítico literário da piauí. Autor do romance Apátridas (Companhia das Letras)