esquina

O barbeiro fiel

O Kamura deles

Fernando Mello
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Quem tiver a pachorra de consultar o perfil de Obama no Facebook saberá que seus livros de cabeceira incluem as tragédias de Shakespeare, a Bíblia e a monumental biografia de Martin Luther King por Taylor Branch. Tudo previsível. Aqui vai então o que não se lê na página presidencial: toda vez que Obama aponta o queixo para as alturas naquela estudada pose de quem está prestes a se dirigir não só a seus contemporâneos, mas a todas as gerações futuras, uma só pessoa tem o direito de dizer com convicção “Eu fiz a cabeça deste homem”. Trata-se de Zariff, proprietário da barbearia Hyde Park.

Seu estabelecimento é igual a tantos outros no mesmo bairro de Chicago. Ocupa parte do térreo de um edifício de tijolos aparentes, dividindo-o com uma mercearia, uma lojinha de informática e uma clínica de fisioterapia. As palavras “Hyde Park Hair Salon” aparecem em neon rosa e azul-turquesa por trás do vidro Blindex da fachada. Quem estiver sem numerário na carteira pode usar o caixa eletrônico instalado lá dentro, um chamariz habitual do pequeno comércio nos Estados Unidos. Tudo muito normal, não fosse uma cadeira de barbeiro elevada num pedestal de madeira e preservada numa caixa de vidro grosso, que pode ser vista da rua, ao lado da porta de entrada.

Era naquela cadeira – sem o pedestal e sem a caixa, providenciados depois por um Zariff zeloso de seu patrimônio histórico – que Barack Obama sentava para aparar o cabelo quando morava em Hyde Park, bairro de classe média para o qual se mudou em 1991. Ainda era noivo de Michelle e começava a lecionar direito na Universidade de Chicago, que fica bem ali ao lado. Ao trocar a cidade pela Casa Branca, Obama se manteve fiel ao barbeiro. Duas vezes por mês, Zariff viaja a Washington para fazer a manutenção do look presidencial.

O “primeiro-barbeiro” devolve a lealdade. Negro, de meia-idade e estatura mediana, Zariff é tão discreto que não revela sequer o sobrenome. Orgulha-se da amizade que mantém com o cliente que fez a fama de seu salão, e dele pouco diz, exigindo que a conversa se mantenha dentro dos rígidos limites de temas capilares. É com veemência que nega certos boatos que correm à sorrelfa pela cidade. “Não, não pinto o cabelo do presidente”, afirma, tentando pôr termo a especulações de que o grisalho atual teria algo de cenográfico.

Numa tarde de novembro, as nove cadeiras do Hyde Park Hair Salon estavam ocupadas. Em poltronas de couro preto surrado, dois adolescentes em uniforme de basquete esperavam a vez. Num sofá com o encosto rasgado, um pai pelejava para acalmar um menininho revoltado com a tesourada iminente. Uma cliente soltava gargalhadas no celular. Duas tevês em mute ligadas em canais diferentes mostravam cenas de futebol americano e a cobertura de um tiroteio numa escola secundária.

O burburinho lembrava uma orquestra afinando os instrumentos. Num canto do salão, Zariff trabalhava em silêncio, pontuando as conversas com brevíssimos comentários. Vez por outra, deixava os óculos escorregarem até a ponta do nariz e, por cima das lentes, seus olhos varriam o ambiente. Os sete funcionários apressavam o passo.

 

Até 2004, o cabelo de Obama era mais comprido, chegando mesmo a formar caracóis. O corte atual foi inaugurado quando o então senador estadual do Illinois – e candidato ao Senado federal – entregou sua cabeça a Zariff horas antes de discursar na Convenção Nacional do Partido Democrata, evento que o lançaria no cenário político nacional. O momento era grave e Zariff julgou ser necessária alguma ousadia. As laterais e a nuca foram aparadas com máquina bem rente. Em seguida, correu-se o aparelho do topo da testa até a nuca. Por fim, manuseando máquina e navalha como um cinzel, o barbeiro desenhou o perímetro capilar que emoldura o rosto.

Nascia o Corte Obama, oficializado na tabela de preços à entrada do salão. Sai por 21 dólares (cerca de 50 reais), mesmo valor do corte normal. Quem só quiser aparar o bigode desembolsa 5 dólares (quase 12 reais). O pacote barba, cabelo e bigode custa 27 dólares (88 reais). Zariff sorriu discretamente ao saber que recentemente a presidente Dilma Rousseff gastou 3 125 reais para fazer cabelo e maquiagem antes de um pronunciamento em rede nacional. Foi sucinto: “Aqui todos pagam o mesmo preço.”

O barbeiro talvez resista a enveredar pelo pantanoso terreno do uso de verbas públicas por ser ele mesmo vítima do tema. Como Obama foi desaconselhado a continuar frequentando o salão depois de eleito, Zariff começou a tomar o avião para Washington nas asas da Casa Branca. Foi um prato cheio para a oposição, que de pronto começou a esbravejar contra a sangria do Tesouro Nacional. Ao escândalo não podia faltar o sufixo gate, e assim nascia o “Barbergate”. Um funcionário do salão, falando com o rabo de olho no patrão para evitar ser advertido, confidenciou que, no intuito de evitar os traslados ofensivos, o presidente teria oferecido um apartamento a Zariff em Washington. “Decidi ficar aqui por causa dos meus clientes e da família”, explicaria mais tarde o barbeiro.

Quando era senador, Obama passava tardes na barbearia jogando conversa fora. Seus assuntos preferidos eram esporte e política. Hoje, quase todas as revistas oferecidas aos fregueses têm Obama na capa. Na parede à esquerda da entrada, uma foto em preto e branco mostra Zariff dando tratos ao cabelo presidencial. A mesma cena está retratada numa pintura. Na cadeira-monumento, a assinatura do presidente está gravada no apoio dos pés. De vez em quando, um ônibus despeja turistas para fotografar as relíquias, mas o negócio de Zariff pouco mudou. Sua clientela continua sendo a antiga, formada por pessoas do bairro.

Fernando Mello

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