concurso literário

O beletrista de antanhos

O vencedor e os finalistas do mês

O BELETRISTA DE ANTANHOS
Marcelo Dantas Rosado Maia

Não se conta bem quando nem onde ocorreu, ou quais ventos – se foram mesmo ventos – trouxeram aquele extravagante peregrino àquelas bandas. Certo é que causou grande frenesi na cidade com suas vestes anacrônicas, sua postura elegante e seu dialeto impronunciável.

Discursava com desenvoltura nunca antes vista, falava palavras antigas, ideias que haviam se perdido no ocaso de civilizações desconhecidas. Apelava para o que há de melhor na humanidade. Falava, vejam só, em humanidade. Defendia com punhos cerrados a justiça, a equidade.

Ninguém o entendia.



Os que estavam mais próximos julgavam que era espanhol, os que estavam mais distantes diziam que era tcheco. “Deve ser gago”, diziam uns. “Ou gagá”, respondiam outros.

Embora distante do chão pela altura da sua grandiloquência, não pôde deixar de notar o caráter prosaico daquele lugar. Foi aí que dirigiu sua atenção aos presentes.

“Empertigam-se os justos face à maledicência febril que desvirtua os incautos! Malventurosos aqueles que confundem vícios com virtudes, que não submetem suas vontades à verdade e que sucumbem com facilidade ao jugo de déspotas dispostos a usar em vão o nome do seu Deus!”

Daquele falatório incompreensível, uma palavra havia despertado os sonolentos interlocutores, que logo responderam:

– Amém!

– Aleluia!

– Glória!

– Deve ser padre!

Assim, logo levaram o confuso padre espanhol para se consultar com a maior autoridade intelectual da cidade: um ex-adolescente que havia passado severos meses em intercâmbio no hemisfério norte. Fritando hambúrgueres.

Como não se sabia de que tempo ou de que pradarias vinha aquele sujeito, o sábio local esforçou-se para tentar apresentar a referência cultural mais antiga que lhe acudiu.

Recorreu a um velho baú de MDF empoeirado em que guardava uma inestimável coletânea da sabedoria antiga. Segurando um pôster de outrora, falou pausadamente com os olhos e ouvidos arregalados, na esperança de estabelecer algum contato:

Darth Vader!

Para frustração do sábio, o padre não se interessou pelo pôster. Estava, àquela altura, com os olhos marejados, fixados num encarte de papelão que repousava bem no fundo do baú. No papelão era possível ler, em grandes letras desbotadas pelo tempo: “Novos Baianos”.

“Formidável prosódia!”, disse o estrangeiro, com a voz embargada, para espanto dos demais.

Não houve, depois dessa, muitas outras tentativas de comunicação entre os habitantes locais e o peregrino. Nos meses que se seguiram, um estranho equilíbrio se estabeleceu. Com exceção de algumas crianças – que se divertiam com as falas exóticas do espanhol – e dos loucos da cidade, que demonstravam genuíno apreço por tão excêntricas ideias, ninguém mais dava atenção àquele imigrante que persistia inabalável nos seus discursos de tamborete.

E foi então que, mais por cortesia que por enfermidade, o estranho homem começou a se desfazer. Primeiro se desfizeram os trejeitos polidos, depois a firmeza de caráter; por fim, as ideias. Desfazia-se como pétalas que se entregam ao vento. Dizem que ao mesmo vento que o trouxera tempos atrás. E o que sobrou daquele sujeito, que ninguém sabe se era moço ou velho, branco ou preto, feio ou bonito, foi um pedacinho seu que, ao saltar frente ao espelho, me deixou mais triste. Um fio de cabelo no meu paletó.

*

CONCURSO LITERÁRIO

Se você acha tem algum talento para a escrita, pense com carinho nesta proposta. Envie para cá um miniconto e participe do nosso concurso mensal, o famoso Encaixe a frase.

Funciona assim: todo mês lançamos uma frase obrigatória e um ingrediente improvável que deverão ser incorporados a uma história com começo, meio e fim (ou vice-versa). Envie o seu texto de até 5 mil toques ou uma história em quadrinhos de 1 página até o dia 20 de maio para concurso@revistapiaui.com.br.

O vencedor será publicado na próxima edição da piauí, e receberá pelo correio (se ainda houver correio) uma coleção de cartões postais com sugestão de lugares para visitar depois da quarentena.

FRASE A SER ENCAIXADA:
“Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietantes, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num…”
(completar a frase)
Elemento estranho: Organizações Tabajara

QUEM GANHOU A RODADA: A frase do mês passado era “Um fio de cabelo no meu paletó”, e o elemento estranho era “Darth Vader”. O campeão é Marcelo Dantas Rosado Maia, a quem saudamos por ter derrotado com elegância seus 67 concorrentes nesta corrida que se revelou uma parada dura. Haja fôlego. Os outros finalistas estão abaixo.

Confira aqui as regras do nosso paleolítico certame literário.

*

Textos finalistas

QUANDO ELA VAI EMBORA?
Felipe Landim Ribeiro Mendes

O ritual se repetia todos os dias. Ela abria os olhos, se mexia de leve na cama, alcançava o celular que ficava carregando a noite toda sobre o criado-mudo de madeira velha e se virava de costas para mim.

Depois de uma noite de sono pesado, eu invariavelmente despertava com esse remelexo todo do colchão, me espreguiçava, ia para a cozinha beber água e me recostava em seguida no sofá da sala para aproveitar o sol da manhã que batia de frente para a segunda maior janela do apartamento. Às vezes ela passava por mim a caminho do banheiro e me dava um bom dia efusivo, mas em outras ignorava solenemente minha presença e partia para o chuveiro semi-entupido, que esguichava água para todos os lados, exceto no cocuruto do cidadão dentro do box. Eu seguia deitado, ouvindo a água batendo no azulejo e a voz dela entoando “Don’t stop me now, ‘cause I’m having a good time, having a good tiiiiime” ou “Um pedaciiiiiiinho dela que existe, um fio de cabelo no meu paletó“, a depender de seu estado de espírito e dos limites que sua desafinação podia chegar.

Fato é que ela trabalha e eu, não. Depois do banho e de quatro espirros seguidos, ela vestia uma camiseta qualquer, uma calça jeans tão rasgada no joelho que parecia um short por terminar e um tênis vermelho-carmim (da palmilha ao cadarço). Enfiava três ou quatro bugigangas na mochila amarela, me fazia um cafuné rápido no sofá, se despedia imitando uma voz de bebê (?) e saía pelo corredor rumo ao elevador. Desse segundo em diante, a casa era minha.

Ficar sozinho no apartamento consistia em uma das maiores felicidades dos meus dias. Perambulava sem roupa tranquilo por todos os cômodos da casa, podia me sentar no braço do sofá e mexer nas peças do quebra-cabeça de um quadro da Tarsila do Amaral sem que ela me olhasse com ar de desaprovação e me mandasse parar de tocar naquilo. “Já falei pra você não mexer aí, principalmente na parte azul, que deu o maior trabalhão pra montar!” E o silêncio. Como me alegrava ficar gostosamente deitado, cochilando naquela calmaria vespertina que só um dia de semana comum pode prover a um ser tão sem pretensões como eu.

Mas chegou o fim de março e as coisas mudaram repentinamente. Ela simplesmente parou de sair de casa e passava horas a fio na frente do computador, alternando entre planilhas de excel, receitas de bolo de banana, promoções de viagens para Tóquio (R$ 2.399, passagem e hospedagem por sete dias, entre março e dezembro de 2021), álbum da Beyoncé, posts de dicas para costurar máscaras em casa, sites de delivery de empanadas e ovos de páscoa, além de vouchers, muitos vouchers de restaurantes.

Quando não estava no computador, ela agora sacolejava panelas, talheres e pratos – fosse cozinhando ou lavando louça –, esticava a perna sobre o braço do sofá para fazer alongamentos, virava a cabeça de um lado para o outro seguindo ensinamentos de Lian Gong e bebia vinho sozinha olhando para a tela do celular. Ela até parou de cantarolar Fio de Cabelo porque, segundo contou a uma amiga por áudio de WhatsApp, o compositor tinha morrido de infecção pulmonar e, na atual conjuntura, podia trazer mau agouro. Mas só percebi que as coisas estavam realmente estranhas quando ela pegou uma colher de pau e um balde de pipoca com o formato da cabeça do Darth Vader e saiu surrando o coitado em frente à janela da sala.

Pensei que essa fase fosse passar rápido, mas já faz mais de vinte dias que ela continua aqui, sem sair de casa e fazendo esquisitices. Em geral, tento mudar de cômodo quando percebo sua aproximação, mas ela deu para me agarrar do nada ultimamente e tenho cada vez mais dificuldades para me desvencilhar. Compreendo que a casa não é minha e que, até pra comer, dependo dela. Mas sinto falta daqueles dias só meus, com meu sol, minha janela, meu isolamento. Gato nenhum nasceu para conviver com a dona 24 horas por dia.

*  

ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE
Vítor Berti

“O que é isso? Quem são essas pessoas? Por que estou deitado? Que péssimo gosto para flores…”

Juarez faleceu naquela manhã. Uma manhã ensolarada, diga-se de passagem. Literalmente de passagem, pois é onde o homem está, realizando sua travessia. Nem sempre é fácil de encarar, ainda mais para os de primeira viagem.

“O que meus filhos fazem aqui? Por que Solange está chorando?”

Aproxima-se do caixão Edna, sua esposa.

– Por quê?! Por que levaram assim tão cedo?! Meu pobre Juarez… – disse Edna, com os mesmos 73 anos de seu falecido marido.

“Me levaram pra onde, mulher?”

Juarez se senta, vê a si mesmo no caixão.

“Eu morri??” Se dá conta.

“Como pode?! Estava em pé ontem mesmo. Parei de comer bacon e fritura como o médico pediu. Quem não aguenta carregar um botijão! Fui ao chão para descansar, não é como se não tivesse acontecido antes!”

Solange chega e dá um abraço em Edna, à beira do caixão.

– Os médicos disseram que foi infarto fulminante – disse Edna à conhecida.

– Sinto muito pela perda de vocês. – disse Solange, a conhecida.

Juarez faz um minuto de silêncio a si mesmo.

“Deixaram me enterrar de paletó?! Eu não uso isso há anos! Se usei três vezes em minha vida, foi muito.”

Sozinha novamente, Edna olha seu falecido marido, quando nota um fio de cabelo ruivo. Como poderia, se Juarez era careca? Ela bem sabia que se Juarez tivesse usado aquele paletó três vezes seria muito.

– Crianças, – Edna recorre aos filhos, ambos muito bem empregados, ganhando a vida e constituindo família com 30 e 37 anos, respectivamente. – Crianças, o pai de vocês usava muito esse paletó?

– Não, mãe. – Fátima, a mais velha.

– Que eu lembre ele usou no casamento de vocês. – Rogério, o mais novo.

– Isso! E na minha formatura.

– Acho que foi isso, mamãe. A minha formatura foi bem mais informal, e você sabe como papai era difícil com roupa social.

Edna não se convenceu.

– Puxa, espero que agora ele esteja tão bem como esteve nestes eventos, meus filhos.– os três se abraçam.

Edna sabe que existia uma terceira vez, quando seu marido saiu para um evento importante, há cerca de 15 anos atrás.

Na cabeça do caixão, Solange chora só. Edna se aproxima.

– E pensar que a última vez que o vi, ele estava usando esse paletó… – choraminga Solange.

– Vocês se conheciam do trabalho?

– Não. Temos amigos em comum.

Edna repara que Solange tem cabelos ruivos.

– Entendo.

– Nos conhecíamos, mas perdemos o contato. Retomamos graças à ajuda do meu filho. Essa garotada entende de redes sociais!

– Claro, entendem muito.

“Edna, eu conheço esse olhar. Eu tenho quase certeza que olhar assim pra defunto é pecado! E eu estou a um passo de tirar essa dúvida com o próprio autor da lista! Edna!”

Solange avista seu filho.

– Falando nele, ali está! Um pouco conturbado, os últimos tempos foram difíceis. Sabe como eles são aos 15 anos.

Novamente sozinha com o defunto, Edna indaga:

– Não, Juarez. Me diga que estou paranoica.

“Você está paranoica”

– Juarez… Você colocou esse paletó para encontrar com ela! E ainda deixa para trás um fio de cabelo?! Como se eu nunca fosse reparar!

“O quê? Tudo isso é por causa de um fio de cabelo no meu paletó?! Edna! Não jogue toda nossa relação fora!”

– Na saúde e na doença, né? Bom, parece que a morte nos separou! Sorte sua, senão eu mesmo faria isso!!

“A morte? Ou a separação?”

– Eu mesma te mataria!

“Ah”

– Filho, esse era o Juarez. O amigo de quem a mamãe te falou. – Solange voltou.

– Oi – o filho de Solange é educado.

“Olá”

– Quem disse isso? – pergunta o filho.

– Isso o quê?

– Isso o quê?

“Ele me ouve!”

– Ele quem? – indaga o garoto.

“Você me escuta?”

– Escuto.

– Escuta o quê, Lucas? – Solange não está entendendo.

– Eu vou buscar um copo d’água. – disse Edna.

– Filho, olhe bem. Eu sei que você está passando por muita coisa. Tudo bem ficar confuso em um momento como esse. Daqui a pouco o Pablo chega, e você poderá ir com ele.

“Quem é Pablo?”

– Meu pai.

– Sim, filho, seu pai. No momento, é ele que nos dará suporte. A mamãe não terá mais as rendas que tinha todo mês.

– Eu posso trabalhar.

– Não será necessário. Eu dobrarei meu turno.

– Mas aí você não ficará mais em casa.

– Apenas durante um período, está bem?

– Eu queria ter conhecido o Seu Juarez. Você fala dele como se… – Edna volta.

– Ah! Edna! Obrigada – Solange pega o copo d’água, toma um gole e passa a seu filho – Filho, por que não vai dar uma volta?

O filho de Solange sai. Juarez arrisca ficar em pé. Com os primeiros passos percebe que não é tão diferente como caminhar em vida. Encontra Lucas, o filho de Solange, sentado no chão, do lado de fora.

“Você me vê?”

– Quem está aí? Juarez, é você mesmo?

“Temo que sim, garoto…”

– Mas como pode ser?!

“Eu não sei, estou tão assustado quanto você!”

– Meu pai chegou! É melhor eu ir embora.

“Quem?”

– Meu pai, Pablo.

“É, sobre isso…”

– Sobre o meu pai?

“Sobre o Pablo”

– Pablo, meu pai.

Juarez, assumindo seu lado sombrio, não teve escolha, a não ser “encarnar” o próprio Darth Vader:

“Não, Lucas. Eu sou seu pai”.

O TERNO
Thiago Parussolo

O ritmo no trabalho já vinha me cansando há muito tempo. Seis anos no mesmo emprego, fazendo as mesmas coisas, o ambiente cada vez pior, até que resolvi procurar umas vagas e me candidatei em algumas delas.

Quatro dias depois recebo email de uma recrutadora, explicando sobre a vaga, que a empresa é uma startup super descolada, cheia de estilo, e me propondo um horário para fazermos uma entrevista presencial.

Tudo pareceu muito interessante, com uma ressalva para a observação no final do email: “Pedimos que venha para a entrevista usando traje social completo :)”.

Nossa, que descolados, eles pedem pra usar terno com um sorrisinho no fim da frase!

Eu trabalho com tecnologia, escondido no escritório sem ter contato nenhum com clientes. A gente mora no Brasil, eu sempre sinto mais calor que o normal, e era pleno verão. Por que diabos chamar alguém pra fazer entrevista de terno pra trabalhar com programação?

Mas tudo bem, eu queria trocar de emprego, usar o terno uma vez só pra fazer a entrevista era um esforço aceitável. Respondi confirmando, que mal podia esperar para conhecer o escritório da empresa.

O único terno que eu tinha, é o único terno que sempre tive. Terno básico, comprei para a minha formatura, doze anos antes. Todos os eventos sociais desde então, casamentos, formaturas de outras pessoas, esse era o terno que ia comigo.

Passados dois dias, depois de ligar de manhã para o meu chefe fingindo tosse e explicando que não ia conseguir trabalhar no dia porque não me sentia bem, estava eu depois do almoço vestindo uma calça que não estava acostumada com o tamanho atual da minha barriga, suando dentro da camisa e tentando aprender de novo no youtube como dar nó em uma gravata. Uma certa vontade de desistir tentava se manifestar no meu inconsciente.

Trinta minutos depois estou na rua, esperando o ônibus debaixo de um sol escaldante. Somente no ponto tinha gente suficiente para encher dois ônibus, e era de se esperar que ele chegasse ali já lotado. Quando ele chega, consigo entrar com ajuda de alguma exceção da física, e no percurso de cinquenta minutos até o endereço de prédio, devo ter suado aproximadamente 3 litros.

O termômetro no relógio da rua marcava 32°C. Entrei na recepção da empresa, interfonaram para alguém, e lá estava eu sentado em um sofá esperando. Esperava a recrutadora, o suor secar e a temperatura do meu sapato baixar. Depois de uns 10 minutos ela aparece, me explica que nesse primeiro dia a entrevista seria somente com o gerente da área, e caso tudo corresse bem eu seria informado sobre as próximas etapas. A associação de “próximas etapas” com mais vezes usando o mesmo terno foi imediata no meu cérebro.

Ela me levou para a sala em que eu seria entrevistado e se despediu com um sorriso largo.

A sala era decorada para ter um certo clima nerd cult. Nas paredes, pôsteres de filmes como Apollo 13 e Vingadores. Um cubo mágico e um busto do Darth Vader na mesa.

– Oi, Rodrigo, eu sou o Marcelo, senta aí, fique à vontade.

Realmente fiquei, e terminei o copo d’água que estava na minha frente em praticamente uma golada. Eu não entendo de ternos, e não saberia explicar por que eu sabia que o dele custava pelo menos o triplo do meu. Mas para destoar da formalidade das vestimentas e fazer jus ao ambiente de startup, ele usava um coque samurai.

Ele me explicou sobre os sistemas que tinham, sobre a proposta da vaga. Fez perguntas sobre mim, sobre o que eu vinha fazendo. Tudo correu bem, ele disse que gostou bastante da minha experiência e que gostaria que eu fizesse uma entrevista em outro dia com o superintendente da área. Depois ele me falou sobre a empresa, o que eles faziam, que o clima era um diferencial, tinha até mesa de sinuca, e que tinha que trabalhar de terno todo dia.

O que? A primeira coisa que eu pensei foi como alguém consegue jogar sinuca de terno. E depois, como seria possível eu acordar e vestir terno todos os dias.

Ao fim da conversa ele me levou até a porta, apertou minha mão e se despediu também com um sorriso largo.

Assim que pisei na calçada tirei o paletó e a gravata. Minha camisa estava mais transparente do que branca por causa de todo o suor que ainda não secara.

Fui embora em outro ônibus lotado. Cheguei em casa, abri uma cerveja e enquanto a bebia sentado no sofá, na cadeira ao lado vi repousando ali um fio de cabelo no meu paletó, pendurado no punho, uma lembrança do coque da startup. Assoprei ele dali, e pelo celular respondi o email cancelando a próxima entrevista, justificando ter aceitado o convite de outra empresa que combinava mais com meus conhecimentos, o que era mentira. Mas era uma mentira que me confortava mais do que o meu terno apertado.

 * 

BAH FON
Maristela Provedel

– “A rádio relógio informa: 23 horas, 23 minutos, 0 segundo. Você sabia que a mosca é o inseto mais ligeiro em voar e que se ela pudesse voar em linha reta levaria 28 dias para atravessar o mundo todo?”.

Na rua sete de setembro, uma mulher ofegante desconfia que está sendo seguida e aperta os passos. Há poucas pessoas e uma escandalosa lua cheia iluminando o bairro. Maxwella dobra a esquina mais próxima atenta ao barulho do salto dos sapatos do seu seguidor. Ela preferiria que fosse o som oco e sincopado tipo “tomp tomc” dos personagens de filmes noir. Infelizmente, o barulho assemelha-se a um schlép, schlépt.

– Alguém me acuda!

Começa a andar ligeiríssima. Na verdade, ela está a correr, disfarçando que não está. Suando e com o coração a mil, atira os sapatos no ar e voa. Segue erraticamente por direitas, esquerdas, girando o pescoço mil vezes para tentar ver quem a persegue.

– “Você sabia que caranguejo olha para trás achando que está olhando para frente?”.

Quando Maxwella não aguenta mais correr, entra de sopetão na primeira porta aberta que avista. Esconde-se debaixo de uma mesa.

– Água, água…

– Nossa, tá esbaforida, heim? Não prefere sair de debaixo da mesa? É bem mais fácil do que sair do armário. Já já trago sua água.

Maxwella recosta-se em uma poltrona ao fundo do bar e observa o lugar. É iluminado com luzes verdes e púrpura. À direita, um palco mínimo. No bar, Vermute, vodka Kátia Flávia, Ruim Bakardy, Catuaba e Grapette. Ao lado da caixa registradora há um cabideiro repleto de boás purpurinados. Ela suspira profundamente. Havia esquecido de que estava à beira. Pelo vidro do bar avista a rua. Pouca gente. O garçom vem trazendo a bandeja mascarado de preto da cabeça aos pés.

– Só isso, amoyre? Nada mais animador para espantar esse encosto?

– Estou possuída mesmo. E sem memória, o que agrava a coisa. Ué, conheço este figurino…

– Prazer, Darth Vader. Não se assuste, somos brutos por fora, mas mimosos e gostosos por dentro!

– Gostei! Sabe, estou vivendo uma teoria conspiratória. Por instantes pensei que você fosse o meu perseguidor. Desculpa o mau jeito.

– Menina, relaxa! Olha aqui, às 23:59 faremos uma performance. Quer participar? Temos o traje completo de princesa Léia, tranças e tudo. Pra você custa quarenta reais. Instantinho que vou atender o telefone, tá?

Maxwella quer voltar para casa, mas algo naquele lugar é tão acolhedor… Ela pede um Vermute duplo e procura pelo banheiro. Atravessa um corredor de luzes vermelhas e espelhos no teto. Depara-se com uma réplica da esfinge de Gizé pregada na porta. Sentada no vaso, ela fixa o olhar na exótica figura egípcia até sentir um facho de laser iluminando sua testa. Por um instante, quase descobre o que está para ser revelado, todavia, a caixa de som embutida no teto interrompe tal momento de clarividência.

– Para dar descarga e sair precisarás adivinhar o enigma de hoje.

– Santa Rita de Cássia! Não me prendam aqui, sou claustrofóbica! Estou hiperventilando!

– Êita. Posso lançar o enigma?

– Anda logooo!

– “Um fio de cabelo no meu paletó”.

– É meu! É meu!

– Úia, matou de primeira! Qual o seu QI, criança? Já pode puxar a descarga.

Ela sai enfurecida do banheiro, pega a bolsa na intenção de ir embora, mas vê o Vermute sobre a mesa. Cor mais linda! Feito camela, bebe de uma vez só. Olha para a rua e avista uma figura de chapéu, uma paragem olhando fixamente para ela. Mira a pessoa e, destemida, vai até ela.

– Amore, e a conta?

– Vou atravessar a rua e esclarecer as coisas.

– Que a força esteja com você!

E Maxwella Smart, movida a álcool, dirige-se ao desconhecido.

– Estás a me seguir? Quê por? Já isso pare agora com, viu? Pare agora com já isso, senão 180 vou para ligar! Entendeu?

– Não me reconheces?

– Menor ideia faço.

– Você esqueceu o seu paletó no hall. E os sapatos na calçada.

– Estivemos juntos em algum lugar?

– No meu estúdio. No sofá, bancada da cozinha e na minha cama.

– “Cada minuto que passa, um instante que não se repete. Galeria Silvestre, a Galeria da Luz”.

– Lembra do meu nome?

– Menor ideia faço.

– Aurélia.

– É engano. Ontem eu saí com um cara chamado Horácio.

– Isso.

– Como assim?

– Somos todxs versáteis, Mawella.

– Ish. Preciso parar de beber urgentemente. Perdi a chance que tive de estar com alguém versátil. Nada lembro.

– Talvez ao longo do dia você consiga. Foi maravilhoso! Este é o meu endereço. Não há interfone ou campainha. Grita e eu desço pra te buscar.

– Que irei é certo não. Irei que não é certo. Uau, está difícil. Tô vendo dois postes de luz, duas Aurélias… Ha ha ha. No caso do poste é o álcool, mas no seu caso tá certo, né? Tem você e tem o Horácio. Aliás, quando eu gritar na sua porta, quem eu chamo?

– Grite o seu próprio nome. Bem alto.

Horácio e Aurélia desaparecem. Maxwella se deita na calçada encantada com o novo mundo que se lhe apresenta. Permanece ali, estatelada. Da vitrine do Bistrô Bah Fon, Darth Vader retira a máscara e vai até ela.

– Loucurinha, o que posso fazer por você?

– Traz um Grapette bem gelado. Duplo, pliz.

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