questões literárias

O Brasil banal

André Sant’Anna e o registro da precariedade nacional

Alejandro Chacoff
A obra de André Sant’Anna pode ser lida como um aviso precoce da escatologia no centro da vida pública atual, mas também como um tipo de salvaguarda contra a romantização do passado
A obra de André Sant’Anna pode ser lida como um aviso precoce da escatologia no centro da vida pública atual, mas também como um tipo de salvaguarda contra a romantização do passado ILUSTRAÇÃO: ANDRÍCIO DE SOUZA_2019

Uma amiga baiana me conta que, em meados da década de 1970, “ali entre Ilhéus e Itabuna”, havia um rapaz cujo apelido era Jipe. Ele passava de vez em quando na rua, fazendo barulhinhos de motor com a boca. De repente, parava no asfalto e começava a gritar: “Tenho que abastecer, vem me ajudar, tenho que abastecer!” A criançada então lhe trazia copos d’água. Jipe usava uma roupa estranha, com espelhos retrovisores acoplados à sua vestimenta: emulava o Jeep que, segundo rezava a lenda, o pai lhe havia prometido caso ele passasse no vestibular. Jipe estudou e estudou, mas não passou. Tornou-se então o maior exemplo do ditado anônimo que, segundo a minha amiga, corria de boca em boca durante a sua infância: o de que “estudar demais endoidece”. O rapaz se transformara no Jeep que nunca tinha ganhado do pai, e agora passava o dia todo dando voltas no seu automóvel invisível. “Tá podendo, hein Jipe”, as crianças sussurravam, com risadinhas maliciosas. “Tchau Jipe, bye, bye!”, diziam depois, com certa ternura, quando ele arrancava para ir embora.

A anedota, que cito de memória, evoca o mundo ficcional de André Sant’Anna: um mundo cômico, às vezes obsceno, absurdo e ao mesmo tempo absurdamente familiar. Um lugar permeado por certa obsessão materialista e tomado por um sincretismo empobrecido – não o sincretismo da autoimagem vaidosa do país, aquele de um multiculturalismo vibrante; mas sim o sincretismo do “Jipe”, da “batata croc-chips”, do “americano no prato”, com muita maionese e guaraná, refeição que Mané, protagonista do romance O Paraíso É Bem Bacana (2006), gosta de comer.

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Alejandro Chacoff

Jornalista da piauí, trabalhou como analista político em Londres

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