chegada

O brasileiro Juan Manuel

Já veio pronto, com cabelo e sobrancelha, bochechas

Vanessa Barbara
O retorno à Bolívia, tão planejado quanto adiado pelo imigrante ilegal, deixa raízes no Brasil
O retorno à Bolívia, tão planejado quanto adiado pelo imigrante ilegal, deixa raízes no Brasil FOTO: VANESSA BARBARA_2006

Agora serão sete no apartamento de Beatriz Apaza, no bairro do Pari, centro de São Paulo. “Seis e meio”, ela corrige, olhando para um pequeno embrulho de bebê e cobertores na cama da maternidade. Juan Manuel não é maior do que esta revista, está deitado bem no centro da cama, e a mãe se senta na ponta, com cautela. “Ele não chora, fica dormindo o tempo todo”, diz Beatriz, ainda sem tirar os olhos da criança. O bebê tomou as vacinas sem reclamar, fez o teste do pezinho, mamou durante meia hora e dormiu.

Tudo indica que Juan Manuel não quer dar trabalho nem chamar a atenção — assim como a mãe. Quando começaram as contrações, na manhã de 13 de novembro, Beatriz preferiu ficar em casa, esperando a dor aumentar. A jovem boliviana caminhou pela rua, tomou água, respirou fundo. Só foi para o hospital no fim da tarde, quando as contrações redobraram. “No Brasil, as mulheres fazem muita cesárea, e eu queria parto normal”, diz. Por isso, decidiu chegar quando a dilatação já estivesse boa. O parto foi rápido, e às 7 da noite Juan Manuel nasceu, depois de nove meses e uma semana na barriga da mãe.

Receosa, Beatriz não aceita tirar fotos ao lado do bebê. Ela e a irmã Deysi conversam aos sussurros, em espanhol. O Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, no Belenzinho, é referência no atendimento de gestantes bolivianas, pois pertence à rede pública e se encontra próximo aos bairros do Bom Retiro, Pari e Brás, onde se concentra a colônia. Segundo Zuleika Olivieri, presidente do voluntariado do hospital, cerca de 25% das parturientes têm origem boliviana. Como se encontram em situação irregular no Brasil, algumas delas são arredias. Mesmo assim, são atendidas pelo hospital, que ganhou uma placa de agradecimento do Consulado Geral da Bolívia.

Max e Beatriz, os pais do bebê, vieram de La Paz há três anos. Eles decidiram emigrar para o Brasil no dia em que perderam a filha de três meses de idade, Fabiana. Segundo Beatriz, a menina morreu de “febre, gripe e tosse”. Na época, só faltava a tese de conclusão do curso para Max se formar em engenharia mecânica, mas, ainda assim, eles resolveram partir. Metade da família de Beatriz já vivia no Brasil (ao todo, nove irmãos: três mulheres e seis homens).

Hoje, aos 23 anos, ela mora em um apartamento com o marido e mais quatro de seus oito irmãos. A família trabalha na oficina de costura do irmão Rodolpho, para firmas brasileiras e coreanas. O pagamento é feito por prenda (peça de roupa). “Nós costuramos bastante por pouco dinheiro”, afirma. A idéia do casal era passar somente um ano no Brasil e voltar para casa, mas a situação piorou e eles foram ficando. Aí veio a gravidez, e os planos tiveram de ser adiados de novo.

É difícil saber exatamente quantos bolivianos vivem em São Paulo. Os números podem chegar a 200 mil, segundo o relatório de 2004 da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. A Maternidade Leonor Mendes de Barros atende muitos deles, além de moradoras de rua, presidiárias e grávidas de alto risco. Segundo as voluntárias, não são poucas as bolivianas que já chegam com tuberculose, devido ao ambiente insalubre de moradia e trabalho. “A grande maioria vem do trabalho escravo em confecções”, diz Zuleika. “Vivem em casas sem janela, tipo porão.” Algumas entram no hospital gritando, mas não é de dor, é de medo. Têm medo de serem denunciadas e medo do desconhecido, daí a importância das voluntárias, que vestem um avental rosa e servem de acompanhantes para as pacientes que não têm ninguém por perto.

“Tivemos uma boliviana de dez anos de idade que teve nenê, vítima de abuso sexual do tio, mas somente conseguimos descobrir isso depois de muita conversa”, conta Zuleika. Algumas pacientes só aceitam falar com “as de avental rosa”, e não com os médicos ou psicólogos. São mais de cem voluntárias no hospital, em sua maioria donas-de-casa ou aposentadas, que auxiliam as enfermeiras, conversam com as pacientes, organizam bazares e recebem doações para os enxovais. Curiosamente, as bolivianas são as parturientes que menos se interessam por receber esses enxovais – cobiçadas caixas de papelão grátis, contendo pijaminhas de flanela com fitinhas e tudo o mais.

 

Durante a conversa, Beatriz e Deysi não param de trocar olhares e sorrisos encabulados. Quando uma voluntária pergunta a Beatriz se ela gosta do Brasil, a moça responde: “é… Eu gosto”, e olha para a irmã. “Não foi muito convincente, hein?”, brinca a funcionária. Beatriz explica que Juan Manuel será educado em espanhol, pois é o idioma que eles falam em casa, e também porque a família pretende retornar à Bolívia quando as coisas melhorarem.

Enquanto isso não acontece, eles se distraem encontrando os amigos e participando dos eventos da colônia boliviana na região. Todos os sábados, na Rua Coimbra, no Brás, e todos os domingos, na Praça Kantuta, no Canindé, milhares de imigrantes se reúnem em uma feira de produtos típicos, comida, dança e artesanato. Na Kantuta pode-se comprar saltenhas (um salgado boliviano), flautas, potes de barro, malhas de lã de lhama e dvds com discursos do presidente Evo Morales. Pode-se cortar o cabelo, jogar futebol e procurar subempregos em anúncios expostos em painéis. Beatriz costuma freqüentar a praça em busca de seu prato preferido, o chicharrón, espécie de torresmo servido com chuño (batata desidratada) e mote (milho branco cozido). Também gosta de comprar o queijo branco boliviano, que é “parecido com o brasileiro, mas estica”.

Rodeada de senhoras de avental rosa, a mãe de Juan Manuel dá indicações de como chegar à Praça Kantuta, já que ninguém sabe ao certo onde fica. Uma das voluntárias confessa: “Eu fui uma vez, mas não saberia voltar”. E Beatriz, indignada: “Mas como?! Está en su país…”. No quarto coletivo da maternidade, que ela divide com mais três gestantes, a boliviana conta que sua festa preferida é a de Alasitas (“compre-me”, no idioma aimara), que começa em 24 de janeiro e é oferecida a Ekeko, o deus da abundância. Nesse dia, na praça paulistana, há venda e exposição de miniaturas que simbolizam o que se deseja alcançar: casas, automóveis, sacos de arroz e de açúcar. No ano que vem, Beatriz promete levar o diminuto Juan Manuel à Alasitas – sem falta –, pois é uma festa de miniaturas e ele vai se sentir “muito à vontade”.

Vanessa Barbara

Jornalista e escritora, é colunista do International New York Times.

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