vultos da República

O brizolista de cátedra

Preterido pelo centrão e isolado por Lula, Ciro Gomes tenta se viabilizar à Presidência como alternativa ao PT

O brizolista de cátedra
31ago2018_07h05
Quando repórteres perguntaram a Ciro Gomes quem apoiaria num eventual segundo turno entre Jair Bolsonaro e o candidato do PT, ele disparou esta resposta: “Pode morrer?”
Quando repórteres perguntaram a Ciro Gomes quem apoiaria num eventual segundo turno entre Jair Bolsonaro e o candidato do PT, ele disparou esta resposta: “Pode morrer?” FOTO_J. R. DURAN_2018

Ciro Gomes aguardava o início da entrevista na rádio Jovem Pan, na avenida Paulista, quando entrou na sala o professor de filosofia Gustavo Castañon, que faz parte da sua equipe de campanha à Presidência da República. “Você leu a mensagem que mandei?”, perguntou Castañon. O candidato do PDT não tinha lido. A mensagem, explicou brevemente o professor, dizia que o historiador Marco Antonio Villa, comentarista do programa Jornal da Manhã e fervoroso antipetista, vinha ultimamente defendendo posições nacionalistas e a participação do Estado na economia. “Agora não vou ter tempo de ler”, respondeu Ciro, que logo foi levado para o estúdio de gravação.

A sabatina durou uma hora. Ciro se dirigiu ao historiador sempre em tom amigável, tratando-o às vezes por “professor Villa”. Este, por sua vez, apesar de ter lançado algumas perguntas desconfortáveis ao candidato, foi muito mais brando com o pedetista do que com Guilherme Boulos, candidato do PSOL à Presidência, a quem chamou, em outra edição do mesmo programa, de “déspota pouco esclarecido” e de praticante de atos “criminosos” e “terroristas”.

À saída do estúdio, enquanto se despedia dos entrevistadores, Ciro disse: “Villa, que ninguém aqui nos ouça, mas sou teu fã.” Em seguida, apresentou ao historiador sua mulher, Giselle Bezerra, produtora de tevê cearense de 39 anos: “Ela também é tua fã.” No elevador que levava até a garagem, o presidenciável não se conteve e, dirigindo-se a um diretor da Jovem Pan que o acompanhava, sentenciou: “Villa é um dos melhores comentaristas do Brasil. É um estudioso, é preparado, sabe do que está falando.”

Foi durante a entrevista em junho na Jovem Pan que Ciro Gomes chamou de “capitãozinho do mato” o vereador negro Fernando Holiday, do DEM paulistano e integrante do MBL, o Movimento Brasil Livre. Holiday processa Ciro pelo caso, que foi tratado pela imprensa como mais um destempero do candidato. O pedetista, porém, estava convencido de que aquilo lhe traria frutos – sabia, por exemplo, que a expressão já fora usada por integrantes do movimento negro para falar do vereador.

Um mês depois, em um debate, o candidato chamou de “filho da puta” o promotor que pediu a instauração de inquérito para apurar se ele tinha cometido injúria racial contra Holiday. E ameaçou: “Se eu for presidente, essa mamata vai acabar.” O pedido partira na verdade de uma promotora. Representantes do Ministério Público condenaram a atitude de Ciro e definiram as ameaças como gravíssimas.

O excesso do candidato ocorreu na mesma época em que os partidos negociavam suas alianças para as eleições de outubro e, se não foi o motivo, serviu como pretexto para que o chamado centrão desistisse do flerte com o pedetista para fechar seu apoio a Geraldo Alckmin. O governo Temer operou para que o bloco não o apoiasse, ameaçando tirar dos aliados os cargos que eles mantêm na Esplanada.

Pouco depois de ser abandonado pelo centrão, Ciro perdeu o parceiro que mais desejava, o PSB, partido com o qual negociou por meses e que teria lhe dado mais tempo de tevê, mais palanques e mais musculatura política. O PSB optou por ficar neutro na disputa nacional, liberando os seus diretórios para alianças nos estados. O PCdoB, outro possível aliado, voltou aos braços do PT. Da carceragem da Polícia Federal em Curitiba, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva arquitetou o isolamento de Ciro, visto como maior ameaça ao espólio eleitoral que o petista tentará transferir para Fernando Haddad. Segundo Ciro, Lula também agiu sobre o centrão, convencendo o ex-deputado Valdemar Costa Neto, cacique do PR, a apoiar Alckmin.

Asfixiado à esquerda depois de ter perdido a direita, o pedetista escolheu uma candidata a vice mais identificada com esta última, a ex-líder ruralista Kátia Abreu, também do PDT. Para manter viva a chance de ir ao segundo turno, ele busca simultaneamente conquistar o eleitorado lulista que não quer votar em Haddad e o eleitorado tradicional do PSDB que não quer votar em Geraldo Alckmin.

Se nas disputas anteriores Ciro era novidade, agora ele surge como o veterano, numa eleição marcada pela incerteza e por uma campanha mais curta – 52 dias de propaganda, sendo 35 dias com horário eleitoral gratuito no rádio e na tevê. Para tentar escapar, em tão pouco tempo, da encruzilhada em que foi parar por causa de Lula, Ciro sacou da manga uma proposta com apelo popular, mas de engenharias política e financeira ainda incertas: refinanciar a dívida de 63 milhões de consumidores, a fim de limpar o nome deles do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito). Pelo projeto, os bancos públicos abririam linhas de crédito para parcelar as dívidas em até três anos, o que permitiria aos inadimplentes poder voltar às compras e, assim, ajudarem a reaquecer a economia. O plano tem o mérito de trazer para o debate público um problema grave e subestimado, mas efetivá-lo é tarefa bastante complexa, dizem analistas. Depois de Ciro, Henrique Meirelles, candidato do MDB, propôs, sem detalhar, a renegociação da dívida de pessoas físicas, o que levou o pedetista a dizer que os concorrentes estão copiando suas ideias.

 

O potencial de êxito de Ciro também está diretamente ligado à capacidade de se manter longe do seu célebre botão de autossabotagem. Nas eleições de 2002, quando concorreu pelo PPS, chegou ao segundo lugar nas pesquisas e teve grandes chances de alcançar o segundo turno, junto com Lula. Contudo, três episódios em sequência o derrubaram em um só mês, um agosto devastador. Primeiro, Ciro chamou de burro o ouvinte de um programa de rádio. Depois, ao ser indagado sobre o papel da atriz Patrícia Pillar, sua mulher à época, na campanha, afirmou: “A minha companheira tem um dos papéis mais importantes, que é dormir comigo” (mais tarde, ele pediu desculpas públicas pela resposta, que considerou “o maior erro” de sua vida). Por fim, durante um jantar com empresários e banqueiros, pressionado a detalhar quais medidas tomaria para acalmar o mercado, caso eleito, o presidenciável respondeu: “Estou me lixando para o mercado.”

Ciro fala desses casos a contragosto. Diz que são superestimados pelos jornalistas e acha que há preconceito no tratamento que recebe no Sul e Sudeste do país. Repete que, durante o exercício de cargos públicos, jamais teve reações inadequadas. “Certa elite plutocrata acha que eu perdi a eleição no passado por causa dessas coisas e não percebe o ridículo que é, nesse momento, rememorar falhas, escorregões, impertinências de 16 anos atrás. Na hora em que o país está com um golpista processado por corrupção na Presidência, quando se passa o domingo assistindo a uma degradação pública do Poder Judiciário [referia-se à batalha judicial em torno da soltura de Lula, em 8 de julho], você acha mesmo que tem alguém do povo preocupado com isso?” Referindo-se à piauí, disse a mim: “Eu estou te recebendo na minha casa, mas já sei o que é que vem na reportagem, e não tem problema nenhum, porque candidato a presidente tem que aceitar isso.”

Depois de ser criticado por seus rompantes, Ciro parece estar mais controlado. Comentaristas destacaram a serenidade do candidato nos primeiros debates na tevê. Em uma entrevista recente, ele disse que a imagem de homem explosivo não lhe cabe e se definiu como um “doce de coco”. Mas nem tanto. Ciro também vê vantagens em seu temperamento sanguíneo, neste momento. “As pessoas estão procurando autoridade, algo que a esquerda velha, por receio ao autoritarismo da ditadura, perdeu. Autoridade, em linha e nos limites da lei, é um elemento central da democracia”, me disse.

Estávamos na sala do apartamento de 100 metros quadrados e três quartos, em Santa Cecília, na região central de São Paulo, onde vive um dos quatro filhos de Ciro, Yuri, de 29 anos, e para onde o presidenciável e Giselle Bezerra se mudaram durante a campanha. Em relação a 2002, Ciro, que tem 60 anos, ganhou 16 quilos, uma calva mais pronunciada e cabelos grisalhos. Consumia de dois a três maços de cigarro por dia, mas parou de fumar em 2010.

No segundo turno em 2002, Ciro apoiou Lula (que disputava com José Serra), e, quando o petista assumiu a Presidência, o nomeou ministro da Integração Nacional, cargo que ocupou de 2003 a 2006. Elegeu-se deputado federal para o mandato de 2007 a 2011. Na Câmara, teve um desempenho pífio: não apresentou nenhum projeto e foi um dos parlamentares que mais faltou às sessões.

Ciro repete sem corar que simplesmente desistiu do mandato. Alega que, quando chegou, a Casa era presidida por Michel Temer e o nível dos debates era muito baixo. Entretanto, o presidente da Câmara em 2007 era o petista Arlindo Chinaglia – Temer só assumiu dois anos depois. Além disso, a opinião de Ciro sobre Temer era um tanto diferente da de hoje. Num discurso no plenário da Casa em 2009, como contou o jornal O Estado de S. Paulo, ele saudou Temer com as seguintes palavras: “Todos nós, eu especialmente, temos um grande respeito por vossa excelência, pelo seu comportamento, pela sua retidão, pela sua decência.”

Nas eleições presidenciais de 2010, Ciro almejou ser o candidato das esquerdas, mas foi atropelado pelo PT e pelo PSB, unidos em torno de Dilma Rousseff. Ele decidiu então se afastar da vida pública. Em 2015, foi trabalhar em São Paulo como executivo da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), do amigo Benjamin Steinbruch. “Aluguei um apartamento perto do trabalho, não tinha carro, escolhi uma opção de vida que fazia tempo eu queria me dar. Pertencia ao board da companhia, tinha um belo de um salário”, me disse o presidenciável, negando-se, porém, a revelar o valor. “Mas então começaram as escaramuças do impeachment, e eu considerei, tamanha a gravidade do processo, que era minha obrigação opinar. Pedi demissão e fiz a opção de ir pra rua, basicamente pra universidades, tentar criar uma corrente de opinião e de resistência.” Filiou-se ao PDT, sétimo partido de sua carreira (depois de PDS, PMDB, PSDB, PPS, PSB e Pros), e passou a rodar novamente o Brasil.

 

Filho do defensor público cearense José Euclides Ferreira Gomes Júnior (1918-96) e da professora paulista Maria José Santos Ferreira Gomes (1928-2015), Ciro Ferreira Gomes nasceu em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, em 6 de novembro de 1957. É o primogênito de cinco irmãos, seguido, nesta ordem, por Lúcio, Cid, Lia e Ivo. Quando tinha 4 anos, a família se mudou de Pindamonhangaba para Sobral, a cidade de seu pai, no sertão do Ceará.

Durante a juventude em Fortaleza, para onde se mudara a fim de cursar a faculdade de direito, Ciro equilibrou-se entre a política e a boêmia, frequentando artistas e intelectuais. O compositor e arquiteto Fausto Nilo e o antropólogo Paulo Linhares lembraram que nessa época Ciro tinha como farol o jornalista, publicitário e compositor Augusto Pontes, espécie de eminência parda da cultura cearense, amigo e influenciador de artistas como Fagner, Belchior e Ednardo. “É um gênio absolutamente extraordinário”, Ciro me disse, quando lhe perguntei sobre Pontes, que morreu em 2009, aos 73 anos. “É um arquiteto da palavra, um semiótico, com uma capacidade de olhar as coisas de um ângulo único, fora da mesmice, que eu muito raramente encontrei nas minhas relações. Todo dia a gente saía, ia jogar sinuca, tomar cachaça, conversar, cantar. É o morto, fora da minha família, de quem eu mais sinto falta.”

Ciro deu aulas de direito em duas instituições, na UVA (Universidade do Vale do Acaraú), em Sobral, em 1979, e na Unifor (Universidade de Fortaleza), em 1985. Não voltou a lecionar, mas faz questão de ressaltar que é “um velho professor de direito”. E, seja diante de plateias ou em conversas particulares, preserva o tom professoral de quem se considera mais sábio que o interlocutor. No início dos anos 80, entrou na política. Foi eleito deputado estadual pelo PDS em 1982, quando tinha 25 anos. Transferiu-se mais tarde para o PMDB, pelo qual obteve o segundo mandato, em 1986. Dois anos depois, apoiado por Tasso Jereissati, então governador do Ceará, elegeu-se prefeito de Fortaleza. Ficou apenas um ano e três meses no cargo, pois resolveu concorrer ao governo do estado, dessa vez pelo PSDB. Foi eleito em 1990. Suas duas administrações agradaram à população. Foi apontado como o melhor prefeito do país, com 77% de aprovação (em janeiro de 1990), e como o melhor governador, com 74% de aprovação (em setembro de 1994), conforme pesquisas do instituto Datafolha. Em 1993, um programa de agentes de saúde, iniciado por Tasso e ao qual Ciro deu prosseguimento, foi premiado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) por ter reduzido drasticamente a mortalidade infantil no Ceará.

Em 1994, o presidente Itamar Franco chamou Ciro, que ainda estava ligado ao PSDB, para ministro da Fazenda dos restantes quatro meses de seu mandato presidencial. Ele deu prosseguimento à implantação do Plano Real, criou a TLJP (Taxa de Juros de Longo Prazo), usada como referência para empréstimos do BNDES, e reduziu alíquotas de importação de 445 produtos. Meteu-se também em escaramuças: confrontou petroleiros em greve e chamou de “canalhas” os empresários que cobravam ágio e de “otários” os consumidores que se dispunham a pagá-lo.

Figuras de peso do empresariado aproximaram-se do político do Ceará, como Roberto Marinho. “Ele gostava muito de mim. Tínhamos uma relação boa. Sempre discordante, mas ele era uma pessoa muito interessante”, me contou Ciro. “Ele me recebeu muitas vezes na sua casa e me convidou para um fim de semana em Angra dos Reis. A gente insistia, eu e o Tasso, para ele apoiar o Mário Covas na eleição de 89, e ele dizia que não apoiava porque, embora considerasse o Covas um homem sério, achava que ele era comunista. Depois acabou reconhecendo o valor do Covas.”

Há poucos meses, Ciro encontrou-se com João Roberto Marinho, presidente do Conselho Editorial do Grupo Globo, no escritório do empresário, no Rio. A iniciativa partiu do político. Entre os herdeiros de Roberto Marinho, Ciro diz manter com João Roberto “uma relação mais respeitosa, de muito longa data”. Perguntei qual fora o objetivo do encontro. “Foi para formalizar minha candidatura”, respondeu o pedetista. “Tivemos uma conversa séria, franca.”

Quando foi eleito presidente em 1994, Fernando Henrique Cardoso entregou o Ministério da Fazenda a Pedro Malan e ofereceu outra pasta a Ciro, que recusou e rompeu com o governo. Alegou que FHC atropelara Tasso Jereissati, considerado pelo cearense o candidato natural do PSDB à sucessão de Itamar. Ciro viajou então aos Estados Unidos para uma temporada de um ano meio de estudos na Universidade Harvard. Quem viabilizou o período sabático foi Roberto Mangabeira Unger, professor da universidade, que Ciro conhecera quando governador e que até hoje é uma espécie de referência intelectual do candidato. Em colunas publicadas no Jornal do Brasil e em O Estado de S. Paulo, Ciro passou a fustigar a política econômica do governo FHC, tachada por ele de neoliberal e submissa aos interesses do setor financeiro. Pavimentava, assim, a estrada para a candidatura presidencial que apresentaria em 1998, pelo pequeno PPS, uma dissidência do PCB. “Não tinha pretensão eleitoral nenhuma”, ele relembrou. “Queria criar um campo. Foi uma candidatura charmosíssima. Terminei como campeão moral da eleição.”

No pleito seguinte, já conhecido nacionalmente, montou uma aliança com o PDT de Leonel Brizola e o PTB de Roberto Jefferson e do sindicalista Paulinho da Força, que foi seu candidato a vice-presidente. Teve o apoio informal do PFL de Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen. Pouco adiantou. Ciro considera que perdeu a eleição por causa de uma ação conjunta entre o governo norte-americano e o de FHC. “Os americanos estavam aqui. Os democratas mandaram para cá toda a assessoria de publicidade do então presidente Bill Clinton, que trabalhou inclusive com psiquiatras”, disse. “Quem me contou foi alguém lá de dentro. Depois eu apurei e é tudo verdade. Fernando Henrique fez uma reunião em São Paulo, em que estava a fina flor do baronato brasileiro, na qual foi lavar as mãos, dizendo que eu era um louco, que eu ia precipitar tudo. Ali resolveram que eu era o cabra marcado pra morrer.” Ciro usou essa mesma expressão há poucas semanas, ao dizer que houve um conluio entre PT, PSDB e MDB para isolá-lo na corrida presidencial: “Quando entrei nessa luta, sabia bastante bem que eu era o cabra marcado pra morrer.”

 

Embora em alguns círculos vigore a ideia de que, no campo econômico, Ciro começou sua trajetória como um liberal e foi gradativamente incorporando o ideário nacional-desenvolvimentista, o fato é que desde muito cedo ele empunhou bandeiras associadas à esquerda, como a defesa do papel do Estado na economia e a redução da desigualdade social. O laço com Mangabeira Unger parece tê-lo transformado num explícito antiliberal – preocupado, porém, em ressaltar seu histórico de responsabilidade fiscal. Em artigo escrito em 1995 e publicado no seu livro Um Desafio Chamado Brasil (2002), deixou claro o que pensa sobre privatização: “Privatizar é meio, não fim. O verdadeiro Estado moderno jamais deve abrir mão de sua faculdade de criar empresas estatais, quando a tanto recomende o interesse da nação. Não há nisso nenhuma contradição, senão autonomia ideológica e exercício positivo de soberania.”

Há cerca de dois anos, Ciro se aproximou do Centro de Estudos Novo Desenvolvimentismo, da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, liderado pelo ex-ministro e professor Luiz Carlos Bresser-Pereira, um ex-tucano que se aproximou do PT nos últimos anos. Bresser-Pereira promoveu encontros entre Ciro e o petista Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, e era entusiasta de uma chapa que reunisse os dois. “Ciro é de longe o candidato com mais condições intelectuais e políticas de governar o Brasil. Ele está muito identificado com a responsabilidade fiscal e cambial”, me disse Bresser-Pereira, responsável por apresentar Ciro ao economista Nelson Marconi, convidado para ser o coordenador do programa de governo do pedetista. A principal referência na equipe- econômica do presidenciável, entretanto, é Mauro Benevides Filho, ex-secretário em administrações de Ciro e seus aliados no Ceará.

Um dos eixos do programa econômico de Ciro é a reforma tributária, que serviria de base para um ajuste fiscal, com taxação de lucros e dividendos, aumento e federalização do imposto sobre herança, além da criação de um imposto sobre grandes movimentações financeiras. O candidato tem dito que com essas medidas e o corte de benefícios tributários conseguiria zerar o déficit primário do país em dois anos.  Ele também promete revogar várias medidas do governo Temer, começando pela do teto de gastos, pois defende um limite que não atinja a educação, a saúde e os investimentos.

Ao falar para empresários na Confederação Nacional da Indústria, Ciro foi vaiado ao pregar a substituição da recente reforma trabalhista por outra, “protetora do trabalho na relação desigual que o trabalho tem com o capital”. Caso eleito, também desfaria a venda (se essa for confirmada) para a Boeing de 80% da divisão de jatos comerciais da Embraer e retomaria os campos de petróleo vendidos para empresas estrangeiras, pagando “a devida indenização”. O pedetista justifica: “O mercado prefere ser enganado? O mercado não respeita alguém que fala com franqueza? Que anuncia antes de o negócio ser feito? O que eu quero é ser sério com o empreendedor estrangeiro.”

Na entrevista que deu ao Jornal Nacional em 27 de agosto, Ciro afirmou que seu projeto de governo reúne “os interesses de quem produz com os interesses de quem trabalha e elege como grande adversário do conjunto da sociedade brasileira a especulação financeira e o baronato do rentismo”. A cisma mútua entre o pedetista e o mercado financeiro tem sido posta frequentemente à prova. No final de junho, durante um debate com o presidenciável na sede de uma das principais corretoras do mercado financeiro do país, a xp Investimentos, em São Paulo, a economista-chefe Zeina Latif disse que considerava ultrapassada a importância que ele atribui ao Estado na economia. Ciro retrucou, dizendo que não há um gigantismo estatal no país e repetiu sua tese de que metade do orçamento da União é gasto no pagamento de juros da dívida pública. Latif o interrompeu, contestando o dado; para ela, as amortizações da dívida não podem ser consideradas gastos, portanto a conta dele está errada. Em resposta, Ciro afirmou que bastava a Latif ir ao site do Tesouro e olhar. Como a anfitriã insistisse em sua tese, o candidato brincou: “Não se abespinhe.”

A economia parece ser a área para a qual Ciro e os que elaboram seu programa de governo têm dedicado mais atenção. A educação, porém, é a vitrine mais vistosa de Ciro, dado o sucesso de sua administração e de seus aliados na área, no Ceará. Seu reduto eleitoral, Sobral – cidade com cerca de 200 mil habitantes que já foi governada pelo irmão Cid Gomes e hoje tem como prefeito o caçula da família, Ivo Gomes –, registrou a melhor nota do país no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) nos anos iniciais do ensino fundamental da rede pública. O Programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic), nascido ali, foi nacionalizado pelo Ministério da Educação. “O grande modelo de sucesso na educação brasileira nos anos iniciais do ensino fundamental é o Ceará, inspirado no modelo de Sobral”, me disse o ex-ministro da Educação Mendonça Filho, vice-presidente do DEM e integrante da ala do partido que trabalhou pela aliança com Geraldo Alckmin.

 

Parte dos colaboradores de seu programa de governo foi recrutada por Ciro nas visitas recentes que fez a universidades. É o caso do professor de filosofia Gustavo Castañon, o auxiliar que o municiou com informações sobre Marco Antonio Villa antes da sabatina na Jovem Pan. O candidato o conheceu há dois anos, quando fez uma palestra na Universidade Federal de Juiz de Fora. “É o cara que melhor me interpreta, e ele tem sacadas geniais, uma das coisas mais impressionantes que já vi na vida”, disse Ciro a respeito de Castañon, pós-doutor em filosofia da ciência pela Universidade de Durham, na Inglaterra. Militante do PDT, o professor de 46 anos considera uma novidade para esse partido de base sindical a candidatura ter sido gestada no ambiente acadêmico, onde, segundo ele, ganha cada vez mais força.

Quando perguntei a Ciro se havia mulheres na equipe encarregada do seu programa de governo, ele citou duas: a professora Izolda Cela, vice-governadora do Ceará e ex-secretária de Educação do estado, e a médica Anamaria Cavalcante e Silva, ex-secretária de Saúde em gestões de Ciro e aliados. Mas o candidato diz que, se for eleito, planeja nomear mulheres para metade dos ministérios. “Como já fiz como prefeito e como governador”, ele tem repetido. Na verdade, ao assumir o governo do Ceará em 1991 (ele ficaria no cargo até 1994), Ciro nomeou para o primeiro escalão, que dispunha de dezoito cargos, apenas duas mulheres (11% do total). Na Prefeitura de Fortaleza – em que ficou apenas um ano e três meses, entre 1989 e 1990 –, as mulheres ocuparam um terço das nove secretarias.

Orador cheio de talento e verve, Ciro costuma ganhar plateias com sua lábia. Não raro, porém, ao despejar dados em cascata, cai em imprecisões ou comete erros factuais. Se por um lado sua retórica produz certo encantamento no interlocutor, também chama atenção pelo uso que ele faz de termos extravagantes ou bacharelescos, como “mirabolância”, “disparatoso”, “infenso”, “jejuno” ou “estipendia”.

 

“Um irmão que ganhei na vida.” Ciro Gomes refere-se assim ao presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, cobrindo-o de afagos sempre que possível. Lupi, em troca, se derrama em loas a Ciro e ao Ceará: “É uma ilha de prosperidade e boa gestão no Brasil.” Diz que o aliado é o único no país com coragem para enfrentar o sistema financeiro e agradece por ele ter aceitado “sair do seu sossego” para concorrer pela terceira vez à Presidência.

Aos 61 anos, Lupi é um homem corpulento e agitado, que volta e meia ajeita o cabelo e a barba com um pente oval de dedo, desses de plástico, que carrega no bolso da calça. Gaba-se de ter sido o mais longevo ministro do Trabalho desde a redemocratização – ocupou o cargo por cinco anos, de 2007 a 2011, nos governos Lula e Dilma. Caiu quando assessores seus foram acusados de cobrar propina de ONGs em troca de contratos com o governo. Lupi sempre negou envolvimento no caso, mas não resistiu à pressão quando se descobriu que ele acumulara por quase cinco anos, ilegalmente, dois cargos públicos em estados diferentes. O dirigente do PDT também é réu num processo por improbidade administrativa, acusado de ter usado, enquanto era ministro do Trabalho, um avião fretado por uma ONG que tinha convênio com o ministério. Na entrevista ao Jornal Nacional, Ciro negou que Lupi fosse réu, e o apresentador William Bonner insistiu que era. Mais tarde, o candidato disse que não considera réu quem responde a processo na área cível, somente na área criminal.

Lupi foi tesoureiro e vice-presidente do PDT antes de assumir o comando do partido em 2004, depois da morte de Leonel Brizola, de quem até hoje é devoto. Não abandonou mais a presidência da legenda, para onde tentou levar Ciro em 2006, sem sucesso. Quando o colega deixou, desgostoso, o PSB e rumou em 2013 para o pequeno e amorfo Pros, Lupi voltou à carga. A conversa definitiva foi em 2015, e o presidente do PDT lembra que evocou o combate a um adversário comum aos dois – os bancos brasileiros – para convencer Ciro. “Eu disse que a gente precisava se unir para enfrentar o sistema financeiro e, como ele ainda hesitava, provoquei: ‘Eu não conhecia nenhum cearense frouxo, você vai ser o primeiro.’ Ele deu um pulo: ‘Êpa, não é assim não, rapaz’”, me contou Lupi, em seu gabinete na sede nacional do PDT em Brasília. Ciro nega que esse diálogo tenha ocorrido – foi só um “chiste de Lupi”, interpretou. De qualquer modo, em setembro de 2015, Ciro e seu grupo político se filiaram ao PDT.

No QG do partido, as paredes são forradas de imagens de Brizola, de João Goulart e de Getúlio Vargas, o pai do trabalhismo brasileiro. Uma foto de Brizola identifica o banheiro masculino do auditório, enquanto uma imagem de Neusa Goulart Brizola, mulher do político e irmã de Jango, o feminino. Foi na sede do PDT que ocorreu, em 20 de julho, a homologação de Ciro como candidato à Presidência da República. Em seu discurso, ele evocou Brizola, chamando-o de “mestre”, de “velho e querido amigo” – uma mudança e tanto na sua visão do líder gaúcho, desde que declarou em seu livro No País dos Conflitos (1994) que Brizola representava “a morte de um modelo político” e “devia ter poupado a sua biografia” do constrangimento da eleição presidencial de 1994, quando ficou em quinto lugar, com menos de 4% dos votos.

Lupi minimiza rusgas passadas. Diz que vê semelhanças entre Brizola e Ciro. “Hoje, o Ciro é uma unanimidade no partido. Acho que ele é muito parecido com o Brizola, tem uma personalidade muito forte. E eu sempre avaliei que o Brasil precisa disso. Não dá para ser água com açúcar”, afirmou. No PDT, parece estar sedimentada a tese de que o Ciro bom é o Ciro “pistola”, com os nervos à flor da pele. “Se ele tivesse o jeito Alckmin de ser, não seria o Ciro”, observou o deputado federal e líder do PDT na Câmara, André Figueiredo.

Como um dos principais articuladores políticos da campanha de Ciro, Lupi esteve nas reuniões com os partidos do centrão e, até a aliança fazer água, a defendia com fervor. “Não podemos discriminar ninguém. Não é por que o cara pensa algumas coisas diferentes que ele não é aceitável. O projeto é maior que o candidato e que os partidos”, defendeu o presidente do PDT quando nos encontramos em junho. Um mês depois, na convenção do partido, quando o centrão já anunciara apoio a Alckmin, voltei a tratar do assunto. “Desde o começo achei muito estranho esse movimento do centrão. Acho que só queriam jogar, para impedir que o PT viesse para a gente. Nada acontece por acaso. Não era para vir. Agora a gente vai poder ter um discurso mais limpo e mais claro”, disse Lupi.

A homogeneidade celebrada pelo presidente do PDT voltou a ser trincada quando o partido definiu Kátia Abreu como a candidata a vice. Ex-presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e ex-ministra da Agricultura do segundo governo de Dilma Rousseff – de quem se tornou grande amiga –, Abreu tem ideias diferentes de Ciro em questões relevantes, como a reforma trabalhista (ele é contra a patrocinada pelo governo Temer, ela é mais complacente) e a liberação do porte de armas. “Um complementa o outro, não temos que pensar igual. Não tenho que sucumbir às ideias do Ciro nem ele às minhas. Acho que essa divergência de algumas ideias faz muito bem ao país”, me disse Kátia Abreu por telefone. “Com Dilma, por exemplo, aderi ao PT, mas larguei minhas ideias liberais? Ou será que as minhas se sobrepuseram, pela minha experiência, pelo meu trabalho, por ela ver que eu não tinha preconceito?” Na entrevista ao Jornal Nacional, Ciro ecoou a tese: “A Kátia Abreu vem para cá não porque é igual a mim, mas porque é diferente.”

A política nascida em Goiás e radicada em Tocantins comentou que os rastreamentos com eleitores feitos pela equipe de campanha lhe animaram. “A pesquisa qualitativa a meu respeito foi tão positiva, o Ciro ficou tão contente. ‘Mulher guerreira’, ‘trabalhadora’, ‘o agronegócio é que sustenta o país’, ‘vai dar contribuição ao governo’, ‘ela entende do assunto’, ‘foi ministra’…”, contou. Kátia Abreu disse que o temperamento do colega de chapa é mal interpretado. “Ele tem autoridade moral. Eu sou muito parecida com ele. Ele não é briguento, é brigão. O briguento é aquele que quer amolar. O Ciro é brigão por suas convicções.”

 

Tudo seria mais fácil para Ciro se o PT o tivesse apoiado. O petista Camilo Santana, governador do Ceará e candidato à reeleição, defendeu essa ideia. Eleito em 2014 com o apoio de Ciro e Cid Gomes, ele esperava que seu partido retribuísse agora o gesto. “Ciro é o nome que mais aglutina, o PT tinha que ter a serenidade de debater isso. O grande erro da esquerda é essa divisão, corre-se o risco de entregar o país a um candidato de direita”, disse Santana, em seu gabinete no Palácio da Abolição, um prédio modernista projetado por Sergio Bernardes com paisagismo de Burle Marx.

Apoiador de primeira hora de uma chapa formada por Ciro e Fernando Haddad como candidato a vice-presidente, Santana integra, com outras lideranças do Nordeste, uma ala do PT que defendeu ceder a cabeça de chapa a um partido aliado – dado o desgaste petista nos últimos anos. “Acho que o PT precisa fazer uma autocrítica e reavaliar algumas condutas. O partido perdeu um pouco a relação com as bases, precisa resgatar suas origens, se reinventar”, ponderou. Mas o grupo não teve força para fazer a ideia prosperar.

Ciro argumenta que sempre deu apoio a Lula e ao PT, exceto quando ele próprio esteve no páreo, e esperava ser reconhecido por isso dessa vez – o que não ocorreu. No livro A Verdade Vencerá: O Povo Sabe Por Que Me Condenam, que traz uma longa entrevista de Lula, feita antes de ele ser preso, o líder petista afirma: “Acho que o Ciro precisaria aprender a conquistar o PT. Porque ninguém será candidato pela esquerda sem o apoio do PT. Ofender o PT e ofender o Lula é uma desnecessidade. (…) É uma pena, porque eu gosto do Ciro. Acho que ele é uma figura inteligente. Inteligente até certo ponto, porque, se fosse inteligente mesmo, estaria defendendo o PT agora, se acredita mesmo que não vou ser candidato.”

Li para Ciro o comentário de Lula. O pedetista engatou uma resposta longa. Relembrou seu histórico de apoio ao PT, enumerou os revezes do partido – “o Palocci está preso? É réu confesso? Foi do PT a vida inteira, comandou a economia do Brasil com Lula e a Casa Civil com Dilma. O que eu, Ciro Gomes, tenho com isso?” – e disse que o PT mais atacou do que foi atacado – “uma coleção de ataques a mim, rasteiros. Então o que eu resolvi fazer? O PT cuida da vida dele e eu cuido da minha”.

Na prática, a estratégia de Ciro em relação a Lula tem sido a de modular o tom conforme a audiência. Num mesmo dia em março, o pedetista criticou o ex-presidente em uma entrevista a uma rádio de São Paulo e exaltou os feitos dele em pronunciamentos durante um giro pelo sertão do Ceará, um dos feudos lulistas no Nordeste. Depois que, no jogo das alianças, perdeu para Lula, passou a atirar farpas no PT com mais frequência e intensidade. Quando repórteres lhe perguntaram quem apoiaria num eventual segundo turno entre Bolsonaro e o PT, disparou essa resposta dramática: “Pode morrer?”

Um grupo de parlamentares visitou Lula na prisão em Curitiba no final de maio (Ciro tentou visitá-lo, mas não teve autorização da Justiça). Na reunião com o ex-presidente, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), que estava na comitiva,  introduziu o tema de uma eventual união das esquerdas no primeiro turno. “Eu disse: ‘Presidente, precisamos pensar num caminho mais amplo, numa alternativa.’ Não mencionei o nome de Ciro. Ele me interrompeu, respondendo: ‘Mas você acha que o Ciro tem condições?’ Ele tem capacidade política, eu disse. E Lula re-bateu: ‘Ele é um quadro, mas não é um líder’”, me contou Silva durante uma conversa em São Paulo. “Então ele passou a reclamar da postura de Ciro em relação ao PT. O PT é filho de Lula. Às vezes dói mais quando batem em seu filho do que quando batem em você”, comparou.

O PT, contudo, mantém as pontes erguidas, caso Ciro, e não seu candidato, chegue ao segundo turno. “Não sou a favor de hostilizar o Ciro. Ele não apoiou o golpe e, embora tenha contradições, não é nosso inimigo. As coisas que ele fala são reais. Ele de fato nos apoiou, fez parte do governo do Lula. No episódio do mensalão, foi muito corajoso. Podemos fazer críticas pontuais, como à sua política de alianças em zigue-zague, mas não tratá-lo da mesma maneira que os que apoiaram o golpe, que são muitos”, me disse Rui Falcão, ex-presidente do PT e integrante do diretório nacional do partido. O próprio Haddad, em entrevista recente, foi na mesma linha. “Somos amigos do Ciro, vamos estar juntos no segundo turno pra vencer o governo do PSDB e do Temer. Nós e o Ciro estamos do mesmo lado.”

 

Camilo Santana é favorito à reeleição ao governo do Ceará. Se a gestão fiscal e a educação são as suas vitrines, a segurança pública é o calcanhar de Aquiles, em razão da explosão nos índices de homicídios (em 2017 foram 5 134, aumento de 50% em relação a 2016), resultado principalmente da guerra entre facções criminosas no estado. O petista costurou uma superaliança com dezesseis partidos, da esquerda à direita. Embora o MDB não tenha entrado na coalizão, o senador Eunício Oliveira, presidente do Senado e desafeto de Ciro Gomes, que concorre à reeleição, é apoiado por Santana e apoia o petista.

Para o governador, o interesse do estado justifica a reaproximação com Eunício, e essa relação não vai atrapalhar o discurso anti-MDB de Ciro. O presidenciável do PDT tem repetido que, embora respeite o acordo no Ceará, não subirá em palanque com Eunício nem se deixará fotografar ao lado do senador. Observei a Ciro que o governador, afinal, integrava o seu grupo político. “São meus aliados, não são do grupo político. O Camilo é de outro partido. Olha o que o PT faz comigo no plano nacional. Quem inventou o Eunício lá no Ceará foi o PT”, impacientou-se.

Ciro já acusou Eunício de corrupção diversas vezes e chegou a chamá-lo de “pinotralha”, um neologismo que mistura Pinóquio com irmão Metralha. O senador, por sua vez, é a pessoa que mais processos move contra Ciro Gomes – partem dele 39 das 99 ações civis que pedem indenização por dano moral ou ações criminais por injúria, calúnia e difamação, conforme levantamento do jornal O Globo nos tribunais de Justiça de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal e em tribunais superiores.

No Distrito Federal, Ciro já foi condenado a indenizar Michel Temer em 30 mil reais por ter chamado o presidente de “capitão do golpe” e dito que ele está “comprometido medularmente com a corrupção”. O pedetista recorre da sentença no Superior Tribunal de Justiça. Jair Bolsonaro, João Doria, Eduardo Cunha, José Serra, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor são outros autores de ações contra Ciro. Eventuais condenações nesse tipo de processo não impedem, de acordo com a Lei da Ficha Limpa, que o pedetista dispute a eleição. Nas contas de O Globo, as indenizações pedidas totalizam 914 700 reais, e Ciro já foi condenado a pagar 315 mil reais – na maioria dos casos, ele está recorrendo.

Ciro recebe um pró-labore de 21 100 reais do PDT para despesas de campanha. Até a homologação da candidatura, parte de sua fonte de renda vinha de palestras (ele costuma cobrar em média 20 mil reais líquidos, como a que deu na XP Investimentos). Ainda assim, numa entrevista recente, disse que pediu dinheiro emprestado a um dos seus irmãos para aliviar o prejuízo causado por uma ação judicial. “Recebi uma herança da minha mãe, mas com parte importante dessa herança eu paguei a dívida com um irmão meu, que me protegeu de um achaque da Justiça de São Paulo, que quis tomar meu apartamento porque eu disse que tinha corrupção no Ministério da Saúde.” Foi uma referência à ação movida pela família do ex-ministro da Saúde Henrique Santillo (no governo Itamar Franco), morto em 2002, que Ciro acusou de corrupção. Ao Tribunal Superior Eleitoral, declarou ter 1,69 milhão de reais em bens. Em 2006, declarara um patrimônio de 426 mil reais (868 mil reais em valores corrigidos).

O presidenciável também recorre à Justiça, processando desafetos, veículos de comunicação e jornalistas. Um processo para investigar denúncias de que os irmãos Gomes contrataram uma firma especializada para espionar um adversário político no Ceará corre sob sigilo na Justiça do estado. Ciro e Cid negam e atribuem o caso a uma armação dos adversários que supostamente seriam espionados.

 

Quando me recebeu em seu apartamento em Fortaleza, Cid Gomes acabara de voltar de Brasília, onde havia jantado na véspera com dezesseis deputados federais do PSB – numa etapa da longa e estéril gincana para atrair o partido para o lado de Ciro. Ex-governador do Ceará por dois mandatos (2007-15) e coordenador da campanha do irmão mais velho, Cid é visto tanto por aliados quanto por adversários como um bom articulador político, mais afável e habilidoso do que Ciro. “Tem as qualidades do irmão sem os defeitos dele”, me disse um deputado federal. Cid é formado em engenharia civil e tem 55 anos. Foi ministro da Educação por menos de três meses em 2015, no segundo governo Dilma – caiu quando, no plenário da Câmara, chamou de achacador o então presidente da Casa, Eduardo Cunha, então aliado da presidente petista. Atualmente, nas ruas das maiores cidades do Ceará, Cid Gomes costuma ser mais reconhecido e festejado do que Ciro. Candidato ao Senado pelo PDT, ele é o líder nas pesquisas para o cargo.

“Hoje, Ciro tem 20% de chances de ser presidente. Está entre os cinco com alguma chance – os outros são Bolsonaro, Marina, Alckmin e o candidato do PT. Se fecharmos a aliança com o PSB, essas chances duplicam”, calculou Cid Gomes, enquanto tragava um cigarro no sofá de sua sala. Era maio – a sonhada aliança naufragaria três meses depois. A admiração incondicional que ele tem pelo irmão mais velho salta aos olhos, como quando relembra que desde cedo seu pai falava na possibilidade de Ciro vir a ser presidente. “Ciro é um talento, perdoe a imodéstia. É um cara muito acima da média. Foi prejudicado pela exploração de uma característica tirada de contexto. Uma pessoa destemperada é tudo o que ele não é. Ele planeja, tem estratégia, humildade, disposição para o diálogo. É um líder”, derramou-se. Na área social do apartamento, seu filho caçula, Pedro, de 3 anos, começou a chorar. Cid foi até lá consolá-lo e voltou com o menino agarrado em seu ombro. “Esse é um Cirinho”, me disse. “Ele tem uma personalidade forte. O outro [Matheus, de 10 anos] é mais calmo.”

Cid Gomes é investigado no caso JBS. Um dos donos da empresa, Wesley Batista, afirmou em sua delação que, a pedido dele, pagou 24,5 milhões de reais em contribuições para campanhas ao governo do Ceará – a de Cid em 2010 e a de Camilo Santana, do PT, que o sucedeu. Em troca, a JBS, que é proprietária de um curtume no estado, receberia mais de 110 milhões de reais em créditos fiscais que estavam atrasados. A ação corre na Justiça Federal do Ceará. Cid nega ter pedido qualquer contribuição a Batista e diz que está processando o empresário. “Eles receberiam os créditos de todo modo, não precisaria de chantagem”, afirmou.

Em 2016, quando discursava em uma festa em Sobral, Cid declarou que estava imune à Lava Jato e, de repente, disparou contra autoridades da operação: “Eu tenho tanta segurança de que não estou nisso que, se estiver, o ministro Teori Zavascki é corno, o Janot é ladrão, e o Moro é um picareta.” “Minha personalidade é parecida com a de Ciro”, disse Cid. “Mas eu procuro me controlar. Ele se expõe mais, é um bandeirante, abriu caminho, e quem abre caminho tem que ser mais duro.”

Foi na entrada do prédio onde Cid mora em Fortaleza que se deu uma das mais ruidosas explosões de Ciro: em 2016, o presidenciável expulsou aos berros manifestantes favoráveis ao impeachment de Dilma que estavam no local. Vídeos com o rompante foram difundidos na internet. Ciro alegou ter ido ao local defender o irmão, que estava sendo ameaçado fisicamente pelo grupo.

Para Cid, tratou-se de um mal-entendido: ele até se aproximou do grupo para dialogar, mas um de seus filhos, à época com 7 anos, viu o protesto da janela do apartamento e gritou para a mãe: “Estão batendo no papai.” De pronto, Ciro foi acionado. “Ele veio desesperado defender o irmão”, contou Cid. “Temos uma relação de amor profundo um pelo outro, isso gera solidariedade e, em alguns casos, irracionalidade.”

Cid acredita que “os brasileiros” tendem a apoiar alguém que reage de maneira mais enérgica “a uma agressividade intencional”. Ainda assim, contou que tem aconselhado Ciro a repetir, como um mantra, que não vai aceitar provocação. “Ele retruca: ‘Mas é certo se resignar quando se é provocado?’ Temos procurado fazê-lo ver que há um meio-termo, que é denunciar a provocação com o compromisso de não reagir.” Perguntei a quem cabe a missão de dar tais conselhos. “Muitas vezes o pessoal do entorno dele tem receio de falar, então eu sou escalado.”

 

Um dos raros oposicionistas que restaram no Ceará é o deputado estadual Heitor Férrer (Solidariedade), que iniciou sua militância no PDT e, ainda no partido, fiscalizou na Assembleia Legislativa os governos de Cid Gomes. Denunciou irregularidades, como o famoso “voo da sogra”, quando o governador fretou um jato para uma viagem oficial à Europa, no qual pegaram carona a sogra de Cid e auxiliares dele. Quando os irmãos Gomes – ou Ferreira Gomes, como são conhecidos no Ceará – se mudaram para o PDT em 2015, Ferrer sentiu-se obrigado a deixar a sigla. Foi para o PSB, mas logo a direção do partido resolveu aderir à base governista. O deputado seguiu então para o Solidariedade.

“Quem está no poder quer se perpetuar, quem não está quer chegar. Eles chegaram pelas mãos do Tasso Jereissati, e hoje agem, como todos os que estão no poder, na cooptação das lideranças e dos partidos. Prestigiam o núcleo de amizade deles”, afirmou Férrer. O deputado ironizou a postura de Ciro: “Ele fala mal do MDB fora do Ceará, diz que são cafajestes. Mas tem um clone dele que aqui no estado é emedebista de quatro costados.” Férrer observou que os Gomes “não têm origem de riqueza” e “são pessoas de família simples”. “O que eles fazem é dormir, acordar, almoçar, tomar banho e jantar política. Vivem política 24 horas por dia. Alguns entendem como virtude, outros como defeito”, analisou.

Tentei ouvir Tasso, mas o senador tucano não quis dar entrevista sobre o ex-aliado, com quem rompeu em 2010, ao ser derrotado na campanha para o Senado – Ciro e Cid apoiaram a chapa formada com o emedebista Eunício Oliveira e o petista José Pimentel. “Na minha vida política, desde 1986, nunca estive tão só”, declarou Tasso recentemente. No passado, Ciro o classificou como o aliado que tinha “maior ascendência moral” sobre ele. Hoje afirma que o problema “é que Tasso vem fazendo opções na política nacional” das quais discorda, “desde sempre”. “Nunca brigamos, nunca tivemos uma conversa pra romper, ele apenas chocou-se com o Cid, e evidentemente eu não tinha outra saída a não ser ficar com o Cid”, ressaltou.

Ciro argumenta que seu grupo político não tem poder econômico, por isso não cabe aos Ferreira Gomes os rótulos de oligarcas e coronéis, usados com  frequência por adversários políticos. “Você acha que eu não tinha competência pra conquistar um canal de televisão? Nunca fiz porque considero pouco ético. Quantas empresas eu tenho? Que latifúndio é da minha posse?”, perguntou. Acrescentou que vê preconceito nesses rótulos. “O Alckmin é governador de São Paulo há 24 anos [na verdade o tucano ocupou o cargo por doze anos e meio] e eu que sou o coronel? Coronel por quê? Somente porque sou do Nordeste? É um insulto.”

 

Todos os irmãos Gomes estão ligados à vida pública ou ao governo. Lúcio, de 59 anos, engenheiro civil como Cid, é secretário de Infraestrutura do governo do Ceará. Ivo, de 50 anos, bacharel em direito e procurador municipal licenciado de Fortaleza, é prefeito de Sobral. Faltava entrar para a política apenas a única mulher, a médica dermatologista Lia Gomes, de 52 anos, a quarta dos cinco filhos de José Euclides e Maria José. Contrariando a família, que preferia vê-la longe da política, ela disputa nas próximas eleições uma vaga de deputada estadual pelo PDT. “Meus irmãos dificultaram a minha entrada na política. Eles me preservam muito dos embates políticos, talvez pelo fato de ser a única mulher, de ser mais nova”, ela me contou. “Não é muito legal para eles ficarem ouvindo críticas feitas a mim. Na verdade, estou entrando na política contra a vontade deles, eles não queriam de jeito nenhum.” Lia Gomes morou 22 anos em São Paulo e há quatro voltou para o Ceará. Para disputar a eleição, licenciou-se do cargo de assessora especial da Prefeitura de Fortaleza. Entretanto, corre o risco de ficar inelegível por não ter feito o recadastramento biométrico exigido pela Justiça Eleitoral – a questão deve ser decidida nos tribunais eleitorais.

Sua principal bandeira de campanha, disse, será a defesa dos direitos das mulheres. “Estamos muito atrasados, até em relação a países conservadores, na participação da mulher na política, na diferença de salário entre homem e mulher, na questão da violência.” Perguntei a ela se considera o irmão Ciro machista. “Não é mais do que a média do povo brasileiro. A cultura do machismo é muito arraigada no país. Eu, que sou altamente feminista, de vez em quando me pego fazendo umas piadas.”

Assim como os irmãos, ela refuta que sua família seja uma oligarquia. “Meus únicos bens são duas casas que meus pais me deixaram de herança. Ciro tem um patrimônio compatível com os cargos que exerceu, Cid idem. Não existe um benefício econômico para completar um conceito de oligarquia”, disse. “Existem famílias que são 100% de médicos, umas que são 100% de atores, outras 100% de cantores. Aqui em casa a gente só fala de política. Sou viciada em política, porque a política é uma ferramenta sensacional de transformação. Política é apaixonante.”

Ciro concorda com a irmã, tanto que, quando decidiu, no começo desta década, se afastar da vida política, não conseguiu e acabou voltando. Aproveitou o sabático para escrever um livro. “Um livro de acadêmico”, descreveu. A obra, cujo título provisório é Brasil, Última Chamada, prega uma “reespiritualização da humanidade” e propõe que as pessoas sejam ensinadas, desde a pré-escola, a viver e a agir num mundo sustentável, passando a consumir as coisas de maneira crítica. Em vez de perguntar apenas pelo preço de um produto, o consumidor faria outras duas indagações: quem se aproveita economicamente de seu ato de consumo e se esse ato é “amistoso” com relação à natureza. Segundo Ciro, o livro está sendo negociado com editoras, mas só deverá ser publicado depois da eleição. “Senão vão pensar coisas fora de contexto para jogar contra mim na eleição”, justificou.

 

Quando a van que transportava Ciro Gomes chegou à Câmara Municipal de Caririaçu, no sertão cearense, a banda municipal já estava perfilada na calçada em frente. Fogos de artifício espocaram. Com ar solene e os braços bem rentes ao corpo, o candidato postou-se ao lado de autoridades locais e ouviu os músicos executarem o Hino Nacional – que ele cantou a plenos pulmões. Depois, foi a vez do hino de Caririaçu.

“Parabéns, maestro”, disse Ciro ao regente da banda, um rapazote recém-saído da adolescência, antes de se dirigir à entrada da Câmara. O plenário miúdo, enfeitado com balões infláveis coloridos, estava tomado. Ao entrar no local, Ciro foi erguido pelas pernas por dois homens. “Peraí, rapaz, me coloca no chão, assim eu vou cair”, reclamou o político. Mas não atenderam ao pedido. Como um boneco de pano desconjuntado, seu corpanzil de 1,82 metro e 100 quilos foi conduzido à mesa diretora.

Seguiram-se os discursos. Estrela da festa naquela tarde de março, Ciro falou por último. “O que é que aconteceu com o Brasil para chegarmos aonde chegamos?”, perguntou à plateia. “O que é que explica que um país como o nosso, religioso, cristão, tenha contado 64 mil assassinatos no ano passado?” Nesse momento, a sua voz, que já falhava, embargou de vez. O candidato interrompeu o discurso e, ao som de fortes aplausos, conteve o choro com um gole d’água. Retomou a fala, num tom mais alto e mais emotivo. “Sessenta e quatro mil garotos, todos jovens, negros, caboclos, pobres, assassinados na esteira da violência impune, da droga, ante a impotência das autoridades, da lei.” Ao final do evento, o locutor anunciou: “Ele vai sair como entrou, nos braços do povo.” Os homens que o haviam erguido na entrada se aproximaram, mas Ciro recusou ser carregado.

Caririaçu foi apenas a primeira parada de um giro dos pedetistas pela região do Cariri com o objetivo de lançar a campanha de Ciro e recrutar filiados no Ceará, principal reduto eleitoral do candidato e estado em que o partido é hegemônico – controla 52 prefeituras, inclusive a de Fortaleza, e domina a Assembleia Legislativa.

Juazeiro do Norte foi a segunda parada. Ciro foi até a colina do Horto, onde está a estátua de 27 metros do padre Cícero Romão Batista, bateu fotos e disse “amém” quando um fiel lhe dirigiu uma bênção. À noite, esteve no Crato para um encontro no clube local. O evento foi animado pelos dois jingles da campanha. Um deles, adaptação do hit Que Tiro Foi Esse, da funkeira Jojo Todynho, pergunta: “Que Ciro foi esse?/Cirão da massa/Que Ciro foi esse?…” O outro, uma versão do clássico Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, tem como refrão: “Se correr o bicho pega/se ficar o Ciro Gomes.”

Perguntei a Ciro, um político avesso a sentimentalismos, o que significou o choro em Caririaçu. “Para virar candidato de novo, eu tive de passar por uma profundíssima reflexão interna, para descobrir de novo o sentido dessa luta”, disse. “A política brasileira virou uma coisa muito medíocre, há uma apologia da ignorância, parece um defeito o cara estudar e se aprofundar nos assuntos. Isso me incomodou bastante por muito tempo, a ponto de eu pensar: por que é que eu ainda vou continuar nisso? Depois descobri que o sentido da minha vida é isso, que a minha indignação não deve ser amaciada e eu devo fazer o meu último canto.”

O brizolista de cátedra

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