despedida

O cabeleireiro do Cascão

Um trabalho digital de ponta

Gonçalo Junior
O arte-finalista Sergio Graciano, que se dedicou à Turma da Mônica por 51 anos, criou os cabelos do personagem malcheiroso
O arte-finalista Sergio Graciano, que se dedicou à Turma da Mônica por 51 anos, criou os cabelos do personagem malcheiroso ILUSTRAÇÃO: MAURICIO DE SOUSA_2019

A vida parecia sem rumo para o pedreiro Sergio Tiburcio Graciano, de 29 anos, até seu caminho atravessar o do jovem Mauricio de Sousa, que sonhava em ganhar o mundo desenhando histórias em quadrinhos. Era 1965 e nem gibi da Mônica ou do Cebolinha ele havia lançado, só tiras para jornais. O encontro se deu quando uma secretária da Folha de S.Paulo sugeriu ao quadrinista que empregasse Graciano. O pedreiro executara um serviço para a moça que, impressionada com a inteligência dele, resolveu auxiliá-lo a conseguir uma ocupação mais estável.

Qualquer coisa servia, disse a secretária ao desenhista, cujo estúdio funcionava no mesmo prédio do jornal. “Primeiro, Graciano nos ajudou no controle dos clichês, as chapas de zinco em que gravávamos nossas tirinhas antes da impressão”, relembra Mauricio de Sousa. Por ser muito curioso, o pedreiro observava o trabalho do quadrinista e de seus poucos auxiliares sempre que encontrava uma brecha. “Certo dia, resolveu se arriscar no acabamento – a finalização em tinta nanquim dos desenhos feitos a lápis – e se saiu bem. Virou arte-finalista”, prossegue Mauricio.

Até então, a única experiência de Graciano no ramo era ter rabiscado as casas simples que construíra nos tempos de pedreiro. Paciente, o novo patrão lhe transmitiu os principais macetes do ofício. Ensinou, por exemplo, que ele devia prestar atenção na luz – analisar as ilustrações e descobrir de onde incidia a luminosidade para fazer as sombras corretamente. Foi de Graciano a arte-final da primeira história publicada na revista Mônica e a sua Turma, que a editora Abril lançou em maio de 1970. A aventura se chamava Mônica É Daltônica?

 

Já com Cascão, o arte-finalista manteve um relacionamento mais estreito, quase de tutor – ou de tio, como preferia dizer. Inspirado num amigo avesso a banho que Mauricio fizera na infância, o personagem nasceu em 1961. Graciano se encarregou das histórias dele por alguns anos, a partir de 1966, e teve a ideia de borrar os cabelos do garoto malcheiroso após contorná-los com nanquim. Mauricio se recorda do episódio em detalhes: “Originalmente, os cabelos do Cascão eram meio espetadinhos. O pessoal do estúdio tentava desenhar os fios, mas nunca conseguia traçá-los da mesma maneira, o que me deixava insatisfeito. Uma vez, o Graciano errou o contorno e passou o dedo sobre o nanquim na esperança de corrigir o deslize. Suas digitais acabaram borrando os cabelinhos.”

O funcionário gostou do que viu e, em vez de usar guache branco para consertar tudo, mostrou o “estrago” a Mauricio. “Aquilo me pareceu uma boa saída. Se todos os arte-finalistas adotassem a ‘técnica do borrão’, unificaríamos a aparência do personagem.” Desde então, Graciano se proclamava responsável pelo primeiro trabalho digital de ponta no estúdio. “De ponta de dedo”, arremata Mauricio, com graça.

Em 2016, o arte-finalista se aposentou. Tinha 80 anos de idade e 51 de empresa, o que lhe rendeu o troféu Bidu de Cristal. A Mauricio de Sousa Produções o oferece a todos que conseguem permanecer cinco décadas na casa. Diferentemente dos colegas mais jovens, Graciano nunca se valeu da informática. Preferia trabalhar à moda antiga, sem computador. Até hoje, aliás, os cabelos do Cascão são feitos a mão, justamente pelos profissionais mais velhos.

 

Natural de Cambuquira, no interior de Minas Gerais, Graciano migrou para São Paulo ainda bebê, quando o pai, também pedreiro, decidiu tentar a sorte na metrópole. A mãe, lavadeira, ajudava como podia no sustento dos seis filhos. Todos se fixaram na periferia até o chefe da família se empregar como caseiro no Jardim Paulista, um dos bairros mais aristocráticos da cidade.

Depois de concluir o ensino técnico, Graciano se dedicou a uma série de trabalhos que o pai lhe arranjou: limpador de fossa, coveiro, descarregador de sacos de cimento em ferrovias e, finalmente, pedreiro. Quando foi contratado por Mauricio de Sousa, já tinha um casal de filhos. O primogênito, Reginaldo Graciano, de 61 anos, também atuou no estúdio, onde desempenhou várias funções administrativas. Ele diz que a relação entre o arte-finalista e o quadrinista ultrapassava a de patrão e empregado. “Tornaram-se amigos. Um sabia exatamente o que o outro pensava.”

A vida de Graciano, segundo o filho, acabou por orbitar em torno dos gibis. “Meu pai gostava de levar trabalho para casa. Pesquisava, fazia experiências, estudava. Como havia conquistado um status na profissão e o respeito dos colegas, tinha obsessão em se aprimorar.”

O arte-finalista enviuvou da primeira mulher há duas décadas e ficou sozinho por dezesseis anos. Em 2015, se casou de novo, agora com Marinelia Sena Nogueira, camareira dos espetáculos da Turma da Mônica. Parou de desenhar depois da aposentadoria, mas aderiu à pintura. No dia 8 de fevereiro, teve um mal súbito enquanto lavava as mãos para almoçar. Morreu de embolia pulmonar antes de chegar ao hospital.

A última tarefa que realizou no estúdio foi redesenhar as páginas que havia finalizado no início da carreira e cujos originais se perderam. Mesmo com 80 anos, seu traço continuava firme.

Gonçalo Junior

Jornalista, publicou A Guerra dos Gibis, pela Companhia das Letras, e O Deus da Sacanagem: A Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro, pela Noir.

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