anais do crime

O camaleão

As muitas vidas de Frédéric Bourdin

David Grann 
“Eu podia ser um ótimo ator, como Arnold Schwarzenegger ou Sylvester Stallone”, disse Bourdin. “Mas não tenho vontade de representar outras pessoas. Quero ser outras pessoas”
“Eu podia ser um ótimo ator, como Arnold Schwarzenegger ou Sylvester Stallone”, disse Bourdin. “Mas não tenho vontade de representar outras pessoas. Quero ser outras pessoas” FOTO: FRANÇOIS-MARIE BANIER © LICENCIADO POR AUTVIS_BRASIL_2009_ PUBLICADO ORIGINALMENTE EM THE NEW YORKER

No dia 3 de maio de 2005, na França, um homem ligou para uma linha direta de denúncia sobre crianças desaparecidas ou maltratadas. Num tom frenético, explicou que era um turista de passagem por Orthez e que, na estação de trem, encontrara um rapaz de uns 15 anos que estava sozinho e parecia aterrorizado. Outra linha direta para emergências recebeu uma ligação parecida, e finalmente o rapaz chegou, sozinho, a uma repartição de assistência a menores.

Magro e baixo, com a pele muito branca e as mãos trêmulas, usava um cachecol que lhe escondia boa parte do rosto e um boné com a aba sobre os olhos. Não tinha dinheiro, e trazia um celular e uma carteira de identidade, segundo a qual se chamava Francisco Hernandez Fernandez e nascera no dia 13 de dezembro de 1989, em Cáceres, na Espanha. No início mal falava, mas depois revelou que seus pais e seu irmão tinham morrido num acidente de carro. Passara várias semanas em coma e, ao se recuperar, fora mandado para a casa de um tio, que o submetia a maus-tratos. Finalmente, fugira para a França, onde sua mãe tinha sido criada.

As autoridades francesas internaram Francisco no Instituto Saint Vincent de Paul, na cidade de Pau. Albergue público que então abrigava 35 crianças, o instituto fica num velho casarão de pedra. Deram um quarto individual para Francisco, que pôde tomar banho e mudar de roupa a sós: seu corpo e sua cabeça, explicou ele, estavam cobertos de queimaduras e cicatrizes do acidente de carro. O rapaz foi matriculado no Collège Jean Monnet, uma escola de 400 alunos, a maioria proveniente de bairros pobres, com fama de violência. Embora o uso de chapéu fosse proibido aos alunos, a diretora Claire Chadourne abriu uma exceção para Francisco, que dizia temer a zombaria dos colegas por causa das cicatrizes. Como muitos funcionários e professores da escola que tiveram contato com Francisco, Claire Chadourne, com mais de trinta anos de experiência de educadora, sentiu um forte impulso de protegê-lo. Com suas calças frouxas e o celular pendente de um cordão no pescoço, ele tinha a aparência de um adolescente típico, mas profundamente traumatizado. Nunca trocava de roupa na frente dos outros nas aulas de ginástica, e jamais aceitou se submeter a um exame médico. Falava baixo, com a cabeça curvada, e se encolhia quando alguém tentava tocá-lo.

Aos poucos, Francisco começou a se aproximar dos outros rapazes nos intervalos e a participar mais ativamente das aulas. Como entrara na escola com o ano letivo avançado, a professora de literatura pediu que outro aluno, Rafael de Almeida, ajudasse Francisco com as matérias do curso. Em pouco tempo, era Francisco quem ajudava Rafael. “Esse cara aprende com uma velocidade incrível”, lembra-se de ter pensado Rafael.

Um dia, depois das aulas, Rafael perguntou a Francisco se ele não queria ir patinar no gelo, e a partir de então os dois ficaram amigos, e jogavam videogame juntos. Rafael às vezes implicava com seu irmão mais novo, e Francisco, lembrando que costumava chatear o próprio irmão, aconselhou: “Você devia tratar bem o seu irmão e ficar sempre perto dele.”

A certa altura, Rafael pegou o celular de Francisco emprestado e estranhou que a lista de telefones e os registros de chamadas eram protegidos por senhas. Quando Rafael devolveu o telefone, Francisco mostrou-lhe na tela a foto de um menino muito parecido com ele. “É o meu irmão”, disse.

 

Francisco logo se transformou num dos meninos mais populares da escola, impressionando os colegas com seus conhecimentos de música e de gírias pouco comuns. Convivia sem dificuldade com vários grupos rivais entre si. “Os alunos adoravam Francisco”, lembra um professor. “Ele tinha uma aura, um carisma.”

Durante os testes para um espetáculo no colégio, a professora de música perguntou a Francisco se ele gostaria de se apresentar. Ele entregou a ela um CD, caminhou até a ponta do salão e enviesou a aba do boné num ângulo desafiador, esperando o começo da música. Assim que Unbreakable, a canção de Michael Jackson, começou a tocar, Francisco pôs-se a dançar como o astro pop, retorcendo braços e pernas, e movendo os lábios em perfeito sincronismo com a letra: You can’t believe it, you can’t conceive it / And you can’t touch me, ‘cause I’m untouchable. Todos ficaram boquiabertos. “Não é que ele dançasse parecido com Michael Jackson”, relembrou mais tarde a professora. “Ele virou Michael Jackson.”

Mais tarde, numa aula de informática, Francisco mostrou a Rafael a imagem de um pequeno réptil de língua comprida.

“O que é isso?”, perguntou Rafael.

“Um camaleão”, respondeu Francisco.

 

No dia 8 de junho, uma funcionária entrou correndo no gabinete da diretora. Tinha assistido na véspera a um programa de televisão sobre um dos mais célebres impostores do mundo: Frédéric Bourdin, um francês de 30 anos que tinha assumido o papel de vários rapazes, um atrás do outro. “Juro por Deus, Bourdin é igualzinho a Francisco Hernandez Fernandez”, disse a funcionária.

Claire Chadourne não acreditou: se tivesse 30 anos, Francisco seria mais velho que vários dos seus professores. Fez uma rápida procura na internet por “Frédéric Bourdin”. Apareceram centenas de notícias falando do “rei dos impostores”, o “mestre da mudança de identidade” que, como Peter Pan, “não queria crescer”. Uma fotografia de Bourdin lembrava muito Francisco – o mesmo queixo proeminente, os mesmos dentes da frente separados. Claire chamou a polícia.

“Tem certeza de que é ele?”, perguntou-lhe o policial ao telefone.

“Não. Mas estou com uma sensação estranha.”

Quando a polícia chegou, Claire pediu que um assistente fosse buscar Francisco na sala de aula. Assim que ele entrou no gabinete da diretora, a polícia o agarrou e o jogou contra a parede. Depois de algemarem Bourdin, os policiais tiraram seu boné. Não havia cicatriz alguma na sua cabeça: na verdade, o que se via era um princípio de calvície. “Quero um advogado”, disse ele, com a voz subitamente mais grave, como a de um homem adulto.

Na delegacia, admitiu ser Frédéric Bourdin e que, nos quinze anos anteriores, tinha inventado dezenas de identidades em mais de quinze países e cinco línguas. Eis alguns dos nomes que usou: Benjamin Kent, Jimmy Morins, Alex Dole, Sladjan Raskovic, Arnaud Orions, Giovanni Petrullo e Michelangelo Martini. Segundo o noticiário, fizera-se passar inclusive por padre e domador de tigres, mas, quase sempre, desempenhava o mesmo papel: o de um menino sofredor, vítima de maus-tratos ou abandono.

Tinha um talento incrível para mudar de aparência – disfarçar os pelos do rosto, variar o peso, assumir outro modo de andar e um gestual diferente. “Posso me transformar em quem eu quiser”, gosta de dizer. Em 2004, quando se passou por um menino francês de 14 anos, na cidade de Grenoble, um médico que o examinou a pedido das autoridades concluiu que era de fato um adolescente. Um capitão de polícia de Pau assinalou: “Quando ele falava espanhol, parecia nascido na Espanha. Quando falava inglês, soava como um nativo da Inglaterra.”

Ao longo dos anos, Bourdin se insinuara em institutos para menores, orfanatos, lares adotivos, escolas secundárias e hospitais infantis. Sua trilha de golpes se estendia, entre outros lugares, a Espanha, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Suíça, Bósnia, Portugal, Áustria, Eslováquia, França, Suécia, Dinamarca e Estados Unidos. Nas palavras do Departamento de Estado americano, trata-se de um homem “de extrema sagacidade”, que se passa por rapaz desesperado a fim de “angariar compaixão”. Um promotor de Justiça francês o definiu como “um incrível ilusionista cuja perversidade só não é maior que a sua inteligência”. E o próprio Bourdin disse: “Sou um manipulador… o que eu faço é manipular.”

Em Pau, as autoridades deram início a um inquérito para determinar por que um homem de 30 anos se fazia passar por um órfão adolescente. Não se depararam com qualquer indício de desvio sexual ou pedofilia, e tampouco encontraram motivação financeira. “Nos meus 22 anos de experiência, nunca vi um caso como esse”, comentou comigo o promotor Eric Maurel. “Geralmente, os vigaristas querem dinheiro. E ele tinha apenas um benefício emocional.”

No antebraço direito de Frédéric, a polícia encontrou uma tatuagem que dizia caméléon nantais – camaleão de Nantes.

 

“Senhor Grann”, disse-me Bourdin, estendendo-me educadamente a mão. Estávamos numa rua do centro de Pau, onde combináramos um encontro meses antes. Exibia uma aparência inconfundivelmente adulta, com uma leve sombra azulada de barba por fazer. Vestia-se de maneira um tanto teatral, usando camisa e calças brancas, paletó quadriculado, sapatos brancos, uma gravata-borboleta de cetim azul e um chapéu extravagante. Só os dentes dianteiros separados ainda evocavam a memória de Francisco Hernandez Fernandez.

Depois de ter sido desmascarado em Pau, Bourdin se mudou para uma aldeia nos Pireneus, a uns 40 quilômetros da cidade. “Queria fugir de tanto interesse”, disse ele. Como acontecera tantas vezes antes, as autoridades não sabiam ao certo como puni-lo. Os psiquiatras afirmavam que era mentalmente são. Nenhum estatuto parecia contemplar os seus delitos. Depois de algum tempo, acabou denunciado pela obtenção e uso de documentos falsos, e foi condenado a uma pena de seis meses com sursis.

Um repórter local, Xavier Sota, contou-me que depois disso Bourdin surgia em Pau a intervalos, cada vez com uma aparência diferente. Às vezes usava bigode ou barba. Outras vezes os cabelos estavam bem curtos; noutras, longos e desgrenhados. Às vezes usava roupas de rapper, e às vezes trajes de executivo. “Era como se estivesse à procura de um novo personagem”, comentou Sota.

Bourdin e eu nos sentamos num banco, perto da estação de trem. Um carro com um casal parou diante de nós. Abriram a janela, olharam para fora e comentaram entre si: “Le Caméléon.

“Fiquei bastante famoso na França”, disse Bourdin. “Famoso demais.”

Enquanto conversávamos, seus grandes olhos castanhos e inquietos me examinavam de cima a baixo, parecendo gravar cada detalhe da minha imagem. Um dos seus interrogadores da polícia me disse que ele era um “gravador humano”. Para minha surpresa, Bourdin sabia onde eu já tinha trabalhado, o meu local de nascimento, o nome da minha mulher, até mesmo que trabalho faziam meu irmão e minha irmã. “Gosto de saber com quem vou conversar”, disse.

Plenamente consciente do quanto era fácil enganar os outros, tinha um medo paranoico de ser feito de trouxa. “Não confio em ninguém”, disse ele. Para um mentiroso profissional, parece estranhamente cioso dos detalhes relativos a sua vida: “Não quero que você me transforme em quem não sou. Minha história já é boa sem qualquer enfeite.”

Perguntei a origem da sua tatuagem. Por que alguém que tentava apagar a sua identidade ostentava aquele rastro? Ele disse: “Vou lhe contar a verdade por trás de todas as minhas mentiras.”

Antes de ter sido Benjamin Kent ou Michelangelo Martini – antes de se transformar no filho de um juiz inglês ou de um diplomata italiano –, ele era Frédéric Pierre Bourdin, filho ilegítimo de Ghislaine Bourdin, que aos 18 anos estava na miséria quando o trouxe ao mundo, num subúrbio de Paris, em 13 de junho de 1974. Nos documentos oficiais, o pai de Frédéric figura como “X”, o que significa que sua identidade é desconhecida. Mas Ghislaine, que vive numa casa modesta no oeste da França, contou-me que X era um imigrante argelino de 25 anos chamado Kaci, que ela conheceu na fábrica de margarina onde ambos trabalhavam. Depois que engravidou, ela descobriu que Kaci era casado. Deixou o emprego e jamais contou a ele que estava esperando um filho seu.

 

Ghislaine criou Frédéric até ele completar 2 anos e meio, quando, a pedido dos pais dela, o serviço de assistência aos menores interveio. Um parente disse sobre Ghislaine: “Ela bebia e saía para dançar à noite. Nem tomava conhecimento do menino.” Ela sustenta que conseguira emprego numa outra fábrica e era competente como mãe, mas o juiz entregou Frédéric à custódia dos pais dela. Anos mais tarde, Ghislaine escreveu uma carta a Frédéric: “Você é meu filho, mas me foi roubado quando tinha 2 anos. Fizeram de tudo para nos separar, e viramos dois estranhos.”

Frédéric diz que sua mãe tinha uma necessidade extrema de atenção, e nas raras ocasiões em que a viu ela sempre fingia alguma doença mortal, fazendo-o sair correndo em busca de ajuda. “Me ver assustado dava prazer a ela”, diz ele. Embora Ghislaine negue isso, reconhece que uma vez tentou se matar e seu filho precisou ir atrás de ajuda.

Quando Frédéric tinha 5 anos, se mudou com os avós para Mouchamps, uma aldeota a sudeste de Nantes. Frédéric – meio argelino e órfão de pai, vestindo roupas doadas pela caridade da igreja – era marginalizado na aldeia, e na escola inventava histórias fabulosas a seu respeito. Disse que seu pai nunca aparecia porque era um “agente secreto inglês”. Um dos seus professores do primário, Yvon Bourgueil, descreve Bourdin como uma criança precoce e cativante, dotada de uma imaginação incomum e de grande talento para o desenho. “Você não conseguia deixar de se ligar a ele”, lembra Bourgueil, que também percebia sinais de desconforto mental na criança. Certa vez, Frédéric contou aos avós que havia sido molestado por um vizinho, embora ninguém na aldeia jamais tenha investigado a acusação. Numa das suas histórias em quadrinhos, Frédéric desenhou-se afogado num rio. Apresentava um comportamento cada vez pior, rebelando-se em sala de aula e roubando os vizinhos. Aos 12 anos, mandaram-no para Les Grézillières, um internato em Nantes para jovens delinquentes.

Lá, Bourdin muitas vezes fingia estar sofrendo de amnésia, perdendo-se de propósito pelas ruas. Em 1990, aos 16 anos, foi obrigado a se transferir para outra instituição, da qual fugiria pouco depois. Viajou de carona até Paris, onde, assustado e com fome, inventou o seu primeiro personagem: abordou um policial, disse que estava perdido e era um jovem inglês chamado Jimmy Sale. “Queria que me mandassem para a Inglaterra, onde sempre imaginei que a vida fosse mais bela”, lembra ele. Quando os policiais descobriram que ele quase não falava inglês, confessou sua farsa e foi devolvido ao internato. Mas tinha criado o que chama de sua “técnica”, e com base nela começou a vagar pela Europa, de orfanato em orfanato, à procura do “abrigo perfeito”.

Em 1991, foi encontrado numa estação de trem de Langres, na França, fingindo-se doente, e foi internado num hospital infantil de Saint-Dizier. Respondendo às perguntas apenas por escrito, afirmou que se chamava Frédéric Cassis – um jogo de palavras com o nome verdadeiro do seu pai, Kaci. O médico que cuidou do seu caso, Jean-Paul Milanese, declarou o seguinte numa carta a um juiz de menores: “Estamos às voltas com um jovem adolescente fugido, mudo, que rompeu com a sua vida anterior.” Numa folha de papel, Bourdin rabiscou o que mais queria: “Uma casa e uma escola. E nada mais.”

Quando descobriram o seu passado, meses mais tarde, Bourdin admitiu sua verdadeira identidade e partiu. “Preferi ir embora a ser expulso”, conta-me. Durante sua carreira de impostor, Bourdin muitas vezes revelou a verdade por iniciativa própria, como se a atenção que provocava fosse tão valiosa quanto a própria farsa.

No dia 13 de junho de 1992, depois de ter se passado por mais de uma dúzia de jovens fictícios, Bourdin completou 18 anos, tornando-se maior de idade. “Eu passara a maior parte da minha vida em albergues e lares adotivos, e de repente me disseram ‘Pronto. Agora você já pode ir embora'”, lembra ele. “Como é que eu podia me transformar numa coisa que eu não era capaz de imaginar?”

Em novembro de 1993, fazendo-se passar por um jovem mudo, estendeu-se no meio de uma rua da cidade francesa de Auch e foi levado pelos bombeiros para um hospital. La Dépêche du Midi, um jornal local, publicou uma reportagem a seu respeito, perguntando: “De onde vem este adolescente mudo?” No dia seguinte, o jornal publicou um novo artigo, com o título de “O adolescente mudo que surgiu do nada ainda não revelou os seus segredos”. Depois de fugir do hospital, Bourdin foi surpreendido tentando uma farsa semelhante nas proximidades, e admitiu quem era. “O mudo de Auch fala quatro línguas”, proclamou La Dépêche du Midi.

À medida que Frédéric Bourdin assumia mais e mais identidades, tentava suprimir a verdadeira. Um dia, o prefeito de Mouchamps recebeu uma ligação da “polícia alemã”, comunicando-lhe que o corpo de Bourdin fora encontrado em Munique. Os membros da família ficaram à espera da chegada de um caixão, o que nunca ocorreu. “Era Frédéric, pregando uma das suas peças cruéis”, diz sua mãe.

 

Na metade dos anos 90, Bourdin tinha uma vasta ficha policial. A Interpol e outras autoridades o procuravam com intensidade cada vez maior, e suas atividades atraíam o interesse dos meios de comunicação. Em 1995, Bourdin foi convidado a participar de um programa de televisão popular na França, chamado Tudo É Possível. Quando subiu ao palco, com ar pálido de pré-adolescente, o apresentador perguntou à plateia: “Como se chama este rapaz? Michael, Jürgen, Kevin ou Pedro? E qual é sua verdadeira idade – 13, 14, 15 anos?” Quando lhe perguntaram qual era sua motivação, Bourdin disse que tudo que queria era amor e uma família. Era a mesma explicação de sempre, e, por causa dela, se transformara no raro caso de um impostor que, além de raiva, despertava também a compaixão das pessoas que lograva. (Sua mãe tem uma interpretação menos caridosa da motivação alegada pelo filho: “Ele só quer justificar aquilo em que se transformou.”)

Os produtores de Tudo É Possível ficaram tão comovidos com Bourdin que lhe ofereceram um emprego na emissora, mas ele logo fugiu. Às vezes, suas farsas eram interpretadas em termos existenciais. Um dos seus admiradores franceses criou um site que celebrava a sua capacidade de mudar de forma, saudando-o como um “ator da vida e um apóstolo da nova filosofia da identidade humana”.

Bourdin me explicou como fazia para se transformar num rapaz. Igual aos impostores que tinha visto em filmes como Prenda-me Se For Capaz, ele tentava transformar seu crime em “arte”. Primeiro, imaginava um jovem que quisesse representar. Em seguida, mapeava aos poucos a biografia do personagem, de sua família aos seus mínimos cacoetes. “O segredo é nunca mentir”, diz Bourdin. “Você corre o risco de se confundir.” Disse que seguia várias máximas, entre elas “Quanto mais simples, melhor” e “Um bom mentiroso usa a verdade”. Sempre que escolhia um nome, preferia algum que despertasse alguma associação profunda na sua memória, como Cassis. “Você nunca pode esquecer o seu nome”, diz ele.

Bourdin seguia a prática dos espiões: eles mudam os detalhes superficiais, mas mantêm o núcleo intocado. Esse método permitia-lhe proteger uma parte da sua identidade, manter-se conectado a um núcleo moral. “Eu posso ser cruel, mas não quero virar um monstro”, diz.

Depois de imaginar um personagem, ele criava a aparência que lhe era mais adequada – escanhoando meticulosamente o rosto, aparando as sobrancelhas, recorrendo a cremes depilatórios. Quase sempre usava calças largas e camisa com mangas compridas ultrapassando os pulsos, para enfatizar sua pequenez. Diante do espelho, se perguntava se os outros veriam o que desejava que vissem. “A pior coisa que você pode fazer é enganar a si mesmo”, disse.

Depois que aperfeiçoava uma identidade, era crucial encontrar algum elemento que o personagem tivesse em comum com ele. “As pessoas sempre me perguntam: ‘Por que você não vai ser ator?'”, contou-me ele. “Acho que eu podia ser um ótimo ator, como Arnold Schwarzenegger ou Sylvester Stallone. Mas não tenho vontade de representar outras pessoas. Quero ser outras pessoas.”

Para facilitar a entrada de seu personagem no mundo real, produzia junto às autoridades locais a ilusão de que ele de fato existia. Como fizera em Orthez, podia ligar para uma linha direta e dizer que tinha visto o personagem numa situação de risco. As autoridades desconfiavam menos de alguém que parecesse muito alterado ao telefone. Se alguém notasse que Bourdin tinha um ar estranhamente maduro, ele nunca objetava. “Os adolescentes sempre tentam parecer mais velhos”, disse ele. “Eu recebia aquilo como um elogio.”

Embora sempre enfatize a sua esperteza, Bourdin reconhece o que todo vigarista sabe: as pessoas não são difíceis de enganar. Sempre têm certas expectativas com o comportamento dos outros, e raramente suspeitam que alguém vá subvertê-las. Apelando para alguma necessidade fundamental – a vaidade, a cobiça, a solidão –, homens como Bourdin conseguem fazer com que suas vítimas suspendam sua descrença. O resultado é que, geralmente, as histórias apresentam discrepâncias lógicas e até mesmo absurdos, que só parecem óbvios a posteriori. Bourdin, que explorava o senso de bondade da suas vítimas, diz: “Ninguém espera que uma criança de aparência vulnerável esteja mentindo.”

 

Em outubro de 1997, Bourdin estava num abrigo para menores em Linares, na Espanha. Uma juíza que cuidava do seu caso lhe dera 24 horas para provar que era um adolescente. Caso contrário ela mandaria tirar suas impressões digitais, que estavam arquivadas na Interpol. Bourdin sabia que, como era maior de idade e tinha ficha policial, o mais provável é que acabasse preso. Ele já tentara fugir uma vez e os funcionários o vigiavam de perto. Tomou a decisão de ir mais longe na exploração da credulidade alheia, correndo o risco de se transformar no “monstro” que jamais quisera virar. Dessa vez, em vez de inventar, roubou a identidade de outra pessoa. Passou-se por um rapaz de 16 anos que sumiu de casa no Texas. Bourdin, aos 23 anos, não precisava convencer só as autoridades de que era um jovem americano. Precisava convencer também a família do desaparecido.

Segundo Bourdin, o plano lhe ocorreu no meio da noite: se ele conseguisse convencer a juíza de que era americano, talvez o deixassem ir embora. Pediu para usar o telefone do abrigo e ligou para o Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas dos Estados Unidos, em Alexandria, no estado da Virgínia, à cata de uma identidade genuína. Falando inglês, disse que se chamava Jonathan Durean e era diretor do abrigo de Linares. Contou que aparecera por lá um menino que se recusava a revelar a sua identidade, mas falava inglês com sotaque americano. Bourdin fez uma descrição do rapaz que coincidia com a sua – baixo, magro, com um queixo proeminente, cabelos castanhos, dentes da frente separados – e perguntou se havia alguém parecido na base de dados do centro. Depois de procurar, uma senhora disse que o rapaz poderia ser Nicholas Barclay, de 13 anos, cujo desaparecimento fora comunicado em San Antonio, no Texas, em 13 de junho de 1994.

Adotando um tom descrente, Bourdin perguntou se o centro não poderia lhe enviar mais informações sobre Barclay. A mulher disse que enviaria pelo correio a ficha do garoto, e que podia também mandar por fax. Depois de lhe dar o número do fax de onde estava, Bourdin ficou esperando. A cópia da ficha emergiu do fax. Veio tão desbotada que era quase ilegível. Ainda assim, a foto era razoavelmente parecida com ele. “Vai dar certo”, Bourdin lembra de ter pensado. Ligou de volta para o centro e disse à mulher: “Tenho boas notícias. Nicholas Barclay está aqui do meu lado.”

Eufórica, ela lhe deu o número do detetive da polícia de San Antonio encarregado do caso. Fingindo ser um policial espanhol, Bourdin ligou para o investigador e, mencionando detalhes sobre Nicholas, declarou que o rapaz tinha sido encontrado. O policial disse que entraria em contato com o FBI e a embaixada americana em Madri.

No dia seguinte, no abrigo de Linares, Bourdin interceptou um envelope remetido pelo Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas dos EUA, endereçado a Jonathan Durean. Dentro do envelope, encontrou uma cópia nítida da ficha de Nicholas Barclay. Trazia a fotografia colorida de um menino miúdo, de pele clara, com olhos azuis e cabelos castanho-claros, quase louros. O arquivo trazia uma lista de sinais característicos, como uma cruz tatuada entre o indicador e o polegar da mão direita. Bourdin olhou para a foto e pensou que estava liquidado. Além de não ter a mesma tatuagem, seus olhos e cabelos eram castanho-escuros. Às pressas, queimou a ficha no pátio do albergue, foi ao banheiro e oxigenou os cabelos. Finalmente, pediu a um amigo que, com uma agulha de costura e tinta de caneta, lhe fizesse uma tatuagem improvisada parecida com a de Barclay.

 

Mas ainda restava a questão da cor dos olhos. Tentou imaginar uma história que explicasse a discrepância. E se tivesse sido sequestrado por um círculo de pedófilos e enviado para a Europa, onde fora torturado e maltratado, e até mesmo submetido a experiências? Aquilo talvez pudesse explicar a cor dos olhos. Seus sequestradores haviam injetado substâncias estranhas nas suas pupilas. E ele perdeu o sotaque texano porque, em mais de três anos de cativeiro, foi proibido de falar inglês. Fugira de uma casa na Espanha quando um dos guardas deixara a porta aberta por descuido. Era uma história extravagante, que violava a máxima da simplicidade a todo custo, mas ele não tinha outra para usar.

Pouco depois, o telefone do escritório tocou e Bourdin atendeu. Era a meio-irmã de Nicholas Barclay, Carey Gibson, de 31 anos. “Deus do céu, Nicky, é você mesmo?”, perguntou ela.

Bourdin adotou uma voz abafada e disse: “Sim, sou eu.”

A mãe de Nicholas, Beverly, veio ao telefone. Mulher encorpada, com o rosto largo e os cabelos pintados de castanho, trabalhava no turno da noite da Dunkin’ Donuts de San Antonio. Nunca se casara com o pai de Nicholas, e criou o menino junto com seus dois filhos mais velhos, Carey e Jason, de cujo pai se divorciara. Viciada em heroína, passara toda a infância de Nicholas tentando se livrar das drogas. Depois que ele desaparecera, recomeçara a usar heroína e agora estava viciada também em metadona.

Apesar de todas as dificuldades, diz Carey, Beverly era uma boa mãe. “Talvez fosse a viciada em drogas mais funcional do mundo. Tínhamos coisas de qualidade, morávamos numa casa boa, nunca faltava comida.” Para compensar sua instabilidade, Beverly seguia sua rotina fanaticamente: trabalhava na lanchonete de dez da noite às cinco da manhã, depois parava no bar Make My Day para jogar algumas partidas de sinuca e tomar cerveja antes de voltar para casa. Era áspera nos modos e tinha a voz enrouquecida pelo cigarro, mas as pessoas que a conheciam também me falaram da sua bondade e gentileza. Levava as rosquinhas que sobravam na lanchonete para um albergue de sem-teto.

Beverly aproximou ainda mais o fone do ouvido. Depois que a voz infantil do outro lado disse que queria voltar para casa, contou-me ela, “fiquei atarantada e totalmente enlouquecida”.

Carey, que era casada e tinha dois filhos, muitas vezes garantira a união da família enquanto Beverly combatia o vício das drogas. Desde o desaparecimento de Nicholas, sua mãe e seu irmão nunca mais foram os mesmos, e tudo que Carey desejava era ter a família novamente unida. Ofereceu-se para ir à Espanha e trazer Nicholas para casa, e a empresa onde ela trabalhava se ofereceu para pagar a passagem.

Quando ela chegou ao abrigo espanhol, acompanhada de um funcionário da embaixada americana, Bourdin se mantinha isolado num quarto. O que ele tinha feito, admite, era horrivelmente cruel. Mas se tinha alguma reserva moral, nem por isso deixou de seguir em frente. Depois de enrolar o rosto num cachecol, vestir um boné e óculos escuros, saiu do quarto. Estava convencido de que Carey perceberia na mesma hora que ele não era o irmão perdido. Em vez disso, ela correu para ele e lhe deu um abraço.

Carey, por várias razões, era a vítima ideal. “Minha filha tem um coração de ouro e é muito fácil de manipular”, disse Beverly. Depois que Nicholas desapareceu, ela assistira a muitos programas de televisão sobre sequestros de menores com os fins mais sinistros. Além da pressão por ter recebido dinheiro da sua empresa para fazer a viagem, ainda carregava o fardo de ter de decidir se aquele rapaz era mesmo o irmão desaparecido.

Embora Bourdin a chamasse de “Carey” em vez de “mana”, como Nicholas sempre fazia, e embora exibisse traços de um vago sotaque francês, Carey conta que quase não teve dúvidas de que fosse Nicholas. Ele atribuía todas as possíveis inconsistências aos seus indizíveis sofrimentos. Afinal, seu nariz tinha ficado praticamente idêntico ao do tio Pat. Ele tinha a mesma tatuagem de Nicholas e parecia conhecer tudo sobre a sua família, perguntando por vários parentes pelo nome. “O coração se apodera das rédeas e tudo que você quer é acreditar”, diz Carey.

Ela mostrou fotos da família a Bourdin, e ele estudou cada uma delas: minha mãe, meu irmão, meu avô. Nem as autoridades americanas, nem as espanholas tiveram qualquer dúvida, depois que Carey assegurou que reconhecia o irmão. Fazia apenas três anos que Nicholas tinha desaparecido, e o FBI não tinha a recomendação de suspeitar de ninguém que alegasse ser um menor desaparecido. Segundo as autoridades espanholas, Carey declarou sob juramento que Bourdin era seu irmão e cidadão dos Estados Unidos. Um passaporte americano foi-lhe concedido e, no dia seguinte, ele embarcou num voo para San Antonio.

 

Bourdin chegou a imaginar que se integraria a uma família de verdade, mas a meio caminho dos Estados Unidos começou a “surtar”, como diz Carey, tremendo e transpirando muito. Quando ela tentou acalmá-lo, ele disse que achava que o avião ia cair, o que na verdade desejava, como confessou mais tarde: de que outra maneira poderia escapar do que estava à sua espera?

Quando o avião pousou, em 18 de outubro de 1997, vários membros da família o aguardavam no aeroporto. Bourdin os reconheceu, graças às fotos de Carey: Beverly, a mãe; o marido de Carey, Bryan; os filhos de Carey, Codey e Chantel. O único ausente era o irmão de Nicholas, Jason, que se recuperava do vício das drogas e vivia em San Antonio. Um amigo da família gravou o reencontro em vídeo, e nele se pode ver Bourdin muito agasalhado, com o boné abaixado, os olhos castanhos cobertos por óculos escuros, a tatuagem já um tanto desbotada coberta por uma luva.

Embora Bourdin estivesse convencido de que os parentes de Nicholas iam “acabar com ele”, todos correram para abraçá-lo, dizendo o quanto tinham sentido a sua falta. “Estávamos todos emocionalmente enlouquecidos”, lembra Codey. A mãe de Nicholas, porém, foi mais contida. “Ela não ficou tão emocionada quanto se espera de uma mãe que reencontra o filho”, contou-me Chantel.

Bourdin pensou que Beverly talvez estivesse em dúvida, e que achasse que ele podia não ser Nicholas, mas finalmente ela também abriu os braços para ele. Seguiram para um McDonald’s e comeram cheeseburgers com batata frita. Como lembra Carey, “ele se sentou do lado da minha mãe, conversando com o meu filho”, dizendo o quanto “sentira falta da escola, e perguntando quando iria ver Jason”.

Bourdin foi para a casa de Carey e Bryan, em vez de ir morar com Beverly. “Trabalho à noite e achei que não devia deixá-lo sozinho em casa”, explicou ela. Carey e Bryan moravam num trailer, numa área isolada de um bosque em Spring Branch. Como diz Codey: “Nós não tínhamos internet, nem nada disso. Entre a minha casa e San Antonio, não se encontrava nenhum meio de comunicação.”

O trailer superpovoado não era exatamente a América que Bourdin imaginara. Ele dividia o quarto com Codey e dormia num colchonete no chão. Bourdin sabia que, caso quisesse se transformar mesmo em Nicholas e continuar a enganar aquela família, precisava descobrir tudo que pudesse a seu respeito, e começou a garimpar toda informação imaginável, revirando secretamente gavetas e álbuns de fotografias, e assistindo a vídeos domésticos. Toda vez que Bourdin descobria algum detalhe sobre o passado de Nicholas, a partir do que lhe dizia um membro da família, repetia a história para outro. Lembrou, por exemplo, que Bryan uma vez ficara furioso com ele por ter derrubado Codey do alto de uma árvore. “Ele sabia dessa história”, lembra Codey, admirado com a quantidade de informações que Bourdin conhecia sobre a família. Beverly percebeu que Bourdin se ajoelhava diante da televisão, como Nicholas fazia. Vários membros da família me disseram que toda vez que Bourdin se mostrava mais reservado do que Nicholas, ou falava com um sotaque diferente, eles imaginavam que fosse por causa do tratamento terrível que dizia ter sofrido no cativeiro.

À medida que Bourdin foi ocupando a vida de Nicholas, ia se admirando com as coincidências entre os dois, que lhe pareciam incríveis. O desaparecimento de Nicholas fora comunicado no dia do aniversário de Bourdin. Os dois vinham de famílias pobres e desfeitas. Nicholas não tinha quase nenhuma relação com o pai, que por muito tempo sequer soubera que Nicholas era seu filho. Nicholas era um menino gentil, solitário e irascível que precisava de atenção e tinha problemas na escola. Fora apanhado roubando um par de tênis, e sua mãe chegara a planejar interná-lo num reformatório. Nicholas era fã inveterado de Michael Jackson: colecionava todos os discos do cantor e tinha inclusive uma jaqueta de couro vermelha que lembrava a usada por Jackson no videoclipe Thriller.

Nas palavras de Beverly, Bourdin logo “se integrou”. Matriculou-se na escola secundária, e toda noite fazia seus deveres. Jogava Nintendo com Codey e assistia televisão com a família. Toda vez que encontrava Beverly, ele a abraçava e dizia: “Oi, mamãe.” Em alguns domingos, ia à igreja com outros membros da família. “Era um rapaz muito agradável”, lembra Chantel. “Simpático de verdade.”

 

No dia 1º de novembro, pouco depois de Bourdin ter-se instalado na sua nova casa, Charlie Parker, um detetive particular, estava sentado em seu escritório em San Antonio. Espalhadas por toda a sala, estavam as câmeras especiais que ele utilizava em seu trabalho: uma era ligada a um par de óculos, outra vinha alojada dentro de uma caneta-tinteiro e uma terceira estava disfarçada no guidão de uma bicicleta de dez marchas. De uma das paredes, pendia a foto que Parker tinha tirado durante uma investigação: mostrava uma mulher casada em companhia de seu amante, olhando para fora da janela de um apartamento. Parker, que tinha sido contratado pelo marido da adúltera, dizia que aquela foto tinha sido seu “grande prêmio”.

O telefone de Parker tocou. Era um produtor do programa de televisão Hard Copy, que tinha ouvido falar do extraordinário retorno do jovem Nicholas Barclay e queria contratar Parker para ajudar na investigação do sequestro. Parker aceitou o contrato.

Com seus cabelos brancos e sua voz rouca, Parker, na época com pouco menos de 60 anos, parecia saído de um livro policial de segunda categoria. Embora sempre tivesse sonhado ser detetive, só conseguira se iniciar recentemente na profissão, depois de trinta anos de trabalho como vendedor de material de construção. Em 1994, Parker conheceu um casal de San Antonio cuja filha de 29 anos fora estuprada e morta a facadas. O caso continuava sem solução, e ele começou a investigar o crime toda noite, depois que chegava em casa do trabalho. Quando descobriu que um assassino em liberdade condicional tinha ido morar ao lado da vítima, Parker postou-se do lado de fora da casa do sujeito, observando-o de dentro de uma camionete branca com a ajuda de visores infravermelhos. O suspeito foi preso e condenado pelo assassinato.

Arrebatado pela experiência, Parker formou um “clube do crime” destinado a resolver casos arquivados de homicídio. (Entre seus membros figuravam um professor universitário de psicologia, um advogado e um cozinheiro.) Em alguns meses, o clube reunira indícios que ajudaram a condenar um membro da Força Aérea que havia estrangulado uma jovem de 14 anos. Em 1995, Parker obteve a licença de detetive particular e abandonou o ramo dos materiais de construção.

Depois de ter conversado com o produtor de Hard Copy, Parker não teve a menor dificuldade em descobrir que Nicholas Barclay morava no trailer de Carey e Bryan. No dia 6 de novembro, Parker chegou ao local acompanhando um produtor e uma equipe de filmagem. A família não queria que Bourdin falasse com os repórteres. “Gosto de ser discreta quanto à minha vida particular”, disse Carey. Mas Bourdin, que já tinha quase três semanas de permanência no país, concordou em falar. “Eu estava precisando de atenção”, diz ele. “Era uma necessidade psicológica. Hoje, eu teria recusado.”

Parker ficou por perto, prestando atenção na entrevista enquanto o jovem relatava sua história sinistra. “Ele contava aquilo com a maior calma”, disse-me Parker. “Sem baixar os olhos, sem qualquer linguagem corporal. Nada.” Mas Parker ficou intrigado com o sotaque.

Pegou numa prateleira uma foto de Nicholas Barclay ainda garotinho, e comparou a imagem com a pessoa que falava à sua frente, com a nítida impressão de que alguma coisa estava fora do lugar. Tendo lido em algum lugar que as orelhas de cada pessoa são totalmente singulares, tanto quanto as impressões digitais, ele se aproximou do câmera e sussurrou: “Dê um zoom nas orelhas dele. O mais aproximado que você conseguir.”

Parker enfiou a foto de Nicholas Barclay no bolso e, depois da entrevista, voltou para o seu escritório e usou um scanner para digitalizar a foto no seu computador. Em seguida, examinou o vídeo da entrevista, concentrando-se nas orelhas das duas imagens. “Eram até parecidas, mas não coincidiam”, diz ele.

 

Parker ligou para vários oftalmologistas e perguntou a eles se a cor dos olhos podia mudar de azul para castanho em decorrência da injeção de alguma substância química. Os médicos responderam que não. Parker ligou ainda para um especialista em sotaques regionais da Trinity University, em San Antonio, que lhe disse que, mesmo que alguém passasse três anos em cativeiro, em pouco tempo haveria de recuperar seu sotaque original.

Parker transmitiu suas suspeitas às autoridades, muito embora a polícia de San Antonio tivesse declarado que “o rapaz que voltou é mesmo Nicholas Barclay”. Temendo que um desconhecido perigoso pudesse ter se infiltrado na família de Nicholas, Parker ligou para Beverly e lhe contou o que tinha descoberto. Pelo que ela se lembra da conversa, ele teria dito:

“Não é ele, minha senhora. Não é ele.”

“Como assim, não é ele?”, perguntou Beverly.

Parker explicou o que tinha descoberto em relação às orelhas e ao sotaque. Em seu diário, Parker anotou: “A família ficou perturbada, mas insiste em dizer que o rapaz é seu filho.”

Parker conta que, alguns dias mais tarde, recebeu um telefonema furioso de Bourdin. Embora Bourdin negue ter feito a ligação, Parker anotou no seu diário naquele dia que Bourdin lhe perguntou: “Quem você pensa que é?” Quando Parker respondeu que não acreditava que ele fosse Nicholas, Bourdin respondeu: “O governo acha que sou. A família acha que sou.”

Parker se perguntou se não devia deixar as coisas como estavam. Outros casos se empilhavam à sua espera. E concluiu que qualquer mãe seria capaz de reconhecer o próprio filho. Ainda assim, o sotaque do rapaz lhe parecia francês, talvez marroquino. E se era esse o caso, o que aquele estrangeiro estaria fazendo infiltrado num trailer no interior do Texas? “Achei que ele era um terrorista, juro por Deus”, diz Parker.

Beverly alugava um conjugado pequeno num condomínio arruinado de San Antonio, e Parker começou a seguir Bourdin sempre que ele ia visitá-la. “Eu ficava na porta do apartamento esperando ele sair”, diz Parker. “E ele andava até o ponto do ônibus com o walkman, imitando os passos de Michael Jackson.” Bourdin se esforçava para não sair do personagem. Achava “claustrofóbico” morar com Carey e Beverly, e só se sentia bem ao ar livre, vagando pelas ruas. “Não estava acostumado a conviver com outras pessoas, morando com eles como se fizesse parte da família”, conta. “Não estava pronto para isso.”

Um dia, Carey e a família entregaram-lhe um caixote de papelão. Dentro dele estavam os cartões de beisebol, os discos e vários outros pertences de Nicholas. Ele pegou um por um, desajeitado. E havia uma carta de uma das namoradas de Nicholas. Enquanto lia, pensou: “Não sou esse menino.”

Ao final de dois meses nos Estados Unidos, Bourdin começou a entrar em crise. Vivia distante, mudando muito de humor. Parou de ir às aulas e foi suspenso da escola. Em dezembro, pegou o carro de Bryan e Carey e foi até Oklahoma, com as janelas fechadas, ouvindo a canção Scream, de Michael Jackson: Tired of the schemes/ The lies are disgusting/ Somebody please have mercy/ ‘Cause I just can’t take it. [Cansado dos esquemas/ As mentiras me enojam/ Alguém tenha pena de mim/ Porque eu não aguento mais.] A polícia parou o carro por excesso de velocidade e ele foi preso. Beverly, Carey e Bryan foram buscá-lo na delegacia e o levaram de volta para casa.

 

Segundo sua verdadeira mãe, Ghislaine, Bourdin ligou para ela na Europa. Apesar de todos os seus desentendimentos com a mãe, Bourdin ainda dava sinais de sentir falta dela. (Certa vez escreveu-lhe uma carta, na qual dizia: “Não quero te perder. Se você desaparecer, eu também desapareço.”) Segundo Ghislaine, Bourdin lhe contou que estava morando no Texas com uma mulher que achava que ele era o filho dela. Ficou tão perturbada que desligou.

Um dia, pouco antes do Natal, Bourdin entrou no banheiro e se olhou no espelho – os olhos castanhos, os cabelos tingidos. Pegou uma lâmina de barbear e começou a mutilar seu rosto. Foi internado na ala psiquiátrica de um hospital local, onde passou vários dias em observação. Mais tarde, Bourdin escreveu num caderno: “Quando você luta com monstros, cuidado para não se transformar num deles.” E também rascunhou um poema: “Meus dias são fantasmas de dias, cada um a sombra de uma esperança;/ Minha verdadeira vida jamais começou,/ E nenhum dos meus atos jamais aconteceu.”

Os médicos avaliaram que Bourdin estava suficientemente estabilizado para voltar ao trailer de Carey. Mas ele continuava indócil e cada vez mais curioso quanto ao que teria acontecido com o verdadeiro Nicholas Barclay. Assim como Parker, que, ao mesmo tempo em que tentava identificar Bourdin, começara a reunir informações e a entrevistar os vizinhos de Nicholas. Na época em que Nicholas desapareceu, o menino morava com Beverly numa casinha de um único piso em San Antonio.

O meio-irmão de Nicholas, Jason, então com 24 anos, tinha acabado de vir morar com eles, depois de passar algum tempo na casa de um primo. Jason era alto e forte, com cabelos castanhos cacheados. Tinha cicatrizes de queimaduras no corpo e no rosto: aos 13 anos, acendera um cigarro depois de encher de gasolina o tanque de um cortador de grama, e as chamas o queimaram bastante. Devido às suas cicatrizes, diz Carey, “Jason achava que nunca ia conhecer ninguém, e que viveria sempre sozinho”. Ele arranhava algumas canções no violão e desenhava bem. Embora só tivesse completado o curso secundário, era inteligente e articulado. E tinha também uma personalidade de viciado, como a sua mãe; às vezes bebia muito, e também usava cocaína.

Em 13 de junho de 1994, Beverly e Jason contaram à polícia que Nicholas tinha ligado para casa de um telefone público três dias antes, pedindo que fossem buscá-lo. Tinha ido jogar basquete com uns amigos. Beverly estava dormindo, foi Jason que atendeu e disse a Nicholas que desse um jeito de voltar a pé. Mas Nicholas nunca chegou em casa. Como tinha brigado com a mãe por causa dos tênis que roubara, e diante da possibilidade de ser internado numa instituição para menores infratores, a polícia achou que ele tinha fugido de casa – muito embora não tivesse levado dinheiro nem nenhum dos seus pertences.

Parker ficou surpreso quando encontrou relatórios da polícia dizendo que, logo depois do desaparecimento de Nicholas, tinham acontecido vários problemas na casa de Beverly. No dia 12 de julho, ela chamou a polícia, mas, quando um policial bateu à sua porta, garantiu que estava tudo em ordem. Jason disse ao policial que sua mãe estava “bebendo e gritando com ele porque o filho dela tinha fugido de casa”.

Algumas semanas mais tarde, Beverly tornou a chamar a polícia, comunicando o que as autoridades descrevem como “um episódio de violência familiar”. Um policial, que relatou que Beverly e Jason “trocavam insultos”, pediu a Jason que passasse um dia inteiro fora de casa, e ele concordou. No dia 25 de setembro, a polícia recebeu uma nova ligação, dessa vez de Jason. Ele dizia que seu irmão tinha reaparecido e tinha tentado arrombar a garagem da casa, fugindo quando Jason o viu. No seu relatório, o policial encarregado conta que “vasculhou toda a área” à procura de Nicholas, mas não localizou o jovem.

O comportamento de Jason foi ficando cada vez mais errático. Foi detido por “violência” contra um policial, e Beverly o pôs para fora de casa. O desaparecimento de Nicholas, contou-me Codey, “deixou Jason profundamente perturbado. Ele passou muito tempo se drogando direto, se picando com cocaína”. Como tinha recusado ajuda a Nicholas para voltar para casa no dia em que desapareceu, diz Chantel, Jason “se sentia muito culpado”.

No final de 1996, Jason se internou numa clínica de reabilitação e conseguiu se afastar das drogas. Depois de encerrado o tratamento, continuou no local por mais de um ano, atuando como conselheiro e trabalhando para a empresa de jardinagem operada pela clínica. Era lá que ainda se encontrava quando Bourdin apareceu, alegando ser seu irmão.

Bourdin não sabia dizer por que Jason não fora recebê-lo no aeroporto e nem, no início, fizera o menor esforço para ir vê-lo na casa de Carey. Ao final de um mês e meio, Jason finalmente apareceu para uma visita. Embora Jason lhe tenha dado um abraço na frente dos outros, conta Bourdin, tinha a sensação de que olhava para ele com muita desconfiança. Depois de alguns minutos, Jason chamou-o para fora e estendeu a mão para Bourdin. Segurava uma corrente com uma cruz dourada. Jason disse que era para ele. “Era como se ele precisasse me dar o cordão”, conta Bourdin. Jason o pôs no seu pescoço. Depois se despediu, e nunca mais voltou.

 

Bourdin me disse que “era claro que Jason sabia o que tinha acontecido com Nicholas”. Bourdin começou a se perguntar quem estava enganando quem. As autoridades, enquanto isso, começavam a duvidar da história de Bourdin. Nancy Fisher, uma agente veterana do FBI, entrevistara Bourdin após sua chegada aos Estados Unidos, a fim de documentar suas denúncias de que havia sido sequestrado em solo americano. Na mesma hora, contou-me ela, sentiu “alguma coisa errada”. “O cabelo dele era escuro, mas tingido de louro, e as raízes eram bem óbvias.”

Parker conhecia Nancy Fisher e compartilhava suas suspeitas com ela. Nancy dissera a Parker que não devia interferir em um inquérito federal, mas como conduziam investigações paralelas acabaram confiando um no outro, e Parker transmitia-lhe todas as informações que obtinha. Quando Nancy Fisher perguntou a Beverly quem poderia ter sequestrado e abusado sexualmente de Nicholas, diz ela, achou a mãe estranhamente “ríspida e pouco cooperativa”.

Começou a cogitar da possibilidade de Beverly e a família estarem simplesmente tomadas pelo desejo de acreditar que Bourdin fosse o jovem desaparecido. O principal empenho de Nancy era descobrir quem seria afinal a misteriosa figura que entrara nos Estados Unidos. Sabia que era impossível que a cor dos seus olhos tivesse sido alterada. Em novembro, a pretexto de encaminhar Bourdin para um tratamento pelos supostos abusos, Nancy Fisher levou-o a um psiquiatra forense de Houston. Com base na sintaxe e na gramática do jovem, ele concluiu que não podia ser americano, e devia ser francês ou espanhol. O FBI comunicou esses resultados a Beverly e Carey, conta a agente Fisher, mas ambas reafirmaram que o rapaz era mesmo Nicholas.

Nancy Fisher tentou convencer Beverly e Bourdin a fornecerem amostras de sangue para um exame de DNA. Ambos recusaram. “Como se atreve a dizer que ele não é meu filho?”, indignou-se Beverly. Quatro meses depois da chegada de Bourdin aos Estados Unidos, Nancy Fisher obteve um mandado judicial que obrigava os dois a cederem. “Fui até a casa dela para colher sangue, e ela se estendeu no chão, dizendo que não ia se levantar”, conta Nancy Fisher. “E eu disse: ‘Vai, sim.'”

“Beverly me defendeu”, conta Bourdin. “Fez o possível para impedir o exame.”

Junto com o sangue, Nancy Fisher recolheu as impressões digitais de Bourdin e as remeteu para o Departamento de Estado, para ver se eram conhecidas da Interpol.

Carey, preocupada com a automutilação e a instabilidade do seu suposto irmão, não queria mais hospedá-lo em casa, e Bourdin foi morar com Beverly. A essa altura, diz Bourdin, sua visão daquela família mudara muito. Uma série de indícios intrigantes não lhe escapara: a recepção fria de Beverly no aeroporto, a demora de Jason em vir visitá-lo. E diz ele que, embora Carey e Bryan parecessem determinados a acreditar que ele era Nicholas, Beverly o tratava menos como o próprio filho do que como “um fantasma”. Um dia, quando morava com ela, conta Bourdin, ela se embriagou e acabou gritando: “Eu sei que Deus me castigou mandando você para cá. Não sei quem você é. Por que está fazendo isso comigo?”

No dia 5 de março de 1998, com as autoridades cada vez mais perto, Beverly ligou para Parker e disse que tinha concluído que Bourdin era um impostor. No dia seguinte, Parker levou o rapaz a um restaurante.

Pediram panquecas. Depois de quase cinco meses fingindo que era Nicholas Barclay, conta Bourdin, ele estava psiquicamente esgotado. Segundo Parker, quando ele disse a “Nicholas” que sua “mãe” estava muito perturbada, o jovem respondeu de chofre: “Ela não é minha mãe, e você sabe disso muito bem.”

“E você vai me contar quem é?”

“Sou Frédéric Bourdin e sou procurado pela Interpol.”

Depois de alguns minutos, Parker foi até o banheiro e ligou para Nancy Fisher para lhe dar a notícia. E ela acabara de receber a mesma informação da Interpol. “Estou tentando conseguir um mandado de prisão agora mesmo”, contou ela a Parker. “Fique com ele mais um tempo.” Parker voltou para a mesa e continuou a conversa. Enquanto Bourdin lhe contava sua vida itinerante na Europa, diz Parker, ele chegou a sentir um certo remorso por entregar o jovem à polícia.

Bourdin, que tem desprezo por Parker e contesta os detalhes dessa conversa, acusa o detetive de “fingir” que resolveu o caso. Para ele, foi como se Parker tivesse invadido sua ficção interior, apoderando-se à força do papel de protagonista. Parker levou Bourdin até o apartamento de Beverly. Quando se preparava para ir embora, Nancy Fisher e outros policiais rodearam o rapaz. Ele se rendeu sem resistir. “Eu sabia que tinha voltado a ser Frédéric Bourdin”, conta ele.

Beverly reagiu com menos calma. Virou-se para Nancy Fisher e gritou: “Por que vocês demoraram tanto?” Detido, Bourdin contou uma história que soou tão fantasiosa quanto a narrativa de que era Nicholas Barclay. Afirmou que Beverly e Jason podiam ter responsabilidade no desaparecimento de Nicholas, e que sabiam desde o início que ele estava mentindo. “Afinal, sou um bom impostor, mas não tanto”, disse-me Bourdin.

 

As autoridades não podiam se basear na palavra de um mentiroso patológico. “Depois que ele conta 99 mentiras, a centésima pode ser verdade, mas nunca se sabe”, diz Nancy Fisher. As autoridades, no entanto, também tinham as suas suspeitas. Jack Stick, que àquela altura era procurador federal, e mais tarde cumpriria um mandato de deputado estadual no Texas, foi encarregado do caso Bourdin. Ele e Nancy Fisher cogitavam por que Beverly teria resistido às tentativas do FBI de investigar o suposto sequestro de Nicholas e, mais tarde, esclarecer a farsa de Bourdin. Também se perguntaram por que não levara Bourdin para morar com ela desde a sua chegada. Segundo Nancy Fisher, Carey lhe disse que a presença dele era “perturbadora demais” para Beverly, o que, pelo menos a Nancy Fisher e Jack Stick, pareceu muito estranho. “Qualquer um só podia ficar feliz com a volta de um filho”, diz Nancy Fisher. Era mais um sinal de alerta.

Nancy Fisher e Jack Stick passaram em revista os distúrbios na casa de Beverly depois do desaparecimento de Nicholas e o relatório da polícia segundo o qual Beverly estava gritando com Jason por causa do sumiço do jovem. Havia ainda o testemunho de Jason, de que tinha visto Nicholas tentando arrombar a entrada da casa. Nenhum vestígio de arrombamento foi encontrado para dar consistência à história, e Jason tinha comunicado a ocorrência bem no momento em que a polícia começava a “farejar à sua volta”. Stick e Nancy desconfiavam que a história fosse um estratagema para reforçar a ideia de que Nicholas fugira de casa.

Jack Stick e Nancy Fisher começaram a pensar em abrir uma investigação de homicídio. “Agora eu queria saber o que tinha acontecido com o garoto”, lembra Stick. Os indícios sugeriam que a casa de Beverly era um lugar violento. Funcionários da escola de Nicholas mostraram preocupação quanto a possíveis maus-tratos sofridos pelo rapaz, devido a manchas que apresentava no corpo, e pouco antes do seu desaparecimento haviam alertado um serviço de proteção a menores. Alguns vizinhos testemunharam que Nicholas às vezes batia em Beverly.

Um dia, Nancy pediu a Beverly que se submetesse a um detector de mentiras. E Carey lembrou: “Eu disse para ela que devia fazer o que pediam, passar pelo detector de mentiras, porque não tinha matado Nicholas. E ela aceitou.”

Enquanto Beverly se submetia ao polígrafo, Nancy acompanhava o exame através de um monitor de vídeo numa sala ao lado. A pergunta mais importante era se Beverly sabia onde Nicholas se encontrava naquele momento. Ela respondeu que não, duas vezes. E o técnico responsável pelo detector de mentiras disse a Nancy que a resposta de Beverly parecia verdadeira. Quando Nancy manifestou sua dúvida, o especialista respondeu que, para estar mentindo, Beverly precisaria estar sob o efeito de alguma droga. Mais tarde, o técnico tornou a fazer o teste, a uma altura em que o efeito de qualquer narcótico já teria passado. Dessa vez, quando ele perguntou se Beverly sabia onde Nicholas estava, as agulhas da máquina deram um salto, indicando uma mentira. “O resultado é um zigue-zague que quase pula fora do papel”, diz Nancy.

Quando o interrogador contou a Beverly que ela não tinha passado no teste, começando a pressioná-la com novas perguntas, Beverly berrou “Não preciso aturar essa história”, levantou-se e saiu correndo. “Corri atrás dela”, conta Nancy. “E perguntei por que ela decidira ir embora. Ela estava furiosa e disse: ‘É típico mesmo do Nicholas, olhe só o inferno que ele está me fazendo atravessar.'”

Em seguida, Nancy quis entrevistar Jason, mas ele se negou. Quando finalmente concordou em se encontrar com ela, várias semanas depois da prisão de Bourdin, ela conta que precisou “arrancar cada palavra dele”. Conversaram sobre o motivo pelo qual ele não fora visitar seu suposto irmão por quase dois meses. “Eu disse: ‘O seu irmão, desaparecido muito antes, raptado, volta e você não faz o menor esforço para ir ver?’ E ele: ‘Bem, não.’ E eu perguntei: ‘Mas você achou que ele era parecido com o seu irmão?’ E ele: ‘Acho que sim.'”

Nancy Fisher ficou com a impressão de que ele respondera de má vontade, e sentiu “uma forte suspeita de que Jason tivesse algum papel no desaparecimento do irmão”. Jack Stick também achava que Jason “ou estava envolvido no desaparecimento de Nicholas, ou tinha informações que poderiam esclarecer o que havia acontecido”. Nancy suspeitava que Beverly soubesse o que ocorrera com Nicholas, e que pudesse estar ajudando a acobertar o crime a fim de proteger Jason.

Depois desse encontro com Nancy Fisher, Jason recusou-se a voltar a falar com as autoridades sem a presença de um advogado. Mas Parker, que era detetive particular e não estava submetido a restrições legais, continuava a pressionar Jason. Numa ocasião, chegou a acusá-lo de homicídio. “Acho que foi você”, disse-lhe Parker, segundo conta. “Acho que nem teve a intenção, mas que matou o garoto.” Em resposta, segundo Parker, “ele só ficou me olhando”.

 

Várias semanas depois de ter interrogado Jason, Parker passava de carro pelo centro de San Antonio quando viu Beverly na calçada e lhe ofereceu carona. Assim que ela entrou no carro, contou-lhe que Jason tinha morrido de overdose de cocaína. Parker, que sabia que Jason estava afastado das drogas há mais de um ano, lhe perguntou se ela não achava que a overdose tinha sido proposital. E ela respondeu: “Não sei.” Jack Stick, Charlie Parker e Nancy Fisher desconfiaram que se tratasse de suicídio.

Depois da perda dos filhos, Beverly parou de usar drogas e se mudou para Spring Branch, onde mora num trailer, ajudando uma mulher a cuidar da filha inválida. Concordou em conversar comigo sobre as suspeitas das autoridades, e falamos por telefone. Ela sofrera a paralisia de uma das cordas vocais, o que tornara ainda mais grossa sua voz já grave e rouca. Parker, que costumava conversar com Beverly na lanchonete em que ela trabalhava, me disse: “Não sei por que, mas eu gostava dela. Eu ficava com a sensação de que a vida tinha tirado tudo dela.”

 

Beverly deu respostas diretas às minhas perguntas. No aeroporto, disse ela, tivera um comportamento contido porque achara que Bourdin tinha um “jeito estranho”. E acrescentou: “Se eu tivesse seguido o meu instinto, eu teria descoberto na mesma hora.” Admitiu que havia tomado drogas antes do teste com o detector de mentiras. “Quando me acusaram, eu perdi a cabeça. Trabalhei como uma doida para criar meus filhos. Por que faria alguma coisa contra eles?” E continuou: “Não sou uma pessoa violenta. Só resolveram jogar verde, para ver se eu admitia alguma coisa.” E disse ainda: “Ninguém mente pior do que eu.”

Perguntei a ela se Jason tinha feito algum mal a Nicholas. Ela fez uma pausa e disse que achava que não. Contou que, quando consumia cocaína, Jason ficava totalmente descontrolado e metia medo. Uma vez chegou a bater no próprio pai. Mas falou que o vício de Jason só ficara sério depois do desaparecimento de Nicholas. Num ponto ela concordava com as autoridades: achava pouco crível a história de Jason de ter visto Nicholas depois do desaparecimento. “Jason estava com muitos problemas naquele tempo”, disse. “Não acredito que Nicholas tenha andando por lá.”

Perguntei várias vezes como ela pôde ter passado cinco meses acreditando que um francês de 23 anos, com os cabelos pintados, olhos castanhos e sotaque europeu fosse de fato o seu filho. “Nós vivíamos inventando desculpas – que ele tinha ficado diferente por causa de todas as coisas ruins que tinha passado”, respondeu. Ela e Carey queriam muito que fosse mesmo Nicholas. Só depois que ele veio morar com ela que Beverly passou a ter dúvidas. “O comportamento dele era diferente do meu filho”, disse. “Eu tinha um certo carinho, mas não um amor de mãe. O rapaz é muito confuso, é uma coisa triste, uma coisa que eu não desejo para ninguém.”

Por mais incrível que possa parecer, a experiência de Beverly tem antecedentes – um incidente descrito como “um dos casos mais estranhos nos anais da história policial” (e que serviu de base para um filme de Clint Eastwood, intitulado A Troca). Em março de 1928, um menino de 9 anos, Walter Collins, desapareceu em Los Angeles. Seis meses mais tarde, ao final de uma busca intensa por todo o país, uma criança apareceu dizendo que era o desaparecido e contou que tinha sido sequestrado. A polícia ficou convencida de que era Walter Collins. Quando a mãe, Christine, foi buscar o filho, porém, achou que não era ele. Embora as autoridades a tenham convencido a levá-lo para casa, dias depois ela entrou com o garoto numa delegacia e insistiu: “Ele não é o meu filho.” Mais tarde, ela entraria em detalhes: “Os dentes eram diferentes, a voz era diferente. As orelhas eram menores.”

As autoridades acharam que ela podia estar sofrendo de tensão emocional pelo desaparecimento do filho, e a internaram num hospital psiquiátrico. Mesmo assim, ela se recusava a ceder. Oito dias mais tarde, ela foi liberada. Logo surgiram indícios de que seu filho tinha sido morto por um assassino em série, e o menino, que alegava ser seu filho, confessou que tinha 11 anos e fugira de sua casa, em Iowa, e que “achava divertido ser uma pessoa que não era”.

Ao comentar o caso de Bourdin, Nancy Fisher disse que uma coisa era certa: “Beverly não tinha como deixar de saber que não era o filho dela.”

Ao final de meses de investigação, Jack Stick concluiu que os elementos não eram suficientes para acusar alguém pelo desaparecimento de Nicholas. Não havia testemunhas ou amostras de DNA. As autoridades não sabiam se Nicholas estava vivo ou morto. Stick concluiu que, com a morte de Jason, ficava “praticamente excluída a possibilidade” de determinar o que aconteceu com Nicholas.

No dia 9 de setembro de 1998, Frédéric Bourdin foi levado a julgamento num tribunal de San Antonio e se declarou culpado de perjúrio e da posse de documentos falsos. Sua explicação de que estava apenas à procura de amor provocou reações indignadas. Carey, que tivera uma crise nervosa depois da prisão de Bourdin, testemunhou no tribunal e disse: “Ele mentiu e continua mentindo até hoje. Ele não sente remorso.” O juiz comparou o que ele fizera – dar a uma família a esperança do reencontro do filho perdido, e depois pôr fim a esse sonho – a um assassinato.

A única pessoa que pareceu sentir alguma compaixão por Bourdin foi Beverly, que declarou na ocasião: “Sinto pena dele. Acabamos conhecendo bem o rapaz e sabemos que ele passou por um verdadeiro inferno.” E me disse: “Para fazer algumas das coisas que fez, ele precisou de muita coragem.”

O juiz condenou Bourdin a seis anos – mais do triplo da sentença recomendada para os crimes em discussão. Bourdin disse no tribunal: “Peço desculpas a todas as pessoas pelo que fiz. Gostaria que acreditassem em mim, mas sei que é impossível.” Na prisão ou fora dela, acrescentou: “Sou prisioneiro de mim mesmo.”

 

A última vez que estive com Bourdin, sua vida tinha passado pela mais dramática de todas as transformações. Ele se casou com uma francesa, Isabelle, que conhecera dois anos antes. Com pouco menos de 30 anos, Isabelle era magra, bonita e falava baixo. Estudava direito. Vítima de maus-tratos familiares, tinha visto Bourdin na televisão, descrevendo o que tinha sofrido e a sua procura do amor, e ficara tão comovida que decidira procurá-lo. “Disse a ele que o que me interessou não era a maneira como ele torcia a verdade, mas o motivo pelo qual fazia isso, e o que ele tentava encontrar.”

Bourdin conta que, quando Isabelle o procurou, ele achou que devia ser alguma brincadeira, mas se encontraram em Paris e, aos poucos, se apaixonaram. Disse que nunca antes tivera uma relação amorosa. “Sempre fui um muro de pedra fria”, afirmou. Em 8 de agosto de 2007, depois de um ano de namoro, se casaram na prefeitura de uma cidadezinha próxima a Pau. A mãe de Bourdin disse que o filho convidou a ela e ao avô para a cerimônia, mas que os dois não foram. “Ninguém acreditou nele”, comentou.

Quando conheci Isabelle, ela estava com quase oito meses de gravidez. Esforçando-se para driblar a atenção do público, ela e Frédéric tinham se mudado para Le Mans, onde moravam num pequeno apartamento de quarto e sala, com uma janela que dava para um presídio. “Para me lembrar do meu passado”, disse Bourdin. Um caixote contendo as partes de um berço estava aberto no chão da sala. O cabelo de Bourdin agora estava bem curto, e ele usava roupas discretas, jeans e camiseta. Contou-me que tinha conseguido emprego numa empresa de telemarketing. Dado o seu talento para a persuasão, vinha tendo ótimos resultados. “Digamos que tenho jeito para a coisa”, disse ele.

Sua família acredita que essas mudanças todas não passam de um papel novo, que há de acabar de maneira desastrosa para sua mulher e o bebê. “Ninguém pode inventar que é pai”, disse seu tio Jean-Luc Drouart. “Eu me preocupo com essa criança.” A mãe de Bourdin, Ghislaine, diz que o filho é “um mentiroso e nunca vai mudar”.

Depois de tantos anos no papel de impostor, Frédéric Pierre Bourdin acabou por convencer a família e as autoridades que é mesmo um camaleão. Poucos meses depois de ter sido solto da prisão nos Estados Unidos e deportado para a França, em outubro de 2003, Bourdin tornou a fazer o papel de adolescente. Chegou a roubar a identidade de um menino francês de 14 anos chamado Léo Balley, que desaparecera oito anos antes numa viagem de férias. Dessa vez, porém, a polícia fez um exame de DNA que logo revelou a mentira de Bourdin. Um psiquiatra que o avaliou concluiu: “O prognóstico parece mais que inquietante… Estamos muito pessimistas quanto à possibilidade de mudança desses traços de personalidade.” (Bourdin, enquanto esteve preso nos Estados Unidos, começou a ler textos de psicologia, e copiou o seguinte trecho no seu diário: “Quando confrontado com seus feitos, o psicopata demonstra suficiente falsa sinceridade e aparente remorso para fomentar esperança e confiança em seus acusadores. No entanto, depois de várias repetições, sua representação convincente acaba sendo reconhecida como o que na verdade é – uma representação.”)

Isabelle tem certeza de que Bourdin “pode mudar”. E disse: “Já faz dois anos que estou com ele, e ele não é essa pessoa.”

A uma certa altura, Bourdin pôs a mão no ventre de Isabelle. “Meu bebê pode até ter três braços e três pernas”, declarou. “Não faz a menor diferença. Não quero que o meu filho seja perfeito. Só quero que ele se sinta amado.” E não se incomodava com o que dizia a sua família. “Eles são o meu refúgio”, disse ele da mulher e do filho prestes a nascer. “E isso ninguém pode tirar de mim.”

Um mês mais tarde, Bourdin me ligou e contou que sua mulher dera à luz. “É uma menina”, contou. Ele e Isabelle deram-lhe o nome de Athéna, em homenagem à deusa grega. “Agora eu sou pai de verdade”, disse ele.

Eu lhe perguntei se ele tinha se transformado numa outra pessoa. Por algum tempo, ele não disse nada. “Não, este aqui é quem eu sou.”

David Grann 

David Grann é jornalista americano e autor de O Diabo e Sherlock Holmes, da Companhia das Letras.

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