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O carteiro e o folclorista

Borba Gato, Dante e as folhas urticantes do sertão

ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

José Helmut Cândido aprendeu sozinho o que é uma metáfora. Essa é uma das muitas diferenças entre ele e Mario Ruoppolo, personagem vivido por Massimo Troisi no filme O Carteiro e o Poeta, a história da relação do poeta Pablo Neruda com seu carteiro, a quem ensinou o que é uma metáfora. Filme, aliás, que Helmut não viu. Ele prefere os franceses da nouvelle vague: Godard, Truffaut, Rivette, Resnais. Assistiu a todos e, não sem nostalgia, reconta algumas cenas a quem lhe pergunta sobre cinema. A semelhança com Mario, carteiro do poeta chileno Pablo Neruda, é que Helmut também foi responsável por entregar a correspondência endereçada a um escritor.

Em Natal, no número 377 da antiga Rua Junqueira Aires, uma ladeira suave que vai da Ribeira para a Cidade Alta, residiu até morrer, há vinte anos, o folclorista Luís da Câmara Cascudo. Todo dia útil, de 1952 a 1960, por volta das 14 horas, Helmut deixava a agência dos Correios, na Ribeira, o bairro histórico da cidade, e levava até lá as cartas e pacotes – sempre de dez a vinte itens – que chegavam diariamente para Cascudo. Ele se orgulha de não ter quebrado nem por um dia a regularidade do ofício.

A relação entre os dois era de respeito e silêncio. Não havia gorjetas. Ao ouvir seu nome entrar pelos janelões da fachada, Câmara Cascudo saía devagar, de pijama, chinelo e charuto aceso. De vez em quando, com os olhos, indicava a porta de entrada, no alto da escada lateral do casarão. Helmut aproveitava o convite esporádico. Enquanto Cascudo assinava os comprovantes de entrega, tomava nota da casa – as estantes sempre muito organizadas, a escrivaninha, os suvenires, os objetos de artesanato, a cadeira de balanço. Até o último dia de trabalho de Helmut, tudo permaneceu no mesmo lugar. O agradecimento era gentil e curto.

Helmut às vezes descobria pelos jornais o conteúdo do que entregava. Um dia, leu que Câmara Cascudo estava se correspondendo com um estudioso italiano que queria explorar os aspectos folclóricos da Divina Comédia. Entendeu então a quantidade de cartas que chegava mensalmente com o timbre do correio italiano. Helmut perdia alguns minutos admirando os selos. Os remetentes não lhe interessavam. Sentia-se importante por entregar cartas do mundo inteiro. “Canadá, Portugal, Espanha, Estados Unidos, África, Austrália, até de onde Judas perdeu as botas”, conta. Sempre achou um despautério incomodar Câmara Cascudo com perguntas que não dissessem respeito aos estudos do folclorista. Por isso, e também porque Cascudo nunca foi de falar muito, não fez mais de três ou quatro durante os oito anos de convívio. Uma vez, quis saber o que significava “anhembi”. Câmara Cascudo desandou a falar sobre a palavra, localizou sua origem tupi-guarani, remeteu a história às entradas e bandeiras, a Borba Gato, a Fernão Dias, a muitos outros fatos e personagens e, quinze minutos depois, tudo bem dito e explicado, pôs o charuto na boca e sumiu porta adentro. Helmut aprendeu que “anhembi” é “o rio dos inhambus”, uma ave.



Dos pecados que esconde, Helmut confessa um pequeno delito que não chegou a lhe tirar o sono. Um dia, recebeu alguns livros que deveriam ser entregues à tarde, como sempre. Um deles, em alemão, idioma que havia aprendido por correspondência, tratava de folclore. Decidiu ler. Deliciou-se, e só o liberou dias depois. Como era encomenda registrada, Câmara Cascudo percebeu que estava atrasada, mas assinou o comprovante em silêncio, sem uma pergunta, e sumiu porta adentro. Nunca pediu explicações.

Quando não estava em serviço, Helmut ocupava o tempo com leitura e boemia. Leu os clássicos da literatura universal, adquiridos pelo reembolso postal. Embora não tenha passado do primário, sempre escreveu e leu compulsivamente: Shakespeare, Dostoiévski, Marx, Freud, Tolstói, Camões, Pessoa. Dos brasileiros, seus preferidos são até hoje Lima Barreto e Euclides da Cunha.

Sabe de cor passagens de Os Lusíadas, Os Sertões e ensaios freudianos. “E tem mais: só li uma vez. Decorei de primeira, entende? Vamos, anote aí: ‘.a travessia brasileira sertaneja é mais exaustiva que a de uma estepe nua. Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo largo, ao passo que a caatinga afoga, abrevia-lhe o olhar, agride-o, estonteia-o, enlaça-o na trama espinescente e não atrai, repulsa-o com as folhas urticantes.’ Não é bonito?”, pergunta, depois de declamar praticamente ipsis litteris um trecho de Os Sertões.

Helmut, O Carteiro de Cascudinho – título do livro que lançou em setembro último pela Sebo Vermelho Edições -, diz que parou de ler por pura preguiça. “Passo o dia no sebo. Leio um parágrafo de um, duas frases de outro e assim vou, bolinando as letras até morrer.” Helmut escreve alguma coisa todos os dias, para manter o hábito. No momento, está às voltas com suas memórias (em sentido amplo). O esforço já recebe alguma paga: o editor do futuro livro, Abimael Silva, dono do Vermelho, é obrigado a desembolsar 2 reais a cada página concluída pelo autor. O dinheiro ajuda a cobrir parte de uma despesa que vem de longe, desde os tempos de carteiro: seis maços de cigarro por dia.

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