questões futuristas

O cérebro eterno

Após morrer de câncer, aos 23, Kim Suozzi teve o córtex preservado, na esperança de que a ciência possa, um dia, ressuscitar sua mente

Amy Harmon
Quando Kim pediu ao pai que pagasse pelo tratamento que manteria o seu cérebro congelado, ele balançou a cabeça e disse: “Nisso, eu não posso te ajudar. Ninguém vive para sempre”
Quando Kim pediu ao pai que pagasse pelo tratamento que manteria o seu cérebro congelado, ele balançou a cabeça e disse: “Nisso, eu não posso te ajudar. Ninguém vive para sempre” ILUSTRAÇÃO: OWEN DAVEY_FOLIOART.CO.UK

Nos momentos que antecederam a morte precoce de Kim Suozzi, aos 23 anos, vítima de um câncer, coube a Josh Schisler levar adiante o plano de congelar o cérebro da namorada.

Enquanto soava o alarme do monitor de pulsação, e a respiração de Kim se tornava cada vez mais irregular, Josh se pôs a tatear em busca do telefone. Lutando contra a emoção que ameaçava paralisá-lo, ele alertou a equipe de criogenia que aguardava pelo seu telefonema, próximo dali. Também chamou as enfermeiras da unidade de cuidados paliativos, para que atestassem a morte. Qualquer demora poderia pôr em risco a chance de um dia, quem sabe, ressuscitar a mente de Kim.

Naquela manhã de céu límpido em janeiro de 2013, no Arizona, era impossível saber que fragmentos da identidade de Kim Suozzi iriam sobreviver – se é que algum sobreviveria. Será que ela se lembraria daquele primeiro e desajeitado beijo entre os dois, cinco anos antes, no dormitório da faculdade? Lembraria as piadinhas em código que somente eles entendiam e as brigas bobas? Lembraria a convulsão, a cirurgia, a generosa bolsa de pesquisa em neurociências que tivera de recusar?

Mais do que as lembranças, Josh – então com 24 anos – esperava que aquele procedimento experimental fosse capaz de salvar as sinapses, quaisquer que fossem elas, responsáveis pelo humor seco e generoso de Kim, os nexos cerebrais que a compeliam a cumprimentar cada gato que via com um “alôoooo” agudo, e também aqueles que a inspiravam a escrever poemas para ele.



Os dois sabiam como era estranha aquela esperança de que o cérebro dela pudesse ser preservado e armazenado a uma temperatura muito abaixo de zero para que, dali a algumas décadas ou séculos, se a ciência avançasse o bastante, seus bilhões de neurônios interconectados pudessem, então, ser escaneados, analisados e convertidos em um código digital capaz de imitar o funcionamento anterior do cérebro de Kim.

Mas o diagnóstico terminal de Kim viera num momento em que se iniciava um esforço global para compreender o cérebro. E algumas das ferramentas e técnicas surgidas dos laboratórios de neurociências já começavam a exibir alguma semelhança com aquelas imaginadas havia anos em fantasias futuristas. Neurocientistas estavam, por exemplo, começando a mapear as conexões entre neurônios isolados que, acredita-se, codificam muitos dos aspectos da memória e da identidade.

A pesquisa, limitada até aquele momento a pedacinhos do cérebro morto de animais, compartilhava dos objetivos de sempre: ampliar o conhecimento humano e melhorar a saúde das pessoas. Mas tinha um interesse específico em conseguir dar o primeiro passo na criação de uma simulação da mente humana – isto é, a preservação, após a morte, de todos os padrões de conexão existentes num único cérebro.

“Dentro de, digamos, quarenta anos, prevejo que vamos dispor de um método capaz de gerar uma réplica digital de uma mente humana”, acredita Winfried Denk, um dos diretores do Instituto Max Planck de Neurobiologia, na Alemanha. Denk, inventor de uma das várias técnicas de mapeamento que começam a surgir, afirma: “Esse não era o nosso objetivo primordial, mas não deixa de ser uma decorrência lógica do nosso trabalho.”

Outros neurocientistas não levam essa ideia a sério, tendo em vista as grandes lacunas existentes em nosso conhecimento de como o cérebro funciona. “Com nosso nível atual de compreensão, não estamos nem perto de poder replicar um cérebro”, diz Cori Bargmann, neurocientista da Universidade Rockefeller de Nova York e uma das responsáveis pela iniciativa do governo Obama de investir, ao longo da próxima década, 4,5 bilhões de dólares na pesquisa cerebral.

“Será que isso algum dia será possível?”, ela pergunta. “Não sei. Mas não será nos próximos cinquenta anos.”

Kim e Josh compreendiam bem que não se reuniriam tão cedo. Mas, enquanto houvesse uma chance de isso acontecer, por menor que fosse, achavam que valia a pena tentar preservar o cérebro dela.

Seria possível reconstituir o cérebro biológico de Kim, para que, algum dia, ela “acordasse”? Eis aí o maior sonho da criogenia ao longo dos últimos cinquenta anos. Kim não descartava essa possibilidade. Mas ela e Josh podiam também imaginar outro desfecho, bem diferente: o de ela voltar ao mundo num corpo artificial ou num ambiente simulado em computador, ou mesmo as duas coisas – sentimentos e sensações mediados não por um cérebro, e sim por um chip de silício.

“Só acho que vale a pena tentar preservar Kim”, disse Josh.

 

Por um breve período, três anos atrás, o jovem casal havia se tornado uma pequena sensação nas mídias sociais. Foi quando recorreram ao fórum online da rede social Reddit para pedir doações com o objetivo de pagar pelo armazenamento criogênico do cérebro de Kim, enquanto ela, num blog, postava vídeos sobre seu estado de saúde.

Kim também aceitou que um repórter do New York Times fosse entrevistar sua família, falasse com seus amigos e acompanhasse os meses que lhe restavam e a sua tentativa de conseguir uma nova chance. Impôs uma única condição: “Não quero que você pense que tenho alguma ideia de como será o futuro”, escreveu numa mensagem de texto. “Quero dizer, não me descreva como se eu soubesse.”

Numa cultura que valoriza a aceitação estoica da morte, o casal enfrentou uma onda de hostilidade, ao mesmo tempo que também recebia manifestações de solidariedade ao desejo de Kim de, em suas próprias palavras, “não perder tudo o que ainda iria acontecer”.

Tanto familiares como desconhecidos disseram aos dois que eles estavam desperdiçando o tempo precioso que ainda restava a ela com um sonho impossível. Kim respondia apenas que, “se funcionar, vai ser incrível”. “Morrer”, lhe disse seu pai, numa espécie de repreensão gentil, “faz parte da vida.”

 

A pesquisa sobre a preservação do cérebro estava apenas começando no momento em que a vida de Kim já se aproximava do final. Se, contudo, essa pesquisa começar a dar resultados, as questões que o casal enfrentou podem se apresentar a todos nós, e com implicações bastante profundas.

A técnica de mapeamento de que o dr. Denk e outros são pioneiros implica varrer o cérebro com um microscópio eletrônico e fatiá-lo em camadas incrivelmente finas. Empilhadas em computador, essas camadas finíssimas revelam um mapa tridimensional das conexões de cada neurônio, a anatomia fundamental do cérebro, também chamada de conectoma.

Difícil e cara, até aquele momento essa proeza só havia sido realizada com pedaços minúsculos do cérebro de animais sacrificados em laboratório – apenas um de muitos passos necessários para se obter uma simulação completa.

Além disso, os métodos de preservação utilizados pelos cientistas para poder efetuar essa varredura, que envolvem encapsular pedaços de cérebro em plástico rígido, haviam falhado com tudo quanto fosse maior que uma semente de gergelim. E os métodos hoje existentes de congelamento e preservação a temperaturas criogênicas – a única outra forma conhecida de impedir a deterioração do órgão – são incapazes de garantir a integridade da frágil fiação cerebral.

Foi para superar esse primeiro obstáculo – a preservação confiável de um conectoma – que o pesquisador cerebral Kenneth Hayworth criou a Fundação para a Preservação do Cérebro, pouco antes de Kim ser diagnosticada. Seu objetivo com a fundação era tornar a preservação cerebral parte da medicina estabelecida.

Com um conselho consultivo integrado por renomados neurocientistas, e munido de 100 mil dólares provenientes de um doador anônimo, o grupo ofereceu um prêmio para o primeiro indivíduo ou grupo que obtivesse êxito na preservação do conectoma de um camundongo ou coelho, e que o fizesse dentro dos padrões exigidos por uma revista científica, incluindo-se aí a validação dos resultados por outros neurocientistas.

Kim e Josh, no entanto, não podiam esperar. Raciocinavam que mesmo um cérebro mal preservado poderia vir a ser submetido a algum tipo de reparo digital, no futuro. “Eu te mostro o caminho das pedras”, Josh disse a ela, meio que brincando com a possibilidade de Kim voltar ao mundo num futuro distante. Na manhã em que ela morreu, isso significava ligar para as enfermeiras da unidade de cuidados paliativos enquanto Kim expirava.

 

Josh, estudante de ciência política, se apaixonou por Kim, agnóstica e vidrada em ciências, no primeiro ano de faculdade, pouco depois de conhecê-la num encontro de estudantes adeptos do Partido Libertário na Universidade Estadual de Truman em Kirksville, no estado do Missouri. Foi graças à oposição de ambos ao Patriot Act, o decreto de George W. Bush que aumentou o poder de intervenção dos órgãos de vigilância e segurança norte-americanos, que os dois se aproximaram, no outono de 2007.

Kim, que herdara do pai os cabelos escuros, estava apaixonada por outra pessoa. Mas Josh – loiro, alto e confiante, às vezes até demais, como ela notaria mais tarde – a convenceu a fazer campanha com ele por Ron Paul, pré-candidato libertário do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos.

Logo os dois se veriam conversando até altas horas da noite na sala vazia do alojamento estudantil no campus de Kirksville, de luzes apagadas para afastar os outros. Kim estudava ciências cognitivas, e Josh muitas vezes a convencia a lhe ensinar alguma coisa sobre o cérebro. “Ele fazia um monte de perguntas”, ela contou. “E me achava muito engraçada.”

Kim e Mikey, seu gato rabugento.
Kim e Mikey, seu gato rabugento. FOTO: REPRODUÇÃO_FACEBOOK
No segundo ano de faculdade, quando Josh fez 20 anos, Kim escreveu dois poemas para expressar o que sentia por ele, e, no terceiro, já haviam desenvolvido uma língua particular, cheia de piadas e de palavras pronunciadas equivocadamente. Tinham ouvido certa vez alguém dizer na CNN, ao falar sobre os preços cada vez mais altos da gasolina: Times is hard (algo como “são tempos difícil”). Aquela frase com erro de concordância se tornou dali em diante um bordão para os dois, aplicável a todos os assuntos, importantes ou desimportantes.

A primeira vez em que discutiram a possibilidade de alcançar uma espécie de imortalidade foi por causa de uma leitura indicada para o curso de ciências cognitivas de Kim: A Era das Máquinas Espirituais, de Ray Kurzweil, o pesquisador da área de inteligência artificial.

Kurzweil e outros, que se intitulam transumanistas, argumentam que crescimentos exponenciais na capacidade de processamento de dados pelos computadores vão gerar uma variedade de novas tecnologias que nos permitirão transcender nossos corpos e transferir nossas mentes para um computador. Kurzweil antevê um ponto de inflexão que alguns chamam de “singularidade”, quando a inteligência da máquina ultrapassará a dos seres humanos.

De acordo com o que dizia Ray Kurzweil, antes que Josh e Kim chegassem aos 50 anos, dispositivos microscópicos injetados na corrente sanguínea, os nanorrobôs, seriam capazes de fazer uma varredura do cérebro e transferir seu conteúdo diretamente para um computador.

Na eventualidade de uma morte súbita, o ser humano poderia, então, ser reinicializado a partir da última cópia de segurança. Teríamos à nossa disposição aprimoramentos de memória, de inteligência e capacidade de empatia, bem como a opção de mesclar nossa mente a outras – uma possibilidade, lembrou o casal, que levou Josh a se imaginar plugando-se ao cérebro de Mikey, o gato bastante rabugento de Kim.

Em seu trabalho de final de curso, naquele ano, Kim mencionou as críticas feitas à previsão de Kurzweil de que a singularidade seria atingida por volta de 2045. A aposta do pesquisador, de toda forma, vinha ganhando adeptos no Google, onde ele ocupava o cargo de diretor de engenharia. Kim escreveu: “É possível que essa previsão, tão espantosa por sua proximidade, esteja equivocada, e talvez muito equivocada.”

Não obstante, a ideia de que a mente é aquilo que o cérebro computa, e que essas computações podem ser simuladas, soava perfeitamente natural para Kim, que trabalhava como assistente de pesquisa de um professor de psicologia cognitiva e, no verão de seu terceiro ano de faculdade, fizera um estágio em neurociências na Universidade do Colorado. “Você nada mais é que um padrão de sinais elétricos”, ela costumava ensinar a Josh, talvez acrescentando um palavrão para amenizar a força daquela declaração.

A perspectiva da vida como uma simulação de computador não os inquietava: “Como saber se nossa vida atual já não é uma simulação?”, perguntavam-se durante os almoços no refeitório da faculdade. Além disso, sabiam que partes artificiais do corpo humano controladas pela mente já estavam sendo testadas em veteranos de guerra, num aparente prelúdio a corpos robóticos.

“Ha, ha, ha, vamos estar vivos quando essa singularidade chegar!”, Kim exclamava.

“Só espero que a gente não se destrua antes disso”, concordava Josh.

Mas os dois tinham um plano para o futuro mais imediato também. No começo do último semestre de faculdade, Kim se candidatou a uma bolsa de neurociências – algo que serviria como uma etapa preparatória para uma pós-graduação. Josh estava prestes a assumir um posto de assessor legislativo de um deputado estadual do Missouri, mas decidiu que poderia conseguir um outro emprego na política, onde quer que a namorada acabasse indo parar. Kim também cedeu. Mais adiante, teriam um filho, ela concordou, depois de alguma pressão por parte de Josh.

 

As dores de cabeça começaram naquele inverno. “Será que você pode me trazer um Advil aqui na faculdade?”, ela escreveu para Josh certa tarde. Em seguida, veio a convulsão. Kim estava no carro de uma amiga, voltando para Kirksville em meados de fevereiro, depois de passar uma semana de folga com a mãe, num subúrbio de classe média de St. Louis. De repente, sentiu dificuldade para falar.

Olhou, então, para a própria mão e sentiu como se ela não fizesse mais parte do seu corpo. Acabou indo para o hospital. Ela e Josh passaram boa parte das semanas seguintes no Barnes-Jewish Hospital de St. Louis.

Em meados de março de 2011, Kim anunciou no Facebook: “Boa notícia: consegui vaga no programa BRAIN do Centro de Neurociências Comportamentais.” Ela havia passado por uma série de ressonâncias magnéticas, as quais tinham revelado um tumor que os médicos acreditavam ser benigno. “Notícia ruim: tem um tumor no meu BRAIN.”

Foi Josh quem disse a ela que o tumor era maligno, quando Kim acordou da cirurgia para a remoção das células. “Você está brincando?”, ela lhe perguntou três vezes, até perceber que ele não estava. Poucas semanas mais tarde, ficaram sabendo que se tratava de um glioblastoma, um tipo virulento e incurável de câncer.

O tempo de sobrevivência média para pacientes como Kim, tratados com radiação e quimioterapia comuns, era de menos de dois anos. Disseram ao casal que, a menos que ela respondesse a remédios experimentais, Kim provavelmente passaria por um período de remissão, depois do qual o câncer voltaria e o declínio seria rápido.

Em abril, ao longo da semana em que se diagnosticou a doença, a página de Josh no Facebook dizia apenas: “Maldição.”

 

A maneira como os processos físico-químicos do cérebro dão origem a pensamentos, sentimentos e comportamento é algo que permanece um mistério – como replicá-los, ainda mais. Muitos neurocientistas veem a possibilidade de reproduzir a consciência de um indivíduo como algo ainda inconcebivelmente distante.

“Temos de reconhecer que existem lacunas gigantescas que precisam ser superadas”, afirmou Stephen J. Smith, neurocientista do Instituto Allen para a Ciência do Cérebro de Seattle. “O cérebro tem conseguido preservar muitos de seus segredos.”

Para Jeffrey Lichtman, neurocientista de Harvard, “nada do que vemos hoje em dia está perto de uma realidade na qual um paciente humano poderia imaginar seu cérebro convertido em alguma coisa reproduzível em silício”.

Na primavera de 2011, porém, quando Kim começava a quimioterapia que lhe provocou urticárias pelo corpo todo, uma carta inusitada apareceu na revista Cryonics. Intitulada “Prêmio para a Tecnologia de Preservação do Cérebro: um desafio para criogenistas e cientistas”, ela argumentava que, se um cérebro pudesse ser preservado adequadamente, o tempo não seria problema.

A revista é publicada pela Fundação Alcor para a Extensão da Vida, a maior de duas organizações norte-americanas dedicadas à criogenia. Fundada na década de 70, a Alcor é mais conhecida por armazenar a cabeça congelada do astro de beisebol Ted Williams, além de cerca de outras 140 pessoas, todas esperançosas de que, um dia, seja possível reanimá-las. A fundação, sem fins lucrativos, tem cerca de mil membros, que pagam para, depois da morte, serem submetidos ao procedimento de preservação.

O dr. Kenneth Hayworth, à época pesquisador de pós-doutorado em Harvard, havia escrito a carta com o intuito de apresentar o prêmio de preservação do cérebro. Talvez o único neurocientista estabelecido a dizer abertamente que, um dia, gostaria de transferir seu cérebro para um computador – e a argumentar que essa prática poderia trazer benefícios à sociedade –, Hayworth se declarava à época um “membro cético” da Alcor.

“Por que destruir a sabedoria que acumulamos individualmente e em conjunto a cada geração, se isso não é necessário?”, ele dizia, tentando convencer repórteres, colegas cientistas e potenciais doadores.

Hayworth alegava que se o conectoma, desenhado pelos genes e alterado pela experiência de vida, era de fato o único repositório da identidade, como muitos neurocientistas argumentavam ser, não havia razão para que a transferência da mente não fosse bem-sucedida, “sobretudo hoje, quando vemos que é possível salvá-lo por meio da expansão da tecnologia de mapeamento neuronal”.

“Um iconoclasta com credenciais legítimas de pesquisador”, como o descrevera certa vez o Chronicle of Higher Education, o dr. Hayworth havia colaborado na invenção de uma dessas tecnologias de mapeamento e, mais tarde, em 2011, assumiria o posto de cientista sênior no Instituto Médico Howard Hughes, com o intuito de aperfeiçoar outra.

Embora muitos concordem que o conectoma codifica nossas memórias e os comportamentos aprendidos, é controversa a crença do dr. Hayworth de que um mapa das sinapses do cérebro poderá, um dia, bastar para a reconstrução da mente de uma pessoa. Muitos cientistas dizem que simular corretamente um cérebro funcional a partir de um mapa estático de seus circuitos é algo que vai requerer uma compreensão de como o cérebro vivo funciona muito maior do que temos hoje. E, para tanto, além de saber como os neurônios se conectam, pode ser necessário determinar também a identidade molecular de cada um deles.

Um problema adicional reside no fato de que realizar essa varredura e essa análise do conectoma, com a tecnologia atualmente à disposição, custaria bilhões de dólares e demandaria milhares de anos. E isso sem considerar que ninguém sabe ao certo se mesmo uma simulação perfeita da mente seria capaz de fazer renascer a consciência que havia na mente original.

Numa indicação do ceticismo predominante quanto à possibilidade de simular um cérebro, o dr. Hayworth acabou não sendo capaz de coletar uma soma substancial para seu prêmio. Peter Thiel, por exemplo, cofundador do site de pagamentos PayPal, conhecido investidor em empreitadas de risco e membro confesso da Alcor – “a criogenia só parece perturbadora porque ela desafia nossa complacência com a morte”, ele declarou certa vez –, negou contribuição para o prêmio.

Mas um doador anônimo acabou oferecendo 100 mil dólares, depois de ouvir o dr. Hayworth discursar numa conferência de 2010 em Cambridge, no estado de Massachusetts. Assim, ele agora dispunha de dinheiro suficiente para conceder um prêmio de 25 mil pela preservação de um cérebro pequeno de um mamífero (um coelho ou camundongo) e reservar 100 mil para a de um animal maior (provavelmente um porco). E já tinha também um candidato a ganhador: Shawn Mikula, à época pós-doutorando no Instituto Max Planck.

Os competidores seriam julgados por outros neurocientistas. Deveriam submeter porções dos cérebros preservados para exame num microscópio eletrônico. Para que houvesse um ganhador, uma descrição de sua técnica teria de ser aceita para publicação em uma revista científica.

 

O desafio para os competidores era descobrir como preservar um cérebro de modo a poder submetê-lo à varredura – se mediante substâncias químicas ou congelamento.

No método do dr. Shawn Mikula, chamado de quimiopreservação, os neurocientistas precisam, antes de mais nada, inserir uma agulha contendo um fixador químico no coração de um animal anestesiado e ainda vivo, a fim de que o fixador seja bombeado para o cérebro e, em essência, mantenha colada sua estrutura. O cérebro é, então, banhado em metal pesado, para que os neurônios possam ser vistos num microscópio eletrônico; por fim, a água é drenada, e o cérebro é encapsulado em plástico rígido.

Esse método apresenta o benefício considerável de possibilitar o armazenamento à temperatura ambiente. Alguns neurocientistas, todavia, argumentam que as substâncias químicas apagam a informação que seria necessária para criar uma simulação exata do cérebro.

Já a criogenia, em suas décadas de existência, armazena cérebros e corpos humanos a cerca de 149 graus Celsius negativos e, desde o final da década de 90, emprega um anticongelante viscoso em substituição ao sangue e à água no cérebro, a fim de preservá-lo antes do armazenamento.

O anticongelante é necessário para impedir a formação de cristais irregulares de gelo entre as células cerebrais, os quais poderiam rasgar a teia frágil de tecido. Como, porém, a criogenia só pode ter início depois de ser oficialmente atestada a morte do paciente, coágulos podem se formar, arruinando os vasos antes mesmo de iniciado o processo. Ainda que o anticongelante seja aplicado imediatamente, sua circulação pode levar horas.

Alguns defensores desse procedimento, conhecido como criopreservação, vêm querendo há anos preservar cérebros para transferi-los para um computador. A maioria deles nutre a esperança de que o dano químico provocado nas células cerebrais possa, um dia, ser revertido, permitindo que os cérebros sejam descongelados e reparados.

Ainda assim, a dependência de uma tecnologia puramente hipotética para levar a cabo essa ideia de reparar o cérebro já levou um crítico, num ensaio de 2001 para a Scientific American, a descartar a criogenia por ser um procedimento “baseado quase inteiramente na fé na natureza”.

Em sua carta, o dr. Hayworth dizia que a competição podia mudar essa situação. “Assim que as primeiras equipes começarem a mostrar progresso real na corrida pelo prêmio”, escreveu ele, “tenho certeza de que veremos uma mudança de atitude em relação à ideia da criogenia, e isso será um divisor de águas dentro da comunidade científica como um todo.”

 

Kim passou aquele que seria provavelmente seu último ano de vida tentando não se preocupar com a morte. Enquanto Josh ia e voltava do trabalho – da casinha que alugaram em Columbia até Jefferson City, a capital do estado –, ela atuava como voluntária num laboratório de neurociências da Universidade de Missouri. Kim deu início a uma dieta com baixos teores de açúcar e começou a escrever um blog sobre o câncer, no qual buscava parodiar o gênero.

“Quero botar uma entrada no topo da página com a pergunta KIM ESTÁ VIVA?”, escreveu à amiga Abby Neidig numa mensagem pelo Facebook. “E ela dirá que sim, a não ser que eu tenha morrido. Aí, a resposta será: ‘Não, me desculpe. Espero que você não esteja descobrindo isso neste momento.’”

“Acho bem engraçado”, ela insistiu.

Conforme o estado de saúde dela foi piorando, Kim e Josh começaram a receber uma enxurrada de ofertas generosas de usuários da rede social Reddit, onde ela também escrevia sobre sua situação. As ofertas iam de uma semana no balneário de Cape Cod a passagens aéreas para a Austrália, passando por quantidades aparentemente ilimitadas de drogas ilícitas.

Embora eles soubessem que suas chances eram minúsculas, não tinham escolha a não ser esperar que o tumor não retornasse, ou que alguma droga experimental viesse a ajudá-la. Kim tentava não fazer planos para o futuro – como disse à amiga Kailey Burger –, mas às vezes eles apareciam assim mesmo, como quando se flagrou pensando: “Quando eu for adulta, quero ter uma daquelas geladeiras que têm o freezer na parte de baixo.”

O tumor reapareceu numa ressonância magnética na primavera de 2012, e o casal soube que o ano sem câncer chegara ao fim. O lado direito do corpo de Kim estava começando a enfraquecer. Logo, ela não conseguiria mais apanhar coisas com a mão direita, escrever ou jogar seu videogame preferido, A Lenda de Zelda.

O fato de o tumor ter retornado no tronco cerebral significava que ele não poderia ser operado, o que a excluía dos programas mais promissores de drogas experimentais. Por outro lado, como essa região controla basicamente funções corporais como a respiração, “provavelmente vou morrer antes que o tumor se espalhe pelas áreas que determinam quem eu sou”, Kim escreveu no fórum da internet.

Ela se interessava por criogenia desde que lera a esse respeito nos livros de Kurzweil. Mas sabia que era um procedimento caro e que a forma mais comum de se conseguir pagar por ele – fazer uma apólice de seguro de valor equivalente – não estava disponível para uma garota de 22 anos que não havia feito seguro antes e tinha câncer terminal no cérebro.

Kim hesitara em sondar seu pai, Rick Suozzi – um representante comercial de equipamentos médicos –, sobre a possibilidade de ele pagar pelo procedimento. Mesmo no círculo íntimo dos amigos que a apoiavam, as pessoas não souberam bem o que dizer quando ela tocou no assunto. Até que Kim mencionasse a criogenia, um de seus amigos pensava tratar-se de ficção inventada pelos criadores de Futurama, a série de desenho animado cujo protagonista, “criopreservado por acidente”, acorda no futuro.

“As pessoas ficam assustadas”, ela disse a Josh.

E quando por fim falou com seu pai sobre o assunto, num saguão de aeroporto em junho de 2012, a discordância dele serviu para que ela se desse conta das resistências que teria de enfrentar.

A conversa aconteceu depois de Rick Suozzi insistir em oferecer uma viagem de férias ao casal. “Tem alguma coisa que vocês gostariam de fazer juntos?”, perguntou. “Ir para a Europa? Fazer um cruzeiro?” Como muitas outras pessoas, ele só conhecia a criogenia como objeto de zombaria nos programas de entrevistas da tevê. Quando Kim respondeu à oferta do pai, dizendo o que ela queria, ele simplesmente balançou a cabeça. “Nisso, não posso te ajudar”, ele disse. “Ninguém vive para sempre, Kim.”

Josh ligou para ele, conclamando-o a reconsiderar a decisão numa conversa telefônica de que o sr. Suozzi se lembra como acalorada. “O que está dizendo?”, Josh perguntou. “Que o melhor seria simplesmente parar de tentar tratar o câncer também?”

“Se é realmente isso o que vocês querem fazer”, ele respondeu, “vão ter de descobrir um jeito de conseguir fazê-lo sozinhos.”

 

Os dois tiveram, então, uma outra ideia para levantar o dinheiro.

O Reddit, com seus muitos usuários de todas as partes, sempre cheios de opiniões e conhecidos por ajudar aqueles cujo drama possui apelo coletivo, pairava como um último recurso possível desde o momento em que a postagem de Kim sobre o câncer suscitara uma avalanche de manifestações de apoio.

“Mas por que alguém doaria dinheiro?”, ela perguntou a Josh. “Não há nenhuma razão convincente para que as pessoas acreditem que eu mereço uma nova chance.”

“Pois diga isso, então”, ele respondeu, “e deixe que elas decidam por si próprias.”

Antes, porém, passaram as duas semanas seguintes numa residência de apoio da Sociedade Americana de Câncer para os pacientes do Instituto de Câncer Dana-Farber, em Boston, onde Kim fora aceita no programa de testes de uma nova droga experimental. Lá, em meio aos testes, concentraram-se no que seria necessário fazer para preservar a mente de Kim e, depois, reconstruí-la.

Leram artigos acadêmicos de neurociências, discussões online sobre o assunto e a página da Alcor na internet. A fundação, descobriram, incentivava seus membros a optar por aquilo que chamava de “neuropreservação”, isto é, a preservação apenas do cérebro, em vez do congelamento do corpo inteiro. Dada a necessidade imperativa de agir com rapidez, argumentava a lógica, era melhor concentrar todos os esforços no cérebro.

“Se eu for congelada, vão cortar fora minha cabeça”, Kim contou à amiga, Neidig, em tom casual. “É mais barato e, ao que parece, o procedimento é mais rápido.” Além disso, a ideia de uma Kim sem corpo não parecia ser um problema para Josh. “Não estava nos meus planos abandoná-la quando ela ficasse velha e flácida”, comentou.

Se os 80 mil dólares necessários à neuropreservação pareciam muito dinheiro, eles descobriram que um terço dessa soma se destinava a pagar uma equipe médica que estivesse de prontidão na hora da morte; outro terço ia para um fundo destinado à futura reanimação. O rendimento do fundo pagaria também pela armazenagem em nitrogênio líquido, gelado a ponto de impedir a degradação do tecido biológico por milênios.

Parte do que descobriram também causou alguma apreensão. Uma vez bombeado para os vasos sanguíneos, e antes que a formação de gelo possa causar danos, o anticongelante da Alcor se transforma numa substância vítrea. O processo, chamado de vitrificação, é parecido com o empregado para armazenar espermatozoides, óvulos e embriões nos tratamentos para fertilidade. Sabe-se, no entanto, que essa substância vítrea tende a sofrer rachaduras, provocando danos de outra natureza.

Os dois se sentiram assoberbados com a quantidade de cenários possíveis. Kim voltaria em 100 anos ou mil? Josh estaria lá? Sob que forma? Se danificado, o cérebro biológico podia mesmo ser consertado?

A perspectiva oferecida pela criogenia não lhes parecia, além disso, tão diferente daquela dos testes clínicos a que centenas de pacientes com câncer se submetiam, com chances mínimas de sucesso e a um custo gigantesco. Mesmo que a criopreservação fosse a ideal, o dano causado pelo tumor de Kim demandaria consertos. E eles tinham consciência de que o próprio procedimento poderia vir a causar danos extras ao cérebro.

Contudo, como a própria Kim observou, seu cérebro já havia parado de funcionar bem, e mesmo assim ela ainda extraía prazer da vida. Como outros pacientes que sofrem danos cerebrais, ela acreditava que a reabilitação era possível. Na verdade, consertos digitais poderiam ser mais fáceis que a recuperação física. Parte da pesquisa em neurociências já apontava para a possibilidade de se reconstituir um conectoma danificado.

As lembranças, por exemplo, parecem ser armazenadas em diferentes lugares. Certas áreas do cérebro – como as responsáveis pela atenção – poderiam ser substituídas por peças sobressalentes. Além disso, a identidade molecular dos neurônios dava pistas do que conectar onde. E neurônios danificados poderiam ser reconstruídos digitalmente, o que, na opinião de alguns pesquisadores, nem precisava ser feito com tanta precisão.

“A gente chega a se perguntar quantos erros pode cometer e, não obstante, obter como resultado a mesma pessoa”, declarou numa entrevista o diretor do Centro de Pesquisa Cerebral da Universidade Harvard, Joshua R. Sanes. “Nossa capacidade de permanecer nós mesmos, a despeito de mudanças em nosso sistema nervoso, é espantosa.”

Kim tentava levar tudo isso na brincadeira. “Você vai ter que me aprimorar”, dizia a Josh. Mas falava sério quando disse ao namorado que preferiria sobreviver com danos a não sobreviver. Em meio a todas as fantasias que os dois se permitiam, ela fez questão de dizer a Josh algo mais palpável também: “Quero que você seja feliz. Vai encontrar outra pessoa e ficar bem.”

Quando, em agosto, uma ressonância magnética mostrou que a droga experimental não conseguira deter o crescimento do tumor, Kim e Josh fizeram um pequeno vídeo para pôr no blog. Nele, ela pedia doações para a criogenia. “Preparem-se para me achar uma pessoa estranha”, escreveu numa postagem no Facebook que continha um link para o vídeo.

No dia seguinte, enquanto atravessavam o país rumo à Universidade Duke em Durham, Carolina do Norte, onde Kim faria radioterapia, ela se explicaria um pouco melhor: “Reddit, me ajude a encontrar alguma paz no fato de morrer tão jovem (tenho 23 anos).” Josh, com uma mão ainda ao volante, procurava uma caneta. Num pedaço de papel, rabiscou “Reddit, me congele”, e passou o bilhete a ela.

Kim tirou uma foto de si mesma, incluiu-a na postagem e clicou em “enviar”.

 

Depois da primeira onda de respostas, Kim escreveu a uma amiga: “O Reddit foi rude.”

Centenas de pessoas expressaram sua opinião, diretamente ou por meio de links, durante os dias que se seguiram; mais ainda depois que Kim apareceu no noticiário local da tevê. O casal estava preparado para as objeções à criogenia e à transferência de mentes para um computador. Proporcionou-lhes até certo prazer a discussão filosófica sobre se uma mente transferida para um computador não daria origem, em essência, a um zumbi, dotado de todos os comportamentos do original, mas desprovido de sua alma.

Alguns rechaçavam a perspectiva de viver vidas mais longas, citando o medo do tédio, de se tornarem pessoas inúteis ou da solidão. Outros sugeriam que o futuro terá pouco interesse em relíquias da década de 2010. (“Você seria pouco mais que um roedor para eles, em matéria de inteligência”, alguém escreveu.)

Mas foi a hostilidade que surpreendeu Kim e Josh, como se eles estivessem propondo um pacto faustiano para toda a humanidade. Uma das respostas prometia doar dinheiro para a pesquisa do câncer, e “não para essa sua quimérica tentativa de autopreservação”. Outra chamava Kim de “uma idiota egoísta”. Josh refutou os críticos online e fingiu se controlar. “Algumas pessoas que curtem a vida brigam por alguma chance de permanecerem vivas”, respondeu ele a uma postagem que sugeria que Kim deveria aproveitar o tempo que lhe restava para “viver sua vida de fato”.

Ainda assim, a postagem original de Kim teve 89% de votos favoráveis, o equivalente às “curtidas” do Facebook – um sucesso em se tratando do Reddit. E esses simples cliques vieram acompanhados de uma avalanche de manifestações de apoio de estranhos.

Em poucas horas, um engenheiro de software do Google, Maksym Taran – que, como Kim, tinha 23 anos –, doou mil dólares e, alguns dias mais tarde, escreveu que arcaria com toda a despesa, caso ela não conseguisse levantar o dinheiro. Outro doador foi Michael Andregg, de 31 anos à época, cofundador da Halcyon Molecular, uma famosa startup do Vale do Silício do ramo da genética. “Eu espero que você melhore”, escreveu, “mas, caso isso não aconteça, recorra à criopreservação.”

Parijata Mackey, uma jovem mulher da Califórnia, pôs Kim em contato com um membro da diretoria da Alcor e deu a ela o número de seu próprio telefone. “Se você se sentir entediada ou quiser conversar sobre o futuro da criogenia, da ciência e coisas desse tipo, fique à vontade para me ligar quando quiser.” Um grupo de antigos apoiadores da criogenia, a Society for Venturism, se manifestou, assim como a mãe de Kim, que transferiu para a filha uma apólice de seguro que fizera em nome dela, no valor de 10 mil dólares.

Com as doações entrando e os contatos na Alcor a indicar que era quase certo que Kim conseguiria todo o dinheiro de que precisava, Josh sentou-a para fazer um vídeo de agradecimento.

 

Embora decidida a não fazer uma espécie de “lista de últimos desejos”, Kim admitia ter certo interesse em conhecer o Grand Canyon, e, em outubro de 2012, ela e Josh partiram para lá numa viagem de carro. Antes, porém, pararam numa conferência que a Alcor estava promovendo em Scottsdale, no Arizona, como parte das comemorações do quadragésimo aniversário da organização dedicada à criogenia. Kim havia sido convidada a discursar.

A conferência estava lotada de apoiadores e de gente que desejava o bem dela, inclusive de pessoas que lhe haviam doado dinheiro. E Kim estava ansiosa para ouvir a palestra de Sebastian Seung, neurocientista da Universidade Princeton que levara a criogenia a sério em seu livro publicado naquele mesmo ano: Connectome: How the Brain’s Wiring Makes Us Who We Are [Conectoma: Como as Conexões Cerebrais nos Definem].

Se as conexões cerebrais permanecem intactas no procedimento criogênico, ou se elas podem ser reconstituídas – ele escrevera –, “então ressuscitar lembranças e restaurar a personalidade individual são possibilidades que não podem ser descartadas”.

Mas o dr. Seung, conselheiro da Fundação para a Preservação do Cérebro, advertiu os membros da Alcor de que esperava que sua palestra os ajudasse a tomar “decisões embasadas”. Embora mapas tridimensionais de porções do cérebro tivessem se tornado fáceis de obter – o dr. Seung observou –, a Alcor não havia publicado essas imagens, nem mesmo dos cérebros de animais preservados de acordo com seu protocolo. Só haviam publicado imagens bidimensionais. Isso levantava dúvidas sobre a qualidade da preservação dos cérebros de seus clientes.

De pronto, seguiu-se uma discussão acalorada entre alguns integrantes do público sobre como preservar cérebros. Greg Fahy, cientista-chefe da 21st Century Medicine – a companhia que inventou o crioprotetor que a Alcor empregava para impedir a formação de cristais de gelo no cérebro –, defendeu os métodos da organização, destacando que inexistia um método capaz de preservar o conectoma mediante o uso de fixador e do encapsulamento em plástico, abordagem cuja eficácia tampouco havia sido comprovada.

O dr. Fahy, um criobiólogo cuja pesquisa se concentrava em bancos de órgãos, havia alcançado os resultados mais promissores de que a criogenia era, sim, capaz de preservar a estrutura cerebral. Num experimento de 2009, sua equipe demonstrara que amostras de neurônios de um coelho imersas na solução, congeladas a temperaturas criogênicas e depois reaquecidas respondiam a estímulos elétricos.

Seu método, ele postulava, preservava o conectoma. Mas uma complicação o impedira de entrar na disputa pelo prêmio de preservação do cérebro: o tecido cerebral impregnado de crioprotetor invariavelmente desidrata, o que torna impossível ver detalhes dos neurônios encolhidos e de suas conexões num microscópio eletrônico.

O dr. Hayworth, responsável pelo prêmio, argumentou que uma amostra do tecido nervoso que respondia a estimulação elétrica não constituía prova convincente da preservação das conexões críticas em todo o órgão.

E, no entanto, o único candidato ao prêmio até então – o dr. Mikula, do Instituto Max Planck – também havia experimentado dificuldades num estágio fundamental de seu método, aquele que permitiria que o tecido cerebral pudesse ser visto num microscópio eletrônico.

Assim sendo, o dr. Hayworth conclamou o dr. Fahy a encontrar um modo de validar seu trabalho. “Precisamos ver para crer”, disse ele.

Havia, de fato, uma possibilidade – já considerada pelo dr. Fahy. Ele poderia, em primeiro lugar, fixar a estrutura do cérebro com substâncias químicas, como fazia o dr. Mikula, e, assim, ganhar tempo para aplicar o crioprotetor mais lentamente e evitar a desidratação. Mas não dispunha de financiamento, ele disse, para um projeto que não teria nenhuma aplicação prática nos bancos de órgãos. Além disso, sua companhia se concentrava no que ele chamou de criopreservação “reversível”, e fixar a estrutura do cérebro com substâncias químicas, como se fazia na quimiopreservação, tornava ainda mais distante a possibilidade de reanimação biológica, objetivo de muitos membros da Alcor.

O discurso de Kim foi bem recebido. Josh, que assistiu da plateia à apresentação, sentiu-se animado com os aplausos que irromperam várias vezes durante a breve fala da namorada. Notou, contudo, que Kim perdera o fio da meada mais de uma vez.

 

No começo de novembro, Kim nomeou Josh seu procurador. Ela compreendera melhor que ele, Josh percebeu mais tarde, que já lhe restava então muito pouco tempo. “Eu sei, mãe, pai, que vocês respeitariam meus últimos desejos”, ela disse para a câmera do celular, “mas Josh é quem me conhece melhor.” Josh, que num aniversário dela atendera ao pedido de Kim para que ele a vestisse, agora fazia isso todo dia.

Eles haviam decidido que Kim morreria na unidade de cuidados paliativos que a Alcor sugerira, porque o local ficava próximo da sede da empresa em Scottsdale, e a equipe de criogenia estaria à mão, com todo o equipamento necessário para dar início imediato ao procedimento de preservação. E, depois de uma áspera troca de palavras em que o pai ameaçou levar Kim à força para a Flórida, o sr. Suozzi recuou.

“Josh e eu só temos uma coisa em comum”, ele disse, com relutante admiração, “nosso amor por Kim.”

Kim decidiu recusar comida e água, a fim de acelerar a própria morte, antes que o tumor consumisse porção maior de seu cérebro. No entanto, doze dias após sua chegada à clínica – muitos mais do que eles imaginaram que seria necessário –, a unidade de cuidados paliativos informou ao casal que, como o estado de saúde dela havia se estabilizado, Kim não podia mais ficar internada.

O técnico em medicina de emergência da Alcor estava proibido de tocar nela antes que a morte fosse oficialmente atestada por um médico ou uma enfermeira. Quando Josh protestou, a clínica assegurou-lhe que a enfermeira chegaria ao apartamento em menos de quinze minutos. Ela se referia ao apartamento que o pai de Kim havia alugado para a filha nas proximidades da clínica.

Quando, porém, dois dias depois de deixar a unidade, Josh ligou para lá às cinco da manhã para dizer que Kim estava morrendo, foi preciso esperar por uma hora para que alguma das enfermeiras respondesse. Estavam no horário da troca de turno, disseram-lhe.

Uma vez iniciado, o procedimento em si transcorreu, de modo geral, conforme o planejado. Com a ajuda de duas enfermeiras contratadas pela Alcor, o técnico em medicina de emergência da companhia, Aaron Drake, tomou uma série de medidas destinadas a proteger os vasos sanguíneos no cérebro de Kim.

Ele a conectou a um dispositivo de ressuscitação cardiopulmonar, a fim de restabelecer a circulação sanguínea. Um tubo foi inserido para levar ar aos pulmões. Medicamentos foram administrados para desfazer coágulos e impedir que o cérebro inchasse. Depois, Kim foi submetida a um banho de gelo e carregada para a ambulância, para o breve percurso até as instalações da Alcor.

Ao final da manhã, a cabeça já havia sido separada do corpo. Por uma janela de vidro, Josh observou quando o crioprotetor foi injetado por meio das principais artérias cerebrais.

Quando tudo que restava a fazer era seguir resfriando-a com nitrogênio líquido, Josh olhou para o rosto de Kim pela última vez. Tinham feito o melhor que podiam, pensou.

 

Josh chorou a morte de Kim da maneira habitual – e também de outras maneiras, pouco comuns. Ele tinha prometido à namorada que, de tempos em tempos, lhe deixaria mensagens, para que ela pudesse se inteirar do que havia perdido. E foi o que fez.

Além disso, retomou o emprego que havia abandonado para poder cuidar dela, nos meses que antecederam sua morte. Pôs-se, também, a reconstruir os laços com a família e os amigos, que negligenciara enquanto ela estava doente, e tentou, como Kim certa vez lhe dissera, “encontrar outra pessoa”.

Quando uma tomografia computadorizada do cérebro de Kim chegou da Alcor, ela parecia mostrar que o crioprotetor só havia alcançado a porção exterior do cérebro dela, expondo o restante aos danos provocados pelo gelo. Josh se consolou com o fato de que pelo menos essa camada exterior, associada ao pensamento abstrato e à linguagem, parecia estar protegida.

Ele nutre a esperança de revê-la algum dia. “Até (ou a menos) que chegue o dia em que ela possa ser trazida de volta”, escreveu no Facebook dela, “lembrem-se de Kim, celebrem-na e imitem sua força, para que possamos criar o futuro dos sonhos dela.”

O pai de Kim às vezes também deixa mensagens de voz para a filha. Caso ela apareça mesmo para ouvi-las, ele disse. “Kim, é o papai”, costuma dizer. “Só queria deixar uma mensagem para você.”

A pesquisa acerca de como preservar o cérebro foi adiante também. No final do outono de 2013, quase um ano depois da morte de Kim, Steve Aoki, DJ e celebridade, anunciou uma ação beneficente em prol da pesquisa cerebral. De quatro instituições indicadas por ele em sua página no Facebook, a que recebesse mais “curtidas” durante o mês seguinte ganharia um dólar por cada ingresso vendido de sua turnê, perfazendo um total provável de 50 mil dólares. Uma delas era a Fundação para a Preservação do Cérebro do dr. Hayworth.

Não levou muito tempo para que a fundação ganhasse o concurso. Do dinheiro arrecadado, 20 mil dólares foram destinados ao dr. Fahy, a fim de que ele possa testar seu novo método: antes de mais nada, fixar o conectoma com substâncias químicas, para que o cérebro não desidrate nem encolha, e se possam ver suas amostras num microscópio eletrônico.

O dr. Mikula também conseguiu algum dinheiro e fez progressos. Entre centenas de solventes, descobriu aquele que lhe permitiu levar a cabo a tarefa de banhar o cérebro inteiro de um camundongo e preservá-lo em plástico. A técnica, escreveu ele num e-mail, provavelmente poderá “ser adaptada para o cérebro humano dentro de cinco anos”.

A Nature Methods publicou seu procedimento em abril deste ano. E, em setembro, um artigo do dr. Fahy e de um colega da 21st Century Medicine, Robert McIntyre, foi aceito para publicação na Cryobiology. O artigo inclui imagens, feitas em microscópio eletrônico, dos cérebros de um coelho e de um porco, ambos preservados de acordo com o método proposto.

Os dois grupos submeteram seus trabalhos à apreciação do Prêmio para a Tecnologia de Preservação do Cérebro.

Amy Harmon

Amy Harmon é repórter do New York Times especializada em ciência e tecnologia

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