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O cheiro de cimento me inebria

Guilherme Guimarães, o estilista das noivas, gira sem parar num carrossel de extravagâncias

Danuza Leão
Guigui no seu apartamento, onde cada centímetro está ocupado por bibelôs, adereços, tapeçarias, biombos, estatuetas, tapetes de zebra com rabo e tudo, pufes, troços, coisas, trecos
Guigui no seu apartamento, onde cada centímetro está ocupado por bibelôs, adereços, tapeçarias, biombos, estatuetas, tapetes de zebra com rabo e tudo, pufes, troços, coisas, trecos FOTO: ROGÉRIO REIS_2006

Em meados dos anos 60, Guilherme Guimarães era considerado o maior costureiro do Brasil. Seus vestidos de gala e de noiva eram, como se dizia na época, a coqueluche das grã-finas. Poderia também ter sido um decorador de sucesso extraordinário. Por que não foi? “Porque não agüentaria que um casal viesse me dizer que queria uma sala com hometheatre para ver novela com as crianças”, responde, na lata. “Gente assim, só matando.” Suas casas foram muitas. Pelo andar da carruagem, ainda serão muitas mais. No momento, ele tem um apartamento na avenida São Luís, no Centro de São Paulo, com um Miró na parede, e outro no Rio, no Flamengo. “Gosto de andar na contramão. Fui morar na Barra quando a Barra era um mato, e agora que todo mundo foi para lá, eu vim para o Flamengo.” Na casa da Barra havia uma piscina retangular. Um dia, ele juntou uma turma de pedreiros para mudar a posição da piscina. Apenas uma virada, como se faz com um cinzeiro. “Sou louco por uma obra, o cheiro do cimento me inebria”, ele diz. Nas suas infindáveis reformas, jamais recorre a arquitetos e decoradores. Faz tudo sozinho.

É quase impossível descrever seu apartamento no Rio. Há pouco tempo, numa noite de sexta-feira, ele fez um tour pela propriedade, respondendo às perguntas minhas e de um amigo. Havíamos marcado o encontro para as 19 horas. Cometemos a imprudência de chegar com três minutos de antecedência. Tocamos a campainha e ele só apareceu, saltitante, três minutos depois, alegríssimo consigo mesmo e com sua pontualidade. O apartamento fica no térreo de um edifício antigo (no Brasil, antigo quer dizer anos 50). Atravessamos uma porta pesada, viramos à esquerda e caímos numa contradição: uma saleta enorme—quando é sabido que as saletas, por definição, são pequenas. A salinha ficou grande porque há espelhos por todo lado, do chão ao teto, refletindo um lustre de cristal um pouco menor do que a catedral de Chartres, cortinas pesadas como mármore e um deslumbrante busto marroquino, de mármore de verdade.

O andar de baixo tem 150 metros quadrados. Guilherme achou pouco e comprou o de cima, com 180 metros quadrados. Cada centímetro cúbico está ocupado por bibelôs, peças de antiguidade, objetos artísticos, adereços, cadeiras, almofadas, tapeçarias, biombos, estatuetas, cinzeiros, revistas, tapetes de zebra com rabo e tudo, pufes, poltronas forradas de pele de tigre, porta-retratos com fotos das maiores amigas do proprietário, estantes com livros encadernados em couro, vasos de todos os tamanhos e formatos, troços, coisas, trecos. Orgulhoso, ele nos mostra um pequeno tinteiro recoberto com couro de crocodilo negro do Nilo, e com estabilizador, para o caso de o navio balançar—foi do Titanic. Guilherme sabe de onde cada objeto veio, quando o comprou e onde o viu pela primeira vez. Ele aponta tudo, e, estranhamente, não nos convida a sentar. Parece um tanto aflito quando ameaçamos tocar em algo. Esclarece que é proibido sentar nos sofás e cadeiras, para não amassar as almofadas de plumas. Também não se bate a cinza nos cinzeiros, para não sujar. Uma de suas muitas loucuras é ter a casa arrumada, arrumada em excesso, arrumadéssima, repleta de flores e com suas centenas de objetos no lugar certo. Se um deles estiver um centímetro mais para lá ou para cá, ele, enquanto conversa, dá uns passinhos curtos e o põe no ponto exato em que deveria estar.

À direita da entrada fica um escritório. É nele que Guilherme recebe suas clientes. Ele as escuta com atenção, faz desenhos pequenos com as idéias que trazem, fixa o preço do trabalho—e estamos conversados. “Se a cliente não abre o talão de cheque, não fico feliz”, resume. E se não fica feliz, neca de roupa. O tour prossegue, e caímos num salão. Há estantes e mais estantes de livros encadernados em couro e com apliques dourados. Há um bureau com dezenas de revistas de decoração estrangeiras. Todas têm na capa papeizinhos amarelos, chamando a atenção para determinadas páginas. Nelas estão assinalados objetos de desejo de Guilherme.

 

Desde criança, Guilherme sempre foi fascinado pelo glamour social—do Brasil e do mundo—, pelas artistas de cinema, por objetos de decoração e roupas. Alimentava o fascínio comprando as revistas Vogue, Harper’s Bazaar e, no Brasil, Cena Muda, Sombra e Rio Magazine. Anotava tudo o que lia num caderninho e sabia—sabe até hoje—quem casou com quem, como era o vestido, como eram as jóias, como foi a festa, o que foi servido e quem eram os convidados (isso, sem conhecer ninguém). Com essas preocupações, não podia ser um bom aluno. Passava as aulas desenhando vestidos e só se interessava por aprender inglês, francês e geografia. “Eu sonhava com os lugares do mundo onde pretendia ir, e precisava saber as línguas para poder viajar.”

Um dia, aos 14 anos, lia num jornal sobre um crime que acontecera no Rio e que se tornaria célebre: um homossexual havia sido morto por seu caso com um castiçal na cabeça. Sua mãe o viu e disse apenas uma frase: “Eu preferia ter um filho morto a ter um filho homossexual”. A vida tem suas coincidências cinematográficas: Guilherme estudava num colégio de padres barnabitas e, no dia seguinte, um dos homens de batina o chamou para dar uma notícia triste: Guilherme seria expulso do colégio. Mas por quê? Porque as mães dos outros alunos haviam feito um abaixo-assinado pedindo a expulsão, por ele ser “diferente”.

O garoto, que morava em Laranjeiras, passou o dia inteiro zanzando pelo bairro, sem saber o que fazer, como chegar em casa, como contar à mãe. Já de tarde, entrou nas Lojas Americanas para comprar um caderno de desenho e topou na porta com um rapaz que conhecia de vista, nadador do Fluminense. Em desespero, pensou: “Se ele me chamar, eu vou”. Ele chamou, Guilherme foi, e teve sua iniciação sexual. Atenção: o rapaz era lindo. Quando chegou em casa, a mãe já sabia da expulsão e lhe perguntou: “O que é que você vai ser na vida, sem estudo?”. “Não sei, só sei que vou sair na coluna de Ibrahim todo dia”, respondeu, referindo-se à coluna social mais em evidência. A si mesmo Guilherme jurou, à Vivien Leigh em E o vento levou: “Eu vou ser rico e famoso e nunca mais vou me importar com o que falarem de mim!” Uau.

 

Agora é a hora de subir a escada. O costureiro chamou um arquiteto para projetá-la, achando que não saberia fazê-la sozinho. O arquiteto fez um orçamento. Coisa de R$50 mil. Um pedreiro disse que saberia como fazê-la. Guilherme desistiu do arquiteto e fez a escada com o pedreiro. No que era o hall do andar de cima, ele vedou a porta do elevador com um espelho. Nesse pequeno ex-hall, instalou o bar. Sobre a mesa, com todas as bebidas que se possa imaginar—além dos copos certos para cada uma delas, de vários abridores de garrafa, saca-rolhas, guardanapinhos—, também se vê o ponteiro que indica em qual andar está o elevador. Uma vez, Guilherme comprou uma casa projetada pelo arquiteto Zanini Caldas, que construía casas em madeira, chamou um engenheiro e lhe perguntou se ele podia derrubar tudo. Como podia, na manhã seguinte entraram os operários e puseram a casa abaixo. “A cabeça do Zanini estava na Bahia, a minha em Hollywood, e eu queria uma casa só de vidro e espelhos.” Zanini nunca mais falou com ele.

Sem freqüentar mais o colégio, Guilherme começou a circular em torno da praça Tiradentes, nos tempos em que Walter Pinto e Carlos Machado, como se dizia, arrasavam no teatro rebolado. Só havia um problema: ele não podia entrar, era menor de idade. Vidrado em mulheres bonitas, um dia viu na praia uma das coristas do clube Night and Day que conhecia de fotografias. Arriscou chegar perto e suplicou: “Meu sonho é ver uma peça de teatro. Você não podia me ajudar”?”. A vedete, Marlene Rosário, disse-lhe que chegasse mais cedo e ela o levaria até o lugar onde ficava o iluminador. Guilherme foi e se deslumbrou com as moças, que desciam de um disco cobertas de plumas e paetês, cantando e dançando, quase nuas. Passou a ir todos os dias, e até hoje é capaz de descrever a roupa de cada uma, ou de cantar as músicas que elas cantavam. Viu que seu futuro tinha de seguir por ali: roupas maravilhosas para mulheres maravilhosas. Descobriu assim a sua vocação.

Antes de poder realizá-la foi convocado a prestar o serviço militar. Ele pediu a seu padrasto, general do Exército, que desse um jeito de conseguir a sua dispensa. “Você vai prestar serviço militar para aprender a ser macho”, disse-lhe o oficial, enfatizando ao máximo a palavra macho. Guilherme só não se desesperou porque não sabe o que é isso. Uma noite, encontrou um amigo que, como ele, se tornaria costureiro famoso: Denner. Pediu um conselho, e o amigo lhe disse para fazer o que ele havia feito para escapar do Exército: raspar as pernas e, em vez de cuecas, vestir Zazá, uma calcinha famosa naqueles tempos, que existia nas cores rosa, amarelo e azul. “Você vai ter que ter muito peito”, disse-lhe Denner, “porque vai entrar numa sala com vinte machões, e todo mundo vai tirar a roupa e ficar de cuecas”. Dito e feito. Quando Gui tirou as calças, todos os machões riram e o sargento caminhou firme em sua direção. “Eu só pensava em sumir dali o mais rápido possível, foi preciso ser muito macho para enfrentar a situação”, diz ele, enfatizando militarmente a palavra macho. “Você está isento!”, gritou-lhe o sargento. “Aqui é lugar de homem!” Era tudo que Guilherme queria ouvir.

 

Gui não sabia como concretizar sua vocação. Se fosse estudar, só seria alguém aos 30 anos, e ele tinha pressa. Queria ser famoso logo. Um amigo, que encontrou num lotação (um misto de táxi e van que foi extinto com os dinossauros) contou que a Varig estava fazendo um concurso para o uniforme das aeromoças; por que ele não tentava? Contou também que o resultado seria decidido pela poderosa Charlotte Franklin, diretora da companhia em Nova York, que chegaria ao Rio na manhã seguinte. Guilherme perguntou: “Do que ela gosta?”. “De rosas vermelhas”, foi a resposta. Na manhã seguinte, bem cedo, GG estava na porta do Hotel Glória, sobraçando um colossal buquê de rosas. Ficou horas ali, até que Charlotte chegou. Entregou-lhe as flores e os croquis para o concurso, que, aliás, ganhou. Prêmio: uma passagem para Nova York e US$500. Apaixonou-se pela cidade e foi ficando, ficando.

Charlotte, por sua vez, se afeiçoou a Guilherme e encomendou-lhe alguns vestidos, que ela provaria quando viesse ao Rio. Ele a convenceu a fazer o contrário: iria ele a Nova York para as provas dos vestidos. Para variar, o atilado carioca levou a melhor, ganhou uma ponte aérea Rio-NY e uma casinha alugada, por coincidência na Gay Street, no Village. Passava as tardes andando pela Sétima Avenida, o lugar dos atacadistas de moda, mostrando seus croquis. Às vezes, vendia algum por US$10, e assim ia vivendo. Conheceu pessoas, fez amizades e, através do amigo de um amigo de um amigo, chegou à poderosa Loretta Scanell, diretora da revista Town & Country. Marcou hora, levou os desenhos e teve como resposta um vago “Eu te ligo”.

Demorou, mas um dia ela ligou, convidando Gui para um chá no hotel onde um costureiro italiano estaria apresentando sua primeira coleção. Seu nome: Valentino. Nessa mesma tarde, Loretta sugeriu a GG fazer um desfile na cidade, e perguntou se ele tinha condições. Ele não tinha, mas disse que tinha. “Então vá, faça a coleção e me telefone”, disse Loretta. Guilherme voltou ao Brasil sem saber o que fazer: como comprar tecidos, como pagar as costureiras? Soube então que havia uma grande fábrica em Petrópolis, com todos os tecidos de que precisaria. Tomou um ônibus, bateu na porta, pediu para falar com o dono e expôs a situação. “O senhor me daria os tecidos?”, perguntou, na maior candura. O empresário disse que sim, bastava que Guilherme dissesse quantos metros precisaria de cada um. Em três dias os croquis estavam prontos, e os cálculos das metragens, feitos. Telefonou a Loretta e marcaram a data do desfile. Havia um pequeno senão: ele deveria levar cinco manequins.

Cinco manequins quer dizer cinco passagens, fora hotel, cachês etc. A Varig, que patrocinou o desfile, ofereceu as passagens, mas só três. O cachê ficaria para a volta, quando ele vendesse a coleção. Como manequins, quando estão começando, topam qualquer coisa, inclusive dormir no chão de um quarto de hotel, tudo se resolveu lindamente. O desfile foi um sucesso e deu página inteira no New York Journal American, com foto de Guilherme, chamado de “Guillaume from Brazil”. A reportagem foi reproduzida na revista Manchete, e Gui chegou ao Rio já consagrado. Rapidinho, o grand monde começou a aparecer no seu pequeno ateliê, já com três costureiras contratadas. Recebeu um telefonema de Tonia Carrero, dizendo que ia a Londres para a estréia do filme The V.I.Ps e que precisava de vestidos para a viagem. Guilherme não só fez os vestidos, como foi levá-la ao aeroporto, com direito a foto na primeira página de O Globo. A estrela subia, e rápido.

 

Avançamos na procissão de salas e objetos. É como estar num cenário de filme do século XIX, com alguns recuos para o XVIII. Entramos no closet e… surpresa! Todas as roupas são imaculadamente iguais. Só há calças jeans, camisas jeans azuis, conjuntos cáqui, desses usados em safáris, sapatos Funaro e blazers azul-marinho. Nosso costureiro não gosta de variar o que usa. Mas, atenção, há um sobretudo forrado de vison.

Chegamos agora ao coração do apartamento. É um cantinho de 12 metros quadrados. Um quarto-e-sala. Um conjugado. Há um sofazinho, uma mesinha, um fogãozinho de quatro bocas (para ferver água para o chá) e uma pequena geladeira vazia. Ou melhor: vazia de comidas. Há garrafas de champanhe, vodca, vinho branco e água mineral. A salinha dá para o que Guilherme chama de “alcova”. É um miniquarto, com uma cama imaculada. “Para dormir, nada melhor do que uma alcova”, explica ele, “um quartinho com o leito praticamente colado às paredes.” Por fim, num canto, há o banheiro, um luxo. Sobre a mesa há dezenas de tesourinhas, uma para cada modalidade de corte. Ficamos ali um tempão, papeando. Tomamos champanhe, de boa marca e boa safra, enquanto Guilherme traçava seus uísques. Ele bebe bem. Mas não parece. Aos 66 anos, está bem conservado, e é com imenso divertimento que relata seu início de carreira.

Logo o ateliê ficou pequeno. GG alugou um apartamento maior e contratou mais costureiras. Corria o ano de 1968. Foi quando a rainha da Inglaterra veio ao Brasil. Boa parte das elegantes do Rio encomendou vestidos a Guilherme. Mais glórias, mais reportagens na imprensa. Aos 25 anos, ele era rico e famoso, exatamente como havia jurado. Mas a consagração mesmo veio quando um dia telefonou Carmem Mayrink Veiga, que ele não conhecia, mas idolatrava furiosamente. Carmen queria vários vestidos para o verão, entre eles um de baile, vermelho, para usar com seus rubis. “Quero coisas sensacionais”, disse. Foram os primeiros de centenas, e até hoje Carmem continua fiel ao costureiro, além de ser uma de suas maiores amigas. “Era tudo muito chique”, suspira Guilherme. “No verão as mulheres só usavam jóias de turquesa, coral, marfim e jade; esmeraldas, safiras, rubis e diamantes, só no inverno. Havia também as bolsas de ouro, que se chamavam Farah Diba. Quem não tinha uma não era ninguém.” Suspira de novo e arremata, com um meneio dramático: “Que tristeza, as mulheres de hoje só querem saber de musculação”. (Por falar em musculação, há alguns anos Guilherme resolveu fazer cooper no calçadão de Copacabana. O seu carro, com o motorista uniformizado, ia ao lado, na mesma velocidade. Quando ele se cansava, o automóvel parava, ele entrava e voltava para casa. Pode?)

A vida de Guilherme virou um carrossel de extravagâncias. Suas roupas foram notadas no Swan Ball, em Nashville, ele fez um desfile no Waldorf-Astoria, em Nova York, e outro para a marca Neiman Marcus, no Texas, vestiu a rainha da Suécia, conheceu Elke Maravilha e a levou para desfilar suas roupas na Suíça. Desenhou os uniformes, chiquérrimos, para o corpo feminino da Marinha. Foi chamado por Glauber Rocha para fazer os figurinos de Terra em transe—de graça, pois a produção não tinha dinheiro. Só ouviu do diretor uma recomendação: que as roupas fossem deslumbrantes.

Ufa, é bom tomar fôlego. Seguimos para um restaurante das imediações. Vamos a pé. Ele janta costeletas de cordeiro, duas taças de vinho e café. Guilherme fala sem parar. Conta que o empresário André Brett pediu que ele fizesse uma coleção de prêt-à-porter e jeans. O salário seria de US$ 8 mil mensais. GG pensou, pensou e aceitou. Foi morar em Nova York. Viajava para o Brasil duas vezes por ano, para trabalhar nas coleções. Alugou uma town house na rua 82, entre Madison e Park, e, como não tinha dinheiro para decorá-la do jeito que queria, colava pedacinhos de papel nas paredes e no chão. Num escrevia “quadro de Picasso”, noutro “escrivaninha francesa”, em mais outro “sofá de plumas”, e assim ia. “Quando eu olhava em volta, achava minha casa a mais linda do mundo, porque via o quadro de Picasso, a escrivaninha francesa e o sofá de plumas. Eu vejo o que quero ver e acredito no que quero acreditar.”

Todo domingo a mãe telefonava de manhã, chorando, preocupada com a solidão dele. Guilherme respondia: “Mamãe, estou tomando um Bloody Mary, lendo o New York Times, estou felicíssimo”. “Mas meu filho, bebendo a essa hora?”, ela perguntava. E Guilherme, nem aí. O contrato com André Brett acabou, e GG resolveu abrir uma boutique na avenida Madison. Tudo ia muito bem, até que a boutique foi assaltada e ele perdeu tudo o que tinha. Terminaram os belos dias e começaram os duros tempos em que comia pedaços de pizza, bebia Coca-Cola. Se tivesse acreditado mais em sua cartomante, Zazá (Guilherme não fazia nada sem perguntar a ela), não teria aberto a boutique. Zazá havia dito que a aventura nova-iorquina não daria certo. Mas profetizou também que, depois, ele trabalharia numa grande maison de costura francesa. Pela primeira vez, Guigui não acreditou em Zazá.

Foram meses de penúria. Depois de sete anos em Nova York, GG voltou ao Brasil, em agosto de 1985, sem nada, a não ser um apartamento vazio em São Paulo; sem dinheiro para comprar uma cama, dormia num colchão no chão. Mas aí toca o telefone. Era uma proposta: ele não gostaria de fazer um teste para trabalhar com Christian Dior? Para tanto, deveria ir a Paris ser entrevistado. Dior pagou a passagem e lá se foi Guilherme, que passou em todos os testes e assinou um contrato para ficar em Paris por um mês, para “diorizar” a cabeça antes de começar a trabalhar. Zazá tinha razão!

 

Durante seis anos, Guilherme fez a ponte aérea Rio – Paris. Ficava num hotel perto da Maison Dior, na avenida Montaigne. Trabalhava das sete às sete e, segundo ele, foi a época mais feliz de sua vida. Até que, depois de seis anos na Dior, teve problemas. Ele se sentiu injustiçado, e processou a casa por quebra de contrato. Processou, ganhou, voltou para São Paulo em 1991 e, com o dinheiro, comprou um apartamento. Os anos haviam passado e ninguém mais lembrava dele. “Como recomeçar, se ninguém mais sabe quem eu sou? O que vai ser da minha vida?” Pois ele recomeçou e recuperou suas clientes, uma a uma. E passou a costurar também para suas filhas e netas. Ele veste Carmem Mayrink Veiga, a filha Antonia e a neta Maria; Lourdes Catão, a filha Bebel e a neta Amanda; Evinha Monteiro de Carvalho, a filha Lilibeth e a neta etc. etc.

Guilherme continua firme no seu trabalho, agora fazendo a ponte aérea Rio—SP duas ou três vezes por semana. “Não quero mais meu nome nos jornais, não tomo conhecimento das fashion weeks da vida, nem pensar em desfilar meus modelos. Tudo isso eu já fiz, muito. Demais. Agora chega”, proclama. Cada vez mais, GG fica no Rio. Segundo ele, em São Paulo “quem tem dinheiro está preso”. Sua vida é organizadíssima e cheiíssima. Ele costuma tomar um vôo até São Paulo com um vestido debaixo do braço, para que a contramestre faça um retoque porque a cliente engordou ou emagreceu um quilo, e volta no mesmo dia, trazendo o vestido pronto, para que ela possa usá-lo na mesma noite. Porque ele não delega.

E é capaz também de sair de casa para comer uma paella no restaurante do aeroporto Santos-Dumont, que acha a melhor do mundo. Isso depois de tomar dois ou três dry martínis no bar do mesmo aeroporto, melhores, segundo ele, do que qualquer dry martíni do melhor bar de Nova York. Quando fala da moda atual – assunto que pouco interessa —, não perdoa: “Hoje alguns costureiros franceses são tão jovens que não sabem que houve um dia uma doença chamada paralisia infantil, pois calçam seus manequins com verdadeiros sapatos ortopédicos”. Não poupa nem Karl Lagerfeld: diz que é um assassino, por ter transformado as roupas de Chanel em uniformes nazistas.

 

Segundo Guilherme, um ateliê de costura é, na verdade, um ateliê de tortura. Às seis da manhã, ele já está se preparando para sair e procurar o forro de um vestido, e se não encontra o tecido no tom exato, vai para o tintureiro e manda tingir. Depois, cruza São Paulo, da avenida São Luís, onde mora num soberbo e imenso apartamento bem tradicional, com o Miró na entrada, e vai para a Vila Mariana encontrar a bordadeira e orientá-la a fazer o bordado exatamente como ele imaginou. São três ou quatro idas até que o bordado fique exatamente como ele quer – isso depois de ter os croquis e as amostras de tecido aprovados. “É dura a vida da bailarina, meu bem”, diz ele, rindo muito. A partir daí, o vestido começa a ser feito e será provado várias vezes num manequim com as medidas exatas da cliente, até a primeira das várias provas no corpo da própria. “Quando faço um vestido de noiva, dez dias antes do casamento está tudo absolutamente pronto”, informa. “E, no dia, quatro horas antes da hora marcada, eu vou, com a contramestra, vestir a noiva dos pés à cabeça, e ainda oriento o maquiador e o cabeleireiro, e só saio quando a noiva entra no carro para ir para a igreja.”

O preço de tudo isso? “Não digo nem sob tortura”, resiste Guilherme. “Isso é um assunto entre mim e as minhas clientes”. Algumas de suas clientes, indiscretas, contam que um vestido de noiva feito por Guilherme pode custar mais de R$ 5 mil. Em 40 anos de trabalho, só teve três contramestras.

Segundo ele, bons empregados gostam de patrões exigentes. Quem trabalha para ele deve se preparar para varar a noite e os fins de semana, se for preciso – e com um sorriso nos lábios. Dorme às nove e meia, dez da noite, jamais vai a festas. Acha que o chique é cozinheira da casa fazer o jantar.

Guilherme tem várias agendas: uma das clientes para as quais está trabalhando no momento, outra dos compromissos marcados, outra das ligações que deve fazer naquele dia, uma de Paris, outra de Nova York e mais uma de Buenos Aires, não só com o endereço dos amigos e dos restaurantes, mas com a descrição dos pratos de que gostou e pode querer repetir, outra com os telefones para onde deve ligar se perder os cartões de crédito (com os respectivos números), uma de São Paulo, mais uma do Rio. Todas elas—dos últimos 20 anos—estão guardadas. Algumas clientes de GG são loucas por roupas. Se ele ligar para Carmem Mayrink Veiga, Lourdes Catão ou Lucia Flecha de Lima, às 11 da noite, dizendo que acabou de desenhar um vestido que é a cara dela, no dia seguinte, às oito da manhã qualquer das três estará lá, rente que nem pão quente, para ver o desenho – e encomendar a roupa correndo.

 

Sentado no restaurante, à espera do café, ele se entusiasma e recita o seu credo: “Não saio com quem não fuma e não bebe, não entro em fila, não vou a restaurantes da moda. Quando vou, é às cinco da tarde, quando o almoço já acabou e o jantar ainda não começou. Tenho horror a futebol, e nunca liguei, nem jamais ligarei, para nenhum número 0800, e não entro em clubes. Odeio. Para mim, quem pretende ser sócio e leva bola preta, merece. Quem mandou querer entrar? Clube é para gente de mentalidade estreita, que escolhe viver num mundo pequeno, de pessoas geralmente decadentes, que não encaram a vida e só lá dentro se sentem protegidas do mundo. Eles se casam entre eles, se traem entre eles. Tenho verdadeiro horror a quem freqüenta clubes. Em matéria de comidas, prefiro aquelas de baixíssimo calão, tipo fígado, rognon, dobradinha, boudin, essas coisas”. Quando lhe perguntam “Mas você não tem nem um aparelho de som, Guilherme? E se quiser ouvir uma música?””, vem a resposta: “Ora, eu canto”.

GG gosta de bebidas que não sejam doces, mas prefere, a qualquer outra, o uísque Old Eight com club soda (e em Buenos Aires, toma o local, Los Criadores, que está marcado na sua agenda portenha). Aos amigos, serve Black Label, que ele faz o sacrifício de tomar, às vezes. Champanhe, nem pensar. Se vir um pote de margarina na sua microcozinha, é capaz de ter um troço. Comida, em sua casa, sob nenhuma hipótese – e empregada também não. Luiz, o faxineiro, vai uma vez por semana fazer a limpeza, e é proibido de emitir qualquer som enquanto trabalha. Ele não tem celular, nem secretária eletrônica, nem televisão, nem computador; não usa tênis, nem boné, nem camiseta; de tempos em tempos manda trocar os números de seus telefones – e liga para dar os novos (exclusivamente) a quem quer.

 

Para Guilherme, o luxo da vida é pegar um avião na hora que quiser, para onde quiser, sem ter que dar satisfação a ninguém, comprar objetos de arte–tem uma tapeçaria de Lurçat e um biombo Coromandel, além do Miró. Aliás, a compra do Coromandel foi em duas etapas: como estava sem dinheiro, comprou meio biombo e combinou com o vendedor que compraria a outra metade assim que as coisas melhorassem. Um dia, chegou lá com o cheque na mão e levou a outra metade.

Apesar de ter dois apartamentos luxuosos, GG lê os anúncios imobiliários todo domingo. Se acha que há algum interessante, vai vê-lo. Se gostar muito, mas muito mesmo, compra-o e parte para uma nova obra, e uma nova decoração. Não tem o menor apego às coisas que possui, e, quando vende uma casa, costuma ser de porteira fechada, com tudo dentro. Alguém lhe pergunta se ele às vezes não acorda de madrugada, sem sono. Ele diz que sim. E o que faz quando isso acontece? “Acendo todas as luzes da casa, corto uns pedacinhos de queijo, como canapés, preparo um uísque e imagino que estou numa festa maravilhosa, com todas as pessoas que adoro, de Marilyn Monroe a Balenciaga, passando por Greta Garbo e pela viscondessa de Ribes. Aí, durmo como um anjo.”

Guilherme se levanta. Não diz, mas foi ao maître e pagou a conta, para não haver discussão na mesa. Volta e prossegue o seu credo: “Tenho horror a Madonna, aos Beatles, a gente que se veste de branco e vai desfilar pedindo o fim da violência, ao povo da moda, que se veste de preto e não tira os óculos escuros, me recuso a ler qualquer coisa sobre Yoko Ono, que odeio, detesto velho careca de rabo-de-cavalo, bermuda, tênis e mochila, e quase vomitei ao ler sobre o casamento gay de Elton John”. Conhece pelo menos 5 mil gays, mas próximos mesmo, só dois. “Não tenho paciência para papo de gay”, diz. Jamais passou perto de uma passeata gay. Tem poucos amigos – “uns dez” – e não quer conhecer mais ninguém.

Adora sua cachorra, Maria, uma miniatura de galgo italiano. Nunca foi à Bahia, nem pretende. Não tem nenhum interesse pela política. Conta sobre o dia em que viu Zélia Cardoso de Mello na televisão, garantindo que não mexeria na poupança; na hora, lembrou que dias antes, numa festa em Brasília, Zélia tinha usado uma estola de pele, e aí ele pensou: “Não é possível acreditar em quem usa uma estola de pele no calor de Brasília” – e tirou todo o dinheiro da poupança. GG aprendeu: quando ligam dizendo que o dólar vai baixar, ele compra, e quando dizem que vai subir, ele vende, sempre na contramão. Tem se dado muito bem assim.

A conversa adquire um rumo, digamos, íntimo-filosófico. “Só quem já viveu a solidão a dois sabe dar valor a uma boa solidão a um”, é o que ele diz. Guigui jamais deitou num divã de analista. “Acho que passar a vida botando a culpa na mãe e no pai é coisa de quem não tem coragem para enfrentar a vida. Eu não ponho a culpa de nada em ninguém, e, por outro lado, não sei o que é culpa.”

Guilherme diz, sem pestanejar, que sua melhor cliente é Lucia Flecha de Lima. Ele a vestia antes, durante o tempo em que ela foi embaixatriz em Londres, Roma e Washington, e ainda agora. Mandava os croquis, ela aprovava e os vestidos iam prontos e perfeitos. Em 1991, hospedado na embaixada em Londres, Lucia ligou para o quarto dele e disse que queria apresentá-lo a uma amiga. GG desceu, muito à vontade, e deu de cara com uma moça loura, altíssima e linda, vestida de jeans e uma jaqueta vermelha. Era Diana, a princesa de Gales. Disse que gostava muito das roupas que ele fazia para Lucia e que adoraria ter vestidos dele, mas o protocolo a impedia: ela só podia usar roupas de costureiros ingleses. Guilherme aproveita para alfinetar Ruth Cardoso, que no dia da posse de Fernando Henrique usou um vestido de Issey Miyake, “e, ainda por cima, preto”.

 

O jantar chega ao fim. Guilherme faz as suas derradeira considerações: “Todas as loucuras já foram feitas, na hora certa, e meus prazeres hoje são comprar todas as revistas de decoração e percorrer os antiquários. Meus luxos diminuem a cada dia. Ainda amo passar o réveillon em Paris e ir várias vezes a Buenos Aires, mas cada dia perco mais a vontade de viajar. A Nova York, não pretendo voltar jamais, com aquela doença de não poder carregar mala de mão e ter que ir para a calçada se quiser fumar. Estou fora.”

No Rio, adora ver revistas na Letras e Expressões do Leblon, mas quando a livraria começa a encher com os habitantes do bairro, “me irrito e pego o primeiro táxi para casa”. Ele odeia o Leblon, “o bairro mais cafona do Rio. Só no Leblon se vê pai passear com filho com brincos maiores do que os da Carmen Miranda e a mulher andando atrás, olhando as vitrines. Essas aberrações não acontecem no Flamengo nem na Urca, o bairro mais chique do Rio, meu bairro querido, onde às vezes eu vou passear, mas onde não posso morar, porque é o mais caro da cidade”.

Terminado o jantar, acha melhor pegar um táxi, apesar de estar a cem metros de casa. Seguimos juntos no táxi, que faz uma volta imensa, pois o prédio dele fica na contramão. A última surpresa: Guilherme manda o carro parar na frente do Hotel Glória. E nos informa, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que nunca, nunca mesmo, dorme no apartamento. Ele tem uma suíte permanente no Glória, e sempre dorme nela quando está no Rio. “Faço como Mlle. Chanel, que morava na rue Cambon, mas dormia no Ritz.” Meu palpite: dorme fora para não desarrumar a cama.

Danuza Leão

Danuza Leão, jornalista, escritora e colunista da Folha de S. Paulo, autora de Quase Tudo (Companhia das Letras).

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Para um terço dos brasileiros, atuação de Bolsonaro contra coronavírus é ruim ou péssima; ex-apoiador do presidente, camelô rompe quarentena para não passar fome, mas reclama: “Gostaria que ele levasse a sério”

Foro de Teresina #93: O Brasil de quarentena, o isolamento de Bolsonaro e a economia à deriva

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana

(Quase) todos contra um 

Desgastado até entre aliados, Bolsonaro se isola cada vez mais; as 24 horas seguintes ao pronunciamento do presidente tiveram embate com governadores e declaração ambígua de Mourão

“Se não tem teste, como saber se é coronavírus?”

Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

Com tornozeleira, sem segurança

No Acre, preso que ganha liberdade provisória recebe também sentença de morte

Cinema em mutação –  É Tudo Verdade reinventado

Festival adia mostra presencial, mas fará exibições online; quando a epidemia passar, o hábito de ir ao cinema persistirá?

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Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

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Com pouco mais de mil casos de coronavírus, Japão contraria recomendações sanitárias e causa desconfiança às vésperas de uma Olimpíada cada vez mais improvável

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Fora do Mais Médicos desde a eleição de Bolsonaro, clínico cubano sobrevive aplicando acupuntura em Salvador enquanto sonha em combater o coronavírus

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Posto Ipiranga, o último a admitir

Em meio ao avanço do coronavírus, demorou dez dias até Paulo Guedes ser convencido por auxiliares de que a cartilha fiscalista seria insuficiente e o aumento de gastos, inevitável