esquina

O cofrinho de Tora

Histórias de uma prisão no Cairo

Diogo Bercito
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

Foi um heroico traseiro que protegeu as anotações do escritor egípcio Ahmed Naji, de 34 anos, quando ele estava na prisão de Tora, no Sul do Cairo. Para que os policiais não encontrassem os escritos durante uma vistoria, Naji deu um cigarro a outro detento – e, em troca, o colega escondeu os papéis, digamos, dentro de si. No jargão dos cárceres cairotas, a prática é conhecida como “alugar um cofrinho”.

Santo bumbum.

As anotações sobreviveram, e o escritor as levou consigo quando deixou a prisão no final de 2016, após ficar detido quase um ano. Em 2018, Naji deixou o Cairo e foi para Washington. Mudou-se há alguns meses para Las Vegas, onde dá os últimos retoques em seu próximo livro, Hirz Mukamkam (Evidências podres), sobre a experiência nos infames corredores de Tora. Na mesma prisão esteve Mohamed Mursi, o primeiro presidente eleito democraticamente na história do Egito, que morreu em junho último após maus-tratos no cárcere. Mursi chegou ao poder em 2012 e foi preso no ano seguinte, após um golpe militar.

O escritor nasceu em Mansura e se mudou para o Cairo aos 16 anos de idade. Estudou jornalismo e circulou entre a elite intelectual da capital. Em 2014, publicou Istikhdam al-Haya (Usando a vida), um romance sobre a destruição da capital do Egito em um futuro apocalíptico. A edição americana ganhou o título Using Life. A linguagem coloquial, e por vezes vulgar, do romance escandalizou parte dos leitores. Um deles entrou com uma ação contra Naji, alegando que o livro era tão imoral que tinha lhe dado palpitações cardíacas.



Essa acusação e outras reverberaram nas cortes do país conservador, em um momento em que o governo tentava se projetar como o protetor dos bons costumes. Em 2016, Naji foi o primeiro escritor egípcio a ser preso por “violar valores morais” – outros autores foram detidos no passado, entre eles Sonallah Ibrahim, mas por motivos políticos. Em uma das passagens do livro que mais chocaram seus conterrâneos, ele descreve uma pessoa lambendo o olho de outra. Também preferiu usar na obra a palavra “pinto”, em vez do eufemismo corrente no país para designar o pênis: “pomba”.

 

Ahmed Naji dividiu com sessenta detentos a cela, que tinha o tamanho “de uma sala de aula”, segundo ele. Às vezes, os presos tinham que dormir no chão, tentando manter a boca fechada para não engasgar com as baratas. Às segundas e quintas-feiras, acontecia o pior: a refeição incluía um “bife brasileiro”, duro e sem gosto, que era uma punição extra para eles. A carne importada pelo governo egípcio, além de ser de baixíssima qualidade, era conservada sem a devida refrigeração.

Foi também no cárcere que Naji teve seu primeiro encontro com “leitores reais”, como definiu, querendo com isso dizer que não eram estudantes universitários, escritores ou intelectuais. Ele contou que, para enfrentar o tédio da cela, os presos pegavam livros emprestados na biblioteca de Tora. Certo dia, um detento lhe pediu recomendações de obras tão engraçadas como a que tinha acabado de ler – Gente Pobre, de Dostoiévski. “Fiquei surpreso: eu nunca tinha pensado em Dostoiévski como um autor engraçado”, disse Naji.

O escritor teve outro encontro impactante em Tora, com um tipo durão acusado de roubar 400 milhões de dólares. Ele acusou o próprio pai do roubo – e os dois estavam presos na mesma cela. “No dia em que o pai enfartou e morreu na nossa frente, ele ficou calado, de pé, fumando um cigarro”, descreveu Naji. “Era esse tipo de cara.”

Dias depois, o escritor encontrou aquele mesmo troglodita no banheiro, aos prantos. “Ele me contou que tinha acabado de ler um romance e não conseguia dormir, de tão triste.” A obra era Fi Qalbi Untha Ibriya (No meu coração há uma mulher hebreia), uma história de amor impossível contada pela tunisiana Khawla Hamdi. “Uma merda”, classificou Naji.

Havia também na cela um curioso detento, que, por passar os dias escrevendo, Naji apelidou de Marcel Proust. “Pedi para ler as anotações dele e me dei conta de que registrou tudo o que aconteceu em cinco anos de prisão. Dessa maneira: hoje acordei às sete da manhã, fui ao banheiro, comi dois ovos, fiz isso e aquilo…” Quando Marcel Proust estava para ser solto, a polícia encontrou seus caderninhos e o obrigou a queimar tudo. “Aquilo fez soar em mim o alarme, porque comecei a me perguntar como ia tirar os meus próprios escritos da prisão.”

 

Ao deixar a cadeia, Naji escondeu as anotações – inclusive as que tinham sido salvas no “cofrinho” – entre as páginas de uma revista popular com fotos insinuantes da cantora libanesa Dominique Hourani. Dentro da mala, colocou a revista displicentemente em cima das roupas. “O policial que me examinou antes de eu sair viu a revista e apenas disse: ‘Mas de novo essa coisa de sexo, Ahmed? Assim você vai ser preso outra vez!’ E gargalhou.” O homem acabou não inspecionando a revista.

Naji deixou a cela, mas era constantemente vigiado. Dada a controvérsia, o escritor decidiu, junto com seus editores, que seria melhor não publicar nenhum livro no Egito, por enquanto. E resolveu se mudar para os Estados Unidos, aproveitando que sua mulher, Yasmin Omar, advogada dedicada à defesa dos direitos humanos, fazia um curso na Universidade Syracuse. O casal também viveu um semestre em Washington, onde nasceu sua filha, Sina.

Além de finalizar o livro sobre a prisão, Naji trabalha agora num novo romance, sobre uma cidade futurista na Arábia Saudita. E tem expressado publicamente nos Estados Unidos seu descontentamento com o governo egípcio, que deteve cerca de 3 mil pessoas nos protestos ocorridos no último dia 20 de setembro.

Neste ano, ele foi convidado pela Universidade de Nevada em Las Vegas a participar do programa “Cidade de Asilo”, que recebe artistas ameaçados de todo o mundo. Ironicamente, este escritor preso por falar de maneira desabusada dos costumes sociais e do sexo foi parar justamente na “Cidade do Pecado”, como Las Vegas é conhecida nos Estados Unidos. Ali, ao menos ele tem algo familiar para contemplar: a feérica esfinge do Luxor Hotel, feita em 1993, réplica da Esfinge de Gizé, erguida nos arredores do Cairo há cerca de 4,5 mil anos.

Diogo Bercito

Diogo Bercito, jornalista brasileiro radicado em Washington, foi correspondente internacional da Folha de S.Paulo

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