tipos brasileiros

O connaisseur

O mundo sofre de cretinismo nasal - afirma o mais competente (e menos famoso) enólogo do Brasil

Marcos Caetano
ILUSTRAÇÃO: ADÃO ITURRUSGARAI

Meu terrier se chama Terroir. Tenho 58 anos de idade e não escondo de ninguém o que quero ver escrito no meu obituário: “Faleceu nesta madrugada o connaisseur de vinhos Marcelino Castillo Clignancourt”. Tomara que escrevam assim – connaisseur – e não enófilo. Semanticamente, enófilo pertence à ordem dos franciscanos. Pobreza comovente. Qualquer arrivista que se contente com um Châteauneuf-du-Pape pode ser chamado de enófilo. Tecnicamente, não estaria incorreto: gosta de vinho, é enófilo. Gosta de cachorros, como eu adoro o meu precioso terrier Terroir, é cinófilo. Gosta de cinema é cinéfilo (mas para mim é maluco mesmo, pois não se pode degustar vinho dentro do cinema). Enólogo é um pouco melhor. Dá ares de autoridade. Ares. Substância mesmo, só connaisseur.

Sou um homem discreto. Só aceitei escrever neste espaço porque as páginas da revista são particularmente aromáticas, mesclando fortes traços de carvalho, leve presença de baunilha embebida em cerejas maduras, notas de buriti e, se meu olfato não me engana, suspeita de andorinhas. Poucas revistas no planeta têm um buquê com caráter comparável ao destas páginas. (Nem a Wine Spectator, que Deus me perdoe.)

Os pobres de espírito perguntarão: “Mas buquê tem caráter?” É claro que sim. Às vezes, mau caráter. O Château Ivre-de-Chaussettes, de tão mau, é quase um Iago. Quando vejo uma garrafa, mudo de calçada. Assim como há pessoas de todo tipo, os vinhos também têm sua personalidade. Mas se para cada bom caráter existem cinco ou seis canalhas, no mundo dos grandes vinhos a proporção é inversa. Mas isso só sabe o connaisseur. O enólogo vive de mãos dadas com pulhas cítricos, ácidos, sem estrutura. É por isso que não me arrependo de ter largado a psiquiatria, fixação de mamãe, para seguir o meu destino junto às videiras.

Para usar uma das frases que gosto de repetir nas sessões de degustação que promovo para clientes de uma rede de joalherias, “só um sem caráter acha que o aroma não tem caráter”. Conheço aromas viris, femininos, extremados, enérgicos, sábios, pueris, ágeis, filosóficos. Certa vez, numa garrafa de Marchese del’ Incubo 1984, pensei distinguir um aroma sarcástico. Ofendi-me. O produtor depois me escreveu pedindo desculpas. Mandou-me uma garrafa da safra de 85, e claramente sentia-se nela um aroma de contrição. Dizem que só em 585 d.C. o Vaticano decidiu que a mulher tinha alma. Garanto que em mais 500 anos a Igreja saberá reconhecer a alma dos vinhos. Canonizações se seguirão: Château Petrus (especialmente o de 1947), Château Mouton Rothschild, Pingus e Clos de Papes (para fazer uma média com os pobres). O Romanée-Conti ficaria de fora. Que vá fazer companhia ao Cão (que só bebe cerveja e Grapete – está no Liber Bibendum Sacrae), por ter andado em más companhias. Collor deu cabo da imagem das canetas Montblanc e das gravatas Hermès. Duda Mendonça e Lula mandaram o Romanée-Conti para o inferno. Um anjo caído, por assim dizer. Pena.

 

Para pessoas dotadas de narizes que servem basicamente para respirar, não é fácil explicar o turbilhão de coisas que se passam no meu Cyrano. Cyrano é como chamo o meu nariz. Cyrano tem coisa muito mais importante a fazer do que respirar. Eu só respiro pela boca, para não cansar o nariz. Meu sobrinho, muito espirituoso, inventou outro apelido para o meu apêndice olfativo: Napa Valley. Gosto. Não tenho como não gostar. Aliás, tudo o que o Rodolfo faz eu acho uma graça. Mulatinho forte e isposto, aquele danado. Não custei para devolver-lhe o apelido: Pinot Noir. Não sei se entendeu, mas ele disse que achou bonitinho. Rodolfo é uma uva – e de boa cepa. Quando quer me pedir dinheiro, me chama de “meu grand cru“. Acho delicado.



Mas eu falava do ofício do connaisseur. Tentem imaginar a dificuldade de explicar para a escumalha que o Saint Prolixe-de-Beaucoup, que degusto (quem bebe é pobre) enquanto escrevo este texto, tem um buquê que combina vestígios de lima da Alsácia com araucária, trazendo ainda notas um tanto distantes de alecrim e leves traços de arenque defumado – não o do mar Cáspio (aí seria o Saint Prolixe-de-Müch), mas o de Aral, cujo temperamento é muito mais indômito e obstinado. Isso é o que eu escreveria numa coluna para o Wine Spectator. Seria uma boa resenha, mas, intimamente, como Proust, percebo no aroma outras nuanças: um sutilíssimo registro de maresia e a presença insinuante do olor de acelga da boca de Rodolfo, quando ele tinha 19 anos, lá na casa de Araruama. São coisas que estão além do alcance de narizes comuns. Acho que nem o Robert Parker notaria tantos matizes. A minha querida Jancis Robinson – inglesa, chiquérrima – , por ser mulher, talvez fosse capaz de alcançar tais alturas. Contanto que conhecesse Araruama e o Rodolfo, claro.

Não tenho pretensões de apresentar um programa na televisão, como faz um jornalista, ou de me gabar de uma adega milionária, como faz um cantor. A despeito de não ter vocação para a fama e trocando a modéstia pela franqueza, sou incomparável no que faço. E me irrita profundamente que o vinho tenha se tornado a bobagem que virou entre homens com mais de 40 anos de idade e mais de 40 mil de remuneração mensal – um hobby que só se compara a abrir academia de ginástica e levar fotógrafo de Caras para a própria lua-de-mel. Vivem com suas maletinhas pelos restaurantes, a dizer platitudes como “Mas que vinho encorpado”. Ora, encorpado é Pinot Noir (o sobrinho, não a uva). Arrivistas, todos. A mim, basta enterrar Cyrano num copo para, em poucos segundos, adivinhar a origem de qualquer vinho, a geologia do seu terroir, o tipo de pássaro que sobrevoa as videiras, até mesmo se há petróleo embaixo da camada de sal. Certa vez, cheguei a dizer: “Sobre este vale (tratava-se de um Marquis de Simulacre-Incompris) passam turboélices”. Acertei. O vale ficava na rota Bordeaux-Paris. Os fumos acariciavam a pele das uvas plantadas na franja leste da colina. Era inconfundível. Só não perceberia quem sofresse de cretinismo nasal.

O que sei de história, aprendi com as uvas. País que não produz bom vinho é como o Alto Volta: não quero nem saber onde fica. Meu planisfério restringe-se a nove países: França, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Chile, Argentina, Austrália e EUA. Ando com vontade de tirar a Alemanha e a Argentina do mapa. O Brasil é apenas o lugar onde vivo. Não fosse pelo meu Pinot Noir, já teria me mudado para a França – a única superpotência na geopolítica enológica. Estou pouco me lixando para o barril de petróleo a 100 dólares. O diabo é uma garrafa de Mystère-de-la-Toilette a 380 euros.

Marcos Caetano

Marcos Caetano é especialista em comunicação, comentarista esportivo e colunista do Meio e Mensagem

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