ficção

O degas aqui

Em busca de um personagem pra chamar de meu

O degas aqui
31ago2018_07h25
Atravesso a rua. As aranga, os buzão, tudo parado na Teodoro. Ando, logo existo em cima das minhas pernas descongestionadas, com a alegria sádica do andarilho que não depende de condução. Falta que me fazem aqueles óculos phonokinográficos pra descrever as cenas banais que presencio ou das quais participo como coadjuvante no palco das calçadas, ao lado de atores e atrizes anônimos
Atravesso a rua. As aranga, os buzão, tudo parado na Teodoro. Ando, logo existo em cima das minhas pernas descongestionadas, com a alegria sádica do andarilho que não depende de condução. Falta que me fazem aqueles óculos phonokinográficos pra descrever as cenas banais que presencio ou das quais participo como coadjuvante no palco das calçadas, ao lado de atores e atrizes anônimos FOTO_DW RIBATSKI_2018

E cadê a primeira frase do meu romance? Sem primeira frase, não tem romance. O Strumbicômboli tem uma puta primeira frase: ‘Bom dia, ele disse à meia-noite em ponto.’ Puta primeira frase de romance. Pode não parecer, se não tiver um romance debaixo dela, como tinha no Strumbi. Mas era uma puta frase fertilizadora. Desde então persigo uma primeira frase com esse mesmo punch. Ó primeira frase do quinto caralho do apocalipse, em que canto tu te escondes, porra?

E segue o andarilho a ruminar frases que despeja numa fita de cromoferrite. Uma delas talvez seja a frase-maná, que, em se grafando, tudo dá.

Cromoferrite. Parece nome de doença: cromoferrite nefrocorrosiva purulenta. O cara que fabricava essa porra deve ter ido à falência com o advento da tecnologia digital. O que será que ele fez com os estoques encalhados de cromoferrite, na passagem do mundo analógico pro digital? Deve ter jogado tudo no mar e intoxicado um monte de peixe, crustáceo e molusco.

Se vou mesmo seguir com esse lance do gravador, preciso me acostumar a me ver como personagem de mim mesmo. Uma primeira pessoa que se vê com os olhos de uma terceira. Nada mais que o velho truque de se ver de fora, como quem não tem nada a ver com seu próprio peixe. Ao decidir virar escritor, encanei de narrar em terceira pessoa, esse abantesma onisciente que não suja as mãos com as misérias e orgasmos alheios. Só dá baixa na vidinha dos e das personagens, machistas homofóbicos, feministas militantes, reacionários a céu aberto, revolucionários da boca pra fora, santos, criminosos, grandes filhos e filhas duma puta ou pérolas de generosidade, tolerância e compaixão. Ricos, uns poucos. Pobres de marré-marré, a maioria.

Só que, olha só, ao suspender as mãos sobre o teclado, o que me saía era a primeira pessoa tagarela, esse eu-mesmo solipsista – e fajuto, ainda por cima. Um eu-mesmo que só existia naquelas folhas de papel.

‘Ó tu que vens de longe, ó tu que vens casada…’

Como fui me lembrar desse verso antigo, de um soneto lido numa antologia dum velho poeta gaúcho que ganhei há milênios duma poeta gauchinha que zanzava por São Paulo mascateando em bares e antessalas de cinema de arte e teatros a brochurinha de poemas compostos e impressos por ela mesma. Não lembro dos poemas, mas lembro da poeta. Vinte e poucos anos, baixinha mignon, com aquele sotaque porto-alegrense que sempre achei tão suave e sensual. Era também grande fã do Strumbicômboli, aquela menina, fato que nos aproximou. Tinha um nome que eu, Fanfarrão Amnésio, não lembro agora. Sei que a gaúcha tinha um namorado em Porto Alegre, outro strumbicomboliano devoto.

Ele tá lá agora?, perguntei pra ela de gaiato.

Tá.

Ótimo. Tá em Porto, tá alegre.

Ela riu e me deu esse livrinho do ‘Ó tu que vens casada’ que ela trazia na bolsa. Passei pra ela a bagana que a gente fumava, abri numa página qualquer e li em voz alta o soneto. Ela disse: Só que eu não sou casada, só namorada. Corrigi: Ó tu que vens namorada… mas que o namorado tá em Porto Alegre, bem longe daqui… A gente não tinha trepado ainda, o que não demorou a acontecer. Foi então que tive uma surpresa, das mais surpreendentes, por sinal. Bom, sempre é uma surpresa a primeira vez que se trepa com alguém. Nesse caso, a surpresa era o grelão da mina instalado numa buceta cabeluda donde emanavam uns feromônios de brócolis refogados no alho, com ligeiro retrogosto de sardinha fresca. Era vegetariana a… Teka! Esse o nome dela. Se lembrei do cheiro da buceta, como não me lembraria do nome de sua dona? Nunca tinha visto uma coisa daquelas e nunca mais vi nem senti nada igual. Que puta grelo aquele: uma piroquinha tesa no meio do matagal de pentelhos. Dei umas lambidas, ensaiei um boquetinho clitoriano ali, mas achei meio esquisito. Ela achou ótimo. Acabou que eu me concentrei foi na xota mesmo, um aquífero vaginal. Nunca fodi uma buceta tão lubrificada. Finalizei a transa, daquela primeira vez, comendo ela por trás, na xota, mas sem contato com o maxigrelo. Aquele grelão, sei lá, é o tipo da coisa que deve demorar um tempo até você se acostumar. Quanto tempo, só o namorado dela lá em Porto Alegre pode responder. Ela parecia não esquentar muito com isso nem com nada. A gente tinha bebido, fumado e só queria se divertir e, se possível, gozar.

Um dia, depois de uma noite intensa de copos e fodas, acordei na minha cama vazia de mulher. A Teka tinha deixado um bilhete em cima do travesseiro no qual dizia ter tido um ‘sonho forte’ naquela noite, e que por isso acordou cedo e se mandou pra rodoviária. Deu saudade do namoradinho, decerto, misturada com alguma culpa. Ele devia ser mesmo o cidadão mais preparado pra dar conta daquele grelôncio. Bá, tchê. Bye-bye.

Lembrei do nome do poeta daquele verso da mulher casada que vem de longe: Alceu Valmosy. Seria uma ode ao adultério, aquele soneto? Se eu tivesse um smartphone, checaria isso agora mesmo no Google. Opa: tem uma lan house logo ali. E se eu fosse lá tentar caçar esse poema do gaúcho Valmosy? Tempo tenho de sobra. Pourquoi pas? Bora lá.

 

Tem umas cinco baias, só uma ocupada. Me instalo na baia 3 e clico no Google Chrome. Boto Alceu Valmosy no campo de busca e – rá! – não é Valmosy, é Wamosy. Quase acertei. Ainda bem que esse Google não se intimida com imprecisões ortográficas. A garota do caixa me olha com precavida curiosidade. Que tanto esse maluco fala nesse estranho aparelho enquanto navega pela internet?

A ver, a ver… Taqui: Alceu Wamosy nasceu no fim do século xix e morreu em 1923 dum tiro que levou em combate numa daquelas revoluções por lá. Antigamente os gaúchos estavam sempre dando ou levando tiro. Hoje são os cariocas que fazem isso. Logo encontro o soneto da mulher casada que surge de repente na vida do poeta. Ele diz pra ela que ‘a minha alcova tem a tepidez de um ninho’. Ou seja, vamos lá pro meu ninho, baby, dar umas bimbadas tépidas antes do nascer do sol e do corno do teu marido acordar. Daí, ‘quando a luz do sol dourar, radiosa, essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua, podes partir de novo, ó nômade formosa!’

É isso aí, gata, faz um bidezinho rápido e volta logo pra casa, que tu mora longe pra caralho e… peraí. Que história é essa de nômade?

Quá-quá-quá: não é ‘ó tu que vens casada’. É ‘ó tu que vens cansada’.

É cansada, não casada. Eu decorei errado a porra do verso do gaúcho. Vai ver foi porque a gauchinha corneava alegremente o namorado dela, que, por sua vez, vai saber o que aprontava lá pelos pampas na ausência dela. Mas pode ser que a edição que ganhei de presente contivesse um pastel gráfico. Porra, passei mais de vinte anos da minha vida citando errado o verso do gaúcho, cujo sobrenome eu também errava. A musa do poeta é uma nômade cansada que vem de longe, não uma biscatinha comprometida que mora na perifa e veio sortá a franga e o grelão na cama tépida do poeta bacanudo, a exemplo do que a minha namoradinha de ocasião viera fazer em São Paulo, nos anos 90.

Levantei feliz do computador. Eu tinha corrigido um erro histórico da maior importância: Ó tu que vens cansada…

Quanto deu?, perguntei pra garota do caixa, sem saber se devia ou não informar a ela que o poeta Wamosy tinha morrido de tiro numa revolução, lá no Rio Grande do Sul.

Dôi real, sinhor, ela me respondeu, em sua ignorância quanto ao destino terrível do poeta gaúcho.

A garota ficou lá no caixa. Eu embarco de novo no fluxo da Teodoro e da minha consciência em disponibilidade.

Ó eu que venho de longe, ó ele que vem de longe, ó tu que vens de longe. Que voz narrativa eu deveria usar no meu romance?

Que romance?

Esse que vai sendo gravado aqui no cromoferrite, porra. O suporte é antiquado, mas o romance vai ser bem moderno. É só passar a falação da fita pro papel. A primeira frase gravada aqui vai ser a primeira frase do romance, e ponto final. Nem lembro qual é essa frase. Como também não tenho certeza se vou me dar ao trabalho de transcrever essa falação. É só uma ideia. Há ideias demais na literatura. Não sei se alguém já teve a ideia de escrever um romance sem ideias. O leitor que tenha suas ideias, se fizer muita questão de ideias. E o que um romance poderia ter no lugar de ideias? Ritmo, ação, emoção, tesão. Samuel Fuller.

Mas eu falava de vapor metálico, três pontinhos.

Sim, vapor metálico. E daí, que mais? Daí que a pujança do capitalismo num determinado lugar do globo pode ser medida pela intensidade da luz que emite pro espaço. São Paulo tem mais grana no bolso que o resto do país e da América do Sul, e, portanto, muito mais luminárias acesas, dentro e fora das casas. Nada que se compare à Strip de Las Vegas, claro. Aquilo é o farol mais brilhante do globo a celebrar o maior estoque de capital acumulado num só país em todas as eras. É um dispêndio estridente de fótons a foder com a noite no deserto do Mojave. Os fantasmas de índios e caubóis que vagam no deserto devem sentir doída nostalgia das noites profundas iluminadas somente pela luz licantrópica do luar refletida nos olhos dos lagartos e das cascavéis, e pela poesia ideogramática das estrelas, ao som do uivo distante dos coiotes de gibi de caubói solitário, do tipo que eu devorava na primeira adolescência.

As luzes modernas, como o vapor metálico, iluminam, mas não esquentam. Até esfriam o visual da paisagem. No verão, numa noite abafada, isso é uma vantagem. No inverno, bom era se tivesse aquecedores luminosos pendurados nos postes. É o que eles deviam providenciar em lugares gelados como o Alaska, com k.

Tudo vai melhor com K, afirma Kabeto, nome pelo qual me conhecem.

De blazer e uma malha por cima da camisa de flanela xadrez com camiseta por baixo, me sinto um personagem do Jack London no Yukon invernal, que fica praticamente no cu gelado do Alaska. Se bem que o Jack London usava um anorak de pele de urso, como se vê numa famosa fotografia dele. Meu blazer, pelo menos, é de legítima lã de carneiro, e foi comprado em Montevidéu. E não por mim, que nunca fui a Montevidéu, e sim pela Maria João, que me deu o blazer de aniversário. E a etiqueta, pregada sobre a borda do bolso interno do casaco, diz que ele é made in Italy. Me sinto um cidadão do mundinho burguês com esse blazer aqui.

 

A noite cai rápido, sem margem pra muito crepúsculo. Noite frigorífica, atenuada pelo número reconfortante de pizzarias à disposição na cidade. À disposição de quem puder pagar por uma boa pizza. Ou por uma pizza ruim, não importa. Pizza ruim é como sexo ruim: melhor do que nada. Pizza é pizza até debaixo d’água. Não deve ficar tão boa de se comer debaixo d’água. Sexo debaixo d’água é bem melhor que pizza naufragada. Já fiz sexo debaixo d’água, em piscina de motel e na praia. Não é muito prático, pois ferra com a lubrificação vaginal da parceira. Mas a redução do peso corporal dos fodedores é uma evidente vantagem. Faz tempo, aliás, que eu não dou uma bimbada aquática. Pizza, fora d’água, eu comi outro dia. Dentro d’água, nunca experimentei.

Ê falta de assunto do caralho.

Mas, falando em pizza e Alaska, com quantas pizzarias uma pessoa pode contar no Alaska? Quantos motoqueiros circulam por Fairbanks, Juneau, Nome – Nome, que nome! – com pizzas no baú do jet ski de neve pra entregar numa típica noite branca de inverno? Deve ser foda entregar pizza num frio de 30 graus negativos. A sensação térmica, pro entregador, deve ser de menos 60 graus. Aqui em São Paulo motoqueiro entregador de pizza é mato, seja no frio ou no calor. Li outro dia que as pizzarias paulistanas assam 900 mil pizzas por dia, em média. Cacete. Quase 1 milhão de pizzas. A mesma matéria de jornal dizia que, em São Paulo, são devoradas pouco mais da metade do total de pizzas que se assam no país. É pizza pra caraio, mano. Se empilhar, dá um Pico do Jaraguá de pizza por dia. Um Everest por mês. Agora, converta toda essa pizzaiada em bosta pra ver só. Dá todo um Himalaia de bosta de pizza por ano. Sou capaz de sentir neste exato instante o caudal espesso de 900 mil pizzas em estado fecal a fluir pela rede de esgoto debaixo dos meus pés rumo ao Tietê. Aquilo deve tá que é só bosta de pizza. Água pastosa de mozzarella a caminho do interior do estado, em vez de seguir pro litoral, ‘rio que entras pela terra e que me afastas do mar… é noite, e tudo é noite…’ Mário de Andrade nunca mencionou as pizzas paulistanas em prosa ou verso. Mas deve ter comido muita pizza no Brás.

Assim que eu chegar no Farta, vou mandar um pedaço de calabresa e um de mozzarella, a dupla dinâmica de Pizzaland, vulgo São Paulo. Nunca é demais render homenagem à pizza, base da dieta lúdica dessa brava gente adiposa que perambula pelo Planalto de Piratininga, herdeira mitológica dos bandeirantes apresadores de índios daquela escultura do Brecheret no Ibirapuera. Os índios não se deram bem na senzala, ao contrário dos negros que também estão representados naquela escultura, se não me engano. Quer dizer, os negros também não se deram muito bem na senzala, debaixo de chicote. Mas estavam muito longe de suas casas africanas e tiveram que aguentar toda uma vida de dores e horrores, antes que a princesa abolisse a escravidão e abrisse pra eles, de par em par, o portal da pobreza e da miséria. Bacana, essa princesa.

 

Já falei do Park? Se não falei, falo agora. Amigo meu, bem mais jovem: pouco mais que metade da minha idade. E magro, bem magro. O Park é coreano, nascido em Seul, cara triangular e angulosa de oriental, cabelo raspado nas laterais e abundante no cocuruto formando um topete trapezoide inspirado na arquitetura capilar do seu patrício do norte, o Kim Jongun, que Park classifica como o maior hipster de toda a Ásia. ‘O Kimzinho é o ditador que mais comeu hamburguers e hot-dogs na história de toda a península da Coreia, desde o rei Taejo, que reinou até 943’, diz o Park. Comeu inclusive na Disneylândia do Japão, quando era só o filho do ditador-herdeiro, o Kim Jongil.

O Park é um personagem literário pronto. É só pegar e enfiar num romance, num conto, qualquer coisa. Acho que ainda vou falar muito do Park em tudo que eu vier a escrever. Bom, já comecei a falar, parece.

O Park nasceu no começo dos anos 80, em Seul, como acabei de dizer. Veio com menos de 2 anos pra cá, onde se alfabetizou e floresceu em versos na língua de Camões, que, se calhar, ele conhece melhor do que eu, que nasci no Brasil e brasileiro sou, e mais lido que ele, até por ser mais velho.

O pai do Park, o seu Parkão – na Coreia o sobrenome vem antes do nome, se entendi bem a coisa –, tinha uma pequena confecção em Seul e não aguentava mais viver sob uma ditadura militar, com os generais e meia dúzia de famílias arquibilionárias no comando autoritário do país. E ainda por cima com a porção inimiga do país, ao norte, ameaçando a cada quinze minutos lançar um ataque arrasador contra o sul. A toda hora rolavam grandes manifestações contra a ditadura, violentas, de parte a parte. Numa delas, o pai do Park tomou uma cacetada na cabeça que deu com ele no hospital, em coma. Assim que as ideias se rearranjaram dentro do crânio rachado do seu Parkão, ele decidiu cair fora daquela merda, com a família na bagagem. O Park nem tinha completado 2 anos. Seu destino foi São Paulo, no Bom Retiro, onde viviam uns primos do pai e já existia uma colônia coreana, parte da qual escravizada pelos donos de confecção judeus que dominavam o bairro. Isso bem antes dos coreanos, por sua vez, virarem patrões de hordas de bolivianos imigrantes ilegais em suas confecções. Aqui também tinha milico no poder, mas seus parentes lhe garantiram que havia um processo de abertura política em curso e a barra já estava bem mais leve. Nada comparável à Coreia do Sul. E muito menos ainda à do Norte. E que, apesar da economia ser uma bagunça, com inflação altíssima, baixo nível técnico da mão de obra e corrupção comendo solta, havia leis protecionistas que barravam os produtos estrangeiros e garantiam o mercado pros produtores locais. Dava pra fazer um bom dinheiro por aqui, pois pra tudo se dava algum jeito ou jeitinho.

Com a grana que o seu Parkão apurou ao vender a confecção em Seul, ele abriu outra no Bom Retiro e, em vez de ser explorado pelos judeus, escravizou, ele mesmo, uns bolivianos das primeiras levas de imigrantes que aportaram por aqui e fez fortuna. Diz o Park que o pai caiu de boca nas pizzas dos italianos do bairro. Não saía da Monte Verde, por exemplo, que ficava na rua de trás da casa deles.

Mas deixa o Park pra lá. Devo encontrar o figura daqui a pouco, de modo que – pizza! Não consigo evitar esse arredondado tema recoberto de molho de tomate, mozzarella, calabresa, azeitonas, com uma discreta chuva de manjericão fresco por cima depois de sair do forno. Até a Coreia me trouxe de volta à pizza paulistana, veja só. E tudo vira bosta, como já disse. E nem precisava ter dito, pois o que mais as 900 mil pizzas consumidas por dia em São Paulo iriam virar? Caviar russo? E mesmo que virassem, caviar russo também vira bosta do mesmo jeito. Aquelas ovas de esturjão, em vez de eclodirem em peixinhos a nadar no mar, são devoradas em cima de torradinhas com manteiga, digeridas e transformadas em merda da mais fétida qualidade, a ser expelida na primeira oportunidade pelo cu de quem comeu. A alta e a baixa gastronomia têm um encontro marcado no rio Tietê. Ou no rio Volga, ou sei lá onde.

E pense na montanha diária de caroços de azeitona chupados que as pizzas deixam pra trás. Uma pizza tem pelo menos uma azeitona em cada pedaço, certo? Se eu fosse pizzaiolo, jamais teria a mesquinhez ou a incúria de deixar um pedaço de pizza sem ao menos uma azeitona. Digamos que haja umas seis azeitonas em média por pizza. Multiplicadas por 900 mil, resultam em 5 milhões de caroços de azeitona descartados por dia. Agora, multiplique isso por 365. Deve esbarrar em 1 bilhão de caroços de azeitonas de pizza por ano.

Caceta, esse deve ser o melhor agronegócio do capitalismo contemporâneo: azeitonas. Além dos bilhões de azeitonas das pizzas, ainda tem o azeite de oliva, que consome mais alguns bilhões de azeitonas. Sem falar nas azeitonas servidas de tira-gosto nos botecos e no couvert dos restaurantes. E nas azeitonas das empadinhas e dos dry martinis. Caralho, é todo um universo de azeitonas.

E eu aqui, numas de escrever romance, em vez de abrir uma pizzaria ou plantar oliveiras, negócios de retorno garantido em Pizzaland. Devo ser mais burro do que eu supunha. E os caras que editam romances, mais estúpidos ainda. Por que não trocam suas editoras por olivais, negócio muito mais seguro e lucrativo? Será que o caroço da azeitona não pode virar papel? Madeira compensada? Ração de gado, fertilizante agrícola, munição pra estilingue – tanta coisa. A azeitona e seu caroço podem salvar o país, mais do que o petróleo e o nióbio, e ninguém se deu conta disso.

 

O Beloni me apareceu um dia no Farta pra tomar uma comigo. Isso, antes daquela história idiota envolvendo a mulher dele, e que fudeu com a nossa amizade. Foi o Beloni, aliás, quem editou o Strumbicômboli, que eu chamo de romance só porque romance é qualquer coisa que você chamar de romance. Uma rosca espanada é um romance. Uma caixa de fósforos cheia de palitos queimados é um romance. Um sapo atropelado pode ser o protagonista de um romance, desde que bem atropelado. Tudo pode virar, tem virado e ainda vai virar romance.

O Beloni era editor sênior da Letra Brasil. Hoje toca sua própria editora, moderninha e com boas perspectivas de crescimento, se essa tal crise que, dizem, vem por aí, não foder mais uma vez com o país, como das outras tantas vezes. Só implico com o nome da editora, Vício & Verso, de um trocadilhismo juvenil meio boboca. Enfim. Rico, o Beloni não vai ficar, mas tem conseguido se segurar de algum jeito num mercado todo feito de papel. Qualquer crise econômica bota fogo nisso com a maior facilidade.

Por que mesmo eu fui me lembrar do Beloni? Ah, sim, aquele dia no Farta. Então. Uma hora lá na mesa veio à baila o assunto da primeira frase messiânica que daria o start pro meu segundo romance. Era assunto velho, esse, tanto pro Beloni quanto pra patota amiga. Mas nesse dia ele se lembrou dum negócio que tinha acabado de ler n’A Peste, do Camus. Parece que tem lá um personagem chamado Grand que encanou de escrever um romance, mas não consegue, porque vive empacado na maldita primeira frase.

Você tem a síndrome de Grand!, diagnosticou Beloni naquela noite, entre cervas, cachaças e gargalhadas. E steinhaegers, no meu caso. Ele insistia: É isso, cara. É o que você tem. A síndrome do escritor que encasqueta com a primeira frase e não vai pra frente. A síndrome de Grand!

O Beloni exultou com seu próprio achado, como um médico que acaba de formular a sintomatologia de uma nova doença: a síndrome de Grand.

Bom, respondi. Pelo menos minha neurose tem um nome grandioso: Grand.

Riu-se moderadamente na mesa. Mas o Beloni falava sério. Ele achava que eu devia procurar um terapeuta cognitivo-comportamental. Na opinião dele, eu tenho um TOC que me aprisiona na ideia fixa da primeira frase epifânica, semente poderosa da qual germinaria uma frondosa árvore de palavras encantadas e histórias encantadoras. Transtorno obsessivo compulsivo é assunto pra tarja preta, meu velho, me disse meu atual ex-amigo.

Ex-amigo é pior que inimigo. Um sentimento positivo que vira o seu contrário da noite pro dia é veneno pro espírito. Essa história minha com a mulher dele, como já disse, foi uma bobagem. A idiotinha me jurou que eles tavam separados. Mas era só uma briga feia de casal, dessas que ele ou ela saem porta afora com os olhos injetados de sangue e sede de vingança. Nada mais fácil que encaçapar o primeiro amigo bêbado que encontrar pela frente – eu, no caso. Mas, no que deu sua vingadinha, ela já sentiu arrependimento, culpa e saudade do parceiro traído. Não saquei isso na hora, bêbado e de pau duro na minha quitinete, com ela igualmente bêbada e pelada na minha cama. Não passou disso, uma foda bêbada dum bêbado com a esposa vingativa de um amigo. E não é que a cretina foi lá e contou pra ele em meio a uma DR de reconciliação? Caraio. Mulheres são feras de cetim e coxas, como bem disse o Murilo Mendes.

 

Acabo de passar por uma pizzaria na esquina da Capote Valente, o velho Degas. O forno a lenha fica na frente da pizzaria, separado da rua por uma vitrine. O pizzaiolo prepara uma bolota de massa que vai se alinhar ao lado de outras na bancada. Vão virar pizzas daqui a pouco. No princípio era a bola. Depois veio o disco da pizza. Vontade de entrar lá e mandar: Diz lá pro dono desta prestigiosa pizzaria que o degas aqui quer dar umas dicas fundamentais sobre a arte napolitana de confeccionar pizzas.

O funcionário haveria de pensar: Que tipo de maluco temos aqui? Veria que sou um cinquentão bem-vestido. Sem excessivo apuro, mas bem-vestido. O gerente e o pizzaiolo de plantão viriam falar comigo, o que poderia render alguma cena dramática, cômica ou absurdista. E ensejaria automaticamente uma história, com personagens, diálogos e tudo mais. É uma ideia, hein? Porra, se não é uma ideia. Quase entrei lá e pedi uma pizza. Com esse frio e com essa fome, é o que eu devia ter feito. Eu ouvia muito meu pai dizer: O degas aqui, que não é bobo nem nada, correu pra encher o tanque no posto antes do aumento da gasolina. Ninguém passa a perna no degas aqui. O degas aqui vai tirar o domingo pra ver futebol na tevê e cochilar no sofá. O degas aqui não nasceu ontem.

‘O Degas Aqui’ daria um título curioso de romance.

 

Frio da porra. Fez zero grau na Cantareira na madrugada de ontem. A previsão é que a temperatura caia ainda mais de hoje pra amanhã. Frio de alaskar. Trocadalho de lascar. Já foi. Ninguém ouviu. Só o gravador em sua complacência infinita.

Atravesso a rua. As caranga, os buzão, tudo parado na Teodoro. Só motociclistas avançam pelos corredores entre as filas de veículos. Ando, logo existo em cima das minhas pernas descongestionadas, com a alegria sádica do andarilho que não depende de condução. Milhões de cavalos de potência estagnados nas ruas, e eu tranquilo de sapatênis no meu passinho de urubu malandro. Só tomar cuidado pra não ter as pernas prensadas. Foda é moto. Carro para no trânsito, moto não. Eles inventam trilhas por onde não passa um alfinete. E que se foda o que vier pela frente.

Não estou longe do Hospital das Clínicas e do necrotério. No HC, a pessoa normalmente entra viva, no Instituto Médico Legal entra morto, de crime, acidente, intoxicação, suicídio, e das sempre temíveis “causas desconhecidas”. É o trecho final e mais íngreme da Teodoro. Descrevo, logo existo: loja de móveis, banco, casa lotérica, loja de roupas, de instrumentos musicais, outra loja de móveis, mais uma de instrumentos musicais, uma portinhola de grade de ferro que dá acesso a um corredor estreito por onde uma velha, uma guria de uns 5 anos e um cachorro preto caminham em fila indiana rumo à rua. Mó pinta de ter um cortiço nos fundos desse corredor.

Na calçada estreita apinhada de gente dou uns dribles no pessoal, com direito a esbarrões de baixo impacto num ou noutro sujeito e até mesmo numa mulher: Perdão, eu rogo.

Eu ainda peço perdão. Até pra homem. Ninguém mais pede perdão nas ruas. Sou um homem do século passado, com mentalidade do retrasado. Fim de expediente, muitos trabalhadores sobem a Teodoro em direção ao metrô e à avenida Doutor Arnaldo. Ninguém a passeio. Sou o único ser assemelhado a um flâneur nas imediações, alguém que também acabou de largar o batente, mas tem o privilégio de se encaminhar com distraída determinação a um bar situado a uns 4 quilômetros de distância dali com o firme propósito de encontrar um amigo, quem sabe alguma mulher transável, ou ao menos conversável, e encher um pouco a cara.

Falta que me fazem aqueles óculos phonokinográficos pra descrever as cenas banais que presencio ou das quais participo como coadjuvante no palco das calçadas, ao lado de atores e atrizes anônimos. O Caran D’Ache étnico na Teodoro varia de algum grau de negritude até esparsos exemplares de loirinhas caucasianas vindas de prováveis santa catarinas ou paranás, se não mesmo dos pampas profundos. Vejo uma nítida peru-boliviana e até uma muçulmana com o xador a lhe emoldurar a cara levantina. Síria, libanesa, iraquiana, palestina, turca, egípcia. Allahu akbar!

Boa parte das mulheres, garotas e maduras, portam cabelo pintado, de loiro, de laranjada elétrica, de pavão imperial, de cinza meia-idade. Os caras quase todos de boné, de aba curta, de aba longa, de aba curva, de aba reta, de aba pra frente, pra trás, pro lado. Várias mulheres calçam botas de cano alto. Todos os homens usam tênis em suas infinitas variações.

Estou em vias de passar por uma senhora baixa e gordota, com o corpo num curioso formato de barril, o que me desperta a imediata vontade de tomar um chope. Madame du Barril porta duas sacolas plásticas de supermercado, imensas e carregadas de trecos. O que pode ter ali dentro? Detergente, molho de tomate, cebola, macarrão, pepinos, laranjas, berinjelas, bananas de dinamite, dildos de sex shop, tijolinhos de maconha prensada, cabeças de macaco mumificadas. A realidade toda em duas sacolas.

A gorda-do-barril sustenta uma cabeleira basta e aramiça, verdadeiro bombril capilar. Ela se prepara pra iniciar a travessia da Teodoro: analisa o trânsito, calcula tempos e espaços disponíveis. Mesmo com o engarrafamento estático a travessia naquele ponto é bastante aventuresca, sobretudo por causa das motos. Imagino a mulher atropelada, o conteúdo das sacolas espalhado pelo asfalto, sob as luminárias de vapor metálico que muito atropelamento já alumiou nesta cidade, talvez naquele mesmo trecho da Teodoro. Não vou esperar pra ver o triste fim dessa personagem transitória na minha vida de flanador.

Aliás, taí uma ideia: um romance inteiramente tocado a personagens transitórios, efêmeros, desimportantes, sobre os quais o narrador nada sabe. Apesar de engatar uma terceira pessoa pra narrar, ele não faz uso de sua onisciência. Mas, se ele não faz questão de saber nada sobre os seus personagens, por que haveria de escrever uma história com eles? Questão interessante. Vou refundar o Nouveau Roman com essa ideia idiota. Definitivamente, o que eu preciso é de um bom personagem pra chamar de meu. Mas que não seja eu. Um personagem como Odisseu, que todas as ninfas da Antiguidade comeu.

O bom personagem, cabe lembrar, pode ser uma pessoa muito má. Aliás, o bom personagem moderno tem que ser capaz de vilezas, maldades, invejas, ressentimentos e mesquinharias tremendas. Além de bobeiras e chatices variadas. Mas o filho ou filha da puta do ser humano em questão tem que ter algo de positivo pra resgatá-lo da vilania ou da mediocridade absolutas. Alguém que, apesar de ter torturado, estuprado e matado crianças, velhos e mulheres, algumas delas grávidas, ou, ao contrário, passado a vida aprisionado na mesmice de uma baia de repartição, arrisca sua vida ao sair pela janela de um 20º andar pra resgatar um gatinho extraviado num parapeito externo do prédio, sendo que o felino pertencia a uma velhinha que não conseguiria viver nem mais um dia sem o seu bichano de estimação.

Fico aqui a mirabolar teorias sobre personagens, como se tivesse grande experiência no ramo. No começo, o Strumbicômboli era apenas nomes masculinos e femininos lançados no papel. Daí, aos poucos, passei a atribuir ações e pensamentos a esses nomes. Funcionou. Os nomes se transformaram em personagens e o livro fez um puta sucesso entre malucos letrados. Eu mesmo passei a acreditar que aqueles nomes pertenciam a pessoas reais e não a seres de existência meramente verbal. Notei também que, a certa altura da escrita, você já sabe um monte sobre os seus personagens. E eles sobre você. Claro, pois na construção dos personagens ocorre muita infiltração de material psíquico oriundo do sótão e do porão da sua cachola. Talvez alguns deles saibam mais sobre você do que você sobre eles. E você, o glorioso autor, vai morrer sem desvendar todos esses segredos encerrados no modo de ser e falar dos seus personagens, que continuarão vivos nas páginas dos livros.

Porra, eu devia ter virado crítico literário. Bem mais fácil do que escrever romances.

 


Trecho do livro Maior que o Mundo, a ser lançado em novembro pela Alfaguara.

O degas aqui

Leia também

Últimas Mais Lidas

A indústria que é brasileira na propaganda

Vídeo da Confederação Nacional da Indústria desenha um mundo em que o Brasil fabrica “possibilidades” em forma de drones, tablets e turbinas de avião

Tereza Cristina responde a cinco ações por dívidas

Além de disputa com JBS, ministra da Agricultura de Bolsonaro acumula calotes com Banco do Brasil e fundos de investimento

A operação foi um sucesso

Como foi a invasão noturna do Bope na Maré que deixou cinco mortos e foi considerada exitosa pelas autoridades

Foro de Teresina #27: Bolsonaro cai no mundo real, a oposição junta os cacos e Doria recruta no governo Temer

O podcast de política da piauí discute os fatos da semana na política nacional

A rebelião do WhatsApp contra o Major Olímpio

Soldados virtuais que ajudaram a eleger o capitão Bolsonaro condenam proximidade do senador com João Doria

Bolsonaro-dependência

Oposição ao novo presidente joga sem pressa e no erro adversário

Fazendo a egípcia

Bolsonaro estremece relações comerciais com o mundo árabe e abala, sem querer, o negócio de escovas progressivas brasileiro

O Muro – sinal de alerta, ouvidos moucos

Documentário de 2017 discute premonitoriamente a polarização de posições políticas

Stan Lee explica por que “criou problemas” para os super-heróis

Assista a trechos da entrevista concedida em 1988 pelo criador de personagens da Marvel, morto nesta segunda

A lição de Josefa

A grande artesã deixa um conselho para os políticos: “Não há riqueza maior do que o nosso nome”

1

O triunfo do bolsonarismo

Como os eleitores criaram o maior partido de extrema direita da história do país

2

A rebelião do WhatsApp contra o Major Olímpio

Soldados virtuais que ajudaram a eleger o capitão Bolsonaro condenam proximidade do senador com João Doria

3

A operação foi um sucesso

Como foi a invasão noturna do Bope na Maré que deixou cinco mortos e foi considerada exitosa pelas autoridades

4

Fazendo a egípcia

Bolsonaro estremece relações comerciais com o mundo árabe e abala, sem querer, o negócio de escovas progressivas brasileiro

5

Tereza Cristina responde a cinco ações por dívidas

Além de disputa com JBS, ministra da Agricultura de Bolsonaro acumula calotes com Banco do Brasil e fundos de investimento

6

Bolsonaro-dependência

Oposição ao novo presidente joga sem pressa e no erro adversário

7

Em águas turvas

A substituta de Sérgio Moro

8

Foro de Teresina #27: Bolsonaro cai no mundo real, a oposição junta os cacos e Doria recruta no governo Temer

O podcast de política da piauí discute os fatos da semana na política nacional

9

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro