esquina

O desviado

Um gay evangélico em Juazeiro

Joana Suarez
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

Cícero Souza Alves, 32, é um dos 9 185 Cíceros de Juazeiro do Norte, no Ceará, a cerca de 500 quilômetros de Fortaleza. É filho de Cícera, e tem um sobrinho e um cunhado com o mesmo nome (no município, a cada dezessete recém-nascidos, um é registrado como Cícero ou Cícera). Na academia, colou um adesivo em sua ficha para poder identificá-la mais rápido entre os vários xarás. Alves é recepcionista noturno no Hotel Padre Cícero, onde também trabalha uma Cícera. Mesmo convivendo pouco com os hóspedes, costuma conquistá-los com seu jeito falador.

A despeito de sua facilidade para se aproximar das pessoas, afastou-se da família. Não se tornou o devoto católico desejado pela mãe. Desviou-se do caminho. Brigou com ela, o pai e os dez irmãos. Alves é gay, mas evita pronunciar a palavra. “É uma coisa tão normal, você ter seu costume, ser quem você é, né?” Para a família tradicional e religiosa do sertão cearense, não. “Pra eles, isso é o cúmulo. Eu fui um filho esperado, o único que sempre teve leite. Meu pai me esfrega isso na cara até hoje.”

Não bastasse ser gay, Alves virou evangélico. Menino, passou a infância rezando junto à estátua do padim e conhecia todos os padres. “Minha mãe considerou uma afronta.” Juazeiro do Norte, onde cerca de 90% da população é católica, atrai 2 milhões de peregrinos por ano. Todo mês, no dia 20 os moradores vestem preto e vão à missa em homenagem à morte do padre Cícero, ocorrida há 84 anos.

A fim de ser o Cícero “que queria ser”, aos 22 anos Alves foi para São Paulo viver com o namorado. Na cidade grande, o parceiro encantou-se com a rotina de bebidas e baladas e o romance desandou. “Geralmente, essa classe gosta muito de bagunça, são muito felizinhos. Eu não curto isso, não bebo, não fumo.” Renega o passado de dançarino de uma banda de forró entre 2003 e 2008, mas admite que foi graças a isso que conheceu o Nordeste e vários hotéis.

Um dia, ainda deprimido com o fim do namoro, caminhava pelas ruas da capital paulista quando lhe chamou a atenção o vozerio de pessoas orando em uma igreja. “Era uma música bonita, um monte de gente contava histórias reais, eu me identifiquei.” Para Alves, a Igreja Católica não diz “verdades”, já a evangélica sempre tem uma “palavra de força para quem não consegue emprego”. Ele chegou a sugerir a um de seus irmãos (de sangue, não de fé), aspirante a padre, que fizesse o mesmo na missa: “Diga que Jesus está com elas, que a vida delas vai mudar.”

Alves visitou várias igrejas evangélicas, mas com a Mundial do Poder de Deus “foi paixão à primeira vista”. “Dizem que o pastor de lá roubou, mas eu pesquisei e sigo o que acredito.” Ele se define como autêntico, mas não cego: “Tem muita coisa que eu não gosto, mas ignoro.” Os irmãos de culto não estão a par de sua homossexualidade. Ele conta que até estava decidido a deixar “de ser quem era”, mas ao ouvir o pastor dizer que, quando está estressado, pega a esposa e vai para o shopping “viver a vida”, voltou atrás. “É assim, pastor? O senhor vive, né? Pois quem vai viver agora sou eu.”

Ser gay, tudo bem, mas daí a concordar com uma igreja evangélica para homossexuais, “isso já seria um escândalo”, emenda Alves. “Eu sei que uma hora Jesus vai me repreender e dizer ‘É agora ou nunca’, e eu vou ter que escolher”, fala, admitindo ser contraditório e até conservador, como seu padim Ciço.

 

Um dos responsáveis pela emancipação de Juazeiro do Norte, Cícero Romão Batista foi prefeito da cidade e tinha Lampião entre os devotos. Embora firmasse acordos com coronéis, era considerado o padre do povo. Depois de um milagre controverso em que hóstias se transformavam em sangue na boca dos fiéis, a Igreja o proibiu de exercer suas funções – seus defensores tentam até hoje obter do Vaticano uma reabilitação formal. Segue sendo considerado um “santo popular”.

Grupos de fiéis vindos de várias cidades saem em romaria e percorrem centenas de quilômetros em caminhadas que podem se estender por semanas para chegar até a estátua do padre, com 27 metros de altura, ao lado da qual um museu abriga milhares de ex-votos. Só de vestidos de noivas são mais de cem, disponíveis a quem quiser pegar emprestado.

Cícero Alves não saiu católico como queria a mãe, mas garante que suas escolhas não abalaram seus sentimentos pelo padim Ciço. “Coisas que eu pedi a ele quando era pequeno aconteceram lá em São Paulo. Queria comer com fartura e quando comecei a trabalhar em um restaurante, até me emocionei comendo.” Antes disso trabalhou com telemarketing. No call center de vendas da Folha de S.Paulo, seu sotaque cearense o ajudou. Por ter muito nordestino no Sudeste, quando o ouviam pronunciar “bom dia” e não bom “djia” (como os paulistas), os clientes já manifestavam simpatia e eram convencidos a assinar o jornal.

Depois conseguiu emprego de porteiro e segurança, pensando que os turnos de doze horas lhe renderiam dinheiro e pouco trabalho. Até que cansou de ser um nordestino sempre duro, vigiando estabelecimentos na Oscar Freire, “rua chique” na capital paulista. “Lá, era só trabalho, casa, trabalho, casa, pagar conta. Hoje, com 10 reais aqui em Juazeiro eu como o dia todinho, pareço rico”, disse Alves enquanto devorava um X-tudo de 5 reais (com cajuína). Retornou à terra natal no início do ano, após uma década afastado. “O povo diz que aqui não tem emprego, que nem com muita fé arruma, mas eu quis provar o contrário.”

No Sudeste, sentia-se mais discriminado por ser gay do que no sertão do Ceará. “Tinha gente que começava a me tratar mal quando sabia da minha opção, mesmo conhecendo minha integridade.” Com medo de não ver mais os pais vivos e com saudade da sua terra – “até o cheiro de Juazeiro é diferente” –, voltou para casa. Não deu certo. Foi morar com um amigo e parou de frequentar a família.

No Dia das Mães, encontrou dona Cícera na rua, por acaso. “Pedi perdão, abracei e fiz uma oração com ela.” Na despedida, Alves registrou o momento com uma foto que foi para a rede social. Com o pai, a relação continua difícil.

Joana Suarez

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