esquina

O doce mais doce que o doce

As lições gasosas de Zé do Caixão para aprendizes de detetive

Tomás Chiaverini
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Apertados em carteiras de fórmica bege, os 38 aspirantes a detetive particular silenciaram assim que Zé do Caixão adentrou a sala de aula. Passava um pouco das 10 horas de um sábado. O sol entrava pelos janelões e diminuía a aura macabra do cineasta, levemente encurvado aos 75 anos. As unhas longuíssimas, encardidas e retorcidas – seu traço distintivo mais marcante – haviam sido cortadas duas semanas antes. Ele tampouco trajava a característica capa preta sobre a camisa. Mas isso não impediu que, ao lado do quadro-negro, José Mojica Marins atraísse total atenção dos alunos do Instituto Universal dos Detetives Particulares, no Centro de São Paulo.

Como convém a um mestre do terror, manteve um silêncio sugestivo por alguns segundos, inculcando tensão ao ambiente. Depois justificou por que diabos fora escalado para dar aulas de arte dramática numa escola de investigadores. “Em certas horas, para sair de algumas situações, o detetive realmente tem de ser um ator”, disse, recorrendo a seu advérbio predileto.

Mojica dividiu a turma em duplas e, em tom teatral, ordenou que os alunos se olhassem profundamente nos olhos. Risinhos de incompreensão não intimidaram o palestrante. “Encare seu companheiro e procure descobrir quem ele é. Se é realmente um fofoqueiro, um galã, uma pessoa boa ou má”, explicou com admirável seriedade. Aos marmanjos barbados que compunham a audiência, não restou outra opção que não obedecer. Feito casais apaixonados num bistrô à luz de velas, encararam-se por sessenta segundos, cronometrados com minúcia por Zé do Caixão num relógio de aço com a pulseira partida.

O instituto que contratou Mojica promete formar detetives particulares em oito aulas de duas horas cada, pelo custo módico de 138 reais, que inclui o material didático e o registro profissional na prefeitura. O curso atrai alunos com grau de instrução variado. Para filtrar os candidatos incapazes de preencher o próprio cadastro, o dono da escola se viu compelido a incluir língua portuguesa no currículo, que inclui ainda aulas de campana, técnicas policiais e rudimentos de armas de fogo – apenas teóricos, felizmente.

“Muito bem”, exclamou Zé do Caixão quando finalmente se esgotou o tempo de olho no olho. Num corte seco, passou ao exercício seguinte. “Imaginem que estão no corredor de um hotel, numa investigação, quando realmente surge alguém de revólver em punho. Imagine esse revólver realmente perto da sua cabeça. Nesse momento, realmente o medo domina vocês, e vocês não sentem mais nada. O que vocês podem fazer?”, indagou, com ar dramático. Ninguém encontrou a resposta, um tanto óbvia para qualquer fã de filme de terror. “A saída é gritar!”, retrucou Mojica.

Apontando um sujeito sentado na primeira fila, o palestrante mandou que bradasse. Desconcertado diante da improvável injunção, o homem exalou um berrozinho trêmulo que suscitou risos de galhofa por parte dos colegas. “Mais alto!”, exigiu Zé do Caixão, como se estivesse a comandar um exorcismo. O aluno, ajuizado, obedeceu. Deu mais dois gritos, até que razoáveis – Hercule Poirot não faria melhor. Satisfeito, o professor passou ao próximo. Mais três berros: um baixo, um moderado, um a plenos pulmões. E assim foi, um a um, até que os 38 aprendizes tivessem a ocasião de se expressar.

 

Vertiginosa qual um trem fantasma, a aula seguiu adiante. Os detetives, como se sabe, realmente precisam de uma dicção empostada e articulada. No intuito de azeitar a voz de seus pupilos, o mestre instou-os a repetir um trava-língua (aos gritos, naturalmente): “O doce perguntou para o doce: ‘Qual é o doce mais doce que o doce?’” De braços erguidos, Mojica fazia as vezes de um maestro infernal à frente da turma para manter sua empolgação. E todos continuavam em uníssono: “O doce respondeu para o doce que o doce mais doce que o doce é o doce do doce de batata-doce!”

Não satisfeito com o coro edulcorado, Zé do Caixão fez com que os aspirantes a Sherlock se levantassem e o acompanhassem escadaria abaixo. Ao ar livre, caminhou alguns metros até a praça Dom José Gaspar, onde ordenou que formassem um círculo. O objetivo da segunda parte da aula era extirpar qualquer vestígio de timidez que porventura tivesse sobrado aos alunos depois da sessão de urros e doces. No centro do círculo, Mojica instou os aprendizes a se imaginarem uma trupe de teatro, sabotada por um gás capaz de despertar reações diversas. Primeiro, o riso. “Todo mundo gargalhando”, exclamou Mojica, com a voz grave e os braços erguidos.

Um pedestre se aproximou com a filha pequena e apontou para o inusitado professor. “Tá vendo aquele homem? Ele é muito famoso”, sussurrou ao ouvido da menina, como se aquilo fosse tornar a situação mais plausível para ela. “Gás da dor!”, bradou Zé do Caixão, e todos se contorceram em cólicas fictícias. Vieram ainda os gases da coceira, do pânico, do sono e da embriaguez – reações que todo bom detetive tem de saber simular. Com admirável desenvoltura, os futuros investigadores se esfregaram, berraram de horror, dormiram no ombro dos colegas e bambearam pernas e braços.

Com o gás das palmas, pouco depois do meio-dia, Zé do Caixão deu a aula por encerrada. Ainda respondeu a perguntas e tirou fotos com a turma, antes de sair pelos calçadões do Centro sem dar mais espaço para conversa. Algumas quadras adiante, acendeu um cigarro e tratou de procurar um bar onde pudesse espairecer. Sentou-se numa mesa enferrujada ao lado de três sujeitos de chapéu que saboreavam uma costela assada. Pediu um drinque de vodca com limão e refletiu sobre a aula. “Eles saem realizados, contam para todo mundo que estiveram com o Zé do Caixão, que fizeram aquelas doideiras todas”, disse.

Mas Mojica não nutre falsas ilusões sobre a utilidade de seus ensinamentos. Está ciente de que atua como um garoto-propaganda do curso. A estratégia vem surtindo efeito. A aula que ministra a cada dois meses é das mais concorridas. Por outro lado, já houve casos de gente que desistiu da carreira de detetive após as lições de Mojica. Um aluno evangélico, diante das gasosas lições do cineasta, teve certeza de que aquilo era coisa do demônio. Realmente.

Tomás Chiaverini

Tomás Chiaverini é jornalista, autor do romance Avesso, publicado pela editora Global.

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