tipos brasileiros

O eco-chic

No dia em que misturei granola com quinoa, saí no terraço de minha cobertura e vi a face de Tupã

Renato Terra
ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2012

Dizem que, para se realizar, um homem deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Eu trato minhas árvores como filhos e tenho um blog. Aos 41 anos, me sinto vazado de luz. Meu nome é André Vieira Bragança Castello Branco. Mas fui rebatizado de Parmatma Deco numa sessão de bambuterapia. Namastê.

Trabalho numa ONG inspirada no Greenpeace, mas sem aquela atividade toda pelo mundo que consome muito carbono. Marquinhos, Zeca e eu preferimos bater ponto numa casa arborizada no Leblon onde debatemos novos paradigmas ambientais e bolamos maneiras criativas de empregar a palavra “sustentabilidade”. Dou um exemplo: reduzi meu chofer e meu copeiro a um só funcionário e publiquei um relatório sobre racionalização de recursos que foi muito bem recebido na festa de solstício de verão que dou todos os anos em minha casa de Trancoso.

Faço questão – e nisso, Marquinhos e Zeca são igualmente firmes – de não ir a qualquer vernissage, lançamento de filme ou degustação de vinhos sem deixar clara a minha posição crítica em relação a Belo Monte.

Sou proprietário de uma cadeia de SPAs que só emprega índios tremembés e tupinambá, de uma rede de lojas que comercializa apenas jet skis eco-friendly e de uma agência de adoção para crianças ugandesas que a Angelina Jolie não quis levar para os Estados Unidos. Estou sempre empreendendo. Não raro, financio a classe artística que faz trabalho sustentável. Em sinal de gratidão, recebi das mãos do Vik Muniz uma estátua viva, feita de granola, com o meu rosto e a inscrição: I’m not a plastic bag.



Mexo pouco na minha rotina. Acordo cedo, por volta das onze e meia, e recebo, em domicílio, uma dose diária de suco de luz para o desjejum. Dia sim, dia não, vou ao Werner Coiffeur para hidratar meus dreadlocks. Na academia que frequento, a energia que gero quando corro na esteira é usada para manter aquecidos os croissants de queijo brie produzidos na fazenda do Marcos Palmeira. Quando faço spinning, só ouço o álbum Urubu, do Tom Jobim. Aquela canção do boto é muito forte e me deixa numa comoção danada. Depois da malhação, não dispenso uma borrifada do meu perfume Sortilège Naturel, à base de soja. A partir das quatro da tarde, minhas causas me consomem.

Vou de um lado para o outro na minha bicicleta elétrica desenvolvida pela BMW, que transforma energia eólica em milhas aéreas. Certa vez, comi e dormi em cima dela durante quatro dias para conseguir um upgrade na passagem de ida à COP-17, na África do Sul.

Trago sempre no peito uma camisa estampada com os rostos de Marina Silva, Bob Marley, Chico Mendes, James Cameron, Sting, Carlos Minc e outras personalidades que admiro. Semana passada, aproveitei uma promoção na Diesel e comprei cinco camisetas regata com um desenho estilizado do cacique Raoni.

A partir das nove da noite, só tomo uísque Green Label, envelhecido em barris de quinoa. Gosto de bebê-lo com pedras de gelo feitas com água de coco-anão.

Conheci Maria Flor durante uma sessão de harmonização de chacras com cromoterapia e reiki. Fiquei fascinado pela aura dela e a convidei para um café lá em casa. Quando abri o gabinete de peroba de reflorestamento e lhe mostrei minha coleção de grãos recolhidos do trato intestinal de calopsitas belgas criadas em cativeiro, ela se derreteu feito Becel. Contei que todos os móveis da minha casa eram produzidos com garrafas recicladas de Veuve Clicquot. Sou um sedutor, reconheço.

Quando comecei a discorrer sobre o papel do Naad Yoga na tradição dos Kundalini Shakti, ela me tascou um beijo. Casamos numa cachoeira em Lumiar e passamos a lua de mel num acampamento autossustentável do MST. Estamos juntos até hoje. Para o casamento fluir de maneira orgânica, moramos em casas separadas.

Mantenho a postura contemporânea de sair com os amigos para a balada do fim de semana. Maria Flor entende que estamos todos conectados por uma emanação cósmica oriunda de Gaia, na qual ninguém pertence a ninguém. Minhas técnicas de flerte são mais certeiras do que o bote de uma surucucu-pico-de-jaca, que aliás, ao contrário de mim, é uma espécie ameaçada. Quando alguma jovem me pede o telefone, saco meu cartão corporativo, feito de semente de girassol, que pode ser plantado ou ingerido com requeijão artesanal. Tenho uma fundação em Roraima que planta uma árvore cada vez que levo uma mulher para a cama.

Adoro me embrenhar no meio do mato nos fins de semana e feriados. Comprei uma oca no Xingu, financiada pela Caixa, e quebrei as paredes para integrar a cozinha à sala, num look indian loft que deve sair na Casa Claudia. Sempre que posso vou para lá. Minha picape 4×4 híbrida off road sobe em barranco que nem lagartixa. O cacique se amarra.

Ensinei costumes do homem branco ao pessoal da tribo, como o Half Day Pés, Pernas & Crânio. Começamos com aplicação da argila de chocolate branco, seguimos com esfoliação à base de flocos de milho e óleo de coco, daí passamos para a reflexologia podal e terminamos o dia com uma massagem relaxante no meu ego.

Há sete anos, desde que nasceram Ceci e Iracema, completei-me. Hoje tenho a convicção de que empenhei todos os meus esforços para deixar um legado às próximas gerações. Na convivência com elas, passei a compreender, de maneira profunda, o que é o amor, a tolerância e a amizade. Ambas são da raça labrador e deram cria recentemente. Ceci teve quatro filhotes e Iracema, nove.

Quando estou triste, o que é raro, me socorro nos florais de Bach e no infinito arsenal da homeopatia. Se Marquinhos e Zeca dão um espirro, chego logo com uma receita de manipulação. Com apenas 38 pílulas por dia, eles podem ter certeza de não passar mais de uma semana acamados. Eu prefiro Resfenol e azitromicina, que de fato curam, mas faço questão de reciclar o papel das bulas e a cartolina das caixinhas.

Que a energia dos riachos ilumine o seu caminho.

Renato Terra

Renato Terra foi repórter de piauí e era ghost-writer do Diário da Dilma e responsável pelo piauí Herald até 2016

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